Mar De Fogo
29 Interlúdio - Fim do Primeiro Arco
Notas iniciais
.Interlúdio.
Encontrei Dominic nas pedras, além das docas de Chagres.
Estava ajoelhado, de cabeça abaixa em uma pose de derrota. Seus cabelos vermelhos cobriam suas costas, lembrando um manto protetor. Sua imagem mexeu comigo, açoitando-me o peito. E eu, que sempre me considerei audaz, desta vez demorei a encontrar a coragem para me aproximar. Não queria vê-lo naquele estado, menos ainda por minha culpa.
Era minha culpa.
Quando vi meu irmão morto, já pálido e frio, toda a minha mente pareceu ficar em branco, apenas para ser preenchida por uma escuridão que me cegou. Não vi mais nada, até mesmo minhas pernas perderam as forças. Somente o corpo sem vida de meu irmão caçula aparecia em meio à escuridão. O destino ria de mim, julgando-me. Eu, em minha saga para vingar minha irmã e meus pais, havia deixado que meu irmão morresse.
Eu havia fracassado. Perdido uma das poucas pessoas que eu não poderia tolerar perder.
Não de novo. Nunca mais – era um trato que eu havia feito com o destino, mas ele havia me traído. Fradique, o caçula. Travesso, brincalhão, encrenqueiro. Seus olhos verdes como os de nossa mãe e muito similares aos de nossa irmã.
Morto.
Eu perdi a noção de tudo, fiquei tomado pela raiva e pela desolação. Sequer percebi que Dominic havia perdido um olho. Demônios do mar, um olho! Naquele momento eu não percebi e nem teria me importado, não frente à possibilidade de trazer meu irmão de volta. Obriguei-o àquilo, e todos que estavam lá puderam perceber o que aquilo causou nele.
Não foi algo bonito. Foi talvez a cena mais inquietante que eu já havia presenciado e, mil infernos, eu já havia presenciado várias.
Assim como Dominic havia me acusado alguns dias antes, eu havia sim destruído sua vida, exatamente como ele acreditava que Garuda destruiria a de sua irmã. Naquele dia, me irritei com a hipocrisia de suas palavras e com a maneira como via sua atual situação e nossa relação, mas agora eu percebia que elas não passavam de verdades. Dominic nascera para ser um nobre, curtindo tudo que o dinheiro poderia oferecer, vivendo de maneira segura em Londres. Mas eu o raptei, o forcei a trabalhar, o humilhei diversas vezes e o aliciei, convencendo-o a participar de meus planos.
A pior das verdades – as que egoisticamente nos negamos a enxergar.
“Dominic.” Chamei enfim quando me abaixei ao lado dele, tocando-lhe o ombro. Ele permaneceu estático, não parecendo notar minha presença. Olhava para baixo, para alguma coisa em sua mão.
Ao olhar na mesma direção, meus olhos arregalaram.
“Você encontrou...” Murmurei assombrado, apesar de não ter a certeza se aquela era a verdadeira chave. Mas havia uma caveira muito similar à dos anéis nela, o que deveria significar alguma coisa. Isso me lembrou de Nena, pois era ela quem entendia dessas malditas geringonças sobrenaturais.
Nena, raptada... Eu deveria ter desconfiado mais de Fajardo. Depois de Fradique e Madalena finalmente ficarem juntos, ele não pareceu mais o mesmo e todos concordavam que os dois admitirem o que sentiam um pelo outro justamente quando a bordo do Rosa Negra fora uma grande provocação. Isso não mudava o fato de que eu estriparia Fajardo quando colocasse minhas mãos no filho da puta.
“Dominic, vamos sair daqui.” Eu falei baixo, meu tom parecendo um comando. Eu estava acostumado a dar ordens, e, mesmo quando não tinha a intenção, meu timbre mantinha-se autoritário. Isso poderia irritar alguns, principalmente Dominic. Ainda que vê-lo furioso me divertisse na maior parte das vezes, naquele momento a última coisa que eu queria era irritá-lo. Queria apenas que recebesse cuidados médicos, se alimentasse e aquecesse.
Ele havia passado por muita merda para apenas um dia. Muito além do que eu gostaria, muito mais do que ele podia suportar. Mais do que eu podia suportar. Quando ele virou para mim, pude ver em seu rosto manchado por sangue velho e fuligem o tapa-olho que Emanuel lhe dera, e foi como levar um soco no rosto e um pontapé na boca do estômago, e ainda assim era pouco para explicar o que aconteceu no meu peito.
“Me deixe em paz.” Ele disse, frio como eu nunca havia escutado de seus lábios. “E não me toque. Nunca mais.” Seu olho, de um azul tão límpido e claro, brilhou, denunciando as lágrimas.
A despeito do pedido, algo em mim me impeliu a tocar-lhe o rosto e cabelos, tentando transmitir algum conforto. Se é que eu, justamente eu, a pessoa que o forçara a viver tudo aquilo, poderia dar-lhe algum.
Dominic afastou minha mão com um tapa colérico e se levantou.
“Fique longe de mim. Eu te odeio! Eu realmente... Realmente te odeio... Estuprador doente, assassino desprezível.” Murmurou a última parte, já com lágrimas escorrendo pelo lado direito de seu rosto. Ele correu de volta para Chagres, mas eu permaneci ali, tomando seu lugar no escuro solitário, próximo das ondas, em companhia do frio intenso da noite.
Não me importei com o tempo, me perdendo em memórias, sentindo coisas que nunca havia sentido antes, e portanto impossíveis de descrever com perfeição, em palavras confiáveis. Mas quando levei minha mão ao rosto, surpreso, eu o percebi molhado, ainda que não houvesse nenhuma chuva no céu. Eu ri disso, gargalhei como um louco pela ironia daquilo. Uma risada amarga que não tinha nenhum bom humor, pelo contrário.
Um inglesinho metido e irritante havia ganhado meu coração.
Mas ele pisaria e cuspiria nele na primeira oportunidade, se pudesse.
E era exatamente isso que eu merecia.
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