Marcas da Melodia
11 Começar de Novo
Amar pode doer
Amar pode doer às vezes
Mas é a única coisa que eu sei
Quando fica difícil
Você sabe que pode ficar difícil às vezes
É a única coisa que nos mantém vivos
Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre
Então você pode me guardar no bolso
Do seu jeans rasgado
Me abraçando apertado até nossos olhos se encontrarem
Você nunca estará sozinha
Espere por minha volta para casa
Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que ficará mais fácil
Lembre-se disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos conosco quando morremos
Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre
Então você pode me guardar no bolso
Do seu jeans rasgado
Me abraçando perto até nossos olhos se encontrarem
Você nunca estará sozinha
E se você me machucar, tudo bem, querida
Apenas as palavras sangram
Dentro destas páginas, apenas me abrace
E eu nunca te deixarei ir
Espere por minha volta para casa
E você poderia me colocar
Dentro deste colar que você usou
Quando tinha 16 anos
Perto do seu coração onde deveria estar
Mantenha isso no fundo de sua alma
(...)
Quando eu estiver longe
Me lembrarei de como você me beijava
Embaixo do poste de luz da 6ª rua
Ouvindo você sussurrar pelo telefone
Espere por minha volta para casa
(Photograph – Ed Sheeran)
Este diário contém tudo de mais maravilhoso que já passei com Cal. Cada momento, dos mais simples, até as realizações. Estas páginas não matam a saudade. Mas saber que elas guardam as coisas mais belas e singelas que vivemos me conforta.
As fotos que tirou são lindas, as frases me fazem chorar e também os vídeos dele me ensinando como fotografar profissionalmente.
“Obrigada por ainda deixar um pedacinho de você aqui comigo. Seja forte, querido.”
Hoje li mais uma página. A frase usada é "porque se o mundo inteiro estivesse a ver, eu ainda dançaria com você”. Embaixo estava uma foto de nós dois, Cal sorrindo enquanto beijo sua bochecha.
Naquele dia, ele tinha me levado para jantar. O restaurante era mágico, a luz era baixa para dar destaque a algumas pequenas árvores com luzes daquelas de Natal — mas não das coloridas — espalhadas pelo grande espaço. As cores do restaurante eram um vermelho vivo e marrom em alguns pontos.
Rimos, comemos, ouvimos uma boa música clássica e nos despedimos dos atendentes. Andamos em uma praça perto dali. Havia um pessoal animado dançando músicas alegres e calmas. Cal me convidou para dançar e aceitei. Como me diverti naquela noite! Nunca tinha sido tanto, sentindo tanta intensidade ao dançar com Cal.
Ele deixou declaradas suas sensações e emoções que teve a cada dia aqui relatado. E estas são as palavras dele.
“Mare,
Ter te conhecido foi a coisa mais bela que já aconteceu em minha vida. Essa emoção de estar com você, de ver seu sorriso ,sua beleza, de ouvir sua risada e sentir seu calor é ótima. Saber que estou apaixonado pela mulher mais linda do mundo e ter a certeza de que sou correspondido não tem preço.
Não sei expressar tudo isso. Mas, por favor, Mare, me prometa que não vai desistir de mim, não ame outro. Por favor, querida, eu vou voltar.”
Todos os dias, lia aquele diário, mas não me deixava empolgar muito para não acabar rápido. Todas aquelas páginas continham nossos preciosos momentos e a sensação maravilhosa de ver fotos nossas, de ver as frases que ele deixou para mim, era indescritível e eu não queria que acabasse antes dele voltar.
Todas as vezes que ia começar a ler, cheirava suas páginas. Era tão bom aquele cheiro. E a frase daquela página era: "Uma foto vale mais que mil palavras”. Na foto, eu estava com uma coroa de flores no cabelo e tinha um sorriso bonito. Ele estava atrás de mim me abraçando e também sorria.
Lembro que nesse dia fomos ao mercado fazer compras, olhei para Cal e ele riu da minha expressão.
— Que foi amor, está pensando no quê? — perguntou.
— Quero entrar no carrinho para você me empurrar.
Dei risada da minha própria ideia. Dava um pouco de vergonha, mas eu sempre quis fazer isso, e aquele parecia bom momento.
— Sério, Mare?
— Sim, quero muito.
— Vai então, senta no carrinho que eu te empurro.
O estacionamento era ao ar livre, estava vazio onde ele estacionou e o espaço era bem grande. Olhei para ele dando risada e ele me retribuiu com um sorriso sapeca.
— Se segura, senhorita Mare!
Eu só conseguia rir e gritar de felicidade. Era tão bom sentir o vento no rosto, abrir os braços e ter o carrinho no comando de Cal, que também ria. Ria tanto que estava vermelho.
O rapaz do estacionamento ficou meio bravo com a gente, mas isso só fez Cal correr mais comigo, ele adorava uma diversão misturada com adrenalina. Quando veio mais um segurança, falei para Cal parar, a gente já tinha se divertido bastante. Fomos até o carro rindo e continuamos quando saímos do mercado.
— Você tem umas ideias loucas, Mare.
— Eu sempre quis fazer isso
— Agora já fez — ele disse, colocando a mão em minha coxa.
— Sim, amor.
Dei um beijo em sua bochecha e sorri. Esse dia foi tão bom! Cal tinha o poder de fazer isto aos momentos simples como aquele: torná-los inesquecíveis. E era tão bom ler o que ele achou e sentiu nesse dia.
"Você fez todos os meus dias felizes. Faz meu coração bater forte quando chega perto de mim me beijando, abraçando, contando sobre seu dia... E me faz ter os melhores momentos com duas ideias loucas.
O destino foi o melhor comigo por ter colocado você na minha vida. Foi demais. Eu sou apaixonado por você, não canso de falar que te amo todos os dias. Se cuida e não esqueça jamais disso. Eu vou voltar para você, Mare. Acredita em mim."
— Acredito, Cal.
Beijei a folha. Hoje não me segurei e vi umas 15 páginas, eram fotos nossas abraçados, comendo porcarias, nós dois com nossos amigos ou ao lado de nossos pais, juntos na piscina, eu tomando sorvete, eu correndo atrás dele com umas crianças... Esse dia foi engraçado. Essas fotos sempre me lembravam que o melhor de mim era ele que descobria a cada dia.
Certa vez, eu estava pronta para ler mais uma página do diário, só que um pouco mais tarde que o normal. Antes estive com a cabeça em tantos lugares que achei que não seria o melhor momento para ler.
A chuva caía forte. O teto que eu observava deitada em minha cama parecia tão interessante quanto se tivesse o poder de responder todas as minhas perguntas e fechar todas as minhas feridas. A campainha tocou e, quando abri a porta quase desmaiei com a visão do uniforme azul naquele corpo alto e forte, as medalhas brilhando como estrelas.
O homem estava molhado pelo tempo raivoso daquela tarde, sua cabeça estava baixa. Minha voz não saía, meu corpo não se mexia, eu não piscava ou nem mesmo respirava. Será que minha saudade, dor e solidão tinham acabado?
Foi mais forte que eu quando levei minha mão ao queixo claro como a neve, dando impulso para levantar sua cabeça. Meu coração levou a pontada mais dolorosa que já senti, meu estômago parecia aberto com tanta força, o grito ficou preso no início da garganta, as lágrimas já me lavavam a pele. Não era ele, não era Cal. E sim o Comandante novo, apenas parecido com ele.
Agora era a hora de perceber que Cal estava naquele carro atrás do homem, para me fazer uma surpresa, e não alguém trazendo a notícia de que ele tinha me deixado, que estava em um lugar onde eu não poderia alcançá-lo.
— Senhora, se acalme, por favor.
Passei por ele olhando todos os locais daquele jardim, corri até o carro procurando em todos os lugares. Tudo vazio. Nenhum sinal dele. Olhei para o Comandante chorando, pedindo piedade, implorando para ele me mostrar que Cal estava ali.
— Tenho notícias do soldado Jones. A guerra acabou. Ele voltou, senhora.
Cal voltou.
Minhas pernas ficaram bambas, caí sentada no asfalto, o Comandante me levantou e segurei em seus ombros.
— Onde? Preciso vê-lo. Ele está aqui?
Eu estava desnorteada.
— Está no hospital, senhora.
— Mas… o que aconteceu com ele, me diga que ele está vivo, é só isso que preciso ouvir.
— Sim, ele está vivo. Levarei a senhora até ele.
Meu sonho se realizou, meu amor não me deixou.
“Você está vivo Cal, eu vou poder sentir você novamente. Ver você. Sentir seu beijo. Você vai voltar pra casa hoje mesmo, tenho certeza. ”
Pedi para o Comandante praticamente voar na estrada, não podia perder um segundo longe de Cal, tinha que vê-lo logo. Minha alma, meu corpo implorava por isso.
Quando paramos em frente daquele edifício grande, nem esperei o carro desligar, não olhei para os lados, não ouvia nada, apenas corria em direção às portas que me separavam de Cal. Apressada, entrei no hospital inteiramente molhada, respirando ofegante, o segurança me parou quando passei direto pela recepção
— Posso te ajudar, moça?
— Ela está comigo, vamos à recepção.
Não podia esperar mais, tentei soltar meu braço da mão do comandante, mas ele não deixou.
— Eu preciso ver Cal, comandante. Por favor.
— Se acalme, sim, ele não fugirá de você, só vamos perguntar o número do quarto.
Aquele tempo que ficamos ali pareceu horas. Quando vi o quarto 8, entrei em disparada e a visão que tive me assustou um pouco, meu coração parou por um momento. Cal estava com muitos aparelhos ligados a ele, seu rosto estava pálido e com cortes, estava magro demais para seu peso normal dele, seu cabelo não tinha mais aquele corte estiloso de sempre, estava bem certinho.
Minha mão formigava quando passava pelo seu rosto e eu sorria por poder ter a visão dele, mesmo que me assustasse, mas meus olhos podiam vê-lo novamente, meus lábios podiam tocar os dele e eu podia abraçá-lo, ainda que não do jeito que queria. Alguns minutos depois, a médica veio falar comigo.
— Olá, querida. Temos que ter uma conversa, te explicarei o que aconteceu com o seu marido.
Meu choro, meus soluços, minha falta de ar e minhas pernas bambas se juntaram todos ao mesmo tempo. A doutora me explicou o caso, Cal estava em coma em estado vegetativo.
Por que quando eu achava que ia parar de sofrer um pouco, mil e um problemas caíam sobre minhas costas?
Eu não esperava aquelas notícias, achei que ela apenas falaria: “Ele está desmaiado, tem um braço quebrado, vai ficar alguns dias no hospital, mas logo depois terá alta”.
Mas não, Cal estava em coma e eu não sabia se ele iria acordar dali a dias, meses ou talvez anos. Eu o amava muito, mas de uns tempos para cá a única coisa que eu estava fazendo era sofrer, e eu sabia que merecia uma trégua. O destino pareceu ser um aliado do nosso amor, mas agora ele parecia conspirar para a minha dor.
“Explique-me, Cal, o que vai ser de nós se você passar anos aqui?”
Mais tarde, no escuro do meu quarto, eu puxava os meus cabelos em frustração.
“O que adiantou a gente fazer tantos planos? ”
Nossos planos estavam em minha mente o tempo todo e eu agora tinha medo de não conseguir colocá-los em prática.
Ao menos, para me sentir perto dele, eu tinha o diário e todos os dias passei a depositar ali minhas dores. Ele se tornou um pedaço de Cal para mim.
***
4 de agosto de 2025
Amanhã, provavelmente será o pior dia da minha vida. Eles decidiram te tirar de mim e eu não pude fazer nada. Todos os sacrifícios que fiz agora parecem apenas tempo jogado fora. Eu não estou arrependida, faria tudo novamente. Só te peço que me perdoe, Cal. Depois de 15 anos, eu não tive mais fontes para renovar minhas forças.
Folheei lentamente o diário por alguns minutos, Nossa vida estava ali, cada momento registrado e eternizado, mas depois de tanto tempo, nem ele me dava mais forças e conseguia preencher meu vazio.
“Eu sabia que era você me guiando para o futuro. Agora eu consigo perceber que as pessoas ao meu redor não estavam erradas, o seu maior desejo seria me ver seguindo em frente com minha vida. ”
Meus passos nunca foram tão pesados, meu coração parecia derretido dentro de mim. Eu era a única pessoa que ainda visitava o hospital constantemente. Seu pai já havia partido e sua mãe não se lembrava mais de nada, nem mesmo de quem ela própria era. Talvez por esse motivo, também eu me sentia na obrigação de ser a pessoa que estaria ao seu lado.
Todas as vezes em que atravessava aquele corredor me sentia entrando em minhas lembranças, voltando ao dia em que soube que estava condenada a ficar ali por anos. O reflexo no vidro me deu um choque ao perceber que, de uma garota apaixonada, eu havia me transformado em uma mulher acabada. Meus pensamentos foram interrompidos pela visão que tive ao entrar no quarto.
Cal não estava lá. Minhas pernas ficaram bambas e tive que me apoiar na parede. Havia dois médicos manuseando aparelhos e eu tive vontade de voar no pescoço deles. Como tiveram coragem de fazer isso comigo? Eu precisava ter me despedido. Eu tinha esse direito.
— A senhora está bem? — disse um deles ao perceber meu estado.
— Vocês não me esperaram.
— Nós sentimos muito…
— Eu tinha o direito de me despedir dele… Quero ver o corpo do meu marido! — percebi que estava gritando.
— Me acompanhe, por favor…
Tirei forças de onde não tinha e me deixei levar para outra sala. Ele estava lá, apenas tinha trocado de quarto. Chorei de felicidade e de alívio. Minha mão deslizou pelo seu rosto. Ouvi sua voz fraca gemer.
— Mare? — Ele se esforçou para esboçar um leve sorriso.
Ele conseguiu. Eu consegui. E depois de 15 anos, tinha finalmente voltado para mim.
********
Escrito por Geovana Souza Silva.
Fale com o autor