Olá, você quer ouvir uma história triste e trágica? Pois bem, é a história da minha vida…

Meu nome é Anna Marcheline, tenho quase trinta e cinco anos de idade e moro em Paris, França, desde que nasci.

Não tenho certeza do porquê de eu estar escrevendo isso, mas tenho certeza de que vou conseguir descarregar esse peso das minhas costas.

Aos vinte e um anos, fiz a maior besteira da minha vida.

Mas antes de contar, antes de me considerarem inocente, pensem: se isso fosse com alguém da família de vocês?

Reflita quando terminar de ler.

Eu sempre tive vontade de tirar a minha mãe da pobreza, de tirá-la daquela casa podre e decadente em que passei minha infância. Meu pai abandonou a minha mãe quando eu tinha três anos e desde aquele dia, até eu sair de casa, minha mãe se matou de trabalhar todos os dias para me dar uma infância e adolescência dignas de mim. Pelas palavras dela.

Pois bem, quando eu tinha dezoito anos, eu arrumei um emprego numa empresa de cosméticos, uma das maiores do mundo, no qual o presidente era um homem de uns sessenta anos, que tinha uma filha de vinte anos, seu nome era Vivienne Marcheline. Eu era secretária dele.

Ele morreu quando ela fez vinte e três anos, e eu vinte e um, assumindo assim a presidência da empresa, e passando a ser a minha chefa.

Vivienne era lésbica e vivia dando em cima de mim. Eu sou hétero.

No início, não queria nada com ela, mas depois de algumas semanas percebi que se me envolvesse com ela, poderia finalmente dar a vida que a minha mãe realmente merece.

No começo do namoro, Vivienne deu um apartamento enorme para mim. No bairro mais rico da cidade, no mais luxuoso prédio do bairro, e no melhor apartamento do prédio, na cobertura. Assim, eu e minha mãe ficamos morando naquele apartamento.

Depois de algumas semanas, ela perguntou se eu gostaria de morar com ela. Assim minha mãe poderia ficar morando sozinha no apartamento. Respondi que sim.

Sinceramente.

Eu gostava muito dela, como uma amiga.

Mas eu sentia um nojo repugnante de beijar e ir para a cama com uma mulher. Ela me deu tudo que pôde. Tanto sentimental quanto material.

Depois de cinco meses, eu comecei a traí-la com um homem. Apenas para conseguir suportar beijar uma mulher.

Porém, Vivienne descobriu. Tivemos uma briga enorme e pesada quando eu cheguei à mansão em que morávamos.

No meio dessa briga, ela esfregou na minha cara tudo o que me deu e fez de bom para mim. Eu acabei contando que, apesar de gostar dela, eu sentia nojo dos beijos e do corpo dela. E saí do apartamento. Mas assim que eu fechei a porta, pude ouvir ela chorando aos prantos.

Não sei se ela entendeu desse jeito, mas eu não a achava feia. Ela era lindíssima, parecia uma top-model.

Eu saí de casa. Minha mãe saiu do apartamento em que morava e voltou a morar na sua antiga casa, e eu, na minha.

Demiti-me de meu emprego e arrumei outro, em outro lugar.

Uma semana depois, eu levantei-me da cama fui à cozinha e liguei a TV de lá.

Quase caí para trás quando ouvi o seguinte: “A multimilionária Vivienne Marcheline, presidente da Cosméticos Marcheline, suicidou-se hoje de manhã. Calcula-se que foi entre sete e oito da manhã. Familiares de Marcheline, a viram caída no chão da cozinha, tinham ido visitá-la, pois aparentemente Marcheline estava extremamente deprimida. Ao lado de seu corpo, foi encontrada uma caixa contendo pílulas de cianureto. Marcheline vendeu sua empresa a três dias. Em seu testamento, ela diz que deixará toda a sua fortuna, estimada em novecentos milhões de euros, e todos os seus bens, para uma amiga, chamada Anna, de sobrenome, também, Marcheline. Anna Marcheline.”

Desliguei a TV. Sentei no chão frio da cozinha e abracei os meus joelhos, colocando minha cabeça entre eles, comecei a chorar baixinho.

O advogado de Vivienne foi até a minha casa neste mesmo dia. Concordava com tudo que ele dizia mecanicamente. No fim, assinei um contrato, que dizia que eu aceitei o dinheiro e todo o seu patrimônio.

Isso já faz catorze anos. E desde aquele dia, eu não toquei em um centavo da fortuna de Vivienne.

Assim como desde aquele dia, eu tenho vontade de me matar.

Sei que, mesmo desabafando aqui, vou carregar esse peso pro resto da vida, por minha culpa, a pessoa que realmente me amava morreu.


Acho que sou culpada sim e mereço morrer e arder no inferno para o resto da eternidade. Mas mesmo assim, sei que nunca vou poder pagar o mal que fiz a Vivienne.


Eu gostaria de poder me desculpar com Vivienne.

Gostaria muito.

Talvez eu possa.

Eu estou na mansão em que morávamos.

Na varanda, eu acabei de amarrar uma corda no teto. Agora eu amarro a outra ponta no meu pescoço.

E então, eu pulo da cadeira em que estava em pé.

Instantaneamente, sinto a corda me estrangular, e arrancar a minha espinha dorsal do resto do corpo.

A morte me rodeia.

Meus olhos mergulham na escuridão profunda.

E finalmente eu posso me desculpar com quem me amava.

Vivienne Marcheline.

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