Maré Imprevisível
4 Tempestade imprevista...
A chuva caiu pesadamente sobre a costa. Começou de uma vez. Nem tive tempo de descer da rocha. Não devia ter subido tão alto. Fui até a beirada e desci devagar, segurando-me pelas mãos até meus pés alcançarem a parte mais baixa. Assim que soltei as mãos, escorreguei nas poças de água que haviam se formado. Mas, por sorte, caí na areia. Levantei-me com certa dificuldade. A areia se grudando à minha pele, assim como o short jeans e os cabelos já encharcados pela chuva.
Olhei uma última vez para o mar, preparando-me para correr para casa. Cerca de uns cinquenta metros mais ao longe, vi algo flutuando na água. De início, não soube o que era. Mas, a curiosidade falou mais alto. Embora a correnteza estivesse forte, arrisquei-me a entrar na água. Não precisei ir muito longe. Com menos de um metro de distância da praia, notei que se tratava de uma pessoa segurando-se a uma ripa de madeira.
Senti uma necessidade incompreensível de ajudar aquela pessoa, embora a voz de meu pai soasse em minha mente, dizendo-me para não fazer isso. Não há outro jeito.... Ignorei a lembrança e comecei a nadar contra a correnteza numa arriscada tentativa de resgate. O resgate não chegará a tempo... O ar entrava com dificuldade por meus pulmões enquanto as ondas chocavam-se fortes contra meu corpo, arrastando-me para a direção contrária, tornando tudo ainda mais difícil. Mas, a promessa que fiz a minha mãe não saia da minha cabeça. Eu preciso ser corajosa. Eu prometi. E papai faria o mesmo se estivesse aqui. Então eu tenho que conseguir.
De repente, surgiu uma enorme onda, próximo de onde estava a pessoa, que aparentemente era um garoto. Essa não. Tentei nadar ainda mais depressa, amaldiçoando-me mentalmente por não ter pego o celular antes de sair de casa, para poder pedir ajuda, ou por não ter pego os pés de pato para nadar com mais velocidade. A onda se aproximava rapidamente, ameaçando terminar o afogamento que a tempestade havia começado. Mas, minha teimosia impedia-me de aceitar isso. Instantes depois, consegui chegar até ele, segundos antes de a onda nos atingir, esmagadora. Mesmo assim, continuei segurando-o fortemente, com um braço em volta de seu abdômen.
A confusão causada pela onda gigante não durou muito. Assim que me senti livre de sua força, fui em busca da superfície, arrastando o rapaz junto. Foi um alívio poder respirar. Em seguida, sem perder mais tempo, comecei a nadar de costas, mantendo sua cabeça fora da água. Não consegui ver se ele estava consciente enquanto nadava. Seus espessos cabelos negros cobriam seus olhos. Mas, pude sentir seu peito se mexer levemente, indicando uma fraca respiração, como meu pai me ensinara. Graças a Deus. Então, apesar da exaustão, esforcei-me mais um pouco, até finalmente alcançar o nível de água mais baixo, indicando a chegada à praia.
Levantei-me, ainda o segurando por debaixo do braço, e comecei a arrastá-lo para a parte de areia seca, onde a água não nos alcançaria. Deitei-o e coloquei os dedos em seu pescoço, para ver o pulso. Estava fraco. Sem demora, posicionei minhas mãos sobre seu peito bronzeado, semicoberto pela camisa branca, e comecei a massagem cardíaca com toda força. Um, dois, três, quatro... Em seguida, fiz a respiração boca a boca. E continuei a sequência de maneira frenética. A chuva estava parando, como toda chuva de verão. Enquanto isso, vi de esguelha um pequeno grupo de pessoas nos observar. Uma delas, a loira alta, de pele bronzeada e biquíni vermelho estampado, pegou o celular e começou a digitar um número. Por favor, que ela esteja pedindo ajuda.
De repente, escutei uma respiração difícil e vi o rapaz se mexer. Imediatamente, parei a massagem cardíaca, deixando-o virar de lado e vomitar a água que tinha engolido. Depois, ele voltou a se deitar, parecendo tão exausto quanto eu. Eu consegui... Ele piscou algumas vezes e abriu os olhos azuis como o oceano. Nesse momento, alguma coisa me fez sentir que já o tinha visto antes. Embora eu duvidasse. Mesmo que aquele rosto familiar, de nariz reto e lábios finos, e o colar com dente de tubarão confirmassem ainda mais minha suspeita. Mas, não tive tempo de fazer mais nada. Em segundos, fomos cercados por homens e mulheres de uma ambulância que me afastaram e começaram a colocá-lo na maca.
Então, tão rápido quanto chegaram, eles se foram. Levantei-me com certa dificuldade enquanto acompanhava a ambulância com os olhos. Instantes depois, esta desapareceu numa curva. Assim que sumiu, me voltei para o grupo a tempo de ver a garota loira me olhar e aquiescer com a cabeça. Fiz o mesmo em resposta. Obrigada. Depois, quando eles viraram as costas para ir embora, eu fiz o mesmo. Eu tinha que ir para casa. E já estava me atrasando. Então, caminhei pelos quarteirões a passos rápidos. Enquanto isso, repassei em minha mente tudo o que aconteceu na meia hora anterior. É melhor eu não contar a ele, ou papai vai ficar furioso.
Em poucos instantes, cheguei. E, ao pisar no tapete de entrada, lembrei-me de que estava descalça. Droga. Esqueci os chinelos lá na praia. Mas, não dava tempo de eu voltar para pegá-los. Desprendi as chaves do cinto, destranquei a porta e entrei em silêncio. Tranquei a porta. Assim que me virei, dei de cara com Marcos. Essa não. Agora estou perdida. De onde foi que ele veio? Tentando disfarçar, dei um sorriso amarelo e o cumprimentei:
— Oi, Marcos. Que surpresa.
— Olá, Laura. Lamento, mas precisamos conversar.
— Você pode esperar só um pouco? A chuva me pegou de surpresa e eu preciso tomar um banho.
— Não vai dar.
— Por que não? É rápido.
— Porque...
— Ah. Você chegou. – Disse meu pai, rispidamente, ao adentrar a sala. — O que estava pensando?! Eu já não te disse milhares de vezes para não nadar numa tempestade?! Não disse?!
— Sim...
— Então, por quê?! Por que fez aquilo, Laura?!
— Porque...
— É perigoso! Além de ser uma idiotice se arriscar daquele jeito!
— Mas, aquele garoto precisava de ajuda!
— Não me interessa! Você não podia ter feito isso!
— Então, eu devia tê-lo deixado morrer?!
— Se você se importa tanto, chamasse uma equipe de resgate! Meu Deus!
— Até o resgate chegar, ele teria morrido!
— E o mesmo podia ter acontecido com você! Será que não entende?!
— Mas...
— Sem, mas! Vá para o seu quarto! Está de castigo!
Eu ia retrucar, mas me calei. Lancei-lhes um olhar feroz e altivo. Em seguida, me virei e marchei para meu quarto. Droga. Como foi que ele descobriu?! Ah. É claro. Com certeza foi o Marcos. Entrei em meu quarto e bati a porta. A raiva que eu sentia parecia me consumir. Mas, eu tinha que me controlar. Então, respirei fundo cerca de três vezes, peguei a toalha e fui para o banheiro, fechando a porta. Depois, tirei as roupas molhadas e sujas de areia, e joguei-as no cesto. Em seguida, entrei no boxe, fechei-o e liguei o chuveiro.
A água quente desceu pelo meu corpo quebrando a sensação de frio e anestesiando-o. Em pouco tempo, senti meus músculos começarem a relaxar. Suspirei. Um banho quente era exatamente o que eu precisava. Mas, não me dei ao luxo de demorar. Por mais que eu quisesse. Terminei meu banho em quinze minutos. Me enrolei na minha toalha azul-celeste, torci o cabelo e fui para o quarto.
Então, abri meu guarda roupa e peguei um biquíni e um vestido. Branco, embora a cor não ficasse tão boa em mim. Mas, eu o adorava. Ele tinha alças grossas e ia até os joelhos. Além de vestir bem e ser confortável. Então, comecei a me secar. O momento do resgate não saía da minha cabeça. Era muita loucura. O que deu em mim?! Eu já não sabia o que pensar, enquanto me vestia. Acho que papai tem razão em dizer que eu não tenho juízo.
De repente, ao olhar para meu mural de fotos, algo me chamou a atenção: uma fotografia antiga, de quando eu tinha cinco anos. Foi uma das inúmeras vezes em que eu fui à praia e fiz um castelo de areia. Mas nessa eu não estava só com os meus pais. Tinha um menino junto comigo. Olhei com mais atenção e fiquei descrente. Será possível...? Ele pode até ter pele bronzeada e cabelos negros, mas... Não. Não é possível... Mas, esses olhos, esse rosto... E esse colar de dente de tubarão...! Não dá para acreditar! Só pode ser ele!
Saltei da cama e fui em busca de minhas sapatilhas brancas e minha bolsa salmão. Eu preciso vê-lo de novo. Ver se está mesmo bem. Mas, quando eu estava indo em direção a porta do meu quarto, parei e dei meia volta. Não posso sair por aqui ou meu pai vai me ver. Droga. E agora? O que eu faço? Olhei ao redor, sem saber o que fazer. Até que, de repente, olhei para minha janela e para a árvore perto dela, e tive uma ideia.
Sem demora, eu a abri. Coloquei a cabeça para fora, verificando se não tinha ninguém olhando, e sai por ela. Tomando cuidado, eu me equilibrei no telhado, depois nos galhos da árvore e desci. Então, assim que me vi livre, comecei a caminhar em direção ao hospital. Mas, tive a impressão de que tinha algo errado e acelerei o passo. A sensação de estar sendo seguida me angustiava. E, infelizmente, descobri que não era só impressão quando ouvi Marcos perguntar:
— Aonde você pensa que vai? – Ele falou, atrás de mim.
— Marcos... – disse, virando-me para ele. — Eu ia...
— Falou bem. Ia. Não vai mais.
— Mas...
— Sem, mas. Seu pai não...
— Eu sei. Mas preciso vê-lo, Marcos.
— Laura...
— Por favor. Eu preciso... – insisti, fazendo cara de cachorro sem dono.
— Ok, ok. Eu te levo até o hospital. – Ele desistiu.
— Obrigada, Marcos. – Disse sorridente.
— De nada. Agora, vamos. Antes que o seu pai nos veja.
— Ok.
Olhei de relance para Marcos. Ele parecia cansado e insatisfeito, embora não dissesse nada. Então, desisti de tentar falar com ele. Depois, olhei mais para o lado e vi Leonardo ao lado dele, me olhando. Não contive a curiosidade e disse:
— Leonardo? O que você está fazendo aqui?
— O Marcos ficou de me levar para casa. – Ele respondeu, gaguejando um pouquinho.
— Ahã... Sei... – disse, sabendo que ele estava escondendo alguma coisa.
— Então, o que você acha que é?
— Ele te contou, não foi?
— Ok. Confesso. Ele contou e pediu para eu falar com você, antes de me deixar em casa.
— Sabia. E aposto que também foi ele que contou para o meu pai.
— Exato. Ele é e sempre será um dedo-duro.
— É. Não sei como não acostumei.
— Ei! Eu ainda estou aqui. – Interrompeu Marcos.
Então, eu fiquei quieta. E, notando isso, Leonardo também se calou. Bem ou mal, o Marcos está me ajudando agora. Então, vou dar um tempo com as reclamações. Pelo menos por enquanto. Sem ter mais o que fazer, fiquei olhando a paisagem. De repente, Marcos disse:
— Eu só vou te deixar lá e sair. Senão vou atrasar o Leonardo. Ok? E nem pense em contar para o seu pai que fiz isso. Ou não te ajudo mais.
— Ok.
Fiz que sim com a cabeça. Então, eu voltei a ficar quieta, assim como ele. Então, conforme reconheci o caminho e notei que logo chegaríamos ao hospital, comecei a ficar levemente ansiosa. Nossa.... Já faz tanto tempo... Será que ele ainda lembra de mim? Minha mente foi tomada pela dúvida e por lembranças das poucas vezes que brincamos juntos, quando éramos crianças. Passou tão rápido... E, nossa... Foi na mesma praia. Como é possível? Ah. Deixa para lá. Isso não importa agora. Pensei, notando que o hospital já estava logo a minha frente. Então, logo que Marcos e Leonardo se despediram de mim, eu saí em disparada, porta adentro do hospital.
O hospital não era tão grande, mas o suficiente para atender pelo menos metade das pessoas que moram na Ilha do Mel. Do meio de suas paredes para cima, era tudo branco. Já do meio para baixo, era tudo verde água. E o piso era todo quadrado e branco. O ar condicionado estava um pouco mais frio do que deveria, causando-me um leve arrepio. Olhei as placas, procurando qual era a seção onde ele provavelmente estaria. Mas, as placas só indicavam onde ficava o balcão de atendimento, os sanitários, o laboratório, as salas dos clínicos gerais.... Que beleza. Custava indicar onde ficam as salas de pacientes? Isso facilitaria muito.
De repente, me deparei com uma das médicas que estava na ambulância. Ela olhou para mim e sorriu, vindo em minha direção. Agora eu podia vê-la com clareza. Seu curto cabelo liso era loiro claro e tinha algumas mechas grisalhas. Os olhos azuis acinzentados se estreitavam para me ver com mais clareza. Era alta, embora tivesse o corpo um tanto redondo, mesmo coberto pelas roupas brancas e pelo jaleco. Os maiores destaques nela eram o batom e as unhas, vermelho escarlate. Ela parou a dois passos de mim e, exibindo dentes brancos e retos, perguntou:
— Você é a garota de hoje mais cedo, não é? A da praia?
— Sim. Eu vim...
— Ver como ele estava. Claro. – Ela me interrompeu, estendendo-me uma espécie de formulário para visitantes. – Assine aqui. E não esqueça de colocar seu RG e o horário.
— Ok. – Eu disse, pegando o papel das mãos dela e indo até o balcão.
Enquanto eu o preenchia, dois homens foram falar com ela. Aparentemente, eles eram os policiais que vigiavam o hospital. Eram tão altos quanto a médica. Os cabelos curtos, raspados nas laterais, e os olhos eram pretos. Pareciam dois árabes, com exceção das roupas, do idioma e do corte de cabelo. E, só depois que eles se viraram, é que notei que eram gêmeos idênticos. Tão iguais que eu duvidava que qualquer um conseguisse distinguir quem era quem, a não ser eles mesmos.
Do pouco que escutei e entendi da conversa, eles se chamavam Peter e Luca. Ao que parecia, ela estava dizendo a eles o que cada um deveria fazer. A médica chegou a confundi-los nessa hora, ficando irritadiça quando os gêmeos a corrigiram. Mas, ela logo voltou a tomar a postura anterior e continuar. O que eles tinham que fazer era uma espécie de trabalho. Mas, não ouvi o que era. Eles falavam baixo e o hospital estava um tanto barulhento com o falatório daquele monte de gente. Desisto de tentar escutá-los. Nesse momento, eles se afastaram e ela veio em minha direção, perguntando:
— Terminou?
— Sim. Aqui está. – Eu disse, entregando o formulário a ela.
— Ok. – Ela disse, verificando se eu preenchi tudo. – Certo... Agora, venha. Eu te mostro qual é a sala dele.
— Obrigada... – eu disse, vendo o nome Ágata no crachá dela.
— Disponha, querida.
Então, ela começou a me guiar através dos corredores do hospital, a passos um tanto rápidos. Eu a segui, de maneira meio desajeitada, enquanto desviava das outras pessoas e até de algumas macas. O estranho era que algumas das pessoas em cima das macas me olhavam apreensivas e faziam gestos para que eu não fosse com ela. Até tentaram puxar minha bolsa. Senti um arrepio com essa ideia, mas ignorei. Deve ser só imaginação. De repente, ela parou em frente à porta de uma sala, abriu-a e disse:
— Henri, você tem visita.
— Tenho?
— Sim.
— Quem?
— Sua salvadora queria ter certeza de que você está bem.
— Nossa... Ela me salva e ainda vem me visitar?! Por essa eu não esperava.
— Venha, querida. Vou deixá-los a sós. Ah. – Ela se virou para mim. — Você deve estar com sede. Aqui. – Ela disse, estendendo-me um copo que eu não vi de onde tinha surgido. — Beba um pouco.
— Obrigada. – Eu disse, estranhando de vez toda aquela gentileza.
— Não há de que. Agora, com licença. – Ela disse, indo em direção à porta. — Tenho que atender outros pacientes.
Aquiesci com a cabeça. Então, ela se virou e saiu, deixando-nos. Bebi uns bons goles, sentindo um gosto semelhante a uma limonada malfeita, que desceu congelando minha garganta. Então, voltei a olhá-lo. Henri me observava atentamente de cima a baixo, reparando nos mínimos detalhes. Senti-me como um quadro em exposição. Ele parecia intrigado. E eu podia imaginar o motivo. Mas, estava começando a ficar constrangida. Então, para quebrar o silêncio, eu disse:
— E então... Como você está?
— Milagrosamente vivo. Graças a você. – Ele fez uma curta pausa, antes de continuar. — Mas, por que, em sã consciência, você se arriscou para me salvar?
— Longa história. – Eu respondi, sentindo certo incômodo ao falar e tomando mais goles da bebida. — Mas, em resumo, porque a ajuda demoraria muito para chegar.
— Foi loucura.
— Eu sei... – disse, sentindo ainda mais incômodo ao falar.
— Tudo bem?
— Sim. – Tentei convencê-lo. — Só a minha voz que está estranha. Já sabe quando vão te dar alta?
— Eles disseram que será ainda hoje.
— Que bom. – Respondi, colocando minha bolsa numa cadeira ao meu lado, junto com o copo.
— Qual é o seu nome?
— Você não lembra? – Eu perguntei, divertindo-me com sua expressão confusa. – Quando éramos pequenos, nós nos conhecemos naquela praia e fizemos um castelo de areia juntos. Depois, você só foi me ver mais algumas vezes e foi embora. Desde então, nós não nos vimos mais.
— Ainda não consegui lembrar...
— Não lembra nem disso aqui? – Perguntei, mostrando-lhe a pulseira. – Assim como você ainda usa o colar, eu ainda a uso.
— Laura?! – Ele perguntou com genuína surpresa. — Não acredito! Depois de todo esse tempo... E eu nem te reconheci! Desculpa.
— Tudo bem. – Respondi, rindo um pouco. — Eu também demorei a lembrar.
De repente, a porta da sala foi aberta, revelando a chegada de um conhecido dele. No mesmo instante, Henri se voltou feliz para ele e o cumprimentou:
— Alfred! Como é bom te ver!
— Também é bom vê-lo. – Ele disse, sorrindo. — Você quase matou todos de susto. Principalmente a Abigail.
— Não era a minha intenção.
— Tenho certeza que não. – Ele concordou, voltando-se para mim. — E... Quem é ela?
— Alfred, esta é Laura, a garota que me salvou.
— É um prazer.
— Igualmente. – Eu respondi, esforçando-me ainda mais para que a voz saísse normal.
— Confesso-me um tanto surpreso. Uma jovenzinha como você ter se arriscado para salvar alguém é algo impressionante. É muito corajosa pelo que vejo.
Tentei agradecê-lo, mas a voz não saiu. Essa não. Que hora para ficar sem voz. Ambos me olharam e Henri perguntou:
— O que houve, Laura?
Coloquei uma mão na garganta, e com a outra, fiz sinal de negação.
— Não está conseguindo falar? – Henri perguntou, me entendendo.
Aquiesci com a cabeça.
— Nossa... Não era à toa que sua voz estava ficando estranha.
Fiz uma cara de infelicidade e concordei com a cabeça. Aff. Como vou conversar agora?! Tanto tempo sem vê-lo para depois acontecer isso... Que azar. De repente, meu celular bipou. Peguei-o de dentro da bolsa e desbloqueei a tela. Uma mensagem de voz? Entrei na caixa postal e digitei o número pedido para ouvi-la. Então, ouvi a voz do meu pai:
— Filha, não volte para casa. Vá para um lugar seguro e fique lá. Não dá tempo de explicar agora. Apenas faça isso. Amo você.
Não voltar por que? O que está acontecendo? A preocupação me tomou por completo. Meu pai nunca tinha agido assim antes. A única vez que ele ficou estranho foi no dia em que invadiram a nossa casa e a mamãe morreu.... Foi nesse momento que comecei a imaginar mil coisas ruins que podiam ter acontecido com ele. Ele até pode estar... Não. Por favor, isso não.
Então, já que eu estava sem voz, comecei a digitar uma mensagem para ele: “Pai, você está bem? Onde você está? O que está acontecendo? Por favor, me responde assim que puder. Também te amo.”. Enviei. De repente, Henri se aproximou e colocou a mão no meu ombro. Eu me virei para olhá-lo e percebi que ele tinha levantado da cama por minha causa. Mas, antes que eu pudesse me manifestar, ele me perguntou:
— Você está bem? Parece preocupada.... Aconteceu alguma coisa?
Então, eu coloquei o celular no viva voz, digitei o número e coloquei a mensagem para ser repetida. Assim que Henri escutou, ficou tão chocado quanto eu. Mas, logo depois, sua expressão mudou e ele disse:
— Bom... Você pode ir para minha casa. Meus pais estão viajando. Então, não vai ter problema. E também.... É o mínimo que eu posso fazer por você, depois de ter me salvado.
Aquiesci e movimentei a boca como se dissesse um obrigado.
— Não precisa agradecer. – Ele respondeu, virando-se para Alfred. – Por favor, chame a médica. Já estou bem. Só preciso de alta.
— Ok. Já volto. Mas, antes disso, tome. – Ele disse, estendendo-lhe uma sacola. – Aqui tem roupas secas para você colocar. E sapatos também.
— Obrigado.
— Não há de quê.
Então, Alfred saiu da sala, já olhando de um lado ao outro a procura da médica. Logo que ficamos a sós, ele começou a tirar as roupas da sacola e olhá-las. Tinha uma camiseta branca de manga curta, uma calça jeans azul escura e um par de All Stars pretos. Ele colocou as roupas na cama e os sapatos no chão. Enquanto isso, eu o observei. Nem dá para acreditar em quanto ele está diferente. O menininho que eu conheci agora é um garoto alto, magro e atlético. E, muito bonito. De repente, Henri se virou para mim e perguntou:
— Laura, você poderia.... Me dar licença?
Fiz que sim com a cabeça, envergonhada, e sai, fechando a porta atrás de mim. Que droga. Pensei, me apoiando na porta e olhando para o teto. Como foi que eu não me toquei? Ele esperando eu dar licença, e eu lá, olhando para ele sem perceber. Que ótimo. Já comecei mal. Olhei para baixo, por um segundo, e depois comecei a olhar os médicos andando para lá e para cá.
Quando eu pensei que o corre-corre no corredor terminou, vi outro grupo de médicos se aproximar com uma maca, mais apressados do que os anteriores. Estavam em cinco pessoas. Três homens e duas mulheres. Apertei-me contra a porta, ficando na ponta dos pés, para não atrapalhar. Além de evitar que passassem por cima de mim. De repente, a porta se abriu atrás de mim e perdi o equilíbrio.
— Opa. – Henri se surpreendeu, me segurando rápido, antes que eu caísse. – Tudo bem? Desculpa ter aberto a porta de uma vez.
Sorri e balancei levemente a cabeça, como quem diz que não tem problema. Enquanto isso, fiquei em pé e me soltei dele. Henri continuou olhando para mim e sorrindo. Mas, antes que eu ficasse corada, Alfred voltou com a médica. Mas, não era Ágata. Era uma moça bem esbelta, alta, de pele bem morena e cabelos pretos incrivelmente cacheados. Não devia passar dos trinta e cinco anos. E, quando ela foi falar, exibiu um sorriso branco perfeito e de dar inveja:
— E então? Como você está?
— Eu estou bem.
— Sem enjoo? Mal-estar? Tontura?
— Nada. Eu estou bem mesmo.
— Estou vendo. Até trocou de roupa. – Ela reparou, olhando-o de cima a baixo.
— Pois é. Estou louco para ir para casa.
— Muito bem, então. – A médica respondeu, preenchendo algo numa folha da sua prancheta. – Venham comigo.
Então, peguei minha bolsa e a segui, junto com eles, até o balcão de atendimento, onde ela pediu a uma das secretárias que fizesse e imprimisse a alta dele. O que foi prontamente atendido. A secretária responsável era uma moça mais nova que ela, aparentemente japonesa. Ela digitou tudo muito rápido. Em cerca de cinco minutos, a alta ficou pronta e foi direto para as mãos da médica. Então, ela a assinou e entregou a Henri, dizendo:
— Está liberado. Se cuida.
— Obrigado. E pode deixar.
Então, assim que ela sumiu em um dos corredores, nós saímos. Henri parecia ansioso, mas não tive certeza. Ele parecia dividido entre ansiedade e uma espécie de receio. Será que ele está assim porque eu vou conhecer a casa dele? Suas mãos pareciam inquietas, como se ele não conseguisse contê-las. Por fim, Henri meteu-as nos bolsos da calça jeans. Por essa eu não esperava. Não esperava mesmo. Se bem que, no lugar dele, eu provavelmente ficaria pior que isso.
Passados alguns instantes, ele se virou para me olhar. Como que para garantir que eu ainda estava lá. Acho que eu estou tão quieta que ele temeu que eu não estivesse mais por perto. Continuamos andando, por mais um bom tempo, até que de repente, senti uma forte tontura. Tudo girava enquanto o chão parecia cada vez mais próximo. Mas, os braços de alguém me seguraram com firmeza. Só percebi que se tratava de Henri, quando este me perguntou espantado:
— Você está bem?
Fiz um sinal de negação com uma das mãos. Então, Henri soltou uma de minhas mãos e passou um braço em volta da minha cintura. Que atencioso.... Passei um braço por cima de seus ombros e deixei que ele me ajudasse. Do contrário, somente o chão me esperaria. Eu me perguntava, mentalmente, como é que isso foi acontecer. Até que pensei se não seria por estar sem comer a um bom tempo. Afinal, essa era a minha melhor hipótese.
Resolvi olhar ao redor, como de costume. Mas, a paisagem se movendo irregular me deu uma sensação de vertigem terrível. O que raios está acontecendo comigo? Eu nunca sinto tontura. O que me fez ficar assim? Mas, por mais que eu buscasse alguma resposta, eu não conseguia pensar em nada. Afinal, esse tinha sido o dia mais caótico de todos, nos últimos meses. Acho que tentar encontrar algo de normal hoje, vai ser como encontrar uma agulha num palheiro.
De repente, me dei conta de onde estávamos: Vila das Encantadas. Passamos por casas de diferentes estilos e cores, até que finalmente paramos em frente a uma maior, com muro de cor creme, e um portão de madeira. Então, Alfred abriu o portão, enquanto Henri passava comigo até a porta de entrada, que estava aberta. Eu me soltei de Henri e me apoiei na parede. Antes que ele pudesse protestar, apareceu uma mulher um pouco mais baixa que eu, morena e de cabelos pretos, presos num coque e disse:
— Oh, meu Deus. Henri. – Ela abraçou-o com força. – Você ainda vai me matar do coração.
— Calma, Abigail. Estou bem. Sério.
— Graças a Deus que está. Não tem ideia do quanto rezei por isso. — Ela exclamou, soltando-o e fazendo cara de séria.
— Até que faço, sim.
— Você não vai nos apresentar? – Ela perguntou, ao notar minha presença.
— Espera um segundo. – Ele disse, virando-se para Alfred. – Você pode arrumar o quarto de hóspedes, por favor?
— Claro. Já vou subir.
— Obrigado.
— Quarto de hóspedes? O que está acontecendo, Henri? – Abigail perguntou, espantada.
— Bom... Vou tentar resumir. Abigail, essa é a Laura. É graças a ela que estou vivo. O pai dela está com problemas e mandou ela ir para um lugar seguro. Então, eu a trouxe para cá.
— Santo Deus...
— Eu que o diga. Mais tarde eu te conto tudo com mais detalhes. Ok?
— Está bem.
De repente, minha vista escureceu e me senti mole, como uma boneca de pano. Só que mais pesada. Acabei caindo de repente. Mas Henri me segurou bem a tempo, passando o outro braço de baixo das minhas pernas e erguendo-me em seu colo. Nisso, Abigail se espantou ainda mais e perguntou preocupada:
— O que há com ela, Henri?
— Não sei. – Ele respondeu, chamando Alfred em seguida. – Alfred?!
— Já arrumei tudo. Pode trazê-la. – Disse Alfred, estando mais perto do que pensávamos.
Então, Henri me carregou escada acima e entrou em um dos cômodos, me deitando sobre uma cama. Em seguida, tirou minhas sapatilhas e me cobriu com o lençol. Continuei não enxergando com clareza. Mas, percebi que ele estava me olhando. Então, ele disse:
— Descansa um pouco. Qualquer coisa, estarei no quarto ao lado.
Fiz que sim com a cabeça. Então, ele se levantou e saiu. Foi a última coisa que vi antes de deixar o cansaço me vencer.
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