Marés do Tempo

3 Marés de lembranças - Praias de sonhos


As coisas ficam um pouco confusas quando se quebra a realidade de nosso universo para criar um atalho até um local desconhecido, e este atalho passava por outras dimensões.

Estávamos em uma delas agora, eu imaginava, parecia-se com um mar ao por do sol, eu acho que sabia o por que.

Creio que esta era uma dimensão infundada, ou seja, não tinha nada, e o mínimo estimulo cria um universo, aparentemente nossos pensamentos havia produzido o mar ao por do sol, e era só acabarmos de seguir a reta do sol e atravessaríamos o atalho, com a sorte de que ninguém ali tivesse pesadelos...

–Isso foi uma loucura...- disse a voz feminina em que eu tanto pensava, eu sorri de lado ao compreender uma coisa, agora ela era real, pois essa dimensão concretiza os pensamentos.

Virei-me e a vi, a garota de cabelos negros ondulados, o sorriso maroto, os olhos negros, a beleza de seu corpo, parte pude perceber esculpido em minha mente.

A garota temporal agora era real.

Soltei o timão e abracei-a enquanto os piratas davam urras por não serem mais esqueletos e termos conseguido passar pelo “buraco de minhoca”.

–O que você é?- Perguntei a ela, em seu ouvido, enquanto procurava senti-la real.

–Antes, eu mesma não sei, agora, sou uma pessoa, e uma companheira.- disse, abraçando-me de volta.

Sentia que a conhecia de muito tempo, de todos os tempos que passei...

–A-ham capitão...- Pigarreou johnatham –quem é essa moça? Ela é gos...-

–Isso! Isso! O nome dela é Ghost!- atravessei-o para impedir maiores constrangimentos.

–Hum... gostei! Agora meu nome é Ghost- disse ela sorridente, e desceu para conhecer a tripulação festeira. Suspirei aliviado. (você me apronta cada uma hein, Johnathan?)

Percebi que a atmosfera era igual a terrestre, se fosse pelos meus conhecimentos, diria que estávamos no atlântico, indo ao novo mundo, embora soubesse que estávamos a uma distancia indefinida de nosso mundo.

–Bem, companheiros- Disse, debruçando-me sobre a balaustrada do pátio do leme- Só passaremos pelo canal após o por deste sol, temos algum tempo, sirvam-se de comida e bebida e festejem! Pode ser nossa ultima festa ao por do sol!-

Dito isso, logo tínhamos os preparativos feitos, e estávamos comendo, bebendo e festejando.

Desci para a taverna novamente, meus amigos estavam lá, e Ghost parecia estar se divertindo no meio deles, senti uma pontada de ciúmes, mas ignorei e, com um sorriso um pouco forçado, bebi um gole do conteúdo não especificado que me fora servido, o gole foi precedido de um leve ardor na garganta, que combinou perfeitamente com o ciúmes que haviam me arrebatado a alguns segundos.

–Não sou um cara ciumento- Disse a mim mesmo. E fui festejar um pouco.

Após algum tempo, estava novamente no convés, e olhava o por do sol do pátio superior. Esse por do sol me lembrava a estrela velha que morrera, fiquei um pouco triste e reflexivo, acontecia com frequência, principalmente quando me lembrava do passado.

Ghost, fantasma, já haviam me chamado assim, nos meus tempos antes e depois da pirataria, o apelido persistira, também pelo meu habito de atacar em nevoeiros, de ser silencioso e de assustar quem estou prestes a abordar com truques mentais e físicos... Ghost, o fantasma dos mares... que por conhecidencia virara o nome da garota... tocante, não poderia olhar para ela sem me lembrar do passado agora, como se já não lembrasse dos meus sonhos e fantasias de criança.

–pensamentos profundos para um espião de mentes- Disse Jasminy, atrás de mim.

–Você sabe como ninguém o que sinto ao pensar as coisas dessa maneira, senhorita sherazade.- Jasminy era outra pessoa com a qual tive um passado bem conhecido.

Era por do sol no mar do caribe, estava num cais de um porto, ainda levava o tapa-olho no olho dos sentimentos, e tendia a sacar a espada para qualquer que fosse o homem que ousasse olhar para mim de um jeito torto.

O cheiro do mar entrava em minhas narinas e fazia-se sentir sempre, o barulho leve das ondas quebrando e os sons de pássaros que já iam dormir preenchia minha audição, eu refletia.

Como pirata, tinha a bebida que queria, na hora que queria, a mulher que quisesse no lugar que quisesse, o dinheiro que quisesse, bastando apenas usar meus truques para vencer quem o possuía. Mas estava incompleto, obviamente. Como deixava bem claro meu tapa-olho.

Batia as botas contra as pedras do cais quando uma garota, de passos leves como os de um gato, parou ao meu lado.

–Jasminy, não é hora de uma garota como você estar por aqui, há bandidos pelas ruas-

“como se você não fosse um deles” ela pensou.

–Sim, mas decidi vir aqui ver você, parecia tão solitário- disse ela. –e sempre suspeitei que você não é muito mais velho que eu-

Sorri, de lado, como era de costume.

–É impressionante que nos conhecemos desde a Inglaterra, e que, depois de tantas coisas, nos encontremos aqui de novo- disse eu. Ela sorriu e olhou para o mar abaixo.

–Verdade...- em sua mente reverberou um pensamento: Mas você não era assim...

Meu olho verde, embaixo do tapa olho, retraiu sensivelmente a pupila, eu não sabia o que isso queria dizer...

–Jasminy eu... eu não sei dizer o que sinto...- Nesse momento já não sabia mais se estava falando de mim mesmo ou de nós dois.

O olhar dela estreitou-se, e pensamentos tristes vieram-lhe a mente, de como eu era na Inglaterra.

Não aguentei mais, levantei-me e sai de perto do cais, deixando-a. Um dos piratas com quem eu navegava me parou.

–E você e ela, hã?- Eu não ousei encarar-lhe.- Mais ou menos- disse eu, consolidando um dos meus maiores erros com o passado.

–Você nunca poderá chamar ninguém de amigo! Cão infiel! Posso morrer agora, Mas você nunca terá amigos de verdade, solitário! Uma pessoa podre como você nunca terá companheiros! Nunca terá amor!-

As palavras de Lionel reverberavam em minha mente...

Eu ri um pouco, tristemente, ao me lembrar, logo acabaria o por do sol das mentes... e logo Chegaríamos ao nosso destino... tudo estaria bem enquanto eles festejassem... Jasminy tocou-me o ombro e caminhou para dentro.

O sol se pôs com um ultimo brilho no horizonte.

O mar e o por do sol tinham-se formado pois o que a tripulação mais queria naquela hora, no fundo de suas mentes, era um pouco de paz. Todos no fundo desejam um pouco de paz.

O escuridão da noite caiu como um véu sombrio e acolhedor ao nosso redor, e o céu estrelado se fundiu com o mar, tornando-se um, o navio danificado agora flutuava pacificamente no nada escuro, frio e acolhedor, como uma pena na água parada.

As estrelas do céu refletidas na água brilhavam, e todos iam para suas cabines dormir. Olhei para baixo do navio e não conseguia mais discernir o mar no nada, parecia um eterno poço sem fim.

Senti-me cansado e sozinho na escuridão. Com leve tristeza no coração, fui a minha cabine, dormiria enquanto não chegávamos.

Em meu sonho, eu viajava por uma tempestade, enquanto sombras dirigiam o navio, eu girava o timão para enfrentar as ondas salgadas que molhavam minhas roupas, e o vento forte que ameaçava levar-me a morte no mar, Ao meu lado apareceu Lionel, ferido e ajoelhado, gritando para mim coisas que apenas senti, ódio de mim mesmo, raiva do meu caminho... Então ele desapareceu e vi nas velas que balançavam violentamente um garoto chorando em um pátio deserto. Logo o vento derrubou-me, eu tropecei violentamente, soltando o timão e cai no mar frio de lembranças, a tempo de ver o navio bater-se com uma onda e naufragar, as sombras foram junto, sem sequer notar, eu olhei para todos os lados, cuspindo água salgada. Só via ondas, era meu fim, o desespero preencheu minha mente. O sonho mudou. Eu era perseguido por algo por corredores, e corria, segurando a mão de uma garota... Era Ghost, ela parecia assustada. Depois eu corria para um pátio aberto, onde havia pessoas, pessoas que me condenavam, vieram para cima de mim, saquei a espada e lutei com elas, cortei um, ele sangrou e se desfez, deixando-me um amargo no coração.Defendi uma, outra, fui acuado, todos atacavam, defendi o que pude, minha lamina partiu, havia uma escada atrás de mim, eu corri, subi, subi sentindo que conseguiria fugir por ali, mas, quando cheguei ao topo e olhei para baixo, me desequilibrei e cai.

Acordei, sem sentir minhas pernas, procurando desesperadamente pela minha espada.

Deitei, procurei sentir as pernas novamente, por que, obviamente, eu precisava delas.

Estava tudo bem, tudo bem, convenci-me.

Levantei da cama, vesti-me com a sobrecasaca, a faixa negra e as roupas também negras, a bota negra e os acessórios prateados, peguei uma de minhas espadas, uma pistola sectum modelo pirata, como uma garrucha, e peguei também uma katana, colocando-a as costas com a fivela, não esqueci-me de minha bolsa de viagens, preparei-me, respirei fundo e abri a porta da cabine.

–Capitão!- Fui logo abordado por Elizabeth.- A gente chegou! Olhe! Olha lá fora! Vem comigo!-

Ela me segurou e me puxou pelo corredor, saímos ao convés e encontramos uma multidão de amigos nos esperando, aparentemente havíamos chegado.

Estávamos num lugar onde o céu era azul com linhas douradas, que era, aparentemente, pó de ouro sendo levado pelo vento. A terra a nossa frente era cheia de cachoeiras prateadas de água pura, o cheiro era metálico, com alguns toques de especiarias. O mar era cristalino a ponto de poder ver o fundo, onde milhares de toneladas de ouro e monumentos de grande valor jaziam, quase conservados, brilhando. As aves e animais era apenas os mais raros existentes, era o butim de uma inteira galáxia, todas as riquezas saqueadas e concentradas a ponto de tornar-se um planeta de fauna e flora própria, aqui e ali jaziam baús de moedas, castelos abandonados brilhantes de riquezas, cidades inteiras feitas de ouro e pedras preciosas, tudo brilhava magicamente.

–joguem os botes! Vamos a exploração! Acamparemos na praia hoje, companheiros!-

Descemos ao mar cristalino e logo chegamos a praia, onde a areia era pó de ouro e prata, cintilada de diamantes. Peguei um grande o suficiente para ser uma faca, guardei-o no bolso.

As plantas eram apenas as mais raras e caras do universo, com cheiros e tamanhos peculiares, várias existentes inclusive na terra.

Alguns de nós fomos conseguir metais para concertar a nave, e materiais para abastecê-la, imaginava que aqui existissem medicinas, e como capitão e cozinheiro, decidi verificar melhor.

Encontrei diversos animais para caça e muitos ótimos temperos e medicinas, colhi vários e os armazenei em minha bolsa de viagens, que fora construída com engenharia dimensional, ela era apenas uma bolsa de viagem comum por fora, mas por dentro era um pequeno catálogo de itens dos mais variados.

Colhia tranquilamente as flores, temperos e cascas que me eram de valor, quando pressenti o perigo...

Rolei para o lado, me escondendo atrás de uma arvore, quando um pequeno dardo passou rapidamente, com um zumbido, cravando-se ao meu lado.

Peguei-o, era pequeno, feito de madeira, mas avançado, com um recipiente interno para o conteúdo, atirado de uma zarabatana, tinha uma gota viscosa escorrendo da ponta. Lambi e cuspi violentamente, um gole daquilo e estaria morto agonizando em segundos, com o sangue virando pasta em minhas veias.

Olhei ao redor, o atacante havia fugido... quem quer que fosse, era sorrateiro... e perigoso. Alem do mais, dificilmente seria apenas um. Voltaria para a praia para avisar a meus companheiros.

Chegando lá, encontrei uma bagunça, todos brigavam com todos, percebi, alguns por motivos pessoais, outros por algo que acharam algo que o outro queria, outros ainda simplesmente por entrar em confusão (eu também era assim).

–Parem, caramba!- Atirei para o alto e saquei a espada- Olhem aqui, seus cachorros molhados... se querem arrumar confusão, que arrumem! Mas desde que não custem nossas vidas! Não é hora de brigar por ouro, tem até demais nessa merda de planeta, mas nenhum tesouro fica sem guardião! Há perigos aqui, peguem o que queiram rápido e, se águem pegou, deixem para lá e arrumem mais o que fazer! Por que se nós chegamos até aqui, não foi para morrermos como imbecis! Entenderam!?- Respirei fundo rangendo os dentes.

Tive um mal pressentimento, um dardo passou zunindo pelo meu ouvido e atingiu um dos piratas a minha frente, sua face arroxeou e em segundo ele caiu no chão em convulsões.

–Atirem na mata! Todos! Eu cuido dele!- Abaixei-me quando começaram a atirar as cegas, os tiros entravam na mata zunindo e partindo folhas, algumas plantas caíram com as rajadas, eu corri ao garoto atingido, tirei o dardo de seu corpo e, agindo rápido, tirei de minha bolsa um recipiente com antídoto pré-formulado, coloquei a gota do veneno do dardo, adicionei reagentes, balancei e, colocando tudo em uma seringa, perfurei em seu coração, com uma pancada.

Ele voltou a respirar, cuspindo e tremendo, e eu olhei, com raiva, para a mata... deu tempo de salvar esse garoto... mas o perigo era maior do que eu havia pensado, eles eram agressivos, o que quer que fossem.

Notas finais
Morais finais do capitulo: não se esqueça, sonhos e lembranças podem ser reais :3 Por favor deixem sua opinião sobre as aventuras do capitain smith! Yar!