Marcas de Guerra (Espólios de Guerra 1)
15 Acusações
Notas iniciais
30 de julho de 1998
Harry já tinha estado em muitos julgamentos nas últimas semanas, a maior parte deles como testemunha de acusação, então nada no procedimento daquele dia deveria parecer diferente para ele. Ainda assim, quando ele entrou no salão do julgamento, sentiu algo se afundar em seu estômago.
Não saberia dizer o que estava o fazendo se sentir assim, mas havia algo de muito desconfortável em ver Draco ser trazido para a cadeira do réu, e preso lá. Não pôde deixar de se lembrar dos seus quinze anos, quando passou pela mesma coisa por conjurar um patrono na frente de Duda. Naquela ocasião, era inocente e estava bem assustado por dentro. Não conseguia imaginar como Draco estaria se sentindo agora.
Para começar, estavam na maior sala de tribunal do décimo andar, o Tribunal Dez, onde Harry tinha visto vários julgamentos sérios acontecerem na penseira de Dumbledore, em seu quinto ano. O lugar em si conseguia ser bastante ameaçador: o réu ficava muito embaixo em comparação às arquibancadas das pessoas, e juntando isso com como Draco parecia maltratado pela prisão, o fazia parecer uma formiguinha albina cercada de pés de pessoas desinteressadas na formiga em si.
Harry pensava que ver Draco em uma posição de tanta submissão fosse fazê-lo se sentir vingado, ou feliz. Mas não foi esse o sentimento. Estava, em verdade, exausto, e até um pouco desconfortável. Mal podia ver a hora daquilo acabar. O julgamento de Draco deveria ser simples, apesar das manobras da defesa dele para adiar o momento ao máximo possível. Ele não tinha feito tantas coisas. Era uma acusação simples. Não demoraria.
Ele estava virando alguns pergaminhos de anotações em seu colo quando percebeu Rony e Hermione chegando. Ficou feliz, embora um pouco solitário, em reparar nos dois chegando juntos.
— Pegaram uma aparatação conjunta? — Perguntou, lembrando-se de como tinha confiscado a varinha de Rony e talvez ele tivesse precisado da carona.
— Não, o encontrei na entrada no Átrio — Hermione respondeu, apertando a maleta contra o peito. — Rony veio sozinho.
— Monstro me trouxe — o ruivo explicou. — Ele também me pediu para lhe entregar isso.
Harry recebeu uma caixa de papelão de Rony, amarrada com alguns barbantes. Ele não ficou surpreso ao abrir e ver uma série de bolinhos lá dentro. Monstro tentava fazê-lo comer o tempo todo.
— Bem, vou guardar para depois. Não acho de bom tom comermos aqui.
— Não poderíamos de qualquer forma — Hermione respondeu. — Somos todos testemunhas, não podemos sentar juntos. Bem, vamos torcer para que dê tudo certo hoje. Por favor, não estraguem tudo. Muita coisa depende do andamento do julgamento dele.
Harry franziu a testa. A forma como Hermione tinha dito aquilo indicava haver algum tipo de particularidade no julgamento. Algo que ele não estava a par.
— O que quer dizer? — Ele perguntou.
— É o Draco na cadeira lá embaixo. Todo mundo sabe como odiamos ele. Qualquer cheiro de parcialidade nos nossos testemunhos pode anular qualquer coisa que tenhamos a dizer!
Oh, raios. Ela tinha razão. Hermione se despediu com um aceno rápido e saiu em direção à outra cadeira de testemunha, mais à direita. Rony também se despediu, mas Harry não soube ler a expressão dele, e isso era no mínimo preocupante. Ainda receava no amigo decidindo mandar tudo para o espaço e começar a xingar Draco e a família dele no púlpito, e isso não ajudaria em absolutamente nada.
— Não estrague as coisas, Rony, por favor…
Não teve muito mais tempo para pensar nisso. Kingsley chegou no auditório, seguido por Percy, e era hora do julgamento começar.
Depois de alguns minutos de preparativos, Kingsley pigarreou e usou um feitiço para aumentar a voz. Ele tinha a voz forte e alta, mas o tribunal onde estavam era mesmo muito grande, e era necessário garantir que todos ouvissem suas palavras.
— Boa tarde a todos. Declaro aberta a sessão de julgamento do réu Draco Lúcio Malfoy, residente na registrada Mansão Malfoy, em Wiltshire, nascido em cinco de junho de 1980. Testemunhas de acusação: Ginevra Molly Weasley, Neville Frank Longbottom, Luna Pandora Lovegood, Hermione Jane Granger, Ronald Abílio Weasley e Harry Tiago Potter. Testemunhas de defesa: Blásio Guilherme Zabini, Pansy Rosa Parkinson, Gregório Ricardo Goyle, Narcisa Rosier Black Malfoy e Lúcio Abraxas Malfoy. O réu é acusado de afiliação ao grupo criminoso conhecido como “Comensais da Morte”, participação nos planos de ataque à Instituição do Ministério da Magia, e atentado à vida de Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore. Como o réu se declara ante as acusações?
Harry olhou para Draco, lá embaixo, e o viu levantar o rosto para Kingsley. As testemunhas tinham sido escolhidas majoritariamente entre os alunos a terem convivido com Draco no ano anterior, presumindo serem mais conhecedores da vida do garoto que, por exemplo, os professores, ou até outros comensais, considerando como ele tinha atuado em Hogwarts e era mais distante de outros comensais em geral.
Draco olhou para cima, mas Harry não conseguiu ler a expressão dele; estava muito alto nas arquibancadas. Ele conseguia, porém, ver como o bruxo parecia ter perdido ainda mais peso em comparação com a última vez na qual o vira em Hogwarts. E isso era dizer algo. Se continuasse assim, Malfoy acabaria desaparecendo. Não que fosse uma grande perda para a humanidade, de qualquer forma.
— Culpado, pela afiliação aos Comensais — ele respondeu. — Inocente para as demais.
Harry conteve por muito pouco uma risada de escárnio. A cara lavada, honestamente. Tinha certeza do outro só estar assumindo a culpa pela afiliação por ter a marca pintada no braço, do contrário seria capaz de jurar inocência pelo conjunto todo.
— Daremos então prosseguimento ao julgamento. Chamo ao púlpito Ginevra Molly Weasley…
E começaram os depoimentos de acusação. O papel de Gina, Luna e Neville como líderes da Armada de Dumbledore no sétimo ano, e como quem tinham movimentado uma resistência dentro da escola, seria depor sobre os feitos de Draco em Hogwarts no último ano. Infelizmente, Harry não demorou para perceber um problema no depoimento deles, um que de certo seria explorado pela defesa: nenhum dos três tinha convívio direto com Draco por muito tempo. Eles tinham histórias e mais histórias sobre as ações dos comensais na escola, sobre as atitudes de Aleto, Amico e até Snape, mas nenhum dos três conseguia falar sobre as ações de Draco em si. Malfoy tinha se mantido discreto durante o ano na escola, obedecendo às ordens dos comensais, mas isso também não poderia ser usado contra ele. Vários alunos tinham obedecido às ordens dos comensais na escola por medo.
Combater os alunos, usar maldições, denunciar nascidos-trouxas… Tudo dançava na tênue linha da obrigação e status quo assumida por Hogwarts. Tudo poderia ser dispensado com facilidade pela defesa, apenas usando o argumento de Draco estar tentando sobreviver na escola, e pior, sendo comensal, podia até argumentar ter olhos ainda mais atentos sobre si.
Harry soube quando Neville acabou de falar como os depoimentos dele e de Gina seriam praticamente invalidados. Luna, quem tinha algumas coisas para acrescentar sobre seu tempo presa na casa Malfoy, também não teve muito para somar Malfoy não tinha interagido com ela na casa, deixando todas as denúncias dela direcionadas a Bellatriz e outros comensais, já mortos ou presos.
Com isso, quando Hermione foi chamada ao púlpito, Harry sentiu que o julgamento de verdade começava ali.
— Por favor, diga seu nome para a audiência — Kingsley pediu.
— Hermione Jean Granger.
— Senhorita Granger, jura dizer a verdade, acima de qualquer coisa, dispensando a necessidade de meios mágicos para tal e se apoiando em sua honra para a veracidade de seu depoimento?
— Sim.
— Obrigado, senhorita Granger. A acusação pode começar as perguntas.
Mafalda Hopkirk estava representando a acusação. Vinha sendo um papel comum para ela nos últimos tempos, e Harry achava o trabalho dela muito bom. Receava, porém, não haver material o suficiente com o qual ela pudesse trabalhar.
As perguntas para Hermione foram diferentes. É claro, Harry pensou, Mafalda usaria o status de sangue trouxa de Hermione para expor o quanto Draco era preconceituoso. Julgamento de caráter era importante ali, e Mafalda aproveitou isso ao máximo. Repetidamente, Hermione mencionou as várias vezes nas quais tinha sido atacada por Draco, com atenção delicada ao episódio no segundo ano, a primeira em que tinha sido chamada de “sangue-ruim”.
Essa seria difícil para a defesa se livrar. O advogado de Draco, ao fazer as perguntas, tentou muito provar como era tudo resultado de uma péssima criação, ele ainda tinha doze anos naquela época, era uma criança, etcetera, etcetera, mas Draco perpetuava estes estereótipos até hoje. Seria difícil vencer aquilo. Talvez a acusação ainda tivesse uma boa chance.
Hermione encerrou seu depoimento com o ocorrido na Sala Precisa, no qual Draco, Crabbe e Goyle tinham tentado matá-los e tudo terminou com a morte de Crabbe. Harry viu Draco apertar os braços da cadeira naquele momento. Teria arriscado tempos atrás dizer como Draco era um bom ator, mas agora o conhecia um pouquinho melhor. Tinha o visto chorar em cima do corpo do amigo. Harry tinha perdido amigos também. Aquela, ao menos, era uma dor que ele conseguia entender.
Rony foi o próximo. Harry trocou um olhar com Hermione ao ver voltá-la para seu assento. Ela parecia tranquila. O garoto se perguntou se os dois teriam conversado mais uma vez antes de chegarem ao tribunal, e se tivessem e isso servisse para garantir a imparcialidade da coisa, estaria de todo agradecido.
Deveria ter imaginado, no instante no qual Rony abriu a boca para responder a primeira pergunta, contudo, que as coisas não seriam tão fáceis assim.
Ele não mentiu. Isso por si só já era um milagre, Harry pensou. Mas qualquer um poderia ver o quão tendencioso o depoimento dele era. Todas as respostas vinham passivo-agressivas, com algum insulto ou provocação. Harry não sabia o quão claro isso ficou para os outros, mas ele, quem conhecia as histórias, percebeu o quanto Rony estava manipulando os fatos. Destacando as coisas ruins. Economizando palavras em qualquer coisa capaz de exonerar o Draco. O testemunho dele estava por um fio de ser invalidado.
Quando Rony terminou de falar, houve silêncio na corte. Harry abaixou a cabeça sobre as mãos. Isso era péssimo. Nunca, em sua vida, teria imaginado ser incapaz de condenar Draco Malfoy por alguma coisa por falta de provas. Rony e Hermione eram os únicos capazes de acusá-lo por completo uma vez que, sabia, seu próprio depoimento seria mais de ajuda para a defesa. Mas Rony fora relativamente parcial e manipulador, e isso deixava apenas as palavras de Hermione como úteis de verdade até então.
Harry suspirou. Kingsley sussurrava com Percy, e o garoto sabia estarem deliberando a validade do depoimento. Em alguns instantes, Kingsley ativou o feitiço mais uma vez.
— Depoimento encerrado. Obrigado, senhor Weasley. Chamo agora Harry Tiago Potter ao púlpito.
Céus, ao menos uma boa notícia. Harry se levantou, sentindo um comichão nas pernas e uma leve tontura na cabeça. Sempre ficava assim quando precisava depor, como se receasse deslizar, dizer algo incriminador sobre si mesmo ou um amigo seu. Era irracional, sabia. Nada ia acontecer consigo. Era praticamente intocável agora. Mesmo assim, sempre era uma experiência única se sentar no púlpito.
— Diga seu nome para a audiência, por favor — Kingsley pediu.
— Harry Tiago Potter.
— Obrigado. Senhor Potter, jura dizer a verdade, acima de qualquer coisa, dispensando a necessidade de meios mágicos para tal e se apoiando em sua honra para a veracidade de seu depoimento?
— Sim.
— A acusação pode começar.
Nada daquilo era mais novidade para Harry, mas isso não deixava a situação menos estressante. Mafalda se aproximou, e já deveria ser a vigésima vez que os dois estavam naquela situação.
— Senhor Potter, como você e o senhor Malfoy se conheceram?
É. Seria mesmo um longo depoimento.
— Na Madame Malkin: Roupas e Tecidos para Todas Ocasiões. Ele estava terminando de experimentar as vestes dele quando cheguei para comprar as minhas. Não sei dizer se ele se lembra dessa ocasião. Nossa primeira interação de verdade, onde nos apresentamos formalmente, foi no trem, indo para meu primeiro ano.
— Nesses últimos sete anos, senhor Potter, como você descreveria sua relação com o senhor Malfoy?
— Hm… Tensa. Nosso primeiro encontro não foi dos melhores. Depois disso ficou claro como ele não gostava de Rony e Hermione, e como ele tinha opiniões… controversas, e a coisa só piorou. Estávamos sempre nos bicando por aí. Não chegamos às vias físicas muitas vezes, mas as provocações eram quase diárias.
— Pode elaborar por favor no que seriam as opiniões controversas?
Harry respirou fundo, tentando não olhar para Draco lá embaixo. Procurou um ponto qualquer na parede oposta para se concentrar. Era melhor.
— Preconceito com nascidos trouxas, principalmente. Mas em outras questões também aparecia, como nas opiniões sobre alguns professores ou regras da escola. Quase todas variações da repulsa dele a nascidos trouxas e ao que chamam de “traidores do sangue”, os bruxos de sangue puro que apoiam os trouxas entrarem no mundo da magia.
— E, qual seria sua impressão sobre as atividades do senhor Malfoy na escola? Diria que ele tinha tendência a realizar feitos de magia das trevas?
Harry abriu a boca para responder, mas o advogado de Draco, parado ao lado dele, levantou a varinha, disparando fagulhas vermelhas para cima.
— Protesto — ele anunciou. — A promotora está induzindo a testemunha, de forma opinativa.
— Aceito — Kingsley respondeu, para sincero alívio de Harry, que não queria precisar dar opiniões naquele julgamento. — A pergunta será recusada. Reformule, senhora Hopkirk.
— Perfeitamente — ela prosseguiu. — Em alguma ocasião, senhor Potter, você testemunhou o senhor Malfoy praticando atos que iriam contra as leis do Estado Bruxo?
Essa era uma pergunta que ele poderia responder. Tinha sim sido testemunha de várias coisas. Os julgamentos não estavam aceitando nada visto por Harry na mente de Voldemort como prova, por não ter como atestar pela presença dele no local. Um testemunho desses seria impossível de se invalidar pela defesa. Mas, mesmo sem as visões, Harry tinha sim visto bastante coisa.
— Sim. Eu vi o dia no qual Draco recebeu a Marca Negra. Embora não tenha acompanhado todo o processo por ter um ângulo de visão ruim, acompanhei o suficiente para levantar minhas suspeitas. Aconteceu no verão do nosso sexto ano. Depois disso, o segui muito pela escola durante o ano, e acompanhei várias de suas atividades e situações suspeitas. Draco seguiu Kátia Bell até o banheiro do Três Vassouras, e depois disso, ela saiu completamente fissurada em entregar um pacote a Dumbledore. Foi revelado depois que o pacote se tratava de um colar amaldiçoado. Kátia mal tocou o objeto e já poderia ter morrido. Em outra ocasião, uma garrafa de hidromel destinada a Dumbledore acabou sendo bebida por meu amigo Rony. Estava envenenada, e depois foi revelado ter sido envenenada por Draco. Rony quase morreu. Além disso, eu vi a Marca Negra em seu braço, em uma das torres de Hogwarts, na noite em que Dumbledore morreu.
— Obrigada. Sem mais perguntas, senhor Ministro.
E Harry não se surpreendeu com o questionário curto. Qualquer outra coisa que ele tivesse para dizer agora poderia ser usada a favor de Draco. Como seu depoimento seria percebido dependeria por completo do quanto o advogado de Draco soubesse, e do tipo de pergunta a ser feita para ele.
O advogado se levantou, caminhando até Harry, e Mafalda foi se sentar.
— Senhor Potter — o homem começou. — Tenho de relatos do meu cliente que o senhor o observou por todo o sexto ano, sob sua capa da invisibilidade. Você confirma essa informação?
— Sim.
Não teria como mentir. Tinha mesmo feito isso, e tinha sido uma pergunta muito direta.
— Eu gostaria de perguntar sobre um incidente específico. Em uma ocasião, após o retorno de Kátia Bell de seu tempo de recuperação, você teria seguido meu cliente até o banheiro masculino. Qual é o seu relato dos acontecimentos que tomaram parte depois disso?
Claro que o banheiro viria à tona. Tinha quase matado Draco lá. Um acidente? Sim. Mas aconteceu.
— Eu o encontrei no banheiro. Quando ele me percebeu lá, me atacou, e começamos a duelar.
Sim, tinha contornado alguns fatos. Mas a defesa estava perguntando sobre isso em específico, e ele sabia, tinha mais por vir.
— E o que meu cliente estava fazendo quando o encontrou, senhor Potter?
Raios. Deveria ter imaginado.
— Chorando. Ele estava com medo. O ouvi sussurrar algo na linha de “se eu não fizer isso, ele vai me matar”.
— E o quê, você diria, são “isso” e “ele”, nessa situação?
Pela segunda vez, fagulhas vermelhas voaram ao teto antes de Harry responder.
— Protesto, senhor Ministro. Está pedindo um direcionamento opinativo da testemunha.
Dessa vez, Kingsley nem pensou para responder, e mesmo Harry soube ser um protesto infundado. Nesse contexto, a interpretação da situação era sim muito importante.
— Negado. A testemunha pode responder.
— Pelo contexto, eu diria que “isso” é matar Dumbledore, tarefa dada a ele por Lorde Voldemort. E “ele” seria o bruxo Voldemort em si.
— Senhor Potter — o advogado prosseguiu. — Você mencionou estar presente na torre no momento da morte do senhor Dumbledore. O que você presenciou, naquela noite?
É claro que chegariam a isso. Harry abaixou a cabeça um pouco, e acabou sem querer pousando os olhos sobre Draco. O loiro não estava olhando para ele. Estava concentrado nas próprias unhas, ou ao menos fingindo concentração.
— Aparatei de volta na torre com Dumbledore. Ele estava bastante debilitado. Me disse para vestir a capa e me esconder. A essa altura, Draco já tinha aberto o Armário Sumidouro, e…
— Uma pausa, senhor Potter, para contexto. Armário Sumidouro sendo o armário na Sala Precisa que criava um portal com outro armário no Beco Diagonal?
— Sim. Ele consertou o armário durante o ano, e isso deixou a passagem aberta para os outros comensais entrarem no castelo. Enquanto eu me escondi com a capa, Draco chegou até a torre e desarmou Dumbledore. Houve uma troca de palavras, e então os comensais chegaram e Snape matou Dumbledore.
Harry já sabia qual seria a próxima pergunta.
— O que ocorreu, senhor Potter, nessa troca de palavras entre o meu cliente e o senhor Dumbledore?
— Draco o ameaçou. Se vangloriou de tê-lo desarmado. Ele contou muita vantagem, falou demais, exibiu o plano dele. Colocou todo seu ego para fora. Dumbledore já sabia de tudo, porém, e foi quase uma conversa sobre como o plano dele se desenrolou. Draco tinha usado uma Imperius em Rosmerta para fazê-la entregar o colar amaldiçoado e o hidromel envenenado a seus destinos. E depois foi ela quem disse que Dumbledore tinha deixado a escola. Draco se exibiu bastante, mas eventualmente Dumbledore o confrontou sobre estarem parados lá há minutos, ele desarmado, Draco com a varinha apontada para ele, e nada mais acontecer. Draco… — Harry engoliu em seco. — Declarou, em voz alta, repetidas vezes, que se não terminasse a missão, Voldemort mataria a ele e toda sua família. E depois Dumbledore ofereceu ajuda, disse que não era tarde para ele, e que podia esconder a ele e sua família em algum lugar seguro. Imagino que Draco teria aceitado, ele chegou a afrouxar o aperto da varinha quando outros comensais chegaram na torre. E foi quando Snape matou Dumbledore.
Outra fala para prejudicar a promotoria.
— Senhor Potter — o advogado prosseguiu. — É de minha consciência que você visualizou vários dos eventos entre Voldemort e seus aliados através de sua ligação com…
Ele nem terminou de falar. Fagulhas vermelhas voaram da varinha de Mafalda.
— Protesto, senhor Ministro. Depoimentos baseados nas visões do senhor Potter são especulação.
— Aceito, senhora Hopkirk. Troque a pergunta, senhor Hindemburg.
O advogado concordou com a cabeça, e Harry se perguntou se ele reformularia a pergunta ou só seguiria em frente. Harry sabia, ainda havia mais um evento para ser usado pela defesa.
— Senhor Potter, em outra ocasião, você e seus amigos Ronald e Hermione foram sabidamente levados como reféns para a casa do meu cliente. O que aconteceu nesta noite, quando você e meu cliente foram confrontados?
Harry já estava cansado. Sentia-se como um inimigo de seus próprios interesses, tendo tanto material para ser explorado pela defesa.
— Eu estava com o rosto transfigurado. O chamaram para se certificar se era eu mesmo ali ou não.
— E qual foi a resposta do meu cliente?
— Ele disse não saber.
— E ele sabia?
Harry não queria responder essa. Esperou um protesto, mas Mafalda parecia achar a pergunta válida.
— Acredito que sim.
— Como podem ver — o advogado prosseguiu, agora se virando para a audiência — a relatos da própria testemunha, meu cliente foi, em seus dezesseis anos, ameaçado de morte pelo próprio Lorde das Trevas para completar uma tarefa que ele mesmo se julgava incapaz de cumprir. Peço para que pensem em seus dezesseis anos, nas decisões que tomaram, no que fariam para proteger a si mesmos e a sua família da morte. Obrigado, senhor Ministro. Sem mais perguntas.
E antes mesmo de ser dispensado do pódio, Harry já sabia que perderiam aquele julgamento.
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