Marés do Tempo
4 A civilização do Tesouro
Notas iniciais
–Voltemos ao navio! Guardem suas coisas. Quero guardas patrulhando! Mantenham suas armas ao lado, e preparem-se para morrer de qualquer maneira...-
Voltei ao navio, lançando um ultimo olhar a mata, pensei ter visto um olho negro brilhar, escuro e sorrateiro, na sombra. Mas, quando procurei novamente, havia sumido.
Era um olho de alguém, isso eu sabia. Haviam sentimentos, embora não tinha conseguido ler completamente... agora, esperava...
Preparei-me para dormir durante a primeira ronda, coloquei minhas armas a disposição, e preparei-me para uma rápida noite de sono quando ouvi um barulho no corredor.
Peguei a pistola, a espada e um roupão e, vestido apenas com um pijama e o dito roupão negro, sai ao corredor procurando a origem do ruído.
Não havia mais nada, concentrei-me, fechei os olhos, havia um som, há alguns metros de distancia... Um baque, alguma coisa pesada caíra.
Abri os olhos e corri a cabine de onde vinha o barulho, a porta estava trancada. Não hesitei um segundo, direcionei a pistola de sectum ao buraco da fechadura, atirei. Faíscas e fumaça saíram, dei um passo para trás e chutei a porta.
Ela bateu contra algo ao abrir. Entrei na cabine com a pistola em punho.
Havia alguém no chão e outra pessoa atrás da porta, eu a havia golpeado devido ao pequeno espaço, ela levantou, com o rosto nas sombras, e tentou apontar-me algo...
Desarmei-o com a mão esquerda, jogando sua arma diretamente pela janela, enquanto fechava a porta com o pé.
Eu reparei que era um marujo, Peter, que tinha brigado hoje com um outro, a quem chamávamos de Gabby, por conta de uma joia. E eles já tinham uma rixa antiga por outros casos.
Coloquei a arma na cabeça de Peter (aquela não era a sua cabine) engatilhei, fazendo questão de fazer o ruído soar pela sua cabeça, e pelo recinto. Ele estava ali ou para roubar, ou para matar.
–Explique-se.-
–Ta bem, ta bem... tira essa arm...-
–Se ta maluco?- peguei-o pelo pescoço e coloquei sua cabeça na parede, com a arma em seu ouvido- Eu atiro antes de tirar isso da sua cabeça podre, imbecil, se me lembro bem, foi você quem tentou se colocar no posto de capitão a alguns dias, não foi? Embebedando a todos e me xingando, mandando-os me jogarem no oceano índico? Lembro-me que se safou dizendo que estava bêbado... Está agora também?-
–calma, cara...-
–E isso depois de ter cantado Elizabeth assim que chegou aqui... E eu te ajudei... Imbecil.-
Ele se calou e me encarou com medo agora. Eu não gritava, mas tenho certeza que apenas meu tom era suficiente.
–Acredite. Se você sair vivo daqui... E bom que nunca mais erre novamente.-
O dono da cabine se levantou, e eu reconheci, com um susto enorme, Lionel, com a cabeça sangrando um pouco onde batera na parede, e um pouco tonto. E depois, olhando ao redor, reparei que estávamos em seu quarto, condenei-me mentalmente por conta de minha lerdeza.
–Pode deixar ele ir, capitão... Eu estou acostumado a lidar com isso, e ele é nosso companheiro, lutou ao nosso lado.-
Lionel podia ser amargurado, e violento com os inimigos, inegavelmente. Mas se fosse alguém da tripulação, ele defenderia com todas as suas forças. E isso me deu uma ideia.
–Lionel, eu adoraria muito explodir a cabeça desse imbecil aqui e agora, coisa que eu devia ter feito há muito tempo já, mas eu sei que ele já lutou com a gente. Façamos assim...-
Virei para Peter, apertei mais a arma em sua cabeça, com a intenção de doer em sua têmpora. E mostra-lo o quão vulnerável ele estava.
–Eu deixo esse verme aqui viver... Mas ele está fora de nossa tripulação, e, qualquer segredo que conte, qualquer coisa que faça que não seja de meu... De nosso agrado, eu o caço, e o mato. Sem mais piedade.-
Peter me encarou esperançoso, eu li sua mente.
Ele agradeceu, e saiu. Eu me encarregaria de seu regresso no tempo, e do transporte a casa. Usaria um movedor particular. Guardei a pistola no bolso do roupão. Olhei para Lionel.
–Ele vai nos trair.-
Lionel me olhou um pouco envergonhado, mas com atitude que não me faria voltar atrás.
Após enviar Peter a casa, voltei ao meu quarto para dormir o resto do tempo que tinha.
Acordei ao amanhecer, haviam três sois no ar, dois deles eram se outro sistema, sendo vistos como grandes estrelas de noite, e de dia, como dois sois extras.Vesti-me e asseei-me, carreguei duas pistolas e embainhei minha espada. Abri a porta e fui ao convés para minha ronda.
Elizabeth contemplava a paisagem, juntei-me a ela. Ela era uma das poucas pessoas a quem eu restringia minha leitura de mentes, pois tinha medo de incomoda-la, e me forçava, com incrível dificuldade, a não ser incomodo a esse ponto.
–Olá, Elly, tudo bem?- Eu estava ansioso para falar com ela mas, obviamente, não tinha o que.
–Ola, (ela disse meu primeiro nome), essa situação nos é familiar, não é?-
Eu encarei-a, e olhei para onde ela olhava, a paisagem, as riquezas, os perigos...
–Sim... de fato... eu me lembro de nossa passagem por 1500, foi assim que começou a exploração do novo mundo...-
–Nos seremos os conquistadores? Massacraremos todos esses inocentes? Por ouro?-
De fato, estávamos aqui repetindo uma historia, uma historia triste, mas o que podíamos fazer... abandonar tudo?
Uma gota de terror caiu em minha alma, e o pânico tomou conta de meu ser, a pupila do olho dos sentimentos se retraiu até virar um simples ponto. Como sairíamos?
Nós havíamos usado um atalho no espaço-tempo para chegar aqui, e passamos por varias dimensões para isso, mas o tempo nessa dimensão corria diferente, e não poderíamos simplesmente abrir outro atalho no mesmo lugar, muito menos com os danos da nave.
Estávamos presos nesse mundo... nunca entendi o significado da velha frase que uma vez eu ouvi de um arqueólogo inglês, meu professor por um ano, tinha me dito: Quem muito busca ouro, no fim vira parte do tesouro...
De repente, todas as riquezas daquele planeta pareceram nada mais que pó... E de repente eu pensei: não, nós não fomos os primeiros a entrar aqui... Apenas os que entraram antes não saíram para contar.
Foram todos mortos pelo veneno cruel ou dizimados pelo tempo infinito.
Sai do lado de Elizabeth bruscamente, sussurrei um desculpe, corri para o salão, toquei no ombro de Lionel, com um sinal de cabeça, ele me seguiu. Nós corremos pelo convés, subimos as escadas para o pátio do timoneiro.
1...2...3... E pulamos nós dois na água, pensei ter a impressão de termos sido vistos, mas acho que não.
Nadamos a distancia ate a praia e corremos para a mata, até estarmos fora da vista do navio.
Paramos numa pequena clareira na mata, caímos de joelhos no chão e respiramos, molhados, o ar metálico daquele planeta do tesouro.
Tinha trazido a minha bolsa, retirei de lá comida e cerquei a área com fios elétricos presos as arvores, coloquei uma lanterna no chão e abri uma folha de pergaminho grande em cima de uma pedra que servia de mesa, que depois identifiquei como ouro maciço.
–Certo, Lionel, como deve ter percebido, a gente não tem como sair daqui, e todo o planeta é repleto de perigos, não apenas defensivos. Devemos dar um jeito de cair fora.-
Lionel puxou algo do bolso, e pós sobre a “mesa”. –Aqui temos um mapa completo da região, é uma ilha, próxima ao continente, torna-se uma península na maré baixa, que nesse planeta muda muito dependendo das estações, há três cidades, não sei dizer se habitadas, a mais próxima e essa aqui, a da torre de ouro.-
–E é para lá que vamos, temos que achar alguém que saiba como sair daqui, um dos indígenas tinha na mente que precisavam impedir-nos de chegar na cidade.-
–Pois é justamente isso que faremos, capitão- Disse Lionel- Exatamente- disse eu, e apertamos as mãos. –Vamos!-
Corremos pela mata, usamos um óleo para despistar nosso cheiro, e filtros de percepção para ocultar nossos rastros, barulhos e aparências, estávamos quase indetectáveis... Quase.
Andamos pela mata por um tempo, já estávamos acostumados, desde que fomos a El dorado na Amazônia, aquele dia foi loco. E parecia um pouco com o que estávamos fazendo agora, mas, em El dorado, tínhamos como fugir.
Chegamos perto da cidade e subimos numa arvore tropical imensamente alta, subimos no galho mais baixo, obvio. A cidade era feita de ouro, pedras preciosas, madeiras caras, monumentos de outros mundos, tudo ali parecia ter sido montado com um imenso butim, o que de fato tinha acontecido.
Peguei minha luneta, e observei a cidade... –Certo, Lionel, em qual edifício deve estar o nosso sábio?-
–Eu acho que ele deve estar no palácio central- Sugeriu Lionel.
–Pois eu acho que devíamos começar pelo grande edifico de ouro no meio da cidade- Disse eu, Lionel me encarou, com a expressão: ta tirando uma com a minha cara!?
–Pois muito bem... vamos descer com cuida...-
–Olá garotos, o que fazem aqui?-
Eu me desequilibrei ridiculamente no galho, cai desajeitadamente e segurei meu grito enquanto afundava num colchão de folhas alguns metros abaixo de onde Ghost acabara de me assustar e fazer-me cair.
Olhei para cima com a cara de: eu não imaginei você para isso! Enquanto Lionel descia rapidamente para ver onde eu estava, seguido por Ghost.
Retirei o ultimo dos galhos preso em meus cabelos e roupas.
–Ghost! O que faz aqui?! Há um motivo para ter vindo apenas eu e Lionel!-
–Ah! Então era um encontro a sós?-
–Não! É uma missão secreta, garota!-
–Ah!- ela fez cara de quem começava a entender- Entendo... O que vamos fazer?-
–Vamos entrar na cidade dos índios doidos do veneno-que-tranforma-sangue-em-papa para sequestrar um velho que nós não sabemos quem é para sairmos dessa dimensão, ricos que só a peste. -
–Parece um bom plano esse!-
Lionel nos encarava de maneira estranha. Notei que Lionel sempre encarou Ghost de maneira estranha, imagino que seja por causa de seus problemas com garotas, grande parte causados por mim. Isso é uma longa historia também, e será contada em outro flashback.
Nós caminhamos furtivamente para dentro da cidade, eu notei que Ghost sumia muito mais facilmente que todos nós, o que só me fez classifica-la ainda mais na categoria de “espectro-temporal” . Entrar na cidade não foi difícil já que os prédios eram separados e as guardas eram feitas sem ordem alguma. Entramos em casas vazias e eu lia a mente de alguns dos índios que estavam de passagem para saber como chegar ao templo. Seguimos andando. Separei-me de Lionel e Ghost para subir num telhado e olhar lá de cima. Haviam muito poucas pessoas na rua, e as duas luas, provavelmente feitas de prata e diamantes, brilhavam no céu, junto com as estrelas que de dia eram sois. O cheiro metálico do ar entrou em minhas narinas, junto com um pouco do cheiro da cidade, que era uma junção de poeira, metal e lixo, com algumas flores dos canteiros para adocicar o ar.
Andei pelos telhados planos de pedra das construções da cidade, o modelo era incrivelmente parecido com o das cidades maias, utilizei-me de minha experiência para correr pelos telhados agilmente e sem ser visto, em alguns minutos de caminhada, cheguei perto do templo.
Notei que quando as sombras da lua batiam no templo, a sombra de seus enclaves criavam duas enormes serpentes que se cruzavam, um sentimento de mistério me envolveu por completo por alguns segundos, como se aquilo escondesse algo que tivesse haver com tudo que existia, como se a peça chave da existência se revelasse, tênue, a luz daquelas luas, na sombra daquelas serpentes. Senti-me vulnerável e ínfimo ao universo a minha volta, sensação familiar, mas aterradora.
Dei-me um tapa na cara e continuei, olhei ao redor com a luneta, vi Lionel, escondido na divisão entre duas casas quadradas, fiz um sinal, subíramos no tempo, agora!
Corremos, eu desci do prédio e corri subindo a escada, Lionel correu ao meu lado, subimos os degraus íngremes da construção, tropecei, teria me ferido não fossem minhas botas, com o coração disparado, continuei, em breve chegaríamos, tropecei de novo.
Chegamos ao topo da estrutura, e eu cai de cara no chão, tropecei no ultimo degrau.
Ali no topo eu parei, apoiando-me em Lionel, e ofegando de cansaço da carreira, após alguns segundo de descanso, lançamos uma olhada para o salão do interior do palácio de estrutura parecida com de uma pirâmide maia.
Havia um salão, onde um homem rezava escandalosamente para uma estatua que reconheci, com um espanto terrível, como sendo um deus maia. Agora fiz uma ligação. Grande parte dos maias desapareceram misteriosamente logo antes dos colonizadores chegarem, deixando apenas resquícios e vestígios de sua estadia no novo mundo, havendo sinal de guerra e fortificações feitas as pressas, portanto o abandono fora espontâneo... E ali estavam eles, não todos, claro, mas parte deles, com sua cultura e religião preservados, sob a forma de guardiões... Não. Agora eu entendi, o verdadeiro tesouro deste planeta são seus guardiões. Os maias ainda estavam vivos, sua historia e seu saber eram os maiores tesouros.
Mas quem os havia levado ali? Bem, não era hora de pensar agora.
–Lionel, agora!-
Corremos. Saquei a espada. Derrubei o homem e coloquei a lamina em seu pescoço. — você vem com a gente... Amigo.-
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