Maré Alta
5 Capítulo quatro
Notas iniciais
“Sangue é mais denso do que água, minha pequena Kamille”.
A visão de Kamille estava turva. As pontas da paisagem pareciam se afunilar, distorcendo a imagem. A paleta de cores toda misturada: em um momento, o cacho de uvas trazido em uma bandeja por um dos empregados parecia brilhar em um tom de rosa vibrante. De relance, ela pensou ter visto um pequeno filhote de leopardo arranhar a tapeçaria antiga com garras que não poderiam ser menos do que um horripilante verde-musgo.
Mas não era apenas a parte óptica que não fazia sentido: os sons misturavam-se em uma cacofonia infernal. O ruído de uma mesa sendo arrastada entrava pelo seu ouvido esquerdo, e, quando saia pelo direito, era um macaquinho ganindo animadamente.
Ela sentia-se tonta, perdida. O mundo parecia não somente girar ao seu redor: estava fazendo piruetas e malabarismos também. Sentiu uma pressão nos tornozelos, e, quando deu por si, sentiu as centenas de milhares de fios cuidadosamente costurados do enorme tapete de seda roçando sua pele – o que era estranho, porque até um segundo atrás, ela tinha certeza que estava de pé.
Alguma coisa agarrou seu queixo, mas o toque parecia fantasma. Não havia ninguém ali. A mesma força abriu sua boca, e Kamille sentiu a porcelana fria de uma caneca sendo pressionada contra seus lábios.
— Não nos envergonhe agora, Kamille — rosnaram, mas ela não soube dizer quem.
Ela acordou suando frio quando Jade se remexeu pela milésima vez, empurrando sua cabeça. Com um suspiro frustrado, ergueu o tronco, lançando um olhar aborrecido para a tigresa, que ronronou e esfregou o tronco no lençol abaixo delas. Kamille rolou os olhos. Jade era sempre assim. Inconveniente e fazendo as coisas quando bem entendia.
Ainda assim, a garota correu uma mão gentilmente pela pelagem multicolorida dela. Jade era uma das únicas coisas que a lembrava de sua terra natal — e a única, que, mesmo assim, não a fazia pensar no arquipélago como o inferno que havia sido para ela durante dois anos.
Certamente, a maior parte da população daquele continente horrível venderia suas casas e seus filhos para ter uma oportunidade de viver no grande e magnífico arquipélago de Draconlay, a maior potência naval, mercantil e, de acordo com alguns Lordes, educacional do mundo, mas Kamille dispensava a oportunidade. Mesmo que aquilo significasse passar noites naquele deserto desgraçado, com o frio quase congelando seus ossos — ah, tudo bem, nem todos os draconianos haviam recebido a mesma educação que a família dela tivera acesso, mas não era possível que eles realmente não soubessem que acampar em um deserto durante a noite era uma ideia estúpida.
Ela sentou-se ao lado da tigresa, que ainda dormia profundamente — e, aparentemente, sonhava bastante, também. Sortuda — correndo uma mão pelo próprio cabelo. Era a tradição de sua família que os herdeiros — homens ou mulheres — não cortassem os cabelos até o vigésimo primeiro aniversário. Kamille havia passado pelo décimo sétimo há pouco tempo, mas não era isso que a impulsionou a manter os longos fios. Ela não estava seguindo a tradição dos Ansleys.
Ela só estava sendo ela.
Ou, ao menos, era assim que Kamille gostaria de pensar.
No continente de Lacrafta, Kamille era como um vagalume brilhante no meio do breu de uma floresta fechada. Todos ali tinham aparências similares: os cabelos ou muito claros a ponto de serem quase brancos, ou tão escuros que seriam confundidos com tinta. A pele, sempre pálida, quase da cor de mármore — o que não era uma surpresa, visto que todas as suas pequenas vilas e cidadelas eram subterrâneas —, e os olhos. Ah, os olhos. Ambas as írises da mesma cor. Sempre de um tom castanho ou cinzento. Ou talvez um ocasional verde aqui e ali.
Lacrafta, para ela, era como um poço de mesmice — ou, como Alisha provavelmente diria: uma competição de mercadores vendendo exatamente o mesmo produto.
Kamille e seus mais queridos colegas de bando eram como um furacão de cores, com suas peles que variavam do mais profundo tom de negro até aqueles que se equiparavam aos lacraftanos. Os cabelos, volumosos e raivosos, como se possuíssem vontade própria. Ruivos, da cor de sangue, ou loiros da cor de ouro. Até a única característica que todos eles compartilhavam era inconfundível: a heterocromia, com a qual todo legítimo cidadão draconiano nascia.
Nenhum draconiano era igual ao outro. Eles viam de todas formas, etnias e tamanhos. Não havia um único sequer homem ou mulher que não fosse completamente original quando comparado a outro. Ah, o grande continente de Draconlay, a nação mais livre de todas — aquela cuja população cortava os mares entre uma ilha e outra a içava velas ao desconhecido.
A mesma nação que prendera Kamille em um porão por um ano e a alimentara com um veneno alucinógeno.
Mesmo agora, dois anos depois de sua fuga, a realidade às vezes se confundia à sua frente. Ela não tinha certeza se todo o veneno havia sido expelido de seu corpo. Quando procurava em sua mente um culpado para aquilo, seus pensamentos devagavam: deveria culpar sua mãe, rígida e inflexível? Seu pai, ausente e apático? Quem sabe seus irmãos e irmãos mais velhos, que nada haviam feito?
Ou, mesmo, sua grande e respeitava avó, matriarca da família, e que havia despejado sobre Kamille a sina de ser uma Ansley?
A garota arrancou uma adaga do cinto e começou a raspar o barro das botas, um gosto amargo instalando-se em sua língua. É claro que ela nunca poderia culpar sua avó — a menos, é claro, que quisesse ser executada. Profanar o nome da maior oficial de guerra de Draconlay era um crime quase tão horrendo quanto blasfêmia, aparentemente.
Ela havia aprendido aquilo da pior maneira.
Quando pensava sobre isso, talvez o problema não houvesse começado quando ela e o irmão (Kamille tinha esperanças de que a alma dele, se morto, estivesse ardendo no inferno. Ou, na pior das hipóteses, se estivesse vivo, que seu corpo estivesse sendo lentamente devorado por um monstro da montanha), Sheru, haviam se rebelado contra a família e presos à uma haste por três dias a fio sem água ou comida, sendo chicoteados com couro encrustado de sal. Ou nem mesmo quando haviam sido acorrentados e dopados por quase um ano.
Provavelmente havia começado logo após seus nascimentos — quando a parteira os havia marcado a ferro com o emblema dos Ansley e depois mergulhado suas peles ardentes na água.
Provavelmente.
Por isso, Kamille não se sentia tão mal assim por viajar com um bando de ladrões. Não que ela estivesse tentando enganar a si mesma. Ah, não. Ela sabia que, se não fosse por Jade, sua tigresa nada amigável com estranhos, e a cimitarra que ela mesma carregava na lombar, algum deles já teria rasgado suas roupas e tentando toma-la à força. Mas, ao menos, era melhor ali, longe de sua família e principalmente, de seu irmão traidor.
Quando enfim ficou satisfeita com o estado das botas, estalou as costas, espreguiçando-se. E então, ouviu um grasnido ao longe. Era um som estranho, e inédito, e continuou se repetindo por momentos a fio. Kamille franziu o cenho. Lacrafta não possuía nenhuma fauna excepcional, só um monte de víboras (sobre as quais rezava alguma lenda estúpida sobre como os deuses haviam amaldiçoado o continente após a destruição na natureza por parte dos cidadãos, para a qual Kamille não havia dado muita atenção), nada comparada à insana diversidade de Draconlay. Desde muito nova, Kamille sempre havia sido obcecada por pássaros, e pela aparente infinita liberdade que eles possuíam, apenas por causa daqueles pequenos pares de asas.
E aquele grasnido, ela não conhecia.
Rapidamente, Kamille acordou a tigresa, e elas seguiram a direção do som. Não demorou muito para se encontrarem na divisa entre o deserto e A Fenda, onde começava a faixa de terra na qual os lacraftanos podiam caminhar.
A origem do barulho era nada mais do que uma só garota, montando acampamento com uma fogueira que expelia uma fumaça odorosa e um corvo que grania como se alguém estivesse lhe arrancando as penas. Mas a garota não estava olhando para ela, compreensivelmente. Seus olhos estavam grudados em Jade, esticada sobre a areia e alerta. Ainda assim, seu olhar não falhou em capturar o brilho de uma lâmina (que pertencia à uma imponente e ameaçadora lança mais alta do que ela própria).
Ela analisou a situação com cuidado. A garota estava distraída. Sabia que Jade não iria atacar primeiro. A lança não estava nas mãos dela ainda.
Ok, ela podia fazer isso.
Esgueirou-se silenciosamente por trás da garota e tirou uma de suas várias facas do cinto, ao mesmo tempo em que puxava com um dos pés a lança para perto de si.
— Eu acho que você a assustou, Jade — disse.
A garota tentou olhar para ela, mas Kamille acertou com o cabo da faca atrás da cabeça antes que ela pudesse. Quando o corpo dela caiu para frente, o corvo empoleirado ali perto começou a grasnar alto. Sem paciência, Kamille apontou a faca para ele. Se fosse como os animais de Draconlay, seria inteligente o suficiente para calar o bico. Se fosse como os de Lacrafta, Kamille seria obrigado a mata-lo antes que atraísse a atenção dos soldados.
Ele era inteligente. Ótimo.
Caiu sentada na areia, cansada. Cuidadosamente, moveu o corpo da garota para deitar-se de peito para cima, e esperou. Ela deveria sair dali e deixa-la para acordar sozinha, deveria mesmo.
Mas o olhar dela havia sido roubado pela lança. Reconhecia a pedra encrustada entre a lâmina e o cabo. Era parecida demais com a que havia na sua própria cimitarra, a que Ema Dariom, mãe de Alisha, a havia dado antes de Kamille fugir de Draconlay.
Mais do que isso.
Era idêntica às pedras que sua avó ostentava do imponente colar que nunca deixava seu pescoço.
E se Kiara Ansley usava uma pedra daquelas, então aquela garota desmaiada não poderia ser nenhum bom presságio.
A curiosidade da garota a manteve ali. O que uma arma de Draconlay fazia nas mãos de uma garota de Lacrafta? E por que uma garota com dinheiro o suficiente para comprar uma arma daquelas estava comendo churrasquinho de carne de rato?
Bem, não que Kamille pudesse julgar a situação financeira de alguém.
Com um suspiro, apoiou os braços nos joelhos e esperou.
O dia já estava quase amanhecendo quando a garota acordou. Ela remexeu-se com tamanha urgência que quase bateu a cabeça. Levantou o torso, mas pareceu lhe faltar forças para levantar o corpo inteiro. Uma de suas mãos instintivamente voou para massagear o local da cabeça onde havia levado uma pancada.
— Foi mal por isso — Kamille falou — eu não costumo dar coronhadas em todo mundo que acabo de conhecer. É só que você me assustou.
A garota virou-se para ela, e seu rosto se contorceu em uma careta quando viu sua lança encima das pernas de Kamille.
— O que você quer comigo?
A voz dela era feminina, mas rouca e dolorida, como se estivesse há muito tempo sem tomar água. Kamille buscou pelo próprio cantil e jogou-a para ela, que o apanhou no ar.
— Eu só quero conversar, juro — afirmou, erguendo as mãos como que em sinal de rendição. — Por exemplo... para início de conversa... — ela inclinou-se, de modo a ficar com o rosto próximo do da garota — quem é você, e de como conseguiu uma arma do meu continente?
“E o nosso, é o mais denso de todos, garota estúpida”.
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