Mar de Cores
2 Roxo
Acordei com uma faixa do sol quente perfeitamente posicionada em meus olhos, forçando-me a levantar. Eu havia conseguido uma cama em troca de algumas moedas, Jiraiya ficaria decepcionado se soubesse que eu havia as dado embora por algo tão “bobo”. Aquilo era um luxo que eu me permitia ter, não suportava dormir em qualquer lugar.
O gentil senhor Ming, dono da casa onde eu passaria os meus dias, havia deixado a tina de madeira pronta para que eu me banhasse; algumas pétalas de flores boiavam na superfície e o cheiro que exalava no cômodo era encantador. Depois de tantos meses no alto mar eu tinha noção de que o meu odor não era dos melhores. Por mais que eu tentasse manter a minha higiene intacta como os meus pais haviam me ensinado, às vezes era difícil conseguir água limpa todos os dias.
Livrei-me da vestimenta suja e a esposa do senhor Ming entregou-me novas roupas. Ela desculpou-se diversas vezes por ter apenas vestidos longos para me emprestar e por mais que eu me incomodasse com os mesmos teria que me acostumar. Seriam usados por poucos dias.
Afundei na água fria e fiquei por um tempo ali, imóvel. Em seguida esfreguei o corpo o melhor que consegui, sentindo toda a sujeira e craca saírem completamente de mim. Com os dedos enrugados, separei os fios do meu cabelo e os penteei com cuidado. Assim que saí do banho, me senti uma nova pessoa.
O dia do lado de fora não parecia tão promissor; o brilhante sol não mais estendia-se no céu e o vestido roxo que eu usava era adequado para o vento marítimo que tomava conta da ilha, fazendo arrepiar todos os pelos do meu corpo; estava começando a escurecer. Refiz o caminho que me levaria até o pedaço de paraíso intocado sem pressa.
Eu não estava muito surpresa ao encontrar as ruas e vielas tão vazias quanto na noite anterior, não haviam muitos moradores para fora das construções e os que arriscavam enfrentar a brisa gelada estavam completamente bêbados.
Um leve enjoo se apossou de mim ao lembrar do rum de quinta categoria que havia tomado, não queria passar perto de nada do tipo pelos próximos dias. Manteria-me sóbria até a hora de partirmos de novo para outra “aventura”, eu queria recarregar as energias por completo, diferentemente dos meus companheiros.
E falando neles, avistei dois rostos conhecidos encostados em um muro destruído. Atrás deles o meu cantinho – que já era o preferido de toda a Shikotan – permanecia como uma vista agradável e vazia. Aproximei-me de Suigetsu e Kurenai com um leve sorriso nos lábios. O homem chacoalhou a cabeça e murmurou algo que não pude entender, a mulher apenas riu.
— Mitsashi, eu disse que só queria te ver novamente...
— Daqui dez dias. Eu sei, Hozuki. — cortei-o divertida, jogando um dos meus braços em volta dos seus ombros e o apertando contra mim. — Não tenho culpa se esse lugar tem o tamanho de um ovo.
Ele fez menção de se afastar, mas aumentei a força do aperto até que desistisse com um suspiro irritado. Eu sentia os seus grandes olhos me mirando como se fossem um arqueiro esperando o momento de acertar o alvo.
Adorava irritá-lo.
Desde os cabelos prematuramente brancos até a cor dos olhos de um tom arroxeado esquisito, amava tirar alguns minutos do meu dia para encher sua cabeça e divertir-me. Hozuki Suigetsu era muito fácil de tirar do sério.
— E também não tenho culpa de sentir tanta saudade de você, meu grande amigo. Somos os únicos Navegadores do Capitão Jiraiya, precisamos nos unir mais.
Yuuhi Kurenai, uma Curandeira muito experiente e sábia, riu alto intercalando alguns momentos com o grunhido de um porquinho, o que fez a minha autoestima aumentar um tanto. Eu a adorava. Como esperado, era a figura materna do Coral Sombrio, sempre cuidando e protegendo de toda a tripulação. Os seus cinquenta e cinco anos muito bem vividos, mas escondidos atrás de uma faceta jovial e enérgica.
— Vai se foder, Tenten! — esbravejou Suigetsu e finalmente o libertei dos meus braços; eu ria ainda mais. — Você não tem nada melhor para fazer, não?
— Nunca seja grosseiro com uma dama. Ainda mais uma dama que se sabe se defender. — Kurenai comentou enquanto apontava para a faca que eu levava na cintura. Ela estava amarrada no cinto de couro que em nada combinava com o vestido fino que eu vestia, contudo nunca me arriscaria a sair sem algum tipo de proteção. — Estou varada de fome. Você já comeu, querida?
— Faz um tempo, consegui um lugar para ficar e me banhar também.
— Menina esperta! — deu leves batidinhas em meu ombro, me oferencendo um sorriso doce. Retribui com carinho. — Vou aproveitar que está ficando tarde para jantar alguma coisa. Vocês me acompanham?
O homem de cabelos brancos se prontificou de imediato, dizendo que já conhecia um lugar para conseguir boa comida ali. Eu recusei o convite alegando que gostaria de aproveitar mais a pequena praia antes de comer. Sentia comichões por todo o meu corpo apenas de olhar para a grande lua já tomando o seu lugar no céu e os tons de azul escuro fazendo traçados charmosos atrás dela.
Despedi-me dos dois com uma reverência breve e caminhei a passos largos até a areia. Retirei as botas dos meus pés e pude sentir o chão ainda quente sob eles, em seguida sentei-me passando a observar melhor a obra da natureza.
O mar vinha e voltava, no ritmo costumeiro de dias calmos. O céu e ele quase se fundindo em um só, com as estrelas brilhantes como companhia. Eu não acreditava nas lendas que os outros marinheiros contavam, no entanto não me surpreenderia se alguma sereia saltasse ali na minha frente e me convidasse para nadar com ela.
Parecia uma noite perfeita, como saída de alguma leitura fantástica.
Algum tempo depois, um pequeno foco de luz veio andando em minha direção e parou a alguns poucos metros, desconcentrando-me da vista. O mesmo artista da noite anterior estava ali, mais perto de mim, carregando os seus materiais em um braço e um pequeno lampião no outro. Assim como eu, ele deveria achar aquele cantinho um pedaço do paraíso que deveria ser eternizado.
Sob a fraca luz do fogo, pude reparar melhor em seus traços e características, tendo por mim que ele era – de fato – muito bonito. Ele tinha em seus cabelos longos e escuros pequenas manchas de tinta, assim como o seu rosto pálido estava sujo em alguns pedaços.
O homem olhou brevemente na minha direção antes de sentar-se na areia e depois apagar a lamparina, deixando-nos com a luz natural. O brilho da lua o cobria perfeitamente, como se fosse a sua iluminação particular feita sob medida para o momento.
— Gosta do que vê? — a pergunta veio carregada pela voz grave com um leve tom de divertimento que deixou-me quente por alguns segundos. Eu não estava esperando por uma pergunta, naquele momento, vinda dele. Não esperava qualquer interação no geral.
— É um lugar muito bonito. — respondi voltando a olhar para frente. Não tinha certeza se estava falando dele mesmo ou da paisagem. Ele ficou em silêncio por um tempo, eu podia sentir os seus olhos em mim mesmo com o leve breu. Tentei disfarçar um sorriso escondendo o rosto no braço esquerdo.
— Eu te vi ontem aqui, você parecia tão concentrada que não quis atrapalhar. Não imaginei que retornaria, fico feliz que o tenha feito.
— Essa vista me faz bem, por mais que tenha apenas a descoberto ontem.
— Era o meu lugar preferido, principalmente para pintar, mas creio ter encontrado uma figura mais bonita para eternizar em tintas.
Ele tinha o dom das palavras, era nítido. Pela segunda vez meu corpo estava borbulhando após algo dito por ele. A sua voz era gostosa de ouvir como uma música cantada por sereias e... O que havia comigo para pensar tanto em sereias?
Antes que eu pudesse continuar com a conversa, o homem de cabelos longos acendeu a lamparina mais uma vez e o meu rosto virou instantaneamente em sua direção. Vi de perto e com mais clareza a sua feição tranquila, os lábios rosados curvados em um sorriso natural.
— Desculpe se tal pedido a constranger, mas tenho pensado nisso desde ontem. Você é como uma obra de arte que caminha sozinha pelo mundo. Deixe-me eternizá-la, ao menos. — e apontou para os seus objetos de pintura. Não segurei o riso incrédulo e surpreso.
— Nós mal nos conhecemos!
— Meu nome é Hyuuga Neji e sou capaz de reconhecer uma beleza autêntica há muitas milhas de distância.
— O quão galanteador é você, Neji.
Ele deu de ombros, olhando-me mais sugestivo. Suspirei e juntei as mãos embaixo do queixo, fingindo pensar. Não estava mais tão espantada, uma animação começava a tomar conta de mim. O meu narcisismo parecia cada vez mais eufórico com a possibilidade de ser pintada por ele, podendo esbanjar o meu retrato para todos no Coral Sombrio, como um troféu conquistado.
Os seus olhos de um tom perolado e único assistiam a cada movimento meu, principalmente o meu rosto, e eu tinha certeza de que todas as minhas emoções estavam expostas para que Neji as interpretasse; entregues de bandeja à ele e ao seu charme... Excêntrico.
— Tudo bem. O meu nome é Mitsashi Tenten, mas pode me chamar de “sua paisagem” a partir de hoje.
— Minha paisagem não. Você será a minha mais linda musa, Tenten.
Fale com o autor