Mar De Fogo

22 Planos e Armações - parte I


Notas iniciais
Como é de praxe: Perdão a demora!Segundo, tenho de agradecer pelas SEIS recomendações que recebi apenas para o último capítulo! Querem me matar do coração, é isso? #mortaAgradecimentos cheios de beijos molhados (não me venham com caras de nojo!) para Lady di Ângelo (minha eterna pirulita!), Danii Rodrigues (paixão que fez conta apenas para comentar aqui!), Thammi (coisa linda que deixou uma review e recomendação perfeitas!), Deryck Astaire (que deixou um testamento em forma de recomendação, e é meu bést lindão!), Thatyane Santana (Essa linda por quem tenho um carinho enorme *.*), Aresinha (que é uma florzinha muito fofa, e um dia eu ainda mordo ela). OBRIGADA, AMORES! ♥

A sensação era como a de ter sido atropelado por uma carruagem, e particularmente pisoteado pelos cavalos que a puxavam. Soltei um gemido dolorido e movi meu corpo, apoiando meus antebraços no colchão. Foi difícil erguer o rosto do travesseiro, pois minha cabeça fora a mais atingida pelo pisoteamento que, neste caso, tinha rum e cerveja como culpados.

Eu não havia esquecido nada da noite anterior e, na verdade, não queria ter esquecido, mas lembrar da forma como eu havia gemido descontrolado enquanto Santiago me tocava e possuía de todas as formas imagináveis me causou calor e uma vergonha exasperante pela infâmia. Deixei minha cabeça voltar a afundar contra o travesseiro com um resmungo inconformado.

“Está acordado.” Ouvi a voz sonolenta de Santiago, deitado ao meu lado. Não era uma pergunta, mas uma afirmação; e ele se moveu na cama passando o braço por cima de minhas costas. “Como está a sua bunda?” Perguntou, descendo a mão para apalpar-me. Eu bufei, tentando fugir do toque, mas ele a apertou em cheio antes que meu cérebro lentificado pelo sono voltasse a funcionar a todo vapor.

“Ela dói, então tire a mão daí.” Resmunguei rouco pelo tempo sem usar a garganta. Ao menos ele se importava em perguntar como ela estava antes de sair tentando transar novamente, tentei me consolar. Os primeiros raios de sol já entravam através dos vidros, iluminando os aposentos e os lençóis bagunçados que pareciam ainda feder a sexo, e eu não havia esquecido o que ele falara sobre querer repetir a dose pela manhã.

Como esperado, Santiago não me obedeceu e, no instante seguinte, pude sentir seus lábios em um de meus ombros, a barba roçando em minha pele e gerando arrepios descendentes que faiscaram por toda minha coluna. Sua mão áspera foi parar em minha coxa, apertando-a na lateral enquanto afastava meus cabelos para poder beijar-me a nuca. Santiago moveu o corpo, aproximando-se mais com o intuito de me montar.

“Não vou te machucar...” Ele murmurou naquele tom grave que parecia alcançar todos os cantos do aposento.

“Pare com isso, Santiago.” Tentei exigir, estremecendo e começando a exibir os efeitos que ele me despertava quando fazia aquele tipo de coisa – minha respiração acelerou e uma fisgada em meu baixo ventre acordou o princípio de uma ereção que eu não queria sentir. Se eu já desconfiava que não caminharia de maneira muito hígida hoje, eu provavelmente nem caminharia caso ele enfiasse aquele tronco em mim novamente.

“Sem sexo, já entendi.” Ele murmurou um tanto entediado, e seu hálito bateu em minha orelha, acompanhado de sua língua.

Minhas mãos apertaram o travesseiro enquanto me contorcia com o arrepio e tremor que me atingiram parecendo virem de todos os lados. Não queria ser tão fraco, mas era difícil estar muito lúcido depois da noite que havíamos tido. Só por lembrar cada um dos momentos uma parte imediatista minha desejava repetir tudo e mais um pouco.

Eu havia erguido um pouco o rosto, usando meus antebraços novamente como apoio, e ofeguei baixo quando ele segurou um de meus glúteos por baixo, apertando-o e afastando-o para o lado para acomodar melhor o falo entre minhas nádegas. Gemi de lábios apertados, remexendo-me e perguntando-me se ele realmente entendia o conceito de sem sexo.

“Mas isso não impede de gozarmos juntos e começarmos o dia com o pé direito.” Sussurrou, lendo meus pensamentos e chupando o lóbulo da minha orelha. “Tive de me segurar durante quase toda a noite para te deixar dormir em paz...” O comentário conseguiu arrepiar o que restava de comportado em meu corpo e eu fui facilmente convencido.

Gemi baixo em consentimento e virei um pouco a cabeça quando ele afastou mais meu cabelo, segurando-o entre os dedos para beijar e morder meu pescoço. Comecei a ondular involuntariamente meu quadril, acompanhando os movimentos dele, os quais pareciam simular estar dentro de mim, estocando sem pressa. Minha ereção roçava contra o colchão, deixando-me ofegante, e depois da noite passada eu sequer conseguia me recriminar por estar tão excitado com um homem daquele tamanho me aprisionando contra a cama, parecendo querer me cavalgar. Me senti como uma égua.

Puta que...! A ideia de servir de égua não me agradou. Eu quase pude escutar as risadas altas e debochadas dos piratas, e um rubor queimou em minhas bochechas junto com uma irritação por já estar me preocupando em antecedência com o que aqueles malditos me chamariam quando me vissem. A criatividade deles não tinha limite e a de minha mente culpada aparentemente também não, e a culpa toda era do Santiago.

“Por Cristo...” Resmunguei e dei um jeito de me virar sob ele, saindo daquela posição que já estava me deixando envergonhado. Olhei para o Santiago, achando seus ombros mais largos do que o normal ao tê-lo sobre mim daquela maneira, seus antebraços acomodados no travesseiro de cada lado de minha cabeça.

“Parece que a noite passada te convenceu do quanto isso é bom.” Ele sorriu malicioso ao mover de novo o quadril e fazer nossos falos roçarem um no outro. Eu torci o nariz e tratei de puxar-lhe a nuca e sumir com aquele sorriso através de um beijo. O hálito dele não estava fresco, tampouco o meu, mas o meu pau não estava se importando com isso.

Uma de suas mãos foi para o meu pescoço, envolvendo minha nuca e puxando-me mais contra sua boca; a outra para meu quadril, contornando-o e deixando seus dedos roçaram em meu ponto fraco. Eu ofeguei agitado, como se aquilo fosse um gatilho para me esfregar mais contra ele. Uma de minhas pernas o enlaçou pela cintura e eu o empurrei, invertendo as posições sem interromper o beijo.

Santiago agarrou meus glúteos com ambas as mãos e me esfregou sobre ele, parecendo ansioso para que eu continuasse a me mover sem demoras. Arranhei seu peitoral, sentindo na ponta dos dedos a musculatura forte. Meu pênis já latejava dolorido e só o contato com o dele não era o suficiente, então segurei – ou tentei segurar – nossos falos juntos e passei a nos masturbar sem parar de me mexer, mesmo que sentisse dificuldades para colocar o maldito ar em meus pulmões.

Tive de parar o beijo e devolver o sorriso malicioso quando ele soltou um gemido rouco, gutural, que – eu jamais admitiria para ele – me deixava ainda mais desejoso de fazê-lo gozar.

“Se eu soubesse que depois de despertar teu fogo você seria assim, teria te oferecido litros de rum todas as noites.” Santiago falou, agarrando minha coxa e invertendo novamente as posições ao me derrubar no colchão. Sua mão deslizou por meu torso, alisando com lentidão meu abdômen enquanto que, com a outra mão, também acariciava forte toda a região entre minha coxa e cintura, deixando-me sentir na pele todos os calos que tinha pelo manejo da espada e de trabalhos em um navio.

Ainda deveriam existir resquícios da noite passada naquele quarto, transformando o ambiente em algo abafado e libidinoso que se somavam aos estímulos que me deixavam respirando pela boca e suprimindo os gemidos que insistiam a vir. Mas suspirei rendido e tentei guardar na memória que isso era algo que precisaria trabalhar no futuro – Dominic D’Anjou não poderia ser sempre tão fácil; porém no momento meus pensamentos eram turvos e eu só queria me permitir experimentar e sentir todas aquelas sensações ainda novas.

Mantive a masturbação, sentindo o pré-gozo, meu ou de Santiago – talvez dos dois – sujando meus dedos e facilitando os deslizes, que intensifiquei. Estava tão excitado com aquele clima de sexo e provocação que já sentia meu corpo querendo se liberar ao mínimo toque mais bruto de Santiago.

“Eu deixaria você seguir no comando, mas-“

“Mas você tem assuntos mais urgentes do que foder sua bonequinha, então tratem de colocar a merda das suas roupas e virem logo para a outra cabine.” Alguém o interrompeu.

Meu coração saltou à garganta ao escutar uma terceira voz no quarto. De olhos arregalados, virei a cabeça para a porta enquanto Santiago bufava estressado, não parecendo assim tão surpreso. Era Fajardo à porta – com suas toneladas de músculos que pareciam maiores do que os de Noel, talvez por ele ser mais baixo e entroncado –, e o homem que eu considerara mais boneca do que eu na noite anterior, Emanuel, o qual nos olhava com um brilho de diversão maliciosa em seu único olho azul.

“Você não chaveou a porra da porta?” Perguntei, pensando que qualquer um poderia ter entrado na merda da cabine quando bem desejasse, como justamente acontecera. Ser flagrado naquela posição não tinha nada de agradável ou divertido, como a expressão da Víbora Cinzenta dava a entender.

“O que fazem aqui tão cedo?” Santiago perguntou, jogando o lençol sobre mim e se levantando em busca de suas calças. “Eu falei uma hora após o nascer do sol. E não quinze fodidos minutos depois.”

Eu levei minha mão à testa, bufando baixo enquanto Santiago se vestia, e perdi a aproximação da Víbora Cinzenta – o que me rendeu um susto quando ele tocou meus cabelos. Olhei para ele, vendo-o sorrir pelo canto superior do lábio.

“Muito pode acontecer em quinze minutos...” Ele comentou e sorriu, de um modo que me causou um arrepio. Era um sorriso desagradável o dele, pois alegria era a última coisa que transmitia ao mostrar os dentes. “Deveria ir conferir como o seu melhor amigo está, meu caro. Vamos precisar dele em nossa reunião.”

“James?” Perguntei, aturdido. Como ele sabia que James era meu melhor amigo? Na verdade muitos achavam que ele era algo como meu ex-amante, por culpa do beijo que havia me dado em frente a ingleses e piratas. Quando pensava nisso me sentia culpado – eu seguia ignorando a declaração que ele fizera, e ainda agira como uma cadela no cio na noite anterior. Ah, desonra.

“James Hawkesworth,” Ele pareceu deliciar-se com o nome. “Quem mais?”

Olhei para Emanuel achando-o definitivamente louco, e não consegui imaginar aquele rosto, de alguém que parecia ter a minha idade, e não vinte e sete anos, sendo assim tão sanguinário e temido. De perto, percebi que ele não era assim tão ‘boneca’, era mais alto e mais forte do que eu – para minha infelicidade, pois gostaria de me sentir mais forte perto de pelo menos um capitão pirata daqueles mares sem lei.

“Já chega. Saiam do quarto, e você tire as mãos de cima dele.” Santiago demandou, segurando o pulso de Emanuel. A expressão da Víbora Cinzenta mudou por completo, e aquele olho azul encheu-se de uma irritação contida que não parecia caber dentro de um único orbe. Mas quando falou, sua voz continuava igualmente acetinada.

“Não estou interessado na sua muñeca pelirroja, Santiago. Não seja tão desconfiado, ou começarei a achar que não confia em mim.” Ele ergueu as sobrancelhas em provocação, e Santiago sorriu sem humor para ele, soltando-o quando Emanuel puxou o braço.

“Confio em você tanto quanto confio na capacidade de Fajardo em limpar o cu com a própria língua.” Santiago respondeu seco, mantendo o ar sério, mas ligeiramente debochado.

Fechei minha mão e a usei para abafar a risadinha que quis sair-me pelo nariz, mas me recompus rapidamente, erguendo uma sobrancelha ao notar a olhar da Víbora Cinzenta sobre mim.

“Estarei com vocês em alguns minutos.” Santiago avisou, dispensando-os.

Fajardo bufou qualquer coisa, assemelhando-se a um touro irritado, e Emanuel o seguiu em seguida, ainda lançando um olhar afiado para Santiago. Eu sentia que a tal reunião não fluiria facilmente. Quando a porta se fechou, encarei Santiago, vendo-o passar a mão pelos cabelos negros, mais compridos do que quando havia me raptado, necessitados de um corte.

“Deveria ter chaveado a maldita porta.” Falei assim que estávamos sozinhos. Me levantei também da cama e fui até uma bacia de prata com água para lavar o rosto e me livrar com um pano do sêmen ressecado ainda grudado no corpo. Minha pele implorava por um banho, mas ao que parecia isso teria de esperar já que Santiago tivera de inventar de marcar uma reunião tão cedo pela manhã.

Resmunguei ao ser abraçado por trás, ainda nu, usando apenas meu anel de caveira Zain (era estranho lembrar que ele tinha um nome), enquanto tentava alguma espécie de higiene.

“Era eu quem deveria estar irritado. Eles viram coisas que pertencem somente a mim.” Santiago murmurou no meu ouvido e desceu a mão por meu abdômen para agarrar meu falo. Gemi consternado com aquilo e segurei seu pulso, tentando afastá-lo. Comecei a entender que seus assédios aumentariam preocupantemente dali em diante.

“Pro inferno que isso te pertence. E pare com isso.” Sussurrei, como se alguém pudesse nos escutar. “A porta ainda está destrancada, e eles estão nos esperando...” E ainda tenho de ir atrás de James, pensei, mas não seria muito inteligente tocar no nome de James quando Santiago estava com a mão no meu pau. Apoiei a outra mão na parede e me inclinei um pouco para frente, com um suspiro sofrido e o maldito fogo me tomando o baixo ventre.

“Vou ao menos terminar o que comecei antes de ser interrompido.” Santiago segurou firme minha cintura e beijou a região de meu ombro, roçando a barba por minhas costas e deixando minhas pernas bambas, algo que Santiago certamente percebeu junto a uma risada divertida; malditas pernas. “Eu já não vejo a hora de repetir a noite passada...” Sussurrou. “Quando isso–“ Ele se pressionou contra a minha bunda, deixando-me sentir sua virilidade. “Se acostumar com um homem, eu não vou mais te deixar dormir depois que o sol sumir no horizonte.”

Que poético. Debochei mentalmente.

“Quando isso se acostumar com um homem, eu vou dormir o quanto eu quiser, não importa o quanto isso–“ Mexi o quadril para roçar mais membro duro dele. “Esteja necessitado.”

Santiago riu contra minha orelha e apertou-me mais contra si. Eu gemi com a mão dele trabalhando habilmente em meu pênis e, para minha infelicidade, pude ver meu rosto afogueado e marcado de tesão refletir-se na água e na prata da bacia. Quis afundar meu rosto ali dentro, e quase o fiz quando gozei com um grito grave que Fajardo e Emanuel certamente teriam escutado.

XxX

“Então vocês realmente fizeram?” Nena soltou um risinho alegre e saltitou ao meu lado, parecendo-se com uma criança travessa que ganhara o doce do dia. “E eu que já começava a pensar que Santiago havia perdido algo entre las piernas.”

Eu poderia me irritar com ela por já ir perguntando isso logo cedo pela manhã, sem nem ao menos dar-me bom dia, mas era impossível ficar brabo com Nena quando ela falava essas coisas sobre o Santiago.

A bucaneira conseguia aumentar meu bom humor.

Havia encontrado com ela logo depois de descer do Labareda. Ela e Reno participariam da reunião também, assim como Samuel Champoudry, o imediato do Caveira Cinzenta – navio da Víbora Cinzenta –; Charles Howard, imediato do Rosa Negra; Francis Farias que era primo de Fajardo, e por fim James e o imediato do Tigre Imperial, Dario Ward, que também teríamos de encontrar.

Nena explicara que ela enfim contaria tudo que vira em sua visão sobre Chagres, e decidiríamos como seria o ataque, a divisão dos lucros, e os papéis de cada um naquela loucura. Eu estava nervoso com a proximidade daquela primeira ‘missão’, mas já estava por demais envolvido para deixar que meu medo me impedisse de continuar. Irei até o fim, disse a mim mesmo, ainda que para isso tivesse de me enfurnar numa cabine com três capitães pirata difíceis de lidar.

“Nós fizemos...” Admiti para Nena, esperando que ela não notasse o rubor em minhas bochechas. “Eu não quero nem ouvir o que os piratas vão falar sobre isso ao longo do dia de hoje.” Suspirei num lamento.

no dia de hoje?” Nena perguntou inocente, recebendo um de meus olhares atravessados. Ela ajeitou o chapéu na cabeça e deu de ombros, despreocupada.

No te preocupes. Eles não são tão criativos quanto parecem. Se limitarão a juntar muñeca com todos os adjetivos pejorativos que conseguirem imaginar.” Explicou com uma risadinha disfarçada, e imaginei que eles já haviam inventado alguns noite passada, depois que Santiago levou-me para fora do bar a tiracolo. “E o vocabulário deles não é dos mais extensos.”

“Que reconfortante.” Murmurei, sarcástico.

“Precisa contar-me o que aconteceu enquanto estive no Rosa Negra. Fiquei sabendo de tantas coisas! Do que Jaima, aquele gordo putano tentou fazer, e de como agora lambe tuas botas por tê-lo poupado da ira do Santiago, O Terror dos Mares.” Ela usou o apelido com um ar debochado antes de continuar: “Da tempestade e de como foi burro e se jogou atrás do Terrence, mas depois foi salvo pelas sereias. Sereias! Se vi alguma até hoje, devo ter confundido com um peixe crescido e com tetas!” Ela exclamou, empolgada. “Isso sem contar sobre esse teu amigo James e tua irmã Helena, e do beijão que você ganhou dele na frente do Santiago. A la putcha que ele ainda está vivo, Santiago está ficando frouxo!”

“Se ele matasse James, eu dava um jeito de convencer Jack Barbatana a atirá-lo aos tubarões.” Afirmei, tentando soar como se fosse mesmo capaz de uma façanha dessas. Jack era um tipinho complicado de lidar, e se falava mais do que três palavras por dia, era muito.

“Parece-me que perdi uma vida de acontecimentos.” Nena resmungou, chutando uma pedra no caminho.

“Falando assim, parece que perdeu mesmo.” Passei a mão pelos meus cabelos, desejando poder lavá-los ao senti-los embaraçados, também me sentindo impressionado por tudo que se passara em tão pouco tempo. O sol da manhã era ainda fraco, porém machucava meus olhos claros, e eu os apertava enquanto caminhávamos os últimos metros até o Tigre.

Minha vida na Inglaterra parecia-me espantosamente distante.

“Os piratas parecem já ter contado toda a fofoca por mim.” Comentei.

És verdad. São muito fofoqueiros.” Ela assentiu, pomposa, como se ela também não houvesse passado a noite inteira fofocando com eles. “Mas e Santiago? Caiu de amor amor por ele?”

Eu me engasguei com saliva e ainda pisei em falso, precisando parar para me recompor. Ela parou também, encarando-me com as sobrancelhas erguidas e as mãos apoiadas no cinto grosso que lhe estreitava a cintura magra. Recordei do exato momento na noite anterior em que havia percebido estar apaixonado, e meu rosto ardeu novamente, provavelmente deixando claro à bucaneira qual era a resposta para sua pergunta.

Nena sorriu de leve, condescendente.

Yo no sei exatamente como anda a relação de vocês agora, mas eu sinto que Santiago se importa com você como poucas vezes vi ele se importar com alguém. Também ouvi do Reno o quanto ele ficou enciumado por causa desse James, e ele nunca foi do tipo ciumento, ou ao menos não de deixar esse ciúme óbvio para quem quisesse ver... Isso talvez queira dizer alguma coisa, no te parece?” Perguntou, com um sorriso serpenteando pelos lábios pequenos que umedeceu junto a uma piscadela.

“Eu não sei o que exatamente se passa comigo, ou pela cabeça do Santiago, e prefiro não pensar sobre isso. Isso de... Paixão e amor são coisas... Estranhas para mim. É melhor apenas seguir a maré e aproveitar enquanto ainda estou vivo.” Desconversei, mas era inevitável sentir uma fisgada no peito ao saber que Santiago nunca demonstrara tanto ciúmes. Nem mesmo com Giulio, o pensamento me atravessou antes que eu pudesse refreá-lo.

“Falou como um autêntico pirata!” Nena exclamou, dando um soco um tanto empolgado demais no meu braço. O massageei com uma careta quando ela voltou a caminhar. “Às vezes a gente não consegue imaginar o que se passa na cabeça de alguém, ou até mesmo na nossa, mas está tudo lá... Há tanto tempo que nem percebemos em que momento surgiu.” Ela comentou distraidamente, perdendo por um momento o olhar no horizonte.

“Está se referindo a você e Fradique?” Perguntei, reconhecendo certo ar apaixonado que já vira em muitas moças, e sorri ao notar as maçãs do rosto de Nena enrubescerem, traindo-a como as minhas costumavam me trair.

“Nós dois também.” Ela murmurou acanhada, e deu-me mais um soco no braço no exato ponto em que batera antes.

“Outh! Isso vai deixar um roxo, mulher.” Reclamei, sentindo meu braço latejar. Nena tinha mais força nos bíceps do que deveria ser permitido a uma mulher, e uma mulher pequena!

Mas ela não se compadeceu.

No sejas dramático. Deve ter levado pior na bunda noite passada!” Exclamou com uma risada escandalosa, antes de correr gritando por cima do ombro que iria atrás de Dario Ward, para poupar-nos tempo. Ordinária, pensei torcendo os lábios antes de pular para a prancha do Tigre Imperial e subir ao convés.

Fui para o castelo de popa e parei à porta dos aposentos de James, se é que seriam os mesmo que usava antigamente. Bati de leve, esperando por alguma resposta, e quando estava quase decidindo entrar por mim mesmo, ele abriu a porta, olhando-me por um momento com a expressão séria antes de afastar-se, voltando para o interior do quarto. O segui e o observei sentar-se na cama e continuar a calçar as botas de couro marrom. Notei um corte fino e raso que tinha na bochecha, avermelhado, e outro na mão. Fiquei preocupado que houvesse se metido em alguma briga na noite anterior, mas achei melhor não perguntar sobre aquilo naquele momento.

“Há uma reunião.” Foi tudo que consegui dizer. James carregava uma aura negra ao seu redor, algo que eu nunca havia visto antes; até a maneira com que calçava as botas parecia repleta de ódio, e eu não sabia como agir perante aquilo, pois me perguntava se eu era o culpado de seu mau-humor. E doeria se a resposta fosse afirmativa.

O que ele me deu foi silêncio após calçar as botas e deixar as costas caírem contra o colchão, mantendo o olhar pregado no teto.

“Eu devia pegar meus homens e partir, com ou sem você, tendo prometido ou não, todo esse envolvimento com piratas não é saudável, ou certo. Sinto que estou prestes a me transformar em um ladrão, um traidor. Se é que já não me transformei em um...” James murmurou num tom baixo e rouco, antes de tapar os olhos com o braço.

Eu caminhei até a cama e me sentei ao seu lado, deitando-me também, e ficamos os dois observando o teto por um momento, eu com roupas de pirata, e ele com o uniforme da marinha inglesa. Eu não sabia por onde começar, então comecei pelo que era mais recente.

“Me desculpe.” Murmurei após alguns segundos tomando coragem. “Por ter te dispensado ontem à noite, depois de todas as vezes em que me carregou para casa quando fiquei bêbado demais para usar minhas próprias pernas.” Eu suspirei, tentando encontrar as palavras. “Eu queria poder explicar tudo que se passou desde que eu fui raptado.”

“Você pode.” James murmurou. “Mas eu não sei se suportaria escutar a maneira como acabou se envolvendo com aquele patife do Santiago. Meus sentimentos atrapalham meu julgamento, mas você ao menos deveria ter em mente o quanto tudo isso é errado, e uma loucura. Uma verdadeira loucura...” Disse, consternado. E eu sabia que era, mas então era a minha loucura e eu não tinha como deixá-la para trás, ela entrara na minha mente e criara raízes, me modificara, e tentar arrancá-la deixaria um rombo irreparável em um, ou vários lugares dentro de mim.

“Eu não sei como lidar com isso, James. Eu não quero te magoar, mas mesmo que tenhamos nos beijado aquela vez, eu sempre te vi como um irmão mais velho. Quando criança eu me inspirava em você, te admirava. Depois tentava conquistar todas as garotas para conseguir me igualar às histórias de conquistas que você me contava. Sentia que nunca conseguia, pois você sempre estava três anos à minha frente.” Sorri de leve, comigo mesmo. “Comecei então a beber mais do que podia porque você conseguia disputar e ganhar de todos os nossos amigos, e eu queria conseguir também. Nós aprontávamos juntos, entrávamos em festas de penetras, levávamos a filha da anfitriã conosco para longe do próprio aniversário, brigávamos em bares e entrávamos sem permissão em camarotes de teatro para conhecer as bailarinas, e eu entendia o que era ter um irmão para compartilhar momentos e histórias.” Me virei, erguendo-me e apoiando uma mão no colchão. “Eu te amo, mas de uma forma muito similar a que amo Helena, por exemplo.”

Ele demorou a responder.

“Você tem ideia de como eu fiquei quando seu pai retornou e deu notícia de que você havia sido capturado?” Ele perguntou, amargurado, e destapou os olhos. “Como você acha que eu me sinto com tudo isso? Como me acha que me sinto tendo vindo até aqui para escutar que sou apenas seu irmão?” Sentou-se na cama e agarrou forte meu braço, assustando-me. “Por favor, vamos embora. Helena também está se deixando envolver com um pirata, e eu não suporto isso. Não suporto a maneira como todos esses fora da lei acham que podem controlar nossas vidas e decisões! Vamos embora antes que seja tarde...”

“James, eu já lhe disse.” Me levantei, fugindo de seu ataque de desespero. “Eu tenho promessas a cumprir! Por que continua a agir como se minhas palavras fossem vento?” Perguntei voltado para ele, e justamente isso pareceu acertar James como um soco. Franzi as sobrancelhas ao ver seu rosto amorenado perder a cor, enquanto seus lábios se entreabriam. “James?”

Ele se levantou e, alcançando a parede mais próxima, socou-a com uma intensidade que pareceu estremecer todas as vigas do aposento. Um arrepio me assaltou a nuca, e eu observei perplexo ele se virar e apoiar as costas à parede, segurando a mão que sangrava, com a pele esmagada no punho.

“Você enlouqueceu?” Perguntei, preocupado com o machucado, mas ele me mandou parar quando tentei me aproximar.

Olhou-me de maneira fria.

“Você já se deitou com ele? Deixou ele usar o seu corpo?” Perguntou, numa acusação que me impediu de sustentar o olhar. Olhei para o chão, sentindo-me vermelho com uma chama de vergonha. Era difícil admitir para terceiros ainda, e era difícil admitir para alguém importante que me condenava com um olhar tão agressivo. “Deixou ou não deixou, Dominic?” Ele praticamente gritou.

“Deixei!” Exclamei em retorno, também ganhando irritação na voz. “Deixei! Era o que eu queria! Queria sentir como era ser de outro homem!” Disse sem pensar, por culpa da confusão e mágoa que cresciam em mim, e um rubor me subiu desde o pescoço. Eu sabia que ele também estava magoado e que falar aquelas coisas apenas pioraria o que já estava desgastado; mas eu não sabia o que deveria fazer. O que ele queria de mim, eu não podia dar, nem poderia simplesmente voltar com ele para impedir que sofresse, mesmo que não quisesse vê-lo daquela maneira.

James deixou a cabeça bater contra a parede e fechou os olhos, soltando um xingamento. Lágrimas começaram a escorrer silenciosas pelas laterais de seus olhos, e eu senti como se alguém me sufocasse com uma força implacável. Aproximei-me dele mesmo que ele não quisesse e o abracei, até mesmo esperando que me afastasse com raiva; porém sua mão saudável posou suavemente em minhas costas e, além do alívio, senti-me a pior das pessoas.

“Perdão.” Falei, num sussurro. “Estou exigindo demais de você, pensando que é como antes, quando na realidade muita coisa mudou. Eu não vou pedir que me ajude se isso te faz sentir um traidor. Talvez fosse melhor... Que você e Helena voltem para Inglaterra e informem ao meu pai que estou bem, que algum dia eu... Talvez volte.” Falei próximo ao seu ouvido, cuidando o tom para que ele não pensasse que eu estava simplesmente mandando-o embora porque assim seria mais fácil para mim. Eu queria justamente que ele fizesse o que achava que era o melhor para ele.

“Não.” Ele afirmou num murmúrio decidido, tendo o rosto parcialmente escondido em meu pescoço. “Eu vou ser sincero e dizer que tinha planos de te levar de arrasto talvez até antes de invadirmos Chagres.” Admitiu sussurrando culpado, e eu arregalei meus olhos, sentindo-me ingênuo por não ter percebido isso.

Ele havia de fato aceitado ajudar-me rápido demais, considerando todos os fatores que, eu sabia, eram chocantes e estranhos para quem não vivera e vira tudo que eu vi, para quem não tinha um anel no dedo que o conectava a algo maior e até mesmo inexplicável; porém isso não impediu que eu me sentisse em parte traído.

Areia pareceu ser jogada em meus olhos, e mordi o lábio com força, segurando-me para não derramar nenhuma lágrima quando ele me afastou e acariciou meu rosto com a mão que estivera em minhas costas, olhando-me sério; mas de um modo mais ameno do que antes, e também culpado, tão confuso quanto eu. Fitando todo o tormento de seus olhos acastanhados, aos poucos compreendi que aquilo não era fácil para ele, e que eu agira de modo egoísta ao empurrar aquele fardo para suas costas, mas nem eu, nem ele, éramos perfeitos.

James suspirou, com a mão terna ainda em meu rosto.

“Mas eu ainda sou seu irmão, para além de amigo, e vou provar que minhas palavras não são vento. Eu havia dito que iria ajudar... E isso é uma promessa.” Beijou-me a bochecha e voltou a me abraçar, agora apertado, com ambos os braços. “Eu vou esperar você ver que aquele pirata não presta, e então voltaremos juntos para Londres, nosso lar...” Assegurou, com tamanha certeza que não fui capaz de discordar e magoá-lo ainda mais num único dia. “Mas antes, temos uma reunião para atender.” Eu assenti, sabendo que por hora havia coisas maiores à nossa frente.

Quando chegamos em frente ao Labareda, subimos juntos para encontrar os três talvez mais temidos capitães piratas de nossa época e decidir como venceríamos e viveríamos, ou como morreríamos nas mãos do destino.

Eu não havia dito nada a James, porém no fundo eu sabia...

Londres talvez já não fosse meu verdadeiro lar.

XxX

Notas finais
NOTA MUITO IMPORTANTE: até por isso a estou colocando aqui. LEIAM o extra do James: http://fanfiction.com.br/historia/293168/Mar_De_Fogo_-_Extras/capitulo/4. Ficou legal, eu acho, e... É importante para a história. Quem havia se interessado pelo Emanuel, também irá gostar de ler! Aliás, leiam todos os extras. Eu escrevo para vocês, amores, com coisas a mais da história, detalhes interessantes, que o Dominic não tem como saber e contar para vocês. Nem metade de quem lê aqui, lê os extras, e eu gostaria que mais gente desse atenção para esse outro lado da história, afinal, é algo para vocês. :) Segundo, eu sei que esse capítulo ficou sem grandes acontecimentos, mas o capítulo em si está dividido em três partes, essa foi a primeira. Queria também divulgar o ask dos personagens, o meu ask e meu twitter! Sempre esqueço de divulgar isso, mas eu realmente amo quando vocês me fazem perguntas lá, para mim, ou para os personagens, é muito divertido! E no twitter tentarei colocar como vai o andamento das histórias: http://ask.fm/MiiiiilaB http://ask.fm/MarDeAreia https://twitter.com/MiiiiilaB Pra finalizar, eu estava cá mexendo no meu computador, quando me deparo com uma imagem que uma amiga minha me enviou um dia, e pensei: "Mas é exatamente como imagino o corpinho do Dominic!", e quero compartilhar (atenção, nudez!): http://farm4.staticflickr.com/3815/8924409399_b26ddf59aa_o.jpg (OLHEM ESSA BUNDA! #morta. Coloquem uns cabelos ruivos e é o Dominic encarnado, kk!). Enfim, é isso, MUITO obrigada a todo o carinho que vocês me deram no capítulo passado, eu fiquei muito contente mesmo, e muito aliviada por terem curtido a lemon! Quando eu finalizar a primeira "parte" da história, irei fazer outro áudio para agradecê-los mais especialmente! Beijos. ♥ Obs.: A fic passou de 1000 reviews! PQP! Jamais imaginaria algo assim na minha humilde existência. Vocês realmente querem me matar, eu SEI! Seus lindos. *.*