Marcado Pela Noite

2 Capítulo 2 - Rato no escuro


Durante o sono, tem aquelas horas em que eu não estava nem dormindo e nem acordado, estava em um estado de transição entre esses dois. Não sei explicar bem, um estado de “Dormência mental”. Nesse estado, eu não conseguia distinguir sonho de realidade, era como se eu estivesse submerso em um estado de pesadelo real. Nesses momentos de dormência, eu podia sentir braços me envolvendo, envolvendo meu quadril, por trás, eles eram felpudos e chegavam até a fazer cócegas. Mas eu não podia abrir os olhos e ver o que estava ali, eu não me permitia. Algo pontiagudo encostava em minha barriga, e forçava contra ela, como se quisesse rasga-la, perfura-la. Nesse momento senti um incômodo e abri meus olhos. Nada.

Já eram 17:25 e eu estava lá, sonolento e todo suado. Me levantei num impulso, fui direto para o banheiro tomar uma ducha. Eu teria imaginado tudo aquilo na cama. Acho que estava tão cansado de ter acordado cedo que até dei uma delirada. Terminando de me lavar, apanhei a toalha e comecei a me secar, me olhando no espelho, vendo aquelas marcas... Não tinha tempo para pensar naquilo. Voltando para meu quarto, deixo a toalha em cima da cama e escuto meu celular vibrar, era alguém me ligando. Pego ele e vejo um número desconhecido.

—Alô?

—Miguel? Eu resolvi vir aqui, esqueci de te ligar.

—Quem é? Jhonatan?

—Sim. Pode vir aqui na cozinha?

—Na cozinha? Que cozinha?

O celular de repente fica mudo. Ele desliga. E...

—Aqui, na sua casa.

Uma voz ecoou atrás de mim, me virei assustado e vi o ser ali, parado, com a mesma cara de quando fui entregar os medicamentos.

—C-Como entrou aqui???

Esse cara deve ter arrombado a porta. Não é possível, ou eu me esqueci de trancar? Mas isso não importa! Entrar na casa dos outros assim é errado!

—C-C-Como entrou??? Está louco??

—A porta estava aberta, devia trancar ela de vez em quando. – Disse ele em um tom meio irônico, me observando de cima a baixo, mas com a mesma cara, sério. Ele foi entrando em meu quarto, se aproximando. Comecei a desconfiar. Mas eu tinha me esquecido que... Eu estou pelado... Coloco as mãos em cima da minha vergonha, tapando ele e me encolhendo um pouco.

Ele sorriu de boca fechada, de forma bem sarcástica, me observando daquele jeito, todo acanhado.

—Pra que tapar essa coisinha aí? Pode usar uma mão só.

—Coisinha?? Ele tem 17 centímetros! Quando tá duro...

—O meu é maior. Já usou o seu pra algo além de mijar? – Dizia ele, naquele mesmo tom sarcástico maldito, agora olhando para baixo, na direção das minhas mãos que tapavam meu pênis.

—Claro que já, muitas vezes. Ninguém reclamou.

Ele era um babaca. Como imaginei, Lorraine só gosta desse tipo de embuste, quanto mais babaca ele for, mais ela se apaixona.

—Eu vim aqui para te dizer que quando for entregar mais medicamentos, passe lá de novo. Eu vou indo, tenho uma longa noite. – Dizia ele se virando e saindo do meu quarto.

—Eu não vou mais entregar isso, foi só uma vez, porque precisavam muito de alguém.

—Que pena. E limpe aquele gozo que espirrou em cima da sua cama, peladão. – Ele foi caminhando, sem olhar para trás, logo saindo do apartamento, sem mais nem menos.

Que cara doido e maldito! Entra no meu apartamento assim, do nada, me pedindo coisas e ainda mandando eu limpar? Que idiota. E ele me viu pelado... E me chamou de “Peladão”! Não tenho tempo pra isso agora, tenho que ir pra aquele maldito laboratório. Visto uma roupa rapidamente e vou para o banheiro. Faço um topete muito bom, digno de mim mesmo. Esquento algo para comer no microondas, uma esfirra de frango. Saio de casa comendo, descendo as escadas e abrindo o portão.

Terminei de comer a esfirra bem na hora que chego no laboratório, onde o sol estava se pondo, fazendo o céu ficar alaranjado. Sento-me no chão, em frente a porta e fico lembrando a letra daquela música... Muito boa por sinal.

Conforme a noite vai dando o ar da graça, os postes vão acendendo as luzes, porém, somente em volta do laboratório, porque atrás dele só existe mato. Tudo fica iluminado somente pela luz amarela, deixando aquele lugar com um ar estranho e fantasmagórico. Dia difícil para os fantasmas, porque nem acredito neles.

Ficar esperando sentado não iria ajudar em nada. Levantei e comecei a andar, para dar voltas pelo laboratório e ver se encontro algum rato diabético andando por aí. Conforme eu ia me aproximando do mato que havia atrás, algo me dizia para não ir até lá, como se travasse um pouco minhas pernas. De repente, dou um pulo com algo passando entre minhas pernas, algo peludo... Um rato. Ele se debateu um pouco, bem desajeitado, e correu para o mato. Era um rato grande, uma ratazana pelo jeito, mas não era do laboratório. Os ratos do laboratório são brancos, aquele aparentava ser cinza escuro.

Ouço sons de algo no mato, algo se mexendo, como se estivesse andando. Andava e parava, chacoalhando as folhas secas e quebrando alguns galhos, gelei. Fiquei parado por alguns instantes até algo pisar forte na escuridão, fazendo um barulho considerável, como se estivesse pulado. Confesso que levei outro susto. Não conseguia mexer um músculo, somente ouvia minha respiração e olhava atentamente para o mato. Escuto algo estralar atrás de mim, logo olho rapidamente, enxergando nada, somente o que a luz amarela do poste consegue iluminar. Volto a observar a minha frente, quando vejo uma silhueta grande e preta, projetada em meio ao capim e algumas árvores. Poderia ser meu cérebro pregando peças em mim, já que estou assustado. Algo se mexendo no mato poderia ser um cachorro de rua, um gato... Mas aquela silhueta era muito grande para ser um simples Dog, grande demais e curvada, como se estivesse agachado, observando. Escuto um som de algo sendo mastigado, vindo daquela silhueta, como se ele estivesse quebrando ossinhos em sua boca, devagar e calmamente, degustando sua comida.

Dou outro pulo, e dessa vez tenho certeza que arrebentei uma artéria do coração, senti algo encostando em mim e viro rapidamente, era Lorraine. Essa vaca do inferno.

—Você está louca?!?! Quase me matou do coração, porra!

—Olha, eu só vim aqui... hahahaha – Aquela maldita ficou rindo e nem conseguia falar. – Vim aqui pra ver se os ratos estavam escapando, mas o que está fazendo no laboratório a noite?

—Eu vim pelo mesmo motivo. Mas está sozinha? Trouxe seu cachorro?

Lorraine, a vaca do caralho, tinha um cachorro enorme. Ele ficando de pé era quase maior que eu, mesmo eu tendo 1,72m.

—Meu namorado veio comigo, ele está ali em frente. Porque?

—Ah eu vi algo ali no mato, e pareceu um cachorro.

Jhonatan apareceu, andando na direção da Lorraine, segurando ela pela cintura e lascando um beijo em sua boca. Uma cena digna de jatos de vômito.

—Você não vai se apresentar de madrugada? – Disse ela, interrompendo o beijo e olhando para mim.

—Vou, mas tive que vir aqui antes, o professor me mandou ver esse negócio dos ratos, mas parece que não tem nada por aqui.

—Vamos ficar de olho, eu e o Jhonatan vamos do outro lado ver se encontramos algo.

Ele acenou com a destra para mim, fazendo um movimento de cumprimento com a cabeça, e jogando aquele olhar. Não, eu não me apaixonei por aquilo. Foi coisa do momento, agora eu olho para ele nem sinto nada. Acenei para ele, com um sorrisinho, e eles logo foram do outro lado do laboratório. Voltei meu olhar para o escuro, onde estava aquela silhueta, mas não estava mais lá.

Ficamos rodando aquele laboratório por um tempo, feito tontos, para não encontrarmos nada. Lorraine e Jhonatan decidiram ir embora. Eu não vou ficar sozinho aqui, vai que aquela coisa volta ou minha mente resolve ficar me pregando peças. Me despeço das luzes amarelas e da criatura da silhueta e começo a caminhar de volta para casa.

No caminho, eu fico olhando para os tetos das casas, porque me parece que tem algo correndo por eles, como se me perseguisse. A rua vazia, de noite, quase onze horas... Seria perfeito para ser morto e devorado por um alien. Chegando no apartamento, abro o portão e o fecho correndo, batendo-o. Não sei porque fiz isso, mas meu instinto era mais forte. Subi as escadas, chegando no andar do meu apartamento, mas tinha... Tinha um cara de toca encostado na minha porta. Ele virou o rosto lentamente, me olhou e sorriu, maliciosamente.

Notas finais
Espero que esteja gostando! Dá um coment aí sobre o que achou, sempre ajuda! :)