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19 O Terceiro Avanço


–Finalmente...

Gatts continuou a escalada, eufórico e ansioso. Um pequeno pedaço de material vermelho reluzia levemente no topo do Santuário dos Cogumelos, onde um enorme monstro havia acabado de ser derrotado. Depois de derrotar a criatura, ele constatou que ainda teria mais um desafio: chegar ao topo do enorme templo.

Tinha sido uma subida árdua e cansativa, mas finalmente ele estava lá. E lá estava o item, uma fagulha de luz refletindo o brilho do sol na ponta do Santuário. Toda essa animação o fez acelerar a subida, o que o fez escorregar e quase despencar dezenas de metros abaixo.

"Devagar agora", ele pensou. Seria o cúmulo dar um passo em falso e cair depois de vários minutos de escalada, quando já estava quase no fim dela. Ele se obrigou a ir com calma, embora seu coração fervesse de excitação. Passaram-se dois minutos, depois cinco...

E lá estava ele, no topo do Santuário dos Cogumelos. À sua frente, o enorme capacete brilhava, encaixado na ponta do grande santuário. Quase pulando de alegria(mas não o fazendo porque aí ele ia cair), ele o pegou.

E novamente ele pagou o preço por sua ansiedade. Dentro do capacete, havia alguma coisa, que ele conseguiu vislumbrar rapidamente antes de ela rolar e cair ao chão: um pequeno pedaço de metal vermelho brilhante. Um fragmento de armadura.

O pequeno objeto caiu, e Gatts não consguiu ouvir o impacto dele no chão. Não fazia mal. Ele iria procurá-lo assim que descesse....

Assim que descesse...

Ele ficou muito ereto, tentando ao máximo ignorar o medo que ameaçava tomar conta de seu corpo. O santuário tinha a forma de um gigantesco obelisco de pedra branca, e era ligeiramente inclinado formando uma rampa a quase noventa graus em relação ao chão. O topo dela era como uma tábua, reta e lis aonde ele poderia ficar de pé sem problemas. Exatamente no centro, havia uma pequena pirâmide que enfeitava o topo como que coroando o santuário. Por ser uma construção antiga, estava cheia de buracos e rachadores por onde ele pôde apoiar as mãos e os pés para subir.

Mas isso tinha sido durante a subida. Subir um pedaço de rocha lisa e rachada com a força da gravidade atrapalhando era uma coisa. Ser ajudado por ela era outra. Ele duvidava que conseguiria descer aquela rocha íngreme sem escorregar e se estabacar no chão.

Gatts, o grande guerreiro nível 89 que liquidara Dark Corpse sozinho e agora era o sexto jogador mais evoluído de todos, estava preso no alto de um obelisco que ele mesmo havia acabado de subir.

"Tem que haver algum jeito", ele pensou desesperado. Tinha que haver. Ou talvez aquilo fosse uma armadilha? O último teste depois de conseguir o capacete...

Algo em seu menu piscou e ele olhou rapidamente, excitado. Mas era apenas Kiara. Ou melhor, um item enviado por ela. Gatts sorriu ao ver que era o fragmento vermelho que ele havia derubado instantes atrás. Ela deveria tê-lo visto cair e o recuperado.

O guerreiro colocou o item no inventário, distraído. Não teria jeito, teria que descer da mesma forma que subiu. Havia uma rachadura um pouco maior do que as outras a poucos centímetros do topo, talvez ele devesse começar colocando o pé ali...

Alguma coisa o envolveu, e o guerreiro quase caiu quando se virou para olhar. Puxou a espada, mas não havia nenhum monstro ali. Ele reconheceu um fragmento... Os fragmentos de armadura! Eles estavam saindo do inventário e se agrupando! Abismado com o que aquilo poderia ser, ele recuou, tomando cuidado para não cair na beirada desprotegida do topo do santuário.

Enquanto observava, os fragmentos se juntavam e encaixavam, como se fossem peças de um quebra-cabeça. E logo em seguida, seus olhos arregalados contemplaram o objetivo de tudo aquilo: um peitoral de bronze vermelho-escuro, finalmente reconstruído com todos os fragmentos.

Gatts sentiu um puxão em sua perna e viu tarde demais que as grevas estavam se soltando. O mesmo aconteceu com as tornozeleiras e as botas, que o fizeram cair sentado no obelisco. As luvas também abandonaram seu corpo, assim como as ombreiras a proteção para cotovelos. Assustado com tudo aquilo, ele viu o que estava sendo feito na frente dele: uma armadura de bronze completa, unida e bem trabalhada.

O peitoral era formado por várias placas que eram similares a telhas. As proteções para os braços se agruparam assim como as das pernas, criando uma forma idêntica à do peitoral, no estilo das escamas de um peixe, só que muito maiores. E enquanto olhava, uma descrição apareceu em seu menu: a descrição do item que ele vinha procurando havia tanto tempo.

"Armadura de Bronze da Alvorada

Forjada pelo respeitável ferreiro Adinnef, esta lendária armadura protege seu usuário da maioria dos danos mágicos, venenosos e malignos. Concede uma defesa incomensurável enquanto aumenta consideravelmente sua mobilidade, ligando-se ao corpo, formando um só guerreiro. O Guerreiro da Alvorada"

Abaixo disso havia uma série de efeitos extras que a armadura concedia, e os bônus que ela tinha quando usados junto com a Espada do Berserker. Ao se lembrar dela, Gatts percebeu que a única coisa que faltava era o capacete. Ele vestiu a armadura, que lhe serviu de maneira surpreendentemente leve, apesar do enorme peso que ele sabia que ela tinha. Sentindo uma satisfação maior do que quando superou a visão das fotos do Davien de sunguinha, ele pôs o capacete na cabeça.

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Kiara cantarolava baixinho para si mesma, sentada em sua pedra azul que sempre levava consigo. Seus longos cabelos azuis balançavam com o vento, e ela usava a pedra como se fosse um balanço.

Ela sabia que Gatts estava empacado lá em cima. Sabia que ele, em sua ansiedade para pegar o equipamento lá em cima, não se importaria em como faria para descer. Mas ela não estava preocupada. Ele daria um jeito, ela sabia disso. Era difícil de acreditar que um jogo tivesse um equipamento que ficasse preso daquele jeito, impedindo a pessoa de descer para sempre.

Houve um momento em que ela achou que poderia ser uma espécie de bug, mas logo afastou a idéia da mente. Se esse fosse o caso, o guerreiro estaria gritando por ajuda, e além disso nenhuma das Quests Únicas havia mostrado algum erro. Não, ele estava bem. Só estava demorando demais a raciocinar. Logo logo, ele estaria no chão e...

BUM!!!!!!!!!!! Kiara escorregou para trás na própria pedra e caiu de costas no chão, que havia tremido intensamnte como num terremoto. Mas tinha sido apenas por um segundo. Assustada, ela se levantou rapidamente e deu de cara com alguma coisa muito estranha.

O chão onde a figura havia caído não tinha se partido ou sofrido qualquer alteração, como era comum aos cha1s de jogos. No epicentro do tremor, estava uma figura com um joelho no chão, toda vestida de armadura vermelha, sem uma parte descoberta sequer. A cabeça estava curvada, de modo que ela só podia ver os gumes que se projetavam atrás do capacete. A figura se ergueu lentamente, como se nada tivesse sofrido.

O rosto do capacete era uma visão que intimidava. Os olhos eram fendas diagonais escuras onde não se podia ver os olhos de quem o usava, e não havia boca, apenas um prolongamento da cabeça que ia até o queixo. Era uma visão que exigia respeito. Que foi logo estragada quando Gatts ergueu a mão coberta de aço e abriu o visou do capacete, revelando um rosto sorridente e muito, muito animado.

–Kiara! Olha só, finalmente eu...

–SEU... IDIOTA... QUER ME MATAR DE SUSTO? E QUE DROGA DE PULO FOI ESSA? JÁ PENSOU QUE VOCÊ PODERIA TER CAÍDO EM CIMA DE MIM COM ISSO?

–Bem... não — ele admitiu, o que só piorou a expressão zangada da menina — Quer dizer... Ah, tem muito mais chão pra eu cair do que o lugar onde você estava seria muito difícil eu cair em cima de você. Mas aí... — seu rosto logo voltou a exibir um imenso sorriso — Eu consegui, consegui a armadura! Finalmente eu completei, Kiara, olha só!

–Estou vendo — ela riu, mais animada depois de passar o susto — Bom, isso quer dizer que acabaram suas Quests chatas! O que você pretende fazer agora?

Gatts pousou a mão no queixo por alguns momentos. Ele não havia pensado nisso.

–Acho que vou voltar pra El Nath — ele disse por fim — Completei a Quest, mas preciso dizer ao Adinnef que consegui a armadura. Ele passou anos forjando ela, e foi banido por causa disso.

–Semanas — corrigiu a garota — Um grupo de programadores fez ela em algumas horas, na verdade. Mas eu entendo, você juntou a armadura dele, ele deve querer te ver!

–Eu também quero vê-lo — Gatts respondeu sorrindo — Tenho que agradecer a ele, mesmo que seja um NPC. Então... vamos? Que tal apostar uma corrida?

O rosto da menina se animou ainda mais.

–Ah, claro! Vamos, um dois e... Já!

Gatts disparou para frente como um touro, ganhando velocidade à medida que seus passos largos faziam o chão atrás dele tremer. Até ele se surpreendeu com a velocidade que estava atingindo, e ele se sentia seguro — como se de alguma forma soubesse que as botas daquela armadura vinham com freio ABS e ele conseguiria parar no mesmo instante, mesmo correndo rápido como estava.

E foi naquele dia que ele aprendeu que nem mesmo a armadura mais rara de todas é capaz de vencer um mago com Teleporte numa corrida.

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–Era o que eu temia...

–Não seja tão pessimista. Talvez seja apenas coincidência.

–Não esta sendo pessimista, estou apenas dizendo que meus maiores e terríveis temores acabam de ser confirmados.

Rockfield se levantou, o rosto franzido enquanto analisava o terreno. Ele olhou para o lado e viu Sheddeer parado ereto e sério como sempre. "Interessante", ele pensou ao analisar o arqueiro. A armadura leve, feita de couro endurecido que protegia o peito e as pernas do rapaz era coberta por uma estranha capa cinza esverdeada que lembrava muito vagamente o tom camuflado de uma farda do exército. Enquanto olhava, Sheddeer parecia oscilar e se misturar às árvores verdes e cheias de folhas que haviam deixado para trás. Ele balançou a cabeça, mas a ilusão não se foi. Então decidiu esquecer o assunto. Se ele, um Gatuno nível 83 com altas habilidades de detecção às vezes tinha problemas em focar a visão no arqueiro, era um sinal de que o mesmo aconteceria com jogadores inimigos. Ele balançou a cabeça novamente.

"Chega de ficar tentando me concentrar em homens", ele pensou e voltou a atenção para a estrada.

Eles vinham seguindo a pista de Anna havia três dias. Já se passara muito do meio-dia, pelo menos ali em Edelstein. Estavam seguindo a estrada que há poucos minutos tinha passado da cidade, onde o terreno curvo e coberto de grama começava a dar lugar à planície àrida e acidentada onde, mais além, ficava a Mina Verne, um lugar em que que até aquele momento não se conhecia nenhum jogador que tivesse ousado pôr os pés para saber o que tem dentro.

A estrada seguia para o norte, onde havia um enorme deserto pedregoso sem nada além de alguns monstros chamados Comedores de Pedra. Ao lado deles, a estrada que levava à Mina Verne elevava-se como uma rampa na direção da enorme montanha, formando uma parede perto de onde eles estavam agora.

O lugar onde estavam era uma bifurcação onde a estrada ia também para o leste, evitando o deserto árido e voltando à pequena floresta. E era por isso que Rockfield estava tão apreensivo. O caminho norte, o que a garota não havia escolhido, levava aos arredores de um dos lugares mais misteriosos e desconhecidos de todo o jogo.

O outro caminho levava à base principal da Sunrise of Astoria.

–Ela pode só ter passado por aqui — o gatuno sugeriu vagamente, embora parecesse estar tentando convencer a si mesmo. Sheddeer virou a cabeça, considerando a possibilidade.

–Ou talvez ela tenha sido capturada. Mas deve-se levar em conta tudo o que pode ter acontecido. A casa deles é por aqui, mas isso não significa nada. Eles não capturam qualquer pessoa que passe. Por outro lado, ela pode muito bem ter sido pega.

–Sim, mas se isso tivesse acontecido, eu saberia encontrar o rastro de algum deles — tornou Rockfield — A pergunta é: o que diabos ela estava fazendo aqui sozinha?

Sheddeer não soube responder, então voltaram a andar, sem precisar realmente olhar com atenção para peceber que a garota havia pego aquela trilha. E não tinha se desviado do caminho para a base em nenhum momento.

Rastrear pessoas não é uma habilidade exata. Pessoas com essa habilidade elevava conseguem ver resquícios de pegadas e o rastro da pessoa que quer procurar. Mas as pistas desaparecem depois de alguns dias. Pelo que puderam constatar, Anna havia passado por El Nath, depois retornado até a Ilha Victoria, por onde rodou por praticamente todas as cidades, para depois voltar a Orbis e então partido para Edelstein.

Estes últimos passos tinham uma diferença significativa em relação aos demais. Enquanto a garota apenas andava normalmente durante a estadia na Ilha Victoria, quando ela começou a ir para Orbis foi como se seus passos tivessem ficado mais decididos, mais determinados. Como se ela tivesse simplesmente resolvido ir para Edelstein, mas tivesse certeza do que queria.

Era por isso que eles estavam seguindo aquele rastro ao invés de rodar toda Victoria com atenção. O que quer que ela estivesse planejando, ela sabia o que estava fazendo. Ou, pelo menos, eram o que as pistas diziam. Por isso, eles contataram a Green Tag Audiosurf, um clã criado com o propósito de agirem como mensageiros e entregadores de itens, já que esse sistema carecia no jogo. Depois que a emoção inicial de estarem presos no jogo arrefeceu, as pessoas começaram a perceber que não adiantaria correrem e tentar ganhar EXP o dia todo para alcançar o nível máximo e sair dali. Com isso, pessoas começaram a se unir em grupos especializados em realizar tarefas úteis a outros jogadores, como era o caso da Green Tag. Rockfield conhecia um dos membros, e sabia que eram extremamente confiáveis. O sistema, naturalmente, cobrava uma boa quantia em mesos, mas era simples e efetivo. Com a mensagem a caminho de Donnie avisando que não retornariam para o jantar tão cedo, eles poderiam continuar a busca um pouco mais tranquilos.

Embora tranquilidade não fosse um sentimento que eles estivessem sentindo naquele momento.

Isso se confirmou quando, minutos depois, Rockfield soltou um longo e profundo suspiro e olhou para cima e para frente. A estrada passava por uma pequena colina, que não era mais do que uma pequena curva quebrando a monotonia do chão plano e gramado pense numa hill com elevação 3 do Empire Earth mas vc n deve conhecer pq hj endia o jogo de strategia qe tds jgam e so eige ofem-paires.

A estrada seguia adiante, uma fita de terra batida no meio do chão verde até sumir numa floresta de pinheiros. Além da floresta, havia o mar que separava Edelstein do continente de Ossyria.

E na floresta, tinha a casa do Dark Corpse.

–Sheddeer — Rockfield disse depois de hesitar um momento — Acho melhor você ficar aqui. Eles não conhecem você, mas não seria bom se te vissem investigando. Se eles me encontrarem, vão simplesmente achar que estou de volta.

–Eu concordaria com você — o arqueiro respondeu, um sorriso irônico brincando em seus lábios — Se eu soubesse quem são "eles" e o que tem no meio do caminho.

Rockfield o olhou sem entender por um momento, mas então o sorriso de Sheddeer se alargou e ele baixou a cabeça, zangado. Havia se esquecido de que o companheiro não sabia que ali era a sede da gangue.

–A sede da Team Italo fica ali — ele explicou, e Sheddeer fez um "ah" — Me espere aqui, sim? Talvez eu demore um pouco, vou tentar descobrir se alguém sabe de alguma coisa.

O arqueiro assentiu.

–Tudo bem. Vou esperar ali na beira da floresta.

Rockfield olhava as costas do arqueiro enquanto ele ia em direção à árvore que havia indicado. Novamente, sentiu a incômoda sensação de confusão quando não conseguia discernir bem a imagem dele. Houve um momento em que ele simplesmente pareceu sumir, depois a ponta da capa apareceu ao lado do tronco. O gatuno deu um violento tapa na própria cabeça, e anotou mentalmente que nunca mais sairia sozinho com o arqueiro em uma floresta.

A floresta ficava mais densa à medida que Rockfield caminhava pela estrada e as àrvores, mais altas. Chegou em um ponto perto da areia da praia, onde havia quatro enormes pinheiros que cresciam muito juntos. Parecia apenas um amontoado ocasional de árvores, mas criavam uma proteção essencial na casa de madeira construída ali, usando os quatro troncos grossos como apoio. As agulhas de pinheiro escondiam a casa tão perfeitamente que, se Dark Corpse não tivesse recebido a dica de um NPC que vivia ali, eles nunca a teriam descoberto.

Com habilidade, usou as saliências numa das árvores para escalar e chegar à cobertura de folhas, mas não antes de olhar discretamente ao redor para ver se alguém aparecia. Como esperava, ninguém veio. Não havia monstros ali, e a floresta era muito grande para que alguém parasse exatamente naquele ponto.

Ao chegar na porta, contudo, deparou-se com um obstáculo: não conseguia abrir o trinco. A chave entrava na fechadura, mas ele percebeu que ela havia sido trocada. Mais ainda, o trinco que a protegia agora era nível 6. Ele ficou parado por alguns segundos sem saber bem o que fazer quando a porta se abriu.

–Ah, eu devia saber que é você — ele ouviu a voz zombeteira e resignada de Dark Corpse — Acho que só você não tem a nova chave... Vamos, entraí.

Rockfield não precisou responder. Um breve olhar atrás da máscara Nightingale que usava era suficiente.

As únicas coisas que haviam mudado na casa eram a fechadura e o trinco. A grande mesa ainda estava lá, assim como as prateleiras que circundavam três lados da parede interna além do que tinha a porta. Então ele percebeu que haviam comprado mais banquinhos de madeira — que não eram necessários naquele momento. Os únicos ocupantes da sala eram um guerreiro pálido e musculoso com um grande machado de duas mãos, um pequeno gatuno e um homem barbado de espada e escudo nas costas, além dele mesmo e de Dark Corpse.

–Bem-vindo de volta, Lord! — cumprimentou o urso pálido — O que te traz aqui tão de repente?

–Tem alguma notícia da Mad Shadow? — quis saber o barbado, o olhar um pouco ansioso demais.

–E quanto ao Viadão? — perguntou gatuno. A principal função de Rockfield era perseguir um vingador que importunava o grupo, e que também usava shurikens. No entanto, essa pessoa não existia: era apenas a sombra do gatuno, que ele invocava com uma habilidade.

–Ele acabou de chegar, não perceberam? — Dark Corpse retrucou nada brincalhão. Os outros riram.

–Se vocês me deixarem explicar primeiro... — ele começou — Bom, não, não sei onde está a Mad Shadow. Na verdade, não sei onde está ninguém! — ele exclamou, abrindo os braços como se alguém pudesse aparecer ali mesmo — Cadê todo mundo?

Dark Corpse deu uma risadinha.

–Pra onde você acha que todo mundo foi? — perguntou o guerreiro pálido — Não foi você quem trouxe a notícia de que eles estão em Mu Lung?

–Ah... isso. E você sabe onde exatamente eles estão?

–Mais ou menos, já chegaram em Mu Lung e estão procurando por eles — Dark Corpse se aproximou, olhando o colega com desconfiança — Por quê? Você tem alguma notícia nova?

–Nada importante — ele deu de ombros — Meu trabalho era dizer onde eles estavam, e pronto. Não tenho que continuar a procurá-los depois disso. Já tenho aquele vingador pra me preocupar.

–Por falar nele, como vai ele?

–Um pouco irritado no momento — Rockfield disparou — Mas não consegui muita coisa ainda. Eu perdi a pista dele lá em Ludibrium. Talvez eu o tenha dispistado, sei lá.

Dark Corpse bateu na mesa, sem tirar os olhos do gatuno.

–Você despistou ele? — repetiu, a boca aberta numa careta de raiva e incredulidade — Seu trabalho é matar aquele filho da puta, seguir ele até o inferno se precisar, e quando...

Ele se calou ao ouvir um barulho familiar na porta. Rockfield também o escutou, e ficou atento. Os dois guerreiros na sala ergueram as armas, prontos para brigar, mas Dark Corpse acenou para eles com desdém.

–Guardem isso, idiotas, estão esperando algum invasor? Ninguém mais tem a chave daqui... Nem o Lord!

–Estou vendo que não mudou muito as coisas por aqui — disse uma voz áspera.

Imediatamente, Dark Corpse sorriu, um sorriso largo e não muito inocente. Apressou-se a abrir a porta para a guerreira que entrava.

–Live Corpse! Linda como sempre... Bem-vinda!

Uma rápida olhada mostrou da Rockfield que os três homens também pareceram muito animados com a recém-chegada. Dark Corpse se curvou brincando de cavalheiro e ela entrou.

Ela estava vestida para a luta. A armadura era toda negra, sendo a maior parte dela uma peça fina que parecia um vestido com a base em forma de sino. Ele era aberto na frente até a cintura, exibindo a segunda proteção preta que cobria o corpo como uma cota de malha. As pernas levavam uma proteção que subia quase até encontrar a armadura que protegia o corpo, como uma grande e pontuda bota. Os braços usavam uma proteção parecida, uma única peça cobrindo o braço, as mãos e os dedos.

Dois espinhos grandes e curvos projetavam-se das ombreiras, e outros em forma de pirâmide saíam dos joelhos, todos grossos e afiados como placas de aço. Abaixo do espinho maior no joelho, havia mais dois menores alinhados, e também tinha espinhos no casaco. Um contorno pálido, quase azul, contornava os espinhos e detalhes da armadura. Um colar de pedras negras em formato de losango rodeava o pescoço, os longos cabelos castanhos ondulavam atrás da armadura, causando certo efeito.

Na mão direita, segurava uma espada, se é que ela poderia ser chamada assim. Uma longa e grossa lâmina cinzenta, larga como um poste, com uma fila de espinhos projetando-se de um dos gumes. A ponta afiada tinha uma protuberância cinzenta que lhe subia como um chifre, apontando para a mesma direção dos espinhos.

–Obrigada como sempre — ela respondeu quase com desdém — Tenho notícias novas pra vocês. Sobre as pessoas que procuramos, e não estão indo para Mu Lung.

Ouviu-se um coro de exclamações surpresas e o bater das cadeiras quando os outros ocupantes da casa se levantaram, abismados com a notícia. Ela não deu nenhum sinal de surpresa, nem sorriu ou deu sinal de estar dando alguma notícia importante. Automaticamente, passou os olhos pelo aposento para olhar os presentes.

O olhar dela encontrou Rockfield, mas apenas por um momento. Um segundo depois, ela se virou para falar com Dark Corpse, que tinha no rosto uma expressão de surpresa absoluta. Mas não era nada comparado à que estava escondida pela máscara do gatuno ao seu lado.

–Eles estão se escondendo numa fenda em El Nath — Anna contou — E eu tenho um plano para acabar com eles de uma vez.

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–Vamos! Mais rápido! Mexa mais esse cajado! Não, não é assim que se... Cala a boca, Thugles! Nick, congelar, depois usar os raios!

Sentado numa pedra cinza e nem de longe tão confortável quanto a de Kiara, ele observava os três companheiros com olhar crítico. Nick, Thugles e Vampiritico bufavam e ofegavam enquanto atacavam sem parar os monstros que Donnie indicava.

Os monstros eram raízes marrons duras e envelhecidas, que vagavam ao redor de Vila das Ervas. Talos, folhas e pedaços de raiz estavam espalhados por todo o chão. A cada um que matavam, outro aparecia logo em seguida.

O objetivo era aumentar o nível dos três companheiros, que ele julgou estar muito ruim. Todos eles já estavam acima do 65, mas comparado a Donnie, que era 84, era uma diferença exorbitante. E ele estava determinado a fazê-los pagar essa diferença. Afinal, ninguém havia dito nada, mas eles eram um time agora.

–Por que você não ajuda a gente? — Vampiritico perguntou nos primeiros minutos da caçada às raízes. Donnie apenas o olhou.

–Eu já fiz essa Quest. E estou muito cansado no momento. Além disso, vocês três precisam treinar melhor a técnica.

–Você é é preguiçoso — o rapaz resmungou baixinho, o que não passou despercebido pelo mago.

–Você acha? Então nesse caso, um gatuno ágil como você não teria problema em me vencer num duelo. Se você fizer isso, vai ferir meu orgulho e vou ser obrigado a ajudar vocês pra treinar mais.

Vampiritico chegou mesmo a cogitar a insinuação, mas desistiu mais do que rapidamente. Lembrou-se de que Gatts, musculoso guerreiro e atualmente no topo dos dez jogadores de maior nível, tivera grande dificuldade em enfrentar o alto bruxo. E isso porque ele tinha nível mais alto. Decidindo que seria melhor aceitar a situação e sair de fininho, ele cravou a adaga no primeiro Ginseng de 25 anos que viu.

A Quest que estavam fazendo consistia em entregar cem sementes de raiz de Ginseng para um NPC de Vila das Ervas. O que exatamente era uma semente de raiz ninguém sabia dizer — menos ainda explicar o fato de que elas vinham dentro de saquinhos com estampa de semente. Curiosos, perceberam que era um item de Uso, ou seja, que poderiam consumir. Mas Donnie os recomendou veementemente que não os comessem.

Eles logo entenderam o motivo. Aqueles saquinhos de semente dropavam muito raramente, provavelmente menos de 10% de chance de conseguir. Como eram três para juntar, eles sabiam que iriam passar longas horas naquele campo. Depois de três dias, cada um com cinco horas de trabalho, os amigos haviam juntado 280 sementes.

–Como está indo a Quest? — Aphanyus perguntou, aparecendo na pequena colina onde Donnie estava sentado. O rapaz fora à cidade comprar mais poções e beber um chá de Ginseng quente enquanto o resto trabalhava.

–Bem melhor que quando começaram — respondeu o outro.

Aphanyus estreitou os olhos para as costas dos três garotos. Estavam muito próximos uns dos outros, rodeando uma horda sem fim de raízes de Ginseng(aquele lugar era um campo onde eles aparecem com mais frequência). Eles atacavam, golpeavam e recuavam, o cansaço do trabalho evidente nos corpos deles.

Mas tinha havido uma melhora significativa nos últimos dias. Depois que foram ao mercado de Vila das Ervas, Donnie os levou ao chamado Mercado Livre, um espaço onde os jogadores poderiam trocar itens e equipamentos e lojas podem ser abertas.

(E não se entra no Mercado por portal. Pense numa área sem nada na sua cidade onde bandas vão lá pra fazer show, é a mesma coisa mas em vez disso tem uma feira gigante)

O lugar estava cheio de balcões de madeira, barracas de suprimentos e até mesmo trailers. Estava lotado, e não havia um único NPC sequer. Lá eles venderam uma boa coleção de equipamentos que vinham dropando, e também compraram novos. Foi lá que notaram que, depois do nível 30, a maioria dos equipamentos era formado por sets, que são um conjunto de equipamentos(botas, luvas, armadura, capacete etc) do mesmo tipo. Quando a pessoa usava um set completo, ganhava alguns bônus extras.

Eles tinham bastante dinheiro agora que haviam entregado três dos bandidos. Quanto a Mad Shadow, Donnie resolveu levá-la com eles, decisão que os outros não discordaram. Era possível sair de uma cadeia se alguém pagasse a fiança pela pessoa antes de a pena terminar, e eles sabiam que a Team Italo pagaria bem para tê-la de volta. Não, era melhor que eles mesmos a vendessem de volta para a gangue.

Nick agora usava um conjunto de túnica, luvas e chapéu nível 58 de um set chamado Anakamoon, de cores azul claro e brilhante. Também trocara o antigo cajado por uma varinha com bola azul e asinhas chama Asas de Anjo. Thugles usava o mesmo set, embora as cores dele fossem brancas. A arma que ele escolhera parecia ser o exato oposto da varinha de Nick: um cajado vermelho com bola amarela e asas pontudas e espetadas, chamado de Asas Diabólicas. Ele não gosto muito do nome — e nem era o ideal pra um Clérigo — mas era melhor que o Cajado Circular nível 30 que ele usava desde... O nível 30.

Já Vampiritico havia comprado roupas novas de Gatuno: uma camisa preta leve de couro, calças na mesma cor e um chapéu que parecia uma bandana(mas era um chapéu, não pense numa bandana pense em algo 90% chapéu 5% bandana o resto vc n vê pq eh chapeul de ninja). Encontrou um conjunto de botas leves e que aumentariam bastante sua defesa, mas ele não queria perder a velocidade extra(2% extra speed — feel like Usain Bolt) que seus Gomushins nível 10 concediam, então não gastou dinheiro com sapatos. Um dos jogadores tentou vender um par de garras nível 50 dizendo que eram luvas de Arruaceiro. Ele não caiu nessa.

–Cara, tá dizendo aqui "GARRA", animal, qualquer um pode ver isso — ele disse para o sorridente vendedor, um gatuno com roupas frouxas que olhou para a descrição do item como se a visse pela primeira vez.

–Espera, é mesmo... Tá escrito "GARRA" aqui! — ele descobriu, olhando para o tipo do equipamento.

–Como eu disse — ele resmungara.

Depois de comprarem o que precisaram, eles ainda ficaram tentados a comprar mais. Havia muitas lojas ali, todas vendendo equipamentos, itens, jóias e até partes de monstro pra Quests. Mas Donnie os conduziu firmemente até a saída — não sem que os três notassem que ele havia comprado um cajado prateado com uma pérola que parecia uma água-marinha na ponta. Quando ele puxou a arma novamente, no entanto, usava apenas o cajado de madeira endurecida de antes.

Vampiritico saiu um pouco chateado do mercado. Esperava poder trocar sua adaga, uma peça fina que havia comprado no NPC de Kerning — e várias dezenas de níveis inferior ao dele — por uma melhor, mas se decepcionou ao ver as opções. A partir do nível 50, as adagas começavam a aloprar: não eram mais lâminas alongadas em linha reta como facas longas, mas sim duas lâminas curvas que se encontravam no meio da arma, que era onde ficava o cabo. Havia uma chamada Cauda de Dragão, caríssima, cuja lâmina fazia uma espiral ao redor do cabo como uma cauda de dragão — ou uma cobra. Aquilo foi demais para o rapaz. Ele não gostava nada daquelas adagas. Eram estranhas demais, grandes e chamativas demais para serem dignas de um bom Gatuno, ele pensava.

Por essa razão, seu ataque estava quase o mesmo que o dos dois bruxos, apenas um pouco mais alto. O Ataque Selvagem agora estava no nível máximo, de modo que ele conseguia mover a mão seis vezes rapidamente, na direção que quisesse. Podia acertar um golpe no peito, outro na perna, outro na cintura e só aí a pessoa começaria registrar a dor do primeiro golpe, tamanha a rapidez que eram desferidos.

Na verdade, ele já havia alcançado o nível 70, número que Donnie estipulara para eles. Thugles e Vampiritico estavam a alguns poucos valores de porcentagem para alcançá-lo.

–Acho que já podemos ir nos preparando — Donnie disse após um momento, enquanto Aphanyus observava a técnica do grupo — Já está aí há muito tempo. Devem estar quase juntando todos os saquinhos.

Dito e feito: menos de cinco minutos depois, Thugles gritara um "YAY!" quando todos conseguiram o número necessário. Donnie apenas suspirou como se tudo aquilo o entediasse, e eles voltaram para a cidade.

O NPC, um herborista que estava iniciando o estudo das raízes, ficou muito contente ao receber trezentos saquinhos com as sementes de raiz. Era engraçado o fato de que, quando Nick entregou a parte dele logo depois de Vampiritico, o NPC agira como se estivesse vendo as sementes pela primeira vez. Quando Thugles entregou as dele, entretanto, ele deu a entender que estava tendo um dejá vù.

–Estranho... Tenho certeza de que já vi esse saquinho antes — o velho comentou, olhando demoradamente para o garoto. Thugles entregou rapidamente, com medo que o NPC bugasse.

–Aí está, nível 70 — Vampiritico disse para Donnie, com ar de triunfo — Próxima Quest?

–Ilha Victoria — ele disse sem hesitar, e os amigos o encararam surpresos.

–Ilha Victoria? O que pode ter lá? Já superamos o nível dos monstros, não?

Aphanyus riu baixinho da expressão descrente de Nick. Até Donnie não deixou de exibir um leve sorriso.

–Não se "supera" a Ilha Victoria, ainda mais no nível 70 — ele disse calmamente — Ainda existem os Balrogs, pra começar.

–E você não pode se declarar forte enquanto não matar aqueles Golens de Pedra de Henesys — Aphanyus comentou.

O rosto de Thugles ficou radiante.

–Ah, sim, eu lembro deles! Ficam na estrada pra Selva do Sono, aquele buraco com Porcos, Cogumelos Laranja e esses Golens! Eu nunca acertava eles, e quando fui atingido quase morri, a Proteção Arcana me salvou...

–A gente não era nem nível 40 — tornou Nick — Que tal a gente ir lá e fazer uma visita a eles antes?

–Bem, vocês não vão pra Victoria pra caçar Golens — Donnie disse zangado — Ninguém aqui é arqueiro, então não tem por que perder tempo indo por Henesys. O Vampy vai ter que viajar — acrescentou. O gatuno olhou para ele.

–Por quê?

Donnie fez uma careta.

–Você por acaso é um mago? O navio que sai de Orbis deixa as pessoas em Ellinia, esqueceu? Avanços de job ocorrem nas respectivas cidades. Por isso vocês...

–Espera, avanço de job?

–AVANÇO DE JOB?

–PQP VAMOS AVANÇAR DE JOB DE NOVO?

Thugles, Nick e Vampiritico começaram a falar ao mesmo tempo, pedindo confirmações, fazendo perguntas e enchendo a cabeça do Donnie com bobagens. Ele apenas suspirou e foi por Teleporte até a garça que fazia a viagem pra Mu Lung, os gritos e a falação do pequeno grupo seguindo-o incessantemente enquanto eles corriam. Aphanyus deu uma risada e andou, sem pressa, para alcançá-los.

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–Então que seja — disse Aphanyus, cumprimentando os três companheiros, despedindo-se.

Não era um adeus, claro. Estavam apenas dando aquele "tchau" amigável. Estavam em Ellinia agora, o dia gradativamente se transformando em noite. Ao saírem do porto, foram todos para seus devidos objetivos.

O portal que levava ao porto de Ellinia ficava bem no alto da cidade. Thugles e Nick foram os únicos que subiram, para chegar até a biblioteca que ficava no topo da vila. Lá, encontrariam Grendel, na biblioteca(que fica na parte mais alta de Ellinia). O poderoso mago que vive na biblioteca localizada na parte mais alta de Ellinia trataria de recebê-los e acalmar as ansiedades, mostrando o que deviam fazer em seguida.

Donnie e Aphanyus, ambos já terceirojobados, sabiam do que eles precisariam: um Cristal Negro refinado, uma pedra que parecia misturar uma flor com uma estrela e uma shuriken Tobi. Precisariam dela para entrar na Caverna Sagrada em El Nath.

Para se fazer um Cristal Negro, são necessários dez Blocos de Cristal Negro, que por sua vez, requerem dez Minérios de Cristal Negro para serem feitos. Esses últimos não eram tão caros, mas cada um precisaria de mil deles para obter um único Cristal puro. Portanto, os dois membros mais elevados resolveram já ir pegando esses itens no Mercado Livre. Como Ellinia não tinha um espaço plano que comportasse centenas de lojas juntas, eles decidiram ir ao de Perion.

Quanto a Vampiritico, Donnie estava certo: precisaria viajar para chegar até Kerning. Não era difícil, mas aí ele descobriu que o sistema de táxis havia desaparecido. Não estava bugado, como era de se esperar, ele simplesmente não estava lá. No lugar dela, havia uma mulher com balões perguntando se ele tinha Moedas Fantásticas da Felicidade Saltitante para trocar por equipamentos com tema festivo ("Tenho varinhas que fazem 'pou' quando agitadas!"). Ele perguntou à mulher se ela não queria tomar algo em um certo lugar.

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"Foda-se essa merda, vou a pé mesmo", pensou.

Foi quase duas horas depois, quando ele chegou nas construções a leste de Kerning, o céu já alaranjado à medida que o sol se punha, que ele se lembrou dos Pergaminhos de Retorno para Cidade de Kerning que o Dark Lord havia dado a ele.

Ao chegar na sede dos Gatunos, entretanto, estava muito escuro. Mais do que o normal — a luz no centro do ringue estava apagada.

–Dark Lord, aparece aí, não tenho o dia todo pra gracinhas!

Nenhuma resposta.

Vampiritico suspirou, tentando controlar sua raiva. Enxergava um pouco melhor que as outras classes o escuro, então procurar não era problema — exceto pelo fato de que o que procurava parecia não estar lá.

Depois de dez minutos, ele não aguentou mais. Com um urro, equipou a garra e desatou a atirar as shurikens nbs lvl 10 por toda parte, acertando os bonecos de treino, paredes, o ringue de luta, as armas. Barulhos de erro surgiram de todos os lados, exibindo a mensagem de "Objeto Imortal". Isso só serviu para aumentar a fúria do garoto. Puxou mais uma shuriken e estava prestes a jogá-la quando uma mão molhada o interrompeu.

–Filho — o Dark Lord disse devagar — Eu estava te testando pra ver se você teria a paciência e a perspicácia de subir a escada e me procurar dentro da caixa de água da descarga do vaso. E você falhou, garoto, e muito. Ainda por cima, deu rage usando uma arma que nem é a sua especialidade. Como espera que eu te mande para o próximo estágio desse jeito?

–Mas eu gastei toda a paciência vindo de Ellinia pra cá a pé e sem usar Pergaminhos de Retorno!

–É, mas um bom Gatuno sempre tem um pouco de paciência a mais, principalmente na hora de falar com seu mestre pra receber o avanço que vem esperando há quarenta níveis.

Ele parecia sério.

–Por favor, Dark Lord! Eu não vim aqui pra...

Ele se interrompeu ao ver o sorriso no rosto do mento. Desvencilhando-se da mão e do corpo molhado do homem, Vampiritico recuou e esperou que ele dissesse algo.

Dark Lord pigarreou.

–Bom, como você sabe, depois do seu treinamento ser satisfatório, cuidadosamente observado e blábláblá quero terminar isso logo e ir me secar, declaro que você está pronto para iniciar o teste longo e chato pra caralho que eu faço os aprendizes cumprirem para se tornarem Mestres Arruaceiros. Você está pronto?

Rapidamente, ele acrescentou:

–Você é viado?

–SIM! Epa, não! Ah, cara...

Dark Lord riu.

–Bom, nesse caso, você está pronto pra ir para El Nath.

Os ombros de Vampiritico se curvaram.

–El Nath?

–Sim, El Nath, a cidade congelada onde faz frio e tudo mais. Porra, além de viado é surdo? — ele retrucou com certa impaciência — Você vai ter que falar com a Instrutora de lá, ela vai te dar mais informações. Bom, é isso. Boa sorte na sua jornada, filho.

A última frase foi sincera, como se ele realmente se importasse com o aprendiz, mas Vampiritico não deu atenção a isso. Havia caminhando de Ellinia até Kerning a pé pra ter que voltar pra Ellinia, depis para El Nath? Se ele tivesse comprado um Pergaminho de Retorno para Ellinia quando estava na cidade...

Ela saiu do bar de Jazz a passos duros, então olhou para a rua que levava para a saída leste de Kerning. Ele teria que passar por Perion e depois pegar mais estrada até chegar em Ellinia. Thugles e Nick já deviam estar lá esperando, provavelmente ele era o único que faltava. Ee deu de ombros ao pensar nisso. Já não bastava ser o único que não tinha arma que fazia justiça ao seu nível, ainda por cima teria que pegar o caminho mais longo?

Ele teria que andar de qualquer jeito, mas poderia fazer isso depois. Enquanto isso, resolver arrumar um lugar para descansar — o enorme guindaste que se elevava acima dos prédios e nunca era ativado. Sem nada melhor para fazer, ele começou a escalar o guindaste.

A base dele era feita com aquelas barras de metal postas em diagonal formando vários "X" ao longo da haste que ligava o chão ao topo do guindaste, de modo que ele pôs subir com tranquilidade. Ele sorriu ao se lembrar de uma história que Thugles escrevera para um trabalho na escola dois anos atrás. O protagonista era aquele típico garoto que parecia inútil, mas que tinha algumas habilidades ocultas. Uma delas era escalar. E também adorava estar em lugar altos. Não pela primeira vez, o garoto percebeu que aquele personagem provavelmente era um dos seus favoritos.

Levando apenas alguns minutos para chegar ao topo, ele foi para a ponta do guindaste, na barra que ficava perpendicular à haste principal. Ele se sentou na borda e observou o céu já escuro. Era uma visão bonita, mas não era como o céu estrelado e vivo de Mu Lung. Aquele céu era um tanto cinzento, como um preto que estivesse começando a desbotar, sem nenhuma estrela por causa da poluição que havia na cidade. Ainda assim, estava fresco e o lugar lhe transmitia paz. Ele poderia ficar sentado ali por horas a fio antes de o lugar sequer começar a perder a graça.

–Aah... Então você conseguiu avançar como Gatuno!

Vampiritico virou-se para ver quem o fitava. Sentada a poucos metros dele, uma perna em cima da outra exatamente da mesma forma que a vira pela primeira vez, a mulher o olhava com uma expressão divertida no rosto.

–Sim, e não foi com a ajuda desse seu bando assassino — Vampiritico devolveu, tentando não mostrar nenhuma expressão. O rosto da muher não se alterou.

–Ora... Nós somos os assassinos? É verdade — ela olhou para cima por um instante, fingindo pensar — E você também não é um?

–Não.

–Não — ela repetiu, desta vez, parecendo um tanto desapontada — Ainda não.

Fez-se silêncio por um momento, enquanto a mulher analisava o garoto com atenção, e o garoto... Aquela mulher era muito mais atraente do que a que se encontrava amarrada com Donnie e os outros. Se não se controlasse, seria como quando Davien decidira enfrentar Mai, a instrutora de aprendizes da Ilha Maple. Pior, na verdade. Ele sabia muito bem disso.

Além disso, o tom amarelo-claro dos olhos dela era o mais lindo que ele já tinha visto.

–Você não precisa ignorar a nossa oferta — ela começou, mas o garoto balançou a cabeça na mesma hora.

–Esqueça, eu não vou fazer parte desse seu bando. Posso ser o que for, mas não vou matar meus amigos. Eu preferia ter que enfrentar você, mesmo sabendo que você é mais do que uma mulher bonita em roupas apertadas.

–Você pode ser muito mais do que isso — ela lhe disse — E não estou aqui para pedir que... cuide... De um dos seus amigos. É apenas um pequeno serviço que acho que você estaria interessado em aceitar. E você, para avançar nesse estágio, vai precisar de alguns itens. Quem sabe eu possa te ajudar? — terminou.

Vampiritico olhou para ela. Ela não parecia confiável, claro, mas ainda assim... Ele gostava dela. Algo nela o atraía, e não era apenas o charme que ele sabia que ela usava de propósito. Ela tinha alguma coisa... Ele não sabia muito bem explicar o que era. Era líder de um grupo de gatunos assassinos, coisa que ele não teria hesitado em fazer parte, se fosse um jogo normal. Se fosse um jogo normal, ele até mataria alguns dos amigos, afinal, era apenas um jogo.

Por fim, ele tomou uma decisão. A mulher havia dito que não iria pedir para ele matar algum dos amigos, e ele acreditava nela. Se tentasse algum truque, sempre poderia recusar. Ela não poderia fazer nada com ele — que jogo colocaria um NPC onde, se você errar uma Quest, você morre pra sempre no jogo? Apesar de que a idéia que ela dera no Setor Ômega ainda o abalava. Desconfiado, mas um pouco animado, ele fez um gesto para que ela continuasse.

–Há um... Vendedor de poções clandestinas em Perion — ela informou — Temos uma base ali também, mas os negócios dele andam atrapalhando bastante os nossos. Digamos que, talvez, se ele parasse de vender poções... Seria um agradável acontecimento para a Mist Brotherband.

Ela parou de falar, esperando a resposta do rapaz que, obviamente, sabia muito bem o que ela queria. E com isso, a expressão dele se animou. Ela estava pedindo para que ele matasse alguém, claramente um NPC, e fazer isso iria ajudar o grupo. Era o começo para subir o ranking do tal grupo e se tornar um dos melhores, ele pensou com euforia. Mas então ele percebeu que estava fantasiando demais, se imaginando como membro daquele grupo, e que talvez ela mudasse de idéia sobre quem ele devia matar.

–Eu entendo — ele disse por fim — Mas antes de eu aceitar, como posso ter certeza de que não vou ter que matar um dos meus amigos? Isso tudo pode ser um truque, e eu não tenho muitos motivos pra confiar em você.

A mulher riu, o que era estranho porque o gesto a fazia parecer extremamente fofa, os olhos fechados e a boca coberta se movimentanto. Quando ela abriu os olhos amarelos, eles tinham um brilho sinceramente divertido no olhar, como se ela tivesse realmente achado graça.

–Seu amigos? Eu não tenho nada contra eles. Era um teste para ver se você tinha o que era preciso para ser um de nós. Mas do jeito que está, com o Dark Lord aprovando seu teste para o próximo estágio como Gatuno... Vejo que você é mais do que capaz.

Ela fez uma pausa e pareceu pensar um pouco.

–Isso e o fato de que você não pulou do guindaste quando ouviu alguém falar com você.

Vampiritico assentiu.

–Então só vou ter que matar vendedores e personagens aleatórios que atrapalham o negócio do seu grupo, como se isso fosse uma Quest normal?

–Sim — ela respondeu, e pela primeira vez pareceu um pouco confusa. Certamente não sabia que era uma NPC prestes a entregar uma Quest.

Vampiritco abriu um largo sorriso.

–Estou nessa! Onde encontro o tal vendedor?

–Aaah...

A mulher tinha o rosto coberto, mas estava claro que o rosto se abrira num largo sorriso. Ágil, ela se aproximou para sentar ao lado do rapaz e lhe contar os detalhes.