Mar de flores.
3 Salto de fé.
Notas iniciais
Nino não sabia o que Alexandre via em si. De verdade.
Ele era tão... Alegre. Positivo. Bom. Tudo que Nino não era. Tudo que Nino sequer tinha a esperança de ser.
Quer dizer, ele se lembrava vagamente da alegria que a adrenalina de velejar trazia, mas, quando pensava nisso hoje em dia, só via a imprudência e o risco desnecessário. Pensar demais nisso fazia seus braços formigarem em uma dor fantasma onde antes foram quebrados.
Quando Alexandre confessou, em meio a uma enxurrada de palavras desordenadas, seus sentimentos por ele, Nino tomou isso como algo dito no calor do momento, algo sem significado. E Alexandre também não voltou no assunto, então parecia um acordo silencioso de desconsiderar essa parte da conversa.
Mesmo assim, bastou um pedido louco de Alexandre para Nino largar o emprego.
Foi imprudente.
Insano.
Impensado.
Arriscado.
Loucura.
Algo que ele devia ter deixado para trás há muito tempo.
Entretanto, ele não podia dizer que se arrependia, já que foi essa insanidade que o aproximou tanto de Alexandre.
Ele era só um idiota apaixonado, não? Patético.
E ele faria tudo de novo por Alexandre...
“Tenho uma ideia!” Alexandre interrompeu sua linha de pensamentos, sem saber que era o foco de todos eles.
“E qual seria?” Levantou os olhos do jornal (classificados, ele ainda precisava de um emprego novo afinal) para encará-lo e deixou a lapiseira com a qual circulava as ofertas mais interessantes de lado.
“Devíamos nos mudar”
…E essa foi a segunda maior loucura que Nino já ouviu nessa semana. Será que ele devia se preocupar por ambas virem da mesma pessoa? Largar o emprego, largar a casa.... Parecia drástico demais. Inseguro demais. Arriscado demais. Pura loucura juvenil.
“Por quê?” Perguntou. Ele devia apenas dizer ‘não’ logo e acabar com isso. Pedir o emprego de volta e conseguir de novo estabilidade. Mas ele queria ouvir o motivo.
“Meu primo mora há dois estados daqui. Ele disse que consegue um trabalho pra gente por lá e até arruma um lugar com aluguel barato. Podemos dividir.”
Ele devia dizer não.
Devia mesmo.
Mas Alexandre estava com aquele sorriso animado e aquele brilho no olhar e como ele poderia dizer não?
“Não temos dinheiro para as passagens” Lembrou “Ou para o primeiro mês de aluguel se formos” Era uma ideia cheia de falhas e, por mais que ele odiasse desfazer o sorriso alheio, a realidade era cruel.
“Eu já cuidei disso, só diz que você vai comigo” O sorriso não se alterou, esperança em sua voz.
“Eu...” Isso era loucura. Loucura, loucura, loucura, loucura. Mas Alexandre estava tão esperançoso e aquele sorriso o tirava do sério... “Eu vou. Claro que eu vou com você”. Se rendeu por fim.
Alexandre ficou radiante.
“Ótimo! Aqui sua passagem” Tirou um papel do bolso e entregou. Aparentemente, ele já tinha comprado as passagens para o dia seguinte...
Imprudente, mas Nino não conseguiu evitar o sorriso.
“Como conseguiu o dinheiro?”
“Vendi meu apartamento, ué” Deu de ombros como se fosse óbvio.
Nino ficou estupefato. Isso passava de imprudente, era risco ao extremo.
“E o que você faria se eu não aceitasse? Ou se pedisse tempo pra pensar?” Desafiou.
“Hm... Não sei. Na real, eu estava contando com você aceitar, isso nem passou pela minha cabeça.” Mentiu. Alexandre pensou milhares de vezes na chance de Nino recusar e abandoná-lo sozinho com o plano de viagem, mas achou que valia a pena um salto de fé, pura confiança e estupidez sem um pingo de embasamento racional.
E deu certo, não?
“Você é inacreditável” Nino disse por fim, em tom de brincadeira. “Vou fazer as malas”
E lá ia ele, fazer a segunda loucura de sua vida em um longo tempo por causa de um simples homem que, aparentemente, significava mais pra ele que toda a carreira estável que construíra até ali.
*
“Estamos perto?” Nino perguntou, parecia que a viagem durava horas!
“Não. E você perguntou isso há dez minutos” Alexandre retrucou e fechou os olhos. Talvez se ele cochilasse a viagem demorasse menos... Quem diria que atravessar dois estados demorava tanto?
A paz só durou quinze minutos:
“E agora?”
“Ainda não”
“Já pensou no que vamos fazer quando chegarmos lá?”
“Ainda não”
“Pesquisou algum lugar com apartamentos para olharmos?”
“Ainda não”
“E que tal- “
“Ainda não” Alexandre nem esperou o resto da pergunta, se arrependendo um pouco de comprar as passagens com assentos reservados lado a lado.
Ele amava Nino de coração, mas às vezes uma pessoa só quer uma horinha de sono antes de resolver todos os problemas de se jogar numa aventura sem nenhum plano.
Nino pareceu entender o recado e o deixou cochilar um pouco antes de voltar à enxurrada de perguntas sobre seu plano inexistente.
*
“Aqui estamos” Alexandre anunciou e abriu a porta do pequeno apartamento que seu primo conseguiu. Ele conhecia o cara que alugava e conseguiu negociar um bom preço, além de ser perto o bastante do novo trabalho para conseguirem chegar até lá com uma caminhada um pouco longa, o que já economizaria o dinheiro do transporte.
Parece que o preço de sua loucura era passar um tempo vivendo em baixo orçamento.
Tudo bem, ele podia viver com isso.
“Só tem um quarto.” Nino apontou.
“O sofá é sofá-cama, eu posso dormir na sala.” Explicou. “Mas acho que vamos ter que dividir o guarda-roupa.”
“Ok.... E “Nino decidiu tocar no assunto ignorado por ambos até agora “não acha que vai passar a imagem errada? Quer dizer, dois caras morando juntos...”
“Ah, não, quer dizer, talvez, eh, você acha?” Alexandre se enrolou.
“Bem.... Nunca falamos realmente sobre o que, hm, o que você disse aquela vez…” Nino disse. Ele se sentia vulnerável nessa situação, nessa conversa, mas ele queria muito a resposta.
“Oh, bem, eu…”
“Quer dizer, tudo bem se quiser fingir que nunca aconteceu, eu entendo, foi o calor do momento e você não queria mesmo dizer aquilo e- “Nino o cortou jogando um milhão de justificativas racionais na esperança de reduzir o impacto da rejeição. Não tinha jeito de Alexandre realmente gostar dele daquele jeito, tinha?
Alexandre apenas o olhou surpreso e confuso.
“Quê? Claro que eu quis dizer aquilo!” Exclamou e um segundo depois a falta de jeito voltou “Quer dizer, se tudo bem pra você.... Mas podemos fingir que não aconteceu se for o que você quer- “.
Nino calou Alexandre com um beijo antes que ele continuasse as milhares de desculpas. E sim, foi uma cena muito clichê, mas era melhor que ter os dois se desculpando eternamente e ficando num ping-pong de “eu-quero-se-você-quiser” e “tudo-bem-se-quiser-fingir-que-nada-aconteceu”, o que Nino sabia que aconteceria se ele não tivesse beijado Alexandre primeiro.
“Então” Alexandre disse quando o contato foi quebrado “acho que você não quer fingir que nada aconteceu, né? Ótimo!” E o beijou antes que Nino pudesse responder.
E foi muito bom.
Isso é, até a primeira manhã de trabalho.
*
“Está cedo demais pra estar acordado” Alexandre reclamou enquanto pegava sua escova e escovava os dentes “É cedo demais pra estar vivo”
“Não olhe pra mim, você arrumou o emprego” Nino retrucou e empurrou Alexandre um pouco para o lado pra poder deixar o cabelo um pouco mais apresentável com a escova barata que arrumou. “E temos que estar lá às seis, então se apressa”
O trabalho que o primo de Alexandre arrumou não era nada glamoroso e pagava muito menos que seus antigos empregos, mas era algo pra começar. Ele era dono de um mercado e estava procurando empregados, agora Alexandre era caixa e Nino limpava o chão.
Glamour zero. Mas pagava as contas.
E Nino até gostou da mudança. Tirando o mau-humor matinal e precisar se adaptar a uma cidade nova e uma rotina nova, foi uma mudança bem-vinda.
Louca, mas bem-vinda.
Dividir um apartamento com Alexandre o fazia sentir em casa como nunca antes. As pequenas brigas domésticas e os momentos fofos ou mais picantes juntos.
Ele achava que descobriu o que mais gostava em Alexandre.
Alexandre era insano. Imprevisível, espontâneo, natural, capaz de loucuras como abandonar sua vida do dia pra noite e arrastá-lo junto, mas com um jeito cativante e uma natureza indomável e ao mesmo tempo tão acolhedora.
Alexandre era como o mar.
Como o mar que jurou abandonar há tantos anos.
Como o belo e selvagem e imprevisível mar.
E Nino achava que algo nele mudou também.
Algo que ele jurou ter perdido.
Pedir demissão, mudar de cidade, abandonar tudo e mesmo cortar Alexandre no meio da fala para beijá-lo com paixão, nenhuma dessas coisas são coisas que o Nino estável e racional faria. Não... São loucuras de um aventureiro, um desbravador, uma alma livre.
E talvez, só talvez, ele pudesse dar outra chance ao mar, pensou enquanto pegava uma garrafa d’água e arrastava um Alexandre semiadormecido para o trabalho. Eles precisariam andar alguns quarteirões para chegar.... Tempos duros, mas ele ainda estava mais feliz do que antes, naquele trabalho sem alma, naquela vida vazia.
Talvez esperança fosse contagiosa e ele estivesse passando tempo demais com Alexandre... Mas, ei, esse é o preço de se apaixonar pelo mar.
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