Marcado Pela Noite
4 Capítulo 4 - Acompanhado
Notas iniciais
Tudo estava pronto, eu só precisaria da minha voz para a apresentação. Vou até a porta do meu quarto, onde o maluco sedutor estava trancado, dou três batidinhas e digo:
—Se comporte! Volto daqui algumas horas.
Mas ele não diz nada. Bom, deve estar com muita raiva, mas a culpa disso tudo é dele. Tranco a porta do apartamento, guardando a chave no bolso e descendo as escadas. Apanho meu celular e mando uma mensagem para o tecladista dizendo que já estou indo.
Saindo do apartamento, vejo que os vizinhos não estavam dormindo, bem pelo contrário, ligaram o som do carro e estavam tomando cerveja. Uns se agarrando, outros se pegando, Fulano discutindo com Ciclano por conta de ter dado em cima da namorada… Um bando de jovens adultos ingerindo álcool de madrugada ao som de Funk. Passei andando rapidamente por eles, que me olhavam, até que um deles segura meu braço fortemente dizendo:
—Onde você vai? Se prostituir numa boate gay? — Dizia aquilo rindo, debochando, enquanto os outros idiotas começavam a rir também.
—Eu só vou ali cara, me solta.
—Jaqueta maneira, me dá ela aqui, putinha. — Ele me empurra com uma mão, ainda debochando.
—Olha, se você quiser, posso te emprestar amanhã, mas hoje eu preciso dela.
Outros caras se aproximaram, já segurando a manga da minha jaqueta, enquanto o babaca me dá uma chave de braço em volta do pescoço. Eu até pensei em tentar revidar, poderia deixar um ou dois com olho roxo, mas com certeza eu apanharia, e muito. Simplesmente deixo eles tirarem minha jaqueta e a levarem, rindo e debochando. Prefiro me apresentar sem camisa do que com hematomas pelo corpo e um braço quebrado.
Conforme eu ia virando a quadra, escuto algo como um rugido… Um rugido feroz e alguns gritos que pararam quase que na hora de gritar, como se estivessem sido silenciados instantaneamente. Confesso que minhas pernas deram aquela bambeada. A rua dessa quadra estava escura, só dando para ouvir meus passos. A quadra era longa, pois havia um campo de futebol nela, do clube da cidade. Conforme vou pisando as folhas secas, o vento batia contra meu corpo, gelando ele todo. Cruzo os braços e continuo, não posso perder essa noite.
Nenhum bendito carro passa, era como se só estivesse eu nesse bairro. Porém, eu escuto um barulho de sacolas, como se algo pisasse no lixo enquanto andava. Eu olho para trás, e vejo algumas sacolas jogadas na rua, amassadas. As árvores daquela rua tapavam a iluminação dos postes, deixando a rua escura. Não faltava muito para chegar, mas essa quadra… Quase borro as calças nela. Eu não queria, mas olho para o campo de futebol, que estava sombrio, e vejo algo lá, parado. A mesma silhueta do laboratório.
Começo a andar mais devagar, o negócio era que eu ia morrer mesmo. Aquilo começou a se mexer, lentamente, na minha direção. Eu fico sem reação, minhas pernas não obedecem mais, simplesmente paro e fico olhando aquilo se aproximar. Porém, um barulho de carro atrapalha a emboscada, virando a rua e vindo na minha direção. Eram Jhonatan e Lorraine, que logo param ao meu lado.
—O que faz aqui a essa hora? Vai pro bar? — Lorraine abaixa o vidro do carro, olhando para mim.
—S-S-Sim, v-v-vou…
Olho para o campo de futebol novamente, mas não vejo mais aquela silhueta do capeta vindo em minha direção.
—Está tudo bem? Porque está sem camisa? Está um ar gelando e ventando. A gente vai pro bar também, monta aí. — A porta de trás do carro se destranca.
Monto sem dizer muita coisa, somente cumprimentando Jhonatan. Já quase chegando no bar, vejo pelo retrovisor de dentro do carro, aquele olhar dele… Ele logo desvia o olhar e já estaciona o carro próximo ao bar, que pelo jeito estava lotado.
Havia uma fila enorme, mas eles e eu tínhamos passes VIP, que nos permitiam entrar sem encarar fila. Entro e já corro para a sala em que o tecladista, baixista, guitarrista e baterista estavam. Entrando lá, vejo que eles já estavam prontos, me esperando.
—Até que enfim, Miguel. Tudo preparado? — Disse Luan, o baterista.
—Eu tive que vir a pé, até que na metade do caminho Lorraine me deu carona.
— Vamos lá arrumar as coisas, e você tome uma água porque já é a nossa vez. — Carlos, o tecladista estava animado, se desencostando da parede e saindo da sala para arrumar o palco, onde era seguido pelo resto da turma da banda.
Saio da sala também, me dirigindo para o balcão do bar, que era grande e chique… Na verdade, tudo ali era grande e chique, o espaço era bem grande para um bar, onde haviam mesas e tudo mais, tudo em vermelho vinho. Era a noite do Pop Rock, onde essas bandinhas de Cover iriam se apresentar. Peço uma água e bebo sem dó, molhando toda a garganta e preparando o gogó.
Percebo que ali estava realmente lotado, e vejo o povo da banda arrumando o palco, colocando seus equipamentos. Ali já havia um microfone com pedestal que o próprio bar disponibilizava, então nem precisei trazer um. Também vejo onde Lorraine e Jhonatan estavam sentados, que era um lugar mais próximo ao palco. Eu nem pensei que eles se interessavam por essas coisas, e só de pensar que ele vai ver eu me apresentar ali daqui a pouco… Me gelava as mãos.
Logo o baterista faz um sinal para eu ir lá, porque já ia começar. Deixo a garrafinha vazia em cima de uma mesa qualquer e vou para o palco, pensando que estava sem camisa e com aquele monte de gente… Só espero que não me joguem tomates e ovos podres, ou me mandem sair de lá. Logo que subo, me viro e vejo aquelas pessoas… Haviam algumas da minha universidade, que prestavam atenção em mim, sorrindo de canto de boca. Respiro fundo, e penso que já ensaiei aquilo muitas vezes.
Não precisava se apresentar nem nada do tipo, já havia uma lista colada nas paredes dos nomes de quem iria se apresentar e o que iriam cantar. Logo o tecladista dá início a música… Heathens, do Twenty One Pilots. Começo na letra, soltando minha voz calma, fecho os olhos e deixo aquilo fluir, me imaginando em casa, sem aquele monte de pessoas. Logo que abro os olhos, já no meio da música, vejo um ser em pé, encostado na parede, lá no fundo. Era o maníaco sexual que eu havia trancado no meu quarto. Aquilo me desconcentra um pouco, mas não me deixo abalar, continuo no ritmo, enquanto ele me olha atento. Outro me olha atento… Jhonatan. Olho para ele por alguns instantes, pensando que ele estaria ouvindo aquilo e me vendo sem camisa naquele palco.
A música acaba, recebo aplausos generosos, mas os dois não aplaudem, só me olham, mas com um olhar de aprovação. Desço do palco, e vou logo comprar outra água. Chegando no balcão, espero algumas pessoas na minha frente, e sinto uma mão em meu ombro, me viro e ele logo diz:
—Não sabia que cantava… Estava bem interessante lá, principalmente nesse visual aí… — Era o tarado do apartamento, que de algum modo havia escapado e vindo aqui, me atormentar.
—Como saiu de lá? — Eu compro a água, andando um pouco para o lado e me virando para ele.
—Sou bom em escapar, e hoje vou dormir lá. — Disse ele, como se tivesse controle sobre tudo.
—Vejo que já tem um fã… — Jhonatan brotou na conversa, com Lorraine atrás dele.
—Você trouxe ele, não é? Pode levar a gente pra casa, é perigoso andar assim a essa hora… — O abusado se virou para Jhonatan e disse isso.
—Eu levo vocês até a rua da casa do Miguel. — Disse Jhonatan, já pegando as chaves do carro.
—Espera, só viemos pra isso? Temos a noite toda ainda amor… Não quero ir embora. — Lorraine se intrometeu, encabulada.
—Nós levamos eles, e depois voltamos, é perigoso voltar a essa hora… E o Miguel deve estar cansado, vamos. — Jhonatan parecia determinado, já segurando a mão da namorada e andando para a saída.
Eu não contesto nada, somente sigo eles, entrando todos no carro, os namorados na frente e… Espera, qual o nome dele mesmo?
—Qual seu nome?
—Alan, pirralho. — Disse o tarado, nem sequer olhando para mim.
—Ok então, Alan Pirralho.
Olho para o retrovisor e vejo um sorrisinho de Jhonatan, manobrando o carro e pegando a rua. Foi tudo silencioso, ninguém dizia nada, parecia que todos ali se conheciam e não se gostavam… Tudo estranho, dia estranho. Passando o campo de futebol do demônio, ele para o carro, onde Alan e eu descemos.
—Obrigado!
Agradeço e bato a porta. Ouço o som do carro se distanciando, enquanto andamos na direção do apartamento. Porém… Chegando lá, vejo o local que estavam os vizinhos… Copos de cerveja no chão, garrafas quebradas e algo pelo chão que parecia… Sangue.
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