Mar De Fogo
23 Planos e Armações Parte II
Notas iniciais
Assim que entramos na cabine ampla, destinada a negociações, meus olhos foram atraídos para as três pessoas que eu desconhecia. Um estava ao lado da Víbora Cinzenta, e supus tratar-se de Samuel. Ele tinha bonitos olhos azuis, e cabelos castanhos apenas longos o suficiente para esvoaçarem ao vento; magro e alto, passava-me a impressão de um meliante que não perderia a oportunidade de passar a perna em ninguém, e o colete que deixava seu corpo magro à mostra talvez ajudasse nessa impressão. Junto ao Fajardo, estavam outras duas pessoas, deveriam ser Charles, ou Francis, mas eu não sabia qual era qual. Nenhum se parecia com Fajardo.
Todos os olhos se voltaram para nós, expectantes, e qualquer conversa que estivesse acontecendo cessara. Apenas Nena e Dario ainda não haviam chegado, pelo que pude notar. Eu não sabia muito bem o que dizer, mas quando dei um passo para dentro, notei por sobre meu ombro que James estava petrificado à porta, como se houvesse visto um fantasma. Minha sobrancelha se ergueu ao virar-me para ele, analisando sua expressão embasbacada. Segui seu olhar, atrás do culpado pela atitude estranha, e deparei-me com o Víbora Cinzenta. Teriam os dois se encontrado e discutido na noite anterior? Teria sido Emanuel quem causara aqueles machucados no rosto e na mão de James? Isso não é bom.
“James?” Chamei baixo, numa pergunta muda. Tive de segurá-lo quando ele tentou avançar, com ímpetos de vingança nos olhos e em cada músculo tensionado do corpo, em direção ao capitão da Caveira Cinzenta, que continuava graciosamente sentado numa das cadeiras ao redor da mesa em que um mapa de Chagres e da região repousava. A Víbora tinha um estranho sorriso de satisfação no rosto, que me causou arrepios.
“Esse homem...! O que ele está fazendo aqui?!” James exclamou, como se a presença daquele capitão fosse uma afronta ainda maior que a presença do Santiago, que se tornara insignificante. O que diabos havia acontecido?
“Ele é um dos capitães. É capitão do Caveira Cinzenta.” Informei, ainda o segurando pelos ombros, e o vi empalidecer à minha frente. “Vocês se conhecem?”
“Tivemos um agradável encontro na noite de ontem. James Hawkesworth me convenceu do plano de vocês... Hoje, eu apenas quero os detalhes e a certificação de que Chagres será meu quando o tomarmos.” Emanuel comentou, seu tom como uma brisa aveludada, e seu olho aguçado recaído sobre James.
“Pois eu ainda teria de ser convencido dessa história. Não confio em ingleses, nem no ruivo, nem em Hawkesworth.” Um dos homens que eu desconhecia disse, com menosprezo. Parecia um dos mais bem vestidos ali, para um pirata. Suas roupas pareciam novas, um lenço branco enlaçava seu pescoço e um bonito casaco longo e preto se mantinha fechado por um cinto de couro marrom largo. Deveria ter seus quarenta anos, olhos negros e sobrancelhas grossas, seu maior defeito era uma cicatriz avermelhada, mas antiga, que trespassava em diagonal seu rosto hígido e barbeado.
“Charles, já conversamos sobre isso. Primeiro, eu quero escutar tudo. Depois tomarei minha decisão.” Fajardo disse, e parecia mais sóbrio e calmo que o normal, porém sua calma era sombria, como se algo o amargurasse até as profundezas da alma, deixando-o taciturno e supostamente manso. Eu não acreditaria nesta fachada. Charles, o imediato do Rosa Negra, resmungou baixo e cruzou os braços, mantendo-se em silêncio.
Isso fazia com que o garoto de aspecto desagradável, olhos arroxeados, como se houvesse levado um soco em cada um deles, lábios azulados e grossos, pele castigada de sol e longos cabelos castanhos enrolados fosse Francis Faria. Eu apenas achei que ele deveria seguir o exemplo de Charles e se barbear, livrar-se do bigodinho e da barbicha que mais se pareciam com tufos de sujeira, e quem sabe começar a se alimentar direito para acabar com aquele ar de doença que carregava.
Nesse momento, Nena e Dario apareceram. Dario ria de algo que a bucaneira dizia, e apareceu atrás de nós ainda sorrindo da forma que eu me lembrava – parecendo-se com um boneco de sorriso falsificado, apesar de que esse era seu sorriso verdadeiro. Dario era mais amigo de James do que meu, um tipinho alegre, mas responsável, de origem mais simples, que estudara com James para também ser navegador. Seus cabelos quase alcançavam os ombros e eram castanho-cacheados, e seu queixo era grande e proeminente, o que exaltava seu sorriso largo. Vestia-se como um legítimo Imediato inglês: longo casaco azul com botões dourados, colete dourado e camisa com babados.
“Todos estão aqui. Acho que podemos começar.” Santiago pronunciou-se, sua voz com a autoridade de sempre. James, ainda parecendo queimar em contrariedade, sentou-se junto com Dario, que me deu um tapinha no ombro ao passar por mim. Emanuel estalou os lábios, mantendo seu sorrisinho sinistro. Nena e eu fomos para junto de Santiago e Reno, e um silêncio pesado inundou a cabine como água salgada em um navio afundado.
“Eu, Emanuel e Fajardo já conversamos no dia de ontem.” Santiago tomou a palavra, interrompendo aquele silêncio sufocante. “O plano é simples, mas pode evitar um confronto direto, sangrento e de poucas chances de vitória. Se uma comitiva inglesa, com alguns piratas disfarçados, entrar em Chagres como convidada e abrir os portões internamente, poderemos invadir com a vantagem de um ataque surpresa ao nosso lado. Isso fará com que os três mil soldados do forte não sejam um problema. O único problema é que não temos certeza de que não seremos traídos.” Santiago olhou para James, deixando claro em sua expressão perigosa, e carregada como uma arma, o quanto não confiava ou gostava dele.
“Se os ingleses contarem tudo para os homens de Chagres, eles que terão a surpresa ao seu lado.” Charles falou, sério e insatisfeito. “Que garantia temos, James Hawkesworth, que não irá nos trair?”
As atenções voltaram-se para James, e percebi que o olhar dele continuava cravado em Emanuel, como uma estaca. Não entendia aquela animosidade. Pensei em falar em favor dos ingleses, mas o Víbora Cinzenta tomou a palavra primeiro.
“Eu garanto por ele. Mas, claro, também gosto de certezas concretas. Para isso, manteremos a bela Helena como prisioneira, assim como alguns dos ingleses. Se formos traídos, mataremos todos.” Emanuel sorriu viperino, e eu senti um enjoo na boca do estômago.
Chamei a atenção para mim.
“Ninguém encostará um dedo na minha irmã.” Deixei bem claro.
“Então deveria morrer junto, meu caro, já que o plano é ideia sua, assim como confiar em James Hawkesworth. Parece-me bastante razoável, não é mesmo, Santiago?” Emanuel olhou com uma diversão crua para Santiago, esperando pela resposta à sua provocação.
A mandíbula do Santiago pareceu contrair-se, mas então ele assentiu.
“Parece-me justo.” Disse, para minha completa indignação. Eu volvi o olhar para ele, perplexo, sentindo meu peito rasgar, principalmente após ter-me entregado a ele na noite anterior, mas Santiago me olhou de uma forma que me calou, exigindo que confiasse nele. “Porém Dominic entrará em Chagres. Quero também Nena, Reno, Fradique e Garuda nessa comitiva, e mais um homem a escolher. Acredito que cinco ou seis homens por capitão será o suficiente.”
James acabou por se levantar.
“Minhas palavras não são vento.” Ele disse da maneira mais séria e cortante que eu poderia lembrar, olhando diretamente para Emanuel, o qual pareceu deliciado com tais palavras. “Não irei traí-los, porém exijo liberdade total, minha e de meus homens, após Chagres, se formos bem sucedidos. Serei um traidor, e não poderei voltar à Inglaterra tão cedo; porém ainda exijo minha liberdade nessas águas.”
“Você a terá, desde que se mantenha bem longe de nós.” Santiago falou, e detectei em seu tom aquele estúpido ciúme. Ele queria James bem longe de mim. Perguntei-me o que seria de minha irmã, mas como ela não teria envolvimento em nada daquilo, eu poderia mandá-la de volta para Inglaterra, assim que achasse um meio seguro para tal.
“Para mim, tudo parece bastante razoável.” Samuel falou, e seu tom pareceu-me o de um nobre decidindo se um criminoso iria ou não para forca. Algo que beirava a hilaridade, considerando que ele era um pirata, Imediato do capitão com a maior fama de sanguinário sádico. “Escolheremos o cinco homens nossos para a nossa comitiva. Mas como faremos esse ataque surpresa?”
“Invadiremos pela frente, mas inicialmente pela entrada dos paredões de Chagres. Há uma entrada escondida ali por trás, você deve conhecê-la, Demônio Branco.” Nena dirigiu-se ao Emanuel. “Ela é usada por serviçais, que buscam água no poço e frutas das árvores que crescem pelo rochedo. É pouco usada. Como a maior guarnição da Chagres não fica atrás, mas na frente, teremos uma vantagem ainda maior. Se parte de nossos homens contornarem Chagres na calada da noite e entrarem na calada da noite por essa entrada, que será aberta por nós, internamente, poderemos dominar a região central do forte e subjugar o governante antes mesmo que os portões frontais sejam abertos.”
“De fato, me recordo desta entrada.” Emanuel tirara uma adaga do bolso, e agora acariciava o fio afiado com uma delicadeza que me deu arrepios. “Concordo com o plano. Minha parte em nosso sucesso será Chagres, e parte do saque, como discutimos ontem.”
“Uma parte menor, pois já ficará com todo o forte.” Fajardo lembrou-lhe, e Emanuel lhe torceu os lábios em um sorriso zombeteiro. “Eu quero apenas o saque. Nada mais nesse forte me interessa, além da fortuna e da glória. Preferia tomar o lugar à força bruta, mas acatarei o plano. De minha comitiva, quero Charles, Jacob, Telfer, Sharkwater, Aygon e Aramis. E quero que meus homens contornem o forte e entrem primeiro. Aceito outros comigo, mas quero essa honraria.”
“Essa honraria, Tormento que Navega, ou a chance de tomar Chagres inteiro apenas para si?” O Víbora Cinzenta perguntou e se levantou, apontando a adaga para Fajardo. “Não confio em você, monstrengo. Se nos trair, irei pessoalmente rasgar-lhe o pescoço com essa adaga, e terei prazer em usar teu sangue como tempero para o almoço de meus cachorros antes de jogar seu corpo ao caixão de Davy.”
Com a convivência, eu havia descoberto que ‘caixão de Davy’ era a forma que os piratas se referiam ao fundo do oceano, e a expressão ‘levado a Davy Jones’ significava ‘morrer em alto mar’. O tal Davy era uma lenda temida por muitos e, após ver sereias e experimentar os poderes de um anel mágico e macabro, eu não duvidaria, nem tiraria sarro de mais nada.
Fajardo ergueu-se também, parecendo diminuir à metade o tamanho da cabine com seu corpo enormemente musculoso.
“Tem coragem de me ameaçar dessa forma, Demônio? Eu quem deveria estar fazendo essa ameaça, você é o menos confiável de todos nós. Quando foi a última vez que cumpriu um acordo? Nem mesmo em Tortuga é bem-vindo.”
“Primo, acalme-se.” Francis pediu, num tom que lembrava o de um doente, tanto quanto sua aparência.
Eu achei que uma briga teria início, e todos nós teríamos de interferir, alguém sairia machucado e o plano iria por água abaixo, no entanto, Emanuel riu, jogando a cabeça para trás enquanto seu peito e ombros moviam-se graciosamente acompanhando sua diversão.
“Quem sabe o que o futuro aguarda. Isso me excita.” Ele sorriu diabólico. “Se formos traídos pelos ingleses, foderei e torturarei Helena até cansar-me. Se Fajardo nos trair, matarei Madalena e destruirei o Rosa Negra. Agora, se eu os trair, tenham certeza de que não estarão vivos para buscar vingança.” Ele se dirigiu para a saída. “Samuel, ouça o resto dessa ladainha, eu não tenho outros assuntos a tratar, e estou cansado dessa cabine quente.”
“Aquele arrogante filho da puta.” James rosnou rangendo os dentes, parecendo querer ir atrás da Víbora para tirar satisfação. Dario o segurou, tentando transmitir-lhe calma. Parecia-me que o papel dos Imediatos naquela reunião era segurar os ânimos de seus capitães. Mas eu era Imediato, e estava me correndo de vontade de ir esgoelar Emanuel pela ameaça à minha irmã.
“Vamos terminar de pensar nos detalhes. Por favor, perdoem meu capitão. Ele às vezes é demasiadamente impetuoso e voluntarioso.” Samuel Champoudry disse pomposamente, e suas maneiras e trejeitos garbosos eram por demais estranhos para um pirata. Ele parecia um enigma sem solução, assim como Emanuel. “Quero lembrar-lhes que Emanuel sempre cumpre seus acordos, seus métodos de fazê-lo é que desagradam a alguns...”
“Não adianta pensarmos em traições agora. Já estamos todos aqui, concordamos com os termos. Agora só nos resta agir.” Santiago disse, prático. Não parecia irritado com a atitude de Emanuel, e me perguntei se ele seria sempre daquela forma, de tal modo que alguns já haviam se acostumado, apesar de também ficarem insatisfeitos com aquelas maneiras.
“Temos de decidir que horas agiremos, o que faremos com os reféns, e até que ponto estamos dispostos a ir uma vez que o plano falhar e James e os outros forem mantidos reféns.” Nena apontou. “Se o plano falhar...”
“Não irá falhar.” Eu disse com toda a certeza do mundo.
A partir daí, foram apenas especulações, algumas brigas, discussões sobre detalhes do plano, e muita tensão. Quando terminamos, já se ia boa parte da manhã, e eu me sentia exausto, de modo que, se Santiago tentasse me agarrar novamente naquele dia, ele levaria um chute nas bolas. Porém tínhamos um plano e um acordo, e eu tinha um papel a cumprir.
O mais sério e, talvez, o último de minha vida.
XxxX
Eu busquei por alguns momentos de paz, e os encontrei sob alguns rochedos que avançavam um pouco para o mar, numa espécie de escarpa. Caminhei pelas rochas, ouvindo o som das ondas batendo com violência contra aquela barreira, e sentei-me na borda de uma, pondo-me a observar o mar. Algumas gaivotas pescavam mais à frente, abocanhando com os bicos longos alguns pobres peixinhos desavisados. Pensei na injustiça da vida, e na lei dos mais fortes prevalecendo sobre os mais fracos.
Preciso ser forte. Preciso sobreviver. Pensei e me remexi e, para minha infelicidade, meus fundilhos latejaram de dor. Gemi contrafeito, buscando uma posição mais confortável. Retribuir o Santiago com muita dor por isso e pelo excruciante momento inicial do sexo ainda estava na minha lista de afazeres. No topo dela, para ser bem sincero.
Eu tinha tanto na cabeça. Tanto para pensar, tanto para me preocupar. Havia Helena e James, e eles sequer sabiam sobre o anel em meu dedo, os poderes e a responsabilidade que me haviam sido destinados sem que eu pedisse. Havia Chagres, e havia toda a vingança do Santiago. Até onde isso iria? E quando eu voltaria para casa? Eu queria voltar? Eu sentia saudades, eu não podia negar, porém ao mesmo tempo me sentia tão ligado àquilo tudo. Quando parava para pensar, me surpreendia com o quão facilmente eu havia aceitado jogar-me de cabeça naquela história.
Seria por influência do anel? Da minha experiência de quase morte? Ou seria mais um dos meus caprichos, como os que eu iniciava em Londres, de forma imprudente, e levava até as últimas consequências por pura teimosia? Seria por Santiago? Eu ri disso.
“Eu deveria odiá-lo...” Murmurei, ganhando certa irritação. “E de fato eu o odeio... Mas não como antes.” Suspirei por estar falando sozinho e baguncei meus cabelos, apertando também um pouco minha testa. Voltei a olhar para o mar, com uma expressão perdida como meus pensamentos atordoados, e peguei a luneta que havia ganhado de presente.
Ao levá-la aos olhos, me surpreendi por ver uma sereia. Abaixei-a, e não havia nada. Levando-a novamente aos olhos, lá estava a sereia de aspecto doentio. Eu me levantei e comecei a caminhar por entre as pedras, descendo pela lateral da escarpa para me aproximar mais da água. Quando alcancei a última pedra, me sentindo nervoso porque ela estava escorregadia e com minha incrível sorte dos últimos tempos eu poderia facilmente escorregar, dar de cabeça na pedra e cair desacordado no mar, a sereia surgiu da água, emergindo com certa desconfiança.
“Você é o curandeiro?” Ela perguntou, e era linda. Tinha grandes olhos verdes, que pareciam absorver parte do azul do mar, numa mistura burlesca. Seus cabelos cobre cobriam-lhe os ombros magros e parte do rosto delicado.
Eu assenti para ela, ajoelhando-me.
“Posso te curar. Por favor, dê-me a mão.” Eu pedi, estendendo a minha. Eu me sentia meio estranho. Ainda me vinham pensamentos do estilo ‘estou mesmo em frente a uma sereia?’, e eu tinha vontade de rir de tudo isso, e acordar em Londres, podendo contar aos meus amigos do sonho maluco que eu havia tido. Porém ela tocou minha mão, e era carne e calor, e nenhum sonho poderia ser tão real quanto aquilo.
Com a outra mão, deslizei meus dedos pela água, sentindo-a bater com força contra a pedra e contra mim. Foi mais difícil do que eu lembrava, porém apenas porque eu não comia nada desde a noite anterior, talvez. Eu precisava me alimentar, Santiago não mentia sobre eu ter emagrecido, e eu suspeitava que já havia perdido uns cinco quilos, no mínimo.
Ainda assim, com uma vibração hesitante, sentia as forças das águas fluírem por mim, como se uma enchente me inundasse o corpo internamente, e depois escorresse vigorosamente até a sereia, que fechou os olhos, suspirando com certo deleite, enquanto sua pele adquiria um aspecto melhor, e ela parecia voltar a brilhar como uma sereia deveria. Não que eu conhecesse sereias e soubesse como elas deveriam ser, mas bem, agora ela poderia facilmente conquistar algum marinheiro e devorá-lo. A ideia me deu calafrios.
“Obrigada, curandeiro.” Ela sussurrou, com seus olhos verdes pregados em mim, muito mais vívidos e misteriosos do que antes. Por um momento, achei que ela iria me devorar, aproveitando que estava com as forças de volta. “Você deveria saber, mas a cada vez que cura uma de nós, você rouba um pouco de nosso... Θελξιόπη.”
“O quê?” A palavra me soou como um gato se engasgando com uma bola de pelos.
Ela parou um momento, tentando encontrar as palavras certas.
“Nossa... Aparência encantadora, por assim dizer. Quanto mais sereias curar, mas atrairá homens e mulheres. Poderá gerar guerras, brigas, ciúmes. Poderá morrer pela ganância e desejo dos homens. Tenha cuidado com isso.” Ela murmurou, afastando-se da rocha.
Meus olhos ficaram tão arregalados que temi que saltassem e caíssem na água, deixando-me cego. Eu tentei falar, e me engasguei com saliva. Isso não poderia ser verdade. Que diabos! Ela deveria estar-me pregando uma peça. Eu não precisava ser mais bonito ou atraente do que já era. Não quando iria viver em um navio repleto de homens por eu não sabia quanto tempo. Dione não me falara nada sobre isso! Ah, aquela cadela mentirosa, filha do capeta.
“Isso é ridículo.” Sussurrei, e percebi que ela já estava muito distante. “Hei! Volte, eu preciso-“ Tentei engatinhar para frente, tentando alcançá-la, mesmo que fosse em vão. Quase escorreguei da pedra, mas consegui me equilibrar a tempo, com o coração aos pulos. A sereia sumira por completo.
Eu desejei do fundo de minha alma corrompida que aquilo fosse uma piada de mau gosto. Ou melhor, péssimo gosto e, com esse pensamento reconfortador em mente, ergui-me e resolvi voltar para a vila. Queria encontrar-me com Helena, pois tinha muito que conversar com a minha irmã. Principalmente, queria mandar que ela se afastasse do pavão Garuda, e era bom fazê-lo antes que ela acabasse em uma situação parecida com a minha na noite anterior – para quem não lembra: gemendo nos braços do capitão pirata.
Oh Deus, impeça-me de lembrar-me disso novamente, desejei com toda inexistente sinceridade de meu coração.
XxxX
Procurei por minha irmã na estalagem em que ela e os outros ingleses foram colocados, que estava cercada por guardas piratas. Um deles, Jack Barbatana. Ele me encarou com aqueles olhos negros vazios, de aspecto entediado e impassível, seu rosto parecendo mais afilado do que nunca e sujo de algo negro, fuligem provavelmente. Eu passei por ele com um cumprimento curto e subi as escadas até o segundo andar, onde ficavam os quartos.
Encontrei apenas uma cama bagunçada onde minha irmã deveria estar.
Desci apressado, com um pressentimento desagradável nas entranhas.
“Viu minha irmã, Helena?” Perguntei ao Jack. Ele nunca falava muito, então apenas apontou com descaso em direção ao riacho que corria para o mar, próximo da vila.
“Rio.” Sussurrou.
“Ela foi sozinha?” Estranhei.
“O pássaro.” Ele disse simplesmente, com a voz mais rouca, sussurrada e estranhamente arrepiante que eu já tive o desprazer de escutar. Mesmo assim, vi-me irritado.
“E você deixou?!” Eu exclamei exaltado. Jack me encarou de uma forma tão seca e assustadora, quase como se estivesse triste por ter de me matar ali mesmo, que eu, muito sensato, apenas suspirei profundamente e corri dali, apressando meu passo em direção ao rio.
Tive de passar pela pequena mata que se interpunha entre os dois locais, mas não demorei até escutar o barulho da água e, mais distante, algumas risadas. Era uma risada feminina, que disparou o gatilho do ciúme e preocupação em mim. Como aquele maldito do Garuda tinha a cara de pau de trazer minha irmã para aquele rio, sozinha, sem meu consentimento? Caminhei pela orla do riacho, seguindo os sons, até vê-los sob uma árvore de galhos finos, mas que proporcionava uma sombra agradável.
Mas a cena que eu vi era deveras desagradável. Minha irmã ria, tapando a boca, adoravelmente sentada na grama com seu vestido espalhado ao seu redor. Garuda estava sentado ao lado dela, inclinado, beijando-lhe o decote. Se houve alguma vez na vida em que vi sangue, foi naquele momento. Pirata sujo descarado, querendo roubar a inocência de minha irmã. E não importa que me falem que ela já havia feito certas brincadeiras em Londres, com homens e mulheres, apesar de ainda virgem. Estávamos aqui falando de um pirata, não de algum inglês engomadinho de pinto encolhido, ou de uma briga de bocetas.
Eu avancei até eles. Helena viu-me primeiro e arregalou os olhos. Garuda percebeu-me apenas quando recebeu o soco que lhe desferi, após puxá-lo pelo ombro. Caiu aturdido na grama, segurando o queixo. Eu balancei minha mão. Doeu como o inferno socar o infeliz! Eu não sei se faria isso de novo. Mas não me intimidei quando ele se levantou, muito mais alto e forte do que eu – um porte físico similar ao do Santiago –, e encarou-me com verdadeira fúria.
“Dominic!” Minha irmã gritara, e agora se levantava também e segurava o braço do contramestre. Ela também me encarou com irritação, como se eu fosse o errado ali, algo pior que a ratazana que a atormentara na noite passada. “Enlouqueceste?! O que pensa estar fazendo, irmão?”
“Se eu enlouqueci? Você permite que um pirata sujo desses te toque, e me olha dessa forma quanto tento te proteger? Proteger tua honra?” Perguntei inflamado, e minhas bochechas deveriam estar rubras como meus cabelos.
“Não seja hipócrita.” Helena replicou com cinismo, seus lábios torceram de uma forma que lembrou muito a mim mesmo. “Deitou-te com o capitão Santiago noite passada, todos já sabem sobre isso, e quer vir reclamar por eu estar a relacionar-me com um pirata também?”
“Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Você é uma mulher. Minha irmã! É meu dever protegê-la!” Voltei a exclamar, e minha mão já estava sobre o cabo de minha espada presa a meu cinto. Garuda percebera esse movimento, pois seu corpo já demonstrava a tensão que o prepararia para puxar sua própria espada rapidamente, caso necessário.
“Tua irmã não precisa de tua proteção. Já é uma mulher adulta, e tem a mim.” Ele declarou, endireitando o corpo. Como um pavão, parecia estufar o peito. “Estamos apaixonados, e farei dela-“
Eu puxei a espada antes que ele terminasse, e o teria cortado caso ele não houvesse também tirado a dele e o metal das armas se chocasse no ar, espalhando pelos arredores o barulho metálico característico, que espantou os pássaros dos galhos acima de nós. De novo minha irmã gritou, mas eu a ignorei, toda minha raiva direcionada para o contramestre. Desejava cortar-lhe a masculinidade.
“Pare com isso, Dominic!” Helena gritou.
“Sabe que não pode me vencer num duelo de espadas. E não quero machucar o irmão tolo de minha amada.” Garuda sorriu com escárnio, desprezando minha raiva e o que eu poderia fazer com ela. Afastou Helena de si, dando um passo à frente e fazendo as espadas rasparem uma contra a outra como amantes sedentas por sangue. “Atacar-me é inútil agora. Tua irmã não é mais a santa que imagina. Enquanto se entregava ao capitão, eu também a tive, em meus braços.”
Meus lábios se abriram de surpresa com aquilo. Olhei para Helena, esperando que ela desmentisse aquele absurdo, mas ela apenas desviou o olhar, a cabeça baixa e as sardas disfarçadas pelo carmim de suas bochechas. Meu lado racional sabia que Garuda era melhor no uso das espadas; porém, não me deixei intimidar. Afastei-me um passo, como numa dança, e ergui a espada novamente.
Ataquei para matar.
XxxX
Nota da autora: LEIAM (tive de colocar aqui porque não cabia na parte de notas finais)!
Tenho muitas coisas para falar. A primeira é que li todos os reviews e recomendações, e pretendo responder todos os reviews. Apenas estou sem tempo, mas farei isso assim que terminar de responder outros em atraso. Agradeço por todos ♥
A segunda questão é que esse capítulo, é, na verdade, uma forma de dizer a vocês que EU NÃO DESISTI DA HISTÓRIA! Como alguns de vocês sabem, eu tenho muitas fics, e faço medicina. Meu tempo é curto, e isso poda minha inspiração. Porém eu não vou abandonar NENHUMA das minhas histórias. Ano passado escrever tanto vinha me prejudicando, e eu decidi terminar uma história por vez. Comecei com "A cor da Chuva", que terminei, e fui para "Good Riddance", que achei que seria curtinha, mas infelizmente se transformou num monstro, e ainda estou na saga de terminá-la. Porém é minha meta terminar TODAS as histórias, e já aprendi minha lição e não posto mais nada novo, nem começo nada novo. Mas entendam, já não consigo escrever com a facilidade de antigamente, quando eu tinha bem menos compromissos.
Sei que essa história fechou quase um ano de hiatus, algo que me assusta, pois passou tão rápido! Mas eu espero que eu consiga dar um gás nela logo. Peço perdão por isso, mas eu não tenho o que fazer, pois a faculdade, estudo, vida vem em primeiro lugar.
MUITO obrigada por todos que têm sido tão compreensivos! Eu me sinto péssima por dar um retorno tão baixo para vocês. Não sei quem ainda estará aqui para ler isso, e nem terei a cara de pau de dizer para continuarem me esperando, só me resta agradecer aos corajosos que continuam com paciência para me acompanhar nessa saga haha!
Beijos, com amor. ♥
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