Marcado Pela Noite

1 Capítulo 1 - A ligação


Olho para o relógio, sempre passando das três da manhã. Aquele professor sempre passa trabalhos difíceis para a mesma semana. Aquela entrega que fiz hoje pela manhã… O laboratório da universidade não perdeu tempo em distribuir os medicamentos de graça, uma alternativa para o povo da região. Não reclamo de ter levantado cedo para entregar a pílula excepcional contra dor muscular e dores de cabeça. O primeiro cliente foi um idoso da outra rua, o segundo, uma madame de cabelos brancos que morava a três quadras daqui, e o terceiro… Ah, aquele terceiro.

Não posso ficar perdendo tempo pensando nisso agora, já está tarde e tenho que terminar isso pra ontem. Sentado na minha escrivaninha a essa hora, no meu quarto, sem ninguém para me incomodar, somente eu e meus cadernos e… Meu celular! Ele me disse que ligaria.

Apanho o celular rapidamente, conferindo se não tinha acabado a bateria e eu perdido a ligação. Empurro meu estojo e coloco o celular ali, mais próximo de mim. Talvez eu estivesse um pouco desesperado por uma ligação, eu até posso ser comparado a um jovem esperando a ligação do lugar onde deixara seu currículo, em busca de emprego. Mas esse terceiro cliente… Lembro-me de ter chegado em sua casa, uma casa grande, bonita, com a entrada feito em pedras, e ao redor pura grama verde. Parecia alguém rico, um empresário maldito que estava pedindo remédios feitos pela universidade de graça. Ele poderia comprar caixas daquilo se quisesse. Porém… Ah esse porém! Suspiro, abrindo um leve sorriso, de boca fechada mesmo, uma cara de bobo. Meus olhos pareciam amendoados da forma que estavam pressionados pela minha bochecha. Sabe quando você acha que aquele negócio de se apaixonar apenas olhando para a pessoa é uma baita de uma mentira? Então, eu não diria que me apaixonei assim, porque não sou do tipo que se apaixona assim, sem mais nem menos. Quando a porta se abriu, eis que me surge um rapaz, que deveria ser uns 3 anos mais velho que eu, mal vestido, barba por fazer -e que barba!- e parecendo ser mais alto. Não é querendo comparar nem nada, mas minha barba é tão bonita quanto a dele, porém eu cuido mais.

Me levantei da cadeira da escrivaninha, apanhando meu celular e caminhando pelo quarto, mexendo no Whats App, à toa. Me estacionei em frente à janela do meu quarto, que dá para ver a rua da frente do apartamento certinho. Desviei o olhar do celular, observando agora a rua, parada, naquela madrugada. O vento fazia as folhas escorregarem dos galhos e caírem pela calçada, fazendo aqueles estalos. Agora que notei, a caçamba de lixo tinha algo a mais, uma coisa escura ao seu lado. Mesmo ela ficando meio longe, da pra ver algo de diferente nela, talvez um sofá velho que jogaram ali. Aquilo se mexeu, de leve, mas se mexeu. Algo iluminou ali, como dois olhos amarelos, cintilantes. Um gato em cima da almofada do sofá Velho talvez, ou um cachorro. Voltei a olhar meu celular, para ver as horas e… Já são quase 4 da manhã! Dei uma última olhada naquela caçamba e ela estava normal, sem sofá, nem gato, nem cachorro.

Me joguei na cama, ainda com o celular na mão, caso eu recebesse uma ligação de um certo alguém... O terceiro cliente. Ele me recebeu sem sorrisos, somente perguntando quem eu era. Mas antes mesmo de responder, ouvi uma voz vindo de dentro da casa:

—Amor, quem é?

Ela veio até a porta, ficando ao lado dele, me olhando. Era Lorraine, a guria que trabalha no mesmo laboratório que eu, e namorada do cara.

—Ah, Miguel! Nossa, não sabia que trabalhava com entregas assim... — Disse ela.

—Eu só estou entregando isso porque não arrumaram alguém ainda. O laboratório da farmácia precisava de alguém para entregar hoje. -Ergui a sacola com o medicamento, mostrando-o.

—Entendi. Meu namorado, Jhonatan, estava se sentindo bem mal, obrigada. — Disse isso já apanando o medicamento da minha mão.

Então, quando eu estava prestes a ir embora, com um sorriso meia boca estampado na cara...

—Espera! Tem como me trazer mais desses? Disse Jhonathan, com uma feição séria ainda.

—Tenho sim, eu só preciso ver se...

—Então me passa seu número, eu te ligo mais tarde.

Ele disse aquilo me olhando nos olhos, e algo de interessante tinha naquele olhar. Era como se ele visse o que eu estava sentindo, como se meu olho mudasse de cor conforme o que sinto, e ele soubesse exatamente o que cada cor dizia. Ele puxou o celular do bolso do shorts que vestia, esperando eu dizer meu número. Depois dele ter anotado, algo de inesperado aconteceu, um sorriso bem tímido e singelo apareceu no rosto de Jhonatan, com ele dizendo "Obrigado" e voltando para dentro de casa.

O maldito nem ligou. Apaguei a luz , me deitei e fechei os olhos, que se dane ele e aquele trabalho.

Já acordo nervoso com esse maldito despertador, levantar cedo não é a minha praia. Pego minha toalha e vou direto para a suíte tomar um banho. Me vejo no espelho do banheiro sem camisa, e olha… Nada mal. Não é aquelas coisas, mas dá para o gasto. Retiro o resto de minha roupa e entro na ducha. Sabe aquela sensação de ter alguém te observando enquanto toma banho? Ou de fechar os olhos para lavar o cabelo e morrer pelado? Então, era tipo uma sensação dessa, só que alguém estava me olhando, esperando a hora certa. Na verdade nem ligo, podem me olhar, o que é bonito é para ser visto. Mas era impossível alguém me observar no banho, já que moro em um apartamento. A não ser que a pessoa esteja no prédio ao lado me observando de algum jeito.

Acabando as paranoias, termino meu banho e me enxugo, amarrando a toalha na cintura e voltando para meu quarto. Apanho meu celular que estava em cima da cama, e logo vejo uma mensagem do meu amigo baterista:

“Mano, não vai ter aula por alguns dias, quebraram muita coisa da universidade. E não esquece que temos um show hoje à noite, eu já cuidei de espalhar pra todo mundo.”

Caramba, tinha me esquecido do show! Coloco uma calça jeans que usei ontem e pego uma camiseta no guarda-roupa, uma camiseta vermelha. Calço meu tênis preto de cano alto, que tinha comprado pela internet e vou para a cozinha. Abro a geladeira e apanho o suco de laranja que havia comprado na noite anterior, colocando um pouco num copo e bebericando aos poucos. Não sou de comer de manhã.

Logo, terminando meu suco, deixo o copo na pia e desço as escadas, de cabelo molhado mesmo, ficarei com uma franja horrível hoje, mas não tenho tempo para arrumar meu topete. Aqueles ratos diabéticos de laboratório precisam tomar duas injeções diárias. Consegui um estágio remunerado no laboratório de um professor meu, onde cuido desses ratos todos os dias.

Descendo as escadas, cumprimento Lourdes, a faxineira do prédio e abro o portão.

O tempo está fresco, bom para caminhar um pouco até o laboratório, que fica a uns duzentos metros do apartamento. Durante a caminhada, vejo os alunos que estudam de manhã passando, e passo pela caçamba de lixo. Paro e a observo. Não havia nada demais ali, mas até que se olhar direito… Me abaixando, vejo que tem algumas marcas mais embaixo, como se fossem um arranhado. Aquilo era interessante, talvez tivesse mesmo um sofá velho com um gato em cima.

Chegando ao laboratório, vejo meu professor observando algumas folhas dos relatórios do dia, com uma cara nada satisfatória. Lorraine se levanta da cadeira, aproximando-se antes de eu ir falar com o professor.

—Tem três ratos desaparecidos hoje.

—E essa semana, já sumiram doze, com mais esses três… Eu acho que eles estão escapando.

O professor se virou para mim, caminhando lentamente, com seu sapato preto social e seu jaleco um pouco sujo de sangue da perfusão de ratos.

—Não dá pra continuar assim, nossa licença permite um número limitado de ratos para testes por mês. — Dizia ele, deixando os papéis na bancada e pegando uma chave no bolso.

—Professor, não tem outra explicação para os ratos sumirem assim, além de estarem escapando por algum lugar. — Eu tinha certeza de que estavam escorregando por alguma fresta.

Ele fez um sinal para que eu fosse até perto dele, para me dizer algo.

—Miguel, você vai se apresentar que horas mesmo? — O professor dizia, abrindo uma porta que continha as caixas com os ratos dentro, empilhadas em bancadas.

—Duas da manhã, por que?

—Tem como você vir aqui a noite, e ficar olhando se os ratos estão escalando? Não têm sinal de arrombamento nem nada. Você fica até meia noite e depois vai fazer seu show, e está liberado agora.

—Então está bem, acho que consigo conciliar as duas coisas.

—Pegue aquela chave e leve com você, deixarei avisado ao guarda que vai ter um aluno por aqui.

—Ok, eu venho aqui quando escurecer.

Ele só fez um sinal de confirmação com a cabeça. Peguei a chave, guardei-a no bolso e fui saindo do laboratório. Lorraine me olhou um pouco confusa, mas se sentou no computador e continuou digitando os dados dos experimentos.

Estou com sono, fiquei até tarde fazendo aquele trabalho para nada, não irá ter aula. Decido voltar para casa e dormir um pouco, afinal hoje a madrugada promete.

Chegando no apartamento, subo as gloriosas escadas, até chegar em meu apartamento. Eu realmente não estou com fome, deve ser por conta do nervosismo. Já me jogo na cama, retirando a roupa e ficando apenas de cueca. Por conta da falta de tecido, algo sobe lentamente, criando um fogo comum pela manhã. Retiro a cueca, ficando totalmente nu. Levo minha destra até ele, alisando de cima a baixo, sentindo uma sensação muito boa, algo que chamam de “tesão”. Já no ápice, seguro firme e começo o movimento frenético, fechando os olhos e imaginando diversas besteiras que os jovens imaginam nessa hora. Porém, chegando quase lá, sinto algo estranho, pontudo, varias coisas pontudas raspando pela minha cintura, logo indo na barriga, e estacionando em minhas coxas. Retiro minha destra, deixando ele livre, e algo o consome, algo quente e apertado o envolve, fazendo eu expulsar tudo, me segurando no lençol da cama. Agora que pensei… Quem estava aí?? Abro os olhos rapidamente, me sentado na cama e observando em volta. Vejo nada. Me levanto, estranhando a situação e indo para a suíte, pegando papel higiênico e limpando minha barriga. Me olho no espelho, um pouco confuso e vejo algo do lado esquerdo do meu abdômen, marcas em linha reta, convergindo para minha virilha. Jogo água no rosto, já enxugando com a toalha e voltando para a cama. Fecho a porta do quarto, trancando-a. Me deito de bruços e finjo que nada aconteceu, foi normal.

Acordava de hora em hora, sentindo algo passar sobre meu corpo, algo felpudo, deslizando e as vezes pressionando sobre minhas costas. São somente sonhos, pois sempre olho e não há nada. Algo está encostando em meu rosto, molhado e quente. Deslizando até minha bochecha. Sinto um ar quente em minha orelha. Em um pulo, me sento na cama e coloco uma mão na bochecha atingida, ela está molhada… Na verdade eu estou todo molhado! Mas de suor, nada de uma língua rastejando em mim. Volto a deitar, pensando nesses pesadelos, de bruços novamente, colocando os braços embaixo do travesseiro e fechando os olhos.

Notas finais
Bom, esse foi o primeiro capítulo. Espero que tenham gostado, comenta aí o que achou!