O ano não importava, assim como os sentimentos. Era outono, uma sexta feira nublada e com premissa de chuva, não de água, mas sim de lágrimas. Minha relação com meu pai nunca fora das melhores. Ele era obcecado pelo medo de ter um filho que não atendesse seus padrões de "macho alfa". Quando comprava caixas de lápis de cor, quebrava o rosa e todos os seus tons derivados, incluindo o roxo e o vermelho; quando me via com meninas me batia e me arrastava para junto dos meninos; quando estava vendo desenhos ele mudava e me obrigava a ver esportes. A ideia de ter um filho morto não o assustava tanto quanto ter um filho homossexual e, como o destino é sagaz, deu a ele logo o que mais o assustava. Sempre fui gay, independe de tudo que ele tenha feito para consertar isso. O estopim de minha história, no entanto, se deu alguns meses após a partida de minha mãe com seu amante, eu tinha cerca de vinte dois anos e cursava faculdade de medicina veterinária, foi tudo num rompante de momento: Ele descobriu que eu dançava. Não o perdoável forró de sua terra, mas sim as coreografias sincronizadas do kpop, que para ele soavam como a coisa mais gay que existia no mundo. O que ele fez? Me expulsou.
Tinha trezentos reais, um curso pela metade, baixa autoestima e nada além disso. O que eu fiz? O menos sensato possível: entrei no primeiro ônibus da rodoviária, o qual eu sequer sabia o destino, e aguardei.
Foram três ou quatro dias da zona metropolitana para a zona serrana de São Paulo, perto da Mantiqueira, entre montanhas verdes, passando por cidades velhas onde o tempo nunca passava, estradas de terra, matagais e plantações. Quase todo ônibus havia esvaziado e, segundo o motoristas, havia pouco mais de vinte quilômetros a percorrer até o ponto final. Naquele momento havia decidido ir até a cidade para onde o ônibus se dirigia e lá me virar, sempre tinha sido bom com contas e animais, talvez houvesse emprego e casa para mim.
Até que olhei pela janela: era uma cidadezinha pequena, menor que todas as que havia visitado, com arquitetura antiga e pessoas andando calmamente pela rua, ao longínquo vastas floresta cobrindo montanhas e plantações de laranja ou limão. Mas, o que me chamou atenção nessa cidadezinhas de fim de mundo não fora nada natural, arquitetônico ou social, mas sim Ele. Não sabia seu nome, sabia apenas que era o menino mais lindo que eu já tinha visto em toda a minha vida. Tinha a pele tom de mogno e cabelo negros e crespos, onde uma coroa de flores lilases enfeitava-o sem vergonha alguma, como se fosse uma extensão de seu corpo. Segurava um livro com as duas mãos, algo como Crepúsculo ou Harry Potter, não estava atento a detalhes além dele, e lia, com aqueles olhos negros como o céu noturno, enquanto sorria, com dentes brancos e alinhados entre lábios carnudos. Minha reação foi a única que podia ter:
Desci.
Precisava o conhecer. Custe o que custasse.
Todavia, precisava de minha mala e gastou quase cinco minutos para que o motorista me entregasse e zarpasse, deixando uma coluna de poeira, que atrapalhou minha visão por longos segundos. Quando ela cedeu ele já não estava mais lá.
Perdi o menino que amei sem nem saber seu nome.
— Ei, você! – gritou alguém, mas não era ele. Era um homem grisalho e gorducho que saía da padaria perto de onde o rapaz estava instantes antes. Fui até ele — É novo aqui?
— É sim… Na verdade acabei de chegar.
Ele deu um risinho.
— Bem vindo a Treze Quedas — ele disse animado.
— Obrigado — respondi com um sorriso.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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