MapleStory Online
22 Noite Após a Batalha
-Arroiz, sua criança, pára com isso!
-Eu não sou o Arroiz, sou o Gatts! — Arroiz protestou, girando o corpo novamente, fazendo a capa esvoaçar ao redor dele.
-Ah, que seja — Nick suspirou, os olhos revirados.
Era noite, a que se seguia ao dia da batalha contra a Sunrise of Astoria. O clã havia sido derrotado e muitos membros, grande parte ladrões e assassinos, tinham sido mortos, mas o desfecho da luta não poderia ter sido mais desolador.
O que mais causava aflição no grupo era o fato de eles terem sido derrotados com tamanha facilidade pelo líder, o lanceiro chamado Italo. Rockfield tinha lhes avisado sobre ele, mas quando o homem apareceu na neve, desarmado e querendo lutar, eles não haviam feito a ligação.
Donnie e Aphanyus ainda se ressentiam com a derrota. Estavam sentados ao redor da fogueira acesa, perto das três barracas que serviam como tela para as sombras ondulantes que o fogo produzia. Eles não temiam monstros, já que a grande região entre El Nath e a Torre de Orbis não tinha muitos deles, apenas Leattys e alguns Pepes Jr, os pinguins azuis que às vezes eram um problema. Felizmente, monstros que viviam no gelo procuravam se manter afastados de fogueiras, que eram fáceis de se fazer no jogo.
Gatts estava fora dos limites da luz, girando sua espada e rodando o corpo de um lado para o outro. Ele também tinha sido derrotado, mas era honesto o bastante para admitir que tinha gente mais habilidosa que ele, apesar de não gostar nada do fato. E agora ele tinha uma coisa nova pra se distrair: a enorme capa negra que havia ganho de Nils, o último dos sete guerreiros que haviam participado do ataque a Aphanyus.
Eles o tinham visto arrastando-se pela neve, fraco e com o HP quase zerado. O homem tentava, sem sucesso, escapar para longe do grupo. Logo foi encontrado por Aphanyus, que o virou de barriga para cima com o pé.
-O que a gente faz com ele? — o rapaz perguntou, mais para Donnie do que para qualquer outro. O mago olhou o homem caído por um momento.
-Nós poderíamos matá-lo — respondeu, pensativo — Ele tentou te atacar junto com seis outros guerreiros. Tenho certeza que te mataria, se a situação fosse inversa. Mesmo assim... — ele franziu um pocuo as sobrancelhas — Não acho certo matar ele assim. Ele é um inimigo, mas lutou como um guerreiro, e perdeu. Deveríamos dar a ele o devido respeito.
-Eu também penso isso — Aphanyus tinha dito — Menos sobre essa parte de respeito, talvez.
O homem apenas os encarava com curiosidade, como se o fato de estarem discutindo se ele morreria ou não fosse apenas um assunto levemente interessante. Donnie bufou, dando de ombros, repentinamente impaciente.
-Quer saber, toma uma poção e vai embora daqui. Volta lá pro seu buraco imundo e diga a eles pra nunca mais mexerem com a gente. Ou então...
-Ou então o quê? — o homem o interrompeu, rindo secamente — Vão matar nosso líder? Acho que vocês precisam de um pouco mais pra isso.
-Talvez comecemos por um dos membros dele — Nick retrucou, mas não era bem o jeito dele falar assim, e o homem apenas riu.
-Vamos embora — Aphanyus falou dando as costas para o grupo com um ar aborrecido.
-Um momento — Gatts o interrompeu. Aphanyus parou, olhando para ele por cima do ombro — Antes de ir, eu quero sua capa.
-Minha capa?
Gatts balançou a cabeça.
-Sim, essa grande que você está usando, eu quero ela.
-Que você ganhou quanto tentou salvar o Kevin, Nils — Thugles lembrou calmamente. O homem o encarou, a testa franzida.
-Como você... — então ele olhou o rapaz ao lado dele, Nick, com mais atenção e se lembrou do menino de roupas azuis vários dias antes. Sua expressão se suavizou — Ah, vocês estavam lá. E ganhei a capa justamente ao dar o último golpe, se vocês lembram bem.
-Talvez — Gatts assentiu — Mas você perdeu uma luta e cabe a nós decidir se você vive ou não. Considere isso como uma condição pra deixarmos você ir. Na verdade — ele hesitou, olhando para Aphanyus — Esse direito não é meu. Você o derrotou.
-Pode ficar com ela — ele disse sacudindo a cabeça — É grande demais, consigo me imaginar pisando nela o dia todo. E não faz muito meu estilo. Vou ter minha própria capa quando puder usar a nível 90 que ganhei na quest de Ludibrium.
-Você ganhou uma nível 90 lá? — Thugles perguntou sem acreditar. Nils bufou.
-Tome sua capa, então — ele disse, fazendo uma caretaao mexer no inventário — Essas teclinhas pequenas demais... Aqui, fica pra você. Não gosto tanto assim dela, pra falar a verdade. E ela pertencia ao Kevin — acrescentou com um suspiro cansado — Nunca foi minha intenção dar o último golpe. Só tentei manter a coisa longe dele quando vi ele sendo jogado contra a parede. Mas foi tarde demais.
Thugles e Nick olharam o grande homem caído no chão, ambos sentindo um pouco mais de respeito por ele ao ouvirem as palavras. Eram sinceras. Ele podia ser um adversário, mas era honrado e aceitava a derrota, como eles podiam ver. Não havia brilho vingativo no olhar daquele homem.
Logo, Gatts e Aphanyus perderam o interesse nele e foram embora, sinalizando para que os dois magos os seguissem.
Eles não tinham muita idéia do que fariam em seguida. Thugles e Nick queriam completar o terceiro avanço, interrompido quando Rockfield os chamara para a batalha. Mas acabaram ficando com Donnie e os demais.
-Vamos esperar o Rock voltar — ele tinha sugerido — Precisamos saber se eles não vão tentar atacar de novo. E eu estou cansado demais pra viajar.
Gatts e Aphanyus concordavam com ele, e no fim das contas, decidiram que não faria mal descansarem um pouco e passarem mais tempo juntos.
A fenda onde eles dormiam estava fora de questão, já que Mad Shadow — e, como Anna havia dito, provavelmente o clã inteiro — sabia onde ficava. Eles acamparam perto da cidade e lá descansaram, Gatts ainda se recuperando do peito que ainda doía com as várias estocadas da lança.
A tarde havia sido monótona e não muito memorável. Os três rapazes que tinham enfrentado o líder da Astoria dormiram quase o tempo todo. Kiara passou o dia sentada na pedra azul. Thugles e Nick mataram o tempo para treinar algumas magias.
Rockfield só voltou horas depois da noite chegar, e encontrou um grupo largado e desanimado. Apenas Gatts estava em atividade, dançando e agitando a espada.
-Capa legal — ele disse, a testa franzida sem entender bem o motivo para toda aquela animação. Gatts sorriu para ele. Enquanto se movia parecendo um urso bailarino(sem thuthu), a capa ondulava e remexia atrás dele. Decidindo que o rapaz estava apenas brincando com o novo item, ele foi se encontrar com os amigos.
-Festa legal que estão tendo aí — ele resmungou com um sorriso irônico. Donnie fez um gesto vago com as mãos.
-Estávamos esperando você chegar — ele disse apenas.
Rockfield se sentou.
-Bem, tenho algumas notícias. O Italo decretou que eles devem esquecer esses ataques que estão fazendo, e...
-Espera, como é? — Nick perguntou sem entender.
-Depois da luta, foi todo mundo lá pra casa do Dark Corpse. O Italo já chegou botando ordem na coisa — ele riu ao se lembrar da cena — Vocês tinham que ter visto. Disse que eles têm mais o que fazer do que ficar atacando gente por aí, e que deviam estar se preocupando em upar e a ajudar os outros membros.
-Os "outros membros" foram bem ajudados nessa luta — Donnie disse com sarcasmo.
-Pois é, o Corpse levou um belo sacode do Italo. Queria poder ter filmado — acrescentou olhando para o céu, desejoso.
-E quanto ao seu disfarce? Quer dizer...
-Ah, sim, eles ainda não suspeitam de nada — ele fez um aceno displicente para Thugles — Nem o Italo. Por sorte ele nunca tá lá na base, então ele não pode me ver tanto assim pra suspeitar. Mesmo assim, não acho que ser o mais forte torne ele mais capaz de me descobrir.
-Como ele nunca vai na base, se ele estava lá quando você foi? — Thugles quis saber. Rockfield olhou para ele.
-É maneira de dizer, Thugles. Quis dizer que ele quase nunca está lá.
-Sim, mas se você quisesse mesmo ter dito isso, teria falado logo "quase nunca", porque "nunca" é um termo absoluto, se ele nunca está lá, é porque ele nunca vai lá e portanto ele não poderia ter se reunido com os membros restantes. A menos que tivesse uma casa extra pra isso — ele se levantou de repente, os olhos muito arregalados — Ah, meu Deus, e se eles tiverem outra casa? Se tiverem um posto de observação perto daqui? Ou longe daqui, mas tão longe que a lonjura dê uma volta ao mundo e o posto seja bem aqui do meu lado e ele esteja invisível e me vendo e planejando me matar porque eu revelei os planos dele e eu...
-Porra, Thugles — Donnie o interrompeu zangado — Agora entendo porque sempre cheguei em segundo nas provas de apneia da natação lá na escola.
Provas de apneia eram basicamente "quem ficar mais tempo com a cabeça debaixo d'água ganha". Nick ria e Thugles tomava fôlego, mas parou de encher o saco.
-Por falar na escola — o bruxo de azul começou, sério — Como será que andam as coisas por lá?
-Férias — Aphanyus respondeu quase imediatamente — Segundo uma notícia rápida do meu pai um dia desses, a escola toda paralisou. Não que tivesse muitos alunos pra estudar... Depois da maioria ter vindo pracá...
Thugles olhou para ele por um momento esperando que ele continuasse, mas ele não o fez. Percebeu que Aphanyus tinha o hábito de deixar as frases no ar, dando a insinuação de que havia algo mais a ser dito.
-É estranho, mas eu sinto saudade — Nick comentou num suspiro — Sabe, eu lembro quando a gente começou a jogar Dragon Nest com o pessoal, e as aulas atrapalhavam o jogo. Claro que estudar é mais importante, mas lembra como a gente falava como seria bom poder matar aula e ficar o dia todo jogando?
-Eu já pensei assim — Donnie concordou — Nunca gostei muito das aulas, mas agora... — ele sorriu com tristeza — Eu daria tudo pra ter aula com a Glenys de novo.
Nick franziu a testa.
-Argh, é mesmo, sua sala pegou ela. Eles falam que é a pior professora de português do mundo... Mas eu até daria um abraço nela, se isso me tirasse daqui.
-Não sei não — Thugles disse depois de pensar um pouco — Acho que eu pegaria 3º avanço antes... Aí depois pegaria mais uns níveis pra testar as habilidades, mas não sei... Depois uma Quest de Henesys... Uma viagem pelo mundo... Uma lutinha amigável com o Italo, quem sabe depois...?
Nick, Sheddeer e Rockfield riram. Donnie e Aphanyus não acharam tanta graça assim. Rockfield franziu a testa, lembrando-se de algo.
-Eu só não sei como é que o Italo é nível 118. Claro que ele pode estar mentindo, e eu vi a lista dos tops quando fui pra Edelstein, e tenho certeza que o primeiro era um Atklen, ele era...
-Atklen? — Nick e Thugles perguntaram ao mesmo tempo, o rosto franzido de surpresa. Rockfield assentiu
-Caramba... — disse Thugles — Ele lutou junto com a gente e o Nils, lembra, Nick?
-Se eu perguntei "Atklen?" na mesma hora que você, claro que me lembro — ele respondeu com sarcasmo — Mas até que não é grande coisa ele ser top. Depois do Kevin, ele era o melhor espadachim.
Fez-se um silêncio quebrado apenas pelos pulinhos de Gatts, enquanto niguém sabia mais o que dizer para continuar a conversa.
-O que vamos fazer agora? — Rockfield perguntou, mais para manter a conversa do que por curiosidade realmente. Donnie deu de ombros, e Thugles inclinou a cabeça.
-Eu e o Nick ainda temos que completar o terceiro avanço. Sabe, ir lá no tal do Campo Sagrado e responder umas perguntas... São difíceis?
-Não muito — Gatts havia se cansado de testar a nova capa e resolvera aproximar-se dos amigos a tempo de ouvir a pergunta de Thugles — Difícil é o que vem depois das perguntas.
-Ah, é — Rockfield sorriu, concordando. Kiara deu uma risadinha.
-Por quê? O que vem depois?
-É surpresa — Aphanyus falou, sorrindo também — É uma coisa que vocês não esperavam... Melhor descobrirem por vocês mesmos.
-Tudo bem então — Thugles assentiu, sem reclamar — Nunca gostei muito de spoiler.
-Será que a gente encontra o Vampy no caminho?
-Ah, eu duvido — Sheddeer sacudiu a cabeça — É mais provável ele encontrar vocês, se quiser. Deve ter acabado a tal Quest que vocês disseram, ou o quê?
-Ele disse que tinha achado uma Quest nova — Donnie contou — E que ficaria lá por um tempo. Na verdade, eu e o Apha tínhamos ido do Mercado Livre procurar Cristais Negros, mas só conseguimos 22 daqueles minérios grandes.
-Dois cristais, um pro Thugles, um pro Nick e dois minérios grandes pro Vampy — Aphanyus fez as contas — Será que ele arranja oito minérios grandes por lá?
Thugles e Nick olharam um para o outro significativamente.
-Ah, ele arranja sim — Sheddeer disse com um sorriso sombrio — Nem que ele roube de alguém pra isso. Ele costumava usar habilidades de roubo em outros jogos, se ele conseguir fazer o mesmo aqui...
-Eu não tenho nenhuma habilidade de roubo — Rockfield falou — Se bem que a classe dele é diferente da minha, mas não sei por que a dele teria e a minha mão.
-Ele tem uma adaga — Thugles lembrou com simplicidade.
-Sim, e adagas podem ser mais eficientes do que qualquer habilidade de roubo — Nick acrescentou no mesmo tom.
-Tá faltando alguém aqui — Kiara disse de repente — Por que ela...
-Deitada. Na barraca. Não quer falar com ninguém — Donnie disse duramente. Gatts franziu a sobrancelha para ele, mas a garota apenas o encarou.
-Você podia ser mais gentil com ela, Donnie — ela disse séria — Sei que ela fugiu, mas...
-Eu disse pra ela ficar com a gente, e ela saiu assim sem dizer nada. Eu disse a ela, e olha o que ela fez!
-Ele está certo, Kiara — Rockfield falou, mas havia algo estranho na voz dele — Lembra daquele conselho que fizemos pra votar quem seria o líder cujas decisões deveriam ser seguidas sem hesitações e qualquer desobediência deveria ser encarada como uma séria violação ao grupo? Nem eu, mas isso foi decidido nessa reunião que votou o Donnie como líder.
Aquilo atingiu o rapaz de cabelos arrepiados como um soco. Eram palavras nada suaves e com um significado não muito sutil por trás delas, com um efeito tão profundo que calou até os outros.
-Eu fiquei preocupado — ele disse num tom mais brando — Vocês sabem o que ela poderia ter encontrado por aí... E não mintam, vocês também se preocuparam com ela.
-Ninguém está escondendo isso — Rockfield respondeu com calma — O problema, Donnie, é que você está pegando pesado demais com ela. Também acho que ela mereceu uns bons cascudos, mas já é suficiente. Ela não fez por mal...
-Não, não fez — Donnie retrucou — Talvez você tenha se esquecido de que...
-Não esqueci disso — Rockfield o cortou rapidamente — Lembro bem, eu estava lá quando ela contou tudo pra Team Italo. Mas você talvez tenha se esquecido do que eu disse. Ela estava em Perion, e de repente estava lá, não se lembra de nada!
-Não se lembra? Quem garante que ela não se lembra? Isso pode ser mais uma desculpa pra gente esquecer o que ela fez!
-Está me dizendo que não confia nela, Donnie? Foi você quem a procurou assim que entramos aqui!
-Eu nunca disse que não confiava, mas ela foi lá e contou tudo, você mesmo viu, era ela mesma! Por que ela fugiu? E o que estava fazendo em Perion, pra começar?
-E você por acaso deu alguma chance pra ela explicar? Se me lembro bem, você só a ignorou desde que ela chegou aqui.
A resposta de Donnie soou alta e clara, e as paredes finas da barraca de nada serviram para abafá-la. Tampar os ouvidos com cobertores também não ajudava. A garota encolhida lá dentro não sabia se era o jogo, se era ela mesma ou se a voz simplesmente estivesse alta demais para que ela conseguisse não escutar.
Magoada, ela tentou não chorar. Já havia segurado as lágrimas muitas vezes antes, principalmente na sala de aula do MinarForest. Sentar-se na mesma fileira que Donnie,podendo observá-lo disfarçadamente sem que o rapaz notasse, a confortava. Mas no final, a realidade que estavam separados por uma distância não física muito grande sempre voltava a ela, insistindo para que as lágrimas caíssem por mais que ela se esforçasse para contê-las.
-Oi — disse uma voz, e ela se virou para olhá-lo. Era Thugles.
-Oi — ela respondeu sem jeito, feliz por ter conseguido segurar as lágrimas. Não queria parecer fraca, de jeito nenhum.
Ela sabia que o rapaz não tinha ido ali para repreendê-la. Não, ela o conhecia o suficiente para isso. Talvez nunca tivesse falado direito com ele, mas era impossível não saber nada sobre o garoto. Thugles era, sem sombra de dúvida, a pessoa que mais chamava a atenção da sala de aula, e uma das mais conhecidas na escola inteiro — embora isso não fosse por arrogância. Ele vivia interrompendo as aulas com piadas e brincadeiras, mas fazia isso de maneira que descontraía a matéria e a tornava mais agradável, sem de fato atrapalhar a explicação dos professores. Ela gostava dele. Thugles era uma das poucas pessoas que pareciam se importar de fato com ela — por outro lado, ele parecia se importar com todo mundo.
O garoto sentou-se ao lado da menina, encostando o ombro nela de propósito. Por mais que o achasse legal, ela queria que ele saísse. Só queria ficar sozinha. Sabia como le tentaria ajudá-la, contando uma piada ou incentivando-a a sair e se reunir com os amigos. Em vez disso, o que ele disse foi:
-É difícil. Não é?
-Um pouco — ela respondeu, tentando manter a voz indiferente — Mas eu mereço. Não devia ter feito aquilo, eu já sei disso.
-Não me referi a isso — Thugles respondeu balançando a cabeça — Estou falando sobre... Tudo. Sobre como você é na escola.
-Anna, eu já fui assim. Tímido, vergonha... Você sabe. Na verdade — ele sorriu como se estivesse sem jeito — Eu devo ser um exemplo que te deixa triste. Não sou?
Ela não respondeu. Era exatamente o que ele dizia. Quando ela o via fazendo alguma brincadeira, sempre ria, mas também sentia um pouquinho de tristeza e até... Inveja. Era como se ela, ao comparar aquele garoto com ela mesma, achasse que jamais chegaria a tal nível, que jamais seria extrovertida a esse ponto.
-E então você acha que nunca vai conseguir mudar isso — ele continuou — Você fica sozinha. Vê as pessoas conversando e pensa que daria tudo para estar no meio delas, para ser uma deles, pra ter seu grupo. Mas você não consegue. É mais forte que você. Você fica isolada, sabendo que o único motivo de você ser assim... Vem da sua cabeça. Como lutar contra você mesma. E a cada dia, parece que nunca vai conseguir vencer.
-Não pode ser — ela balbuciou, sacudindo a cabeça descrente — Não... É diferente. Eu sou assim faz muito tempo.
Fez-se um silêncio sobre eles, quebrado apenas pela discussão do lado de fora da barraca. Aparentemente, Aphanyus tentava acalmar a situação, mas sem sucesso.
-Seis anos — Thugles disse de repente, e ela o olhou sem entender — Foi o tempo em que eu fiquei sozinho. Não tinha ninguém, sabe. Em casa, às vezes, eu chorava, achando que nunca conseguiria mudar. Tinha gente que falava comigo às vezes. Mas ou eu grunhia ou dava respostas tão sem sentido que... — ele sacudiu a cabeça — Não adiantava. Mas eu tinha esperança, entende. Não sei por quê, mas eu achava que ia mudar algum dia. Eu acreditei nisso. Meus pais me levaram numa psicóloga, uma vez por semana, durante dois anos.
-Psicóloga... — Anna repetiu, franzindo a testa ao se lembrar de um momento em que Nick comentara "você conhece bem essa área" para Thugles, quando passaram pela seção de psicologia numa visita escolar a um hospital.
-Sim — ele respondeu com um gesto de cabeça — Ela me ajudou muito. Só fui mudar mesmo quando conheci um amigo — ele mirou o teto da barraca sem razão aparente — Você não o conhecia. Ele morava perto da minha casa antes de se mudar. Faz mais de quatro anos agora.
-Hm — fez a menina, sem saber com responder.
-O que eu quero dizer — concluiu Thugles — É que sei como você se sente. E entendo você, como eu disse. Acredite em mim, ninguém está com raiva de você... Nem o Donnie — acrescentou casualmente, sorrindo discretamente ao ver a luz brilhar nos olhos dela — Ele só está um pouco nervoso.
-Sou uma inútil — ela disse. Thugles sacudiu a cabeça.
-Rock e Sheddeer não deixariam o grupo pra procurar pessoas inúteis. Eles não a manteria segura se pensassem isso.
Ele fez uma pausa.
-Donnie não teria te deixado fora da luta se não se importasse com você.
Ela ficou paralisada, os grandes olhos castanhos mirando sem ver o fundo azul da barraca. Thugles quase podia ver as engrenagens no cérebro dela trabalhando enquanto ela processava o que foi dito, como que movidas por um coração agitado que tentava a todo custo extrair um significado a mais daquelas palavras.
-Quero muito saber o que você fazia em Perion — Thugles disse após alguns minutos — Mas essa é uma história que todos querem ouvir, portanto, você deve contar junto de todos. Falando neles — ele fez uma careta como se reparasse pela primeira vez na discussão que acontecia lá fora — Melhor eu ajudar. Pode ser que minhas habilidades de Clérigo sejam necessárias.
Ela bufou uma risada, mas se calou. Thugles a abraçara pelos ombros.
-E você é fofinha — ele disse, dando-lhe um beijo no topo da cabeça — Agora você quer que eu saia. Perfeitamente compreensível. Me siga quando superar isso, tá?
Ele sorria para a menina corada antes que ela se desse conta de que ele tinha feito isso acontecer de propósito. Um calor estranho lhe passou pela cabeça, como acontecia quando Vampiritico a cumprimentava com um beijinho. Mas ele fazia isso com todas as meninas.
E sendo tímida como era, geralmente observava bem a sala sem dizer nada. E nunca, em todos aqueles anos de estudo, tinha visto Thugles dar um beijo em alguém.
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Mateus estava sentado em sua cadeira acolchoada vermelha, prestes a se levantar pela décima vez.
Ele olhou para os dois homens sentados à sua frente quase que lutando para controlar a vontade de gritar com eles. Já se fora o tempo em que aquela sala de teto alto, cujo interior feito de tábuas de pinho de riga sempre provocava comentários admirados a quem o visitava, havia sido um lugar respeitado e pouco frequentado. Localizado no décimo primeiro andar do edifício, era quase que uma honra alguém conseguir uma audiência naquele local.
Não porque o homem se considerasse importante demais, mas porque muitos procuravam fazê-lo. Ali era o escritório de um poderoso nome no que se referia a computadores e tecnologias, e entusiastas e até mesmo chefes de empresas o procuravam para algumas conversas.
Mas isso foi antes. Naquela época, as pessoas entendiam que um homem precisava de descanso e privacidade, por isso só faziam as visitas no horário programado, onde o homem os recebia com entusiasmo.
Hoje, praticamente não existia momentos em que Mateus era o único ocupante da própria sala. Lá estava ele novamente, enfrentando uma pequena parte da imensa soma de pessoas que iam visitá-lo todos os dias.
Aqueles dois homens usavam ternos pretos e caros, um deles careca e o outro com cabelos brancos já rareando. Ambos tinham um aparelho receptor no ouvido esquerdo, obviamente, de algum tipo de agência do governo. E não era brasileira.
Não que Mateus tivesse problemas com esse fato.
Afinal... Se havia criado o MapleStory Online, certamente sabia falar em inglês.
-Vou fazer o melhor — ele suspirou, falando em portugês para os homens que saíam apressados, as expressões indiferentes como se ele tivesse acabado de falar com dois agentes da MIB. Quando o careca fechou a porta atrás de si, ele caiu sentado em sua cadeira, suspirando outra vez.
Procurou admirar sua sala antes que o receptor em sua mesa apitasse outra vez, indicando que os dois agentes haviam chegado ao térreo e dado a vez à proxima leva de pessoas que queria falar com ele. Tinha pouco tempo para olhar a própria sala com calma, ele pensou resignado. O lugar não era muito grande, mas espaçoso e muitíssimo confortável. As paredes eram feitas de uma madeira que, segundo se dizia, foram tiradas de um navio que encalhara na praia perto dali.
O lugar ficava localizado numa região bastante rica, mas quem entrasse ali não podia dizer que se tratava do gabinete de alguém com dinheiro — a menos que fosse um profissional em arte ou entendesse o suficiente de madeira para analisar as tábuas que forravam as paredes e o teto. Mateus insistia em manter uma decoração simples. Os únicos móveis ali eram uma mesa de madeira simples, com um vasinho de Flores da Fortuna para decorar, mas nada de luxo. A cadeira atrás dela era uma exceção, claro, feita de madeira ricamente trabalhada e acolchoamento vermelho bem caro — o computador, um notebook grande sobre a mesa, também. Além da porta de madeira escura que levava para fora, haviam outras duas menores na parede à direita da que ficava a porta de entrada, onde ficava a mesa que certamente eram quartos ou armários pessoais.
Uma grande janela ocupava a maior parte da parede oposta à entrada, dando pra ver a cobertura dos prédios abaixo e o mar não muito longe dali. Era uma vista maravilhosa, as pessoas comentavam antes dos olhos passarem da janela para a madeira. Ela tinha um aspecto prático, também. Quando ele estava sentado trabalhando em seu computador, bastava olhar para o lado para ter uma vista natural perfeita para acalmar e suavizar a carga pesada que o trabalho às vezes lhe colocava nos ombros. Isso também valia para as visitas — tão frequentes agora que ele acrescentara cinco cadeiras de madeira defronte sua mesa.
Ele estava justamente admirando aquela vista quando o receptor tocou, anunciando a entrada de um grupo de três membros de algum parlamento estrangeiro. Obviamente, a notícia já tinha se espalhado pelo mundo, e os interessados em ver aquele homem, o criador do programa que havia se transformado em seu pior pesadelo — assim como no de centenas de milhares de familiares de jogadores — não raramente vinham de outros países. Houve até uma vez em que ele precisou chamar um tradutor para conversar com um representante japonês, um homenzinho tão tranquilo e simpático que fez Mateus lamentar bastante por não saber conversar no idioma.
O receptor apita novamente. O homem aperta um botão e diz uma afirmativa sem muito entusiasmo, embora soubesse que os visitantes já estariam no elevador a caminho de décimo primeiro andar naquele momento. Ele olhou para a janela tristemente antes de ouvir o som suave que o elevador fazia ao chegar no andar procurado.
Não pela primeira vez, desejou poder escapar por aquela janela e se perder naquele mar azul, gelado e infinito.
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-Olha aqui, se você acha que devemos esquecer...
-Donnie, ela não sabia o que estava fazendo, não foi culpa dela!
-Tá, talvez, não acredito nisso mas e fugir? Ela também tá certa nisso? Lembra dos problemas...
-Que problemas, cara, não foi você quem rodou Victoria atrás dela, só ficou aqui...
-Então! Você deveria entender o quanto isso foi um problema, como que ela...
-Calem a boca! — Kiara berrou, levantando-se da pedra azul e ficando entre os dois que estavam em pé, encarando-se como que prestes a brigar — Eu não sei nada sobre essa Anna, mas que conversa é essa? Vocês ficam discutindo sobre o que ela fez ou deixou de fazer, mas algum de vocês foi lá falar sobre isso com ela? Não lembro de ninguém ter ido lá saber da história.
-Ela disse que não se lembra — Donnie começou, mas Kiara não tinha terminado.
-Você... Sabe, Donnie, a primeira vez que vi você eu realmente te achei uma pessoa certa, quando teve medo de que eu e o Gatts fôssemos algum tipo de espiões ou bandidos querendo roubar seu abrigo. Foi você quem saiu pra nos receber e enfrentar o que quer que a gente fosse, deixando os amigos seguros lá dentro, chegando ao ponto de lutar sozinho pra protegê-los.
Ela sacudiu a cabeça e endureceu os lábios, encarando-o com os olhos verdes atrás dos óculos que não demonstravam raiva, apenas uma profunda decepção que, de várias formas, era muito pior.
(Faltou dizer que a Kiara usa óculos. Burro. Thugles BURRO)
-Acho que eu não estava tão certa assim. Agora que vejo como você lida com os erros de uma menina... Não me parece tão justo e protetor como eu pensava. Imaginei que fosse um bom líder.
-Ele vai parecer mais protetor em forma de lesma — Nick garantiu — Tente, vamos, o quê que custa?
Donnie sustentou aquele olhar por alguns segundos. Pelo canto dos olhos, era capaz de perceber as expressões dos amigos, e se sentiu mal. Pensou em como havia tratado a garota, aquela que sempre havia sido gentil com ele nos raríssimos momentos em que tinham se falado, embora o motivo disso, ele desconhecia...
-Você está certa — ele disse por fim, a voz tomada pela culpa e pela sensação de que todos ali estavam contra ele — Eu realmente... Onde você estava? — ele se interrompeu olhando ao redor. Os outros o imitaram, claramente confusos. Na tensão do momento anterior, estavam todos concentrados no bruxo e no homem de preto, e ninguém tinha visto Thugles entrar na barraca. Por isso, foi estranho ver o rapaz sair dela.
-Na barraca — ele respondeu prontamente — Dâ. Você não esperava que eu deixasse a Anna chorar porque você tava gritando com ela, não é?
O rosto de Donnie empalideceu.
-Ela estava...
-Quase — Sheddeer disse com tranquilidade — Deu pra ouvir uns soluços. Eu ia lá ver se estava tudo bem... — ele sorriu — Mas o Thug foi mais rápido.
-Não sou um thug — Thugles respondeu automaticamente — E a Kiara tá certa — ele disse baixinho para Donnie — Você fica ressaltando o que vocês passaram, mas ninguém pensou no que ela passou? Esses perigos que você disse, que ela ficou sozinha sem saber o que enfrentava... Você tá com raivinha disso? Eu não ouvi ela reclamando de perigo nenhum desde que chegou aqui — ele acrescentou com um sorriso mordaz — Ela é mais forte do que parece. Só tá assim porque você pode atacar no ponto em que mais dói.
Donnie franziu a testa sem entender. O fato de que Anna nutria sentimentos fortes sobre ele era um segredo, algo que pouca gente conhecia. A garota não dava muitos sinais disso, mas Thugles percebeu. Só contou a seus amigos, para que as piadas entre eles fizessem sentido. Pelo jeito, Rockfield também descobrira e contara o fato a Aphanyus. Donnie não sabia. E nem Anna sabia que mais alguém sabia.
-Olha... Tá bom, desculpem, eu me descontrolei um pouco — ele admitiu zangado — Mas saibam que...
-Tudo bem, Donnie — disse uma voz feminina acabando de sair da barraca. Donnie a encarou. Ela parecia decidida, mas seus olhos encobriam a tristeza naqual ela havia acabado de mergulhar. E o rapaz percebeu isso nela. Mais ainda, sabia que tinha sido ele quem a causara.
Sem refletir. Sem ficar um tempo sozinho pensando nisso. De repente, ele pensou nele mesmo fora do jogo, como ele agia antes dele, em como sua personalidade havia mudado...
E em como a da garota, que se magoava facilmente, continuava a mesma.
-Anna — ele começou, aproximando-se dela sem jeito — Por favor, me desculpe. Eu fiquei preocupado, cheguei a achar que você tinha saído por puro capricho. Não pensei no que você poderia ter passado, como deve ter sido difícil pra você... Desculpa, tá?
-Ah... Hã...
Eles não sabiam o que era mais gritante: Donnie pedindo desculpas ou a cara que Anna estava fazendo.
-O quê? — Donnie perguntou olhando confuso para ela.
-Acho que ela quer que a Kiara a transforme em lesma — opinou Thugles calmamente.
-Doooooonnie — Rockfield o puxou para um lado com delicadeza — Acho que seria melhor se você desviasse sua atenção pra lua, lá em cima. Tá vendo como ela brilha? Aqui no Maple, ela deve ter luz natural, olha só...
-Mas que diabos está acontecendo aqui? — Donnie perguntou, olhando ao redor. Parecia aborrecido, mas à exceção de Anna, todos tinham expressões divertidas no rosto. Até Gatts e Kiara, que pareciam ter uma vaga noção do que a menina sentia. Não sabiam que ela era sempre tímida, então supuseram que ela estava daquele jeito por causa de Donnie.
-Está acontecendo que... É hora da história!
Thugles sentou-se mais perto do fogo, e Nick e Sheddeer o seguiram. Logo os outros o imitaram.
Como ninguém respondeu à pergunta de Donnie, ele apenas se sentou no chão, resmungando. Anna sentou-se também. Não ao lado dele, mas à frente, do outro lado da fogueira.
-Bom, já que estamos todos juntos aqui, e como o Thugles disse, na hora da história... — Rockfield começou, e Thugles fez um gestou de cabeça para ele — Seria uma boa idéia você começar, Anna.
-Faça de conta que está apresentando um trabalho na escola — Thugles sugeriu.
-Isso não ajuda em nada — Nick retrucou.
-Eu sei disso!
-O que você estava fazendo na base deles, pra começar? — Gatts perguntou. Ele não sabia do que acontecera, Rockfield lhe contara apenas que a menina tinha sido encontrada lá. Anna suspirou profundamente.
-Vai soar idiota. Mas eu juro... Eu não me lembro.
-Não lembra? — Gatts repetiu incrédulo — Como você pode... Ai!
Kiara parecia ter procurado cuidadosamente no corpo dele até vislumbrar um ponto na pesada armadura onde o soco doeria mais nele do que nela. E encontrou. Por reflexo, Gatts recuou o ombo para longe dela, mas se calou.
-Você disse que tinha estado em Perion — Aphanyus lembrou, o queixo apoiado numa das mãos -Quer explicar isso melhor?
-Por que você foi pra Perion, pra começar? — Sheddeer ajuntou.
-Acho melhor você começar do começo — Donnie disse com calma — Você saiu daqui. Pra onde foi?
-Procurar uma Quest, alguma coisa pra passar de nível rápido — ela contou — Idiotice. Eu sei. Mas depois que fugi... Não sabia se me aceitariam de volta — confessou — Além disso, eu tinha saído porque estava atrapalhando vocês. Achei que estavam me mantendo porque não tinham coragem de se livrar de mim assim. Então eu saí, pra que vocês não tivessem mais problemas.
-Isso só fez a gente querer te trazer de volta — Aphanyus comentou. Anna se mexeu um pouco e continuou.
-Eu não sabia bem onde ir, então fui pra Perion. Quase morri pros monstros de lá, mas consegui chegar na cidade. Eu não queria gastar dinheiro com pousadas, então procurei abrigo num hotel pra passar a noite. Só que ela já tava ocupada.
-Aí veio um Orc e te matou! — Thugles disse rapidamente — Não, espera...
-Era uma mulher. Uma guerreira, vestida numa armadura enorme de metal. Mas ela estava mal. Estava ferida e morrendo, mas tinha algo errado. Eu tinha andado por aquela parte horas antes, não tinha visto nada mas ela tava lá, atacada, era como se...
-Como se ela fosse uma NPC que só morresse depois de você aceitar a quest — Rockfield terminou por ela. A garota concordou com a cabeça.
-Antes disso ela me contou sobre ela. Fazia parte de um clã, dito como um dos mais famosos e respeitados do mundo Maple. Mas isso tinha sido há muito tempo, e hoje o clã era só uma sombra do que tinha sido. E vinha sofrendo ataques de clãs inimigos. Ela me contou que a maioria deles tinha morrido.
-Ela disse que clã era?
-Não. Mas me falou sobre alguns dos membros. Dois magos, um de gelo e raio e um de fogo e veneno, que viviam brigando. Uma pequena clériga, só uma garotinha, uma das primeiras a morrer. Tinha um casal de pistoleiros que morreu logo depois da filha. Uma mulher que tinha a forma de um demônio por fora, mas um enorme coração por dentro. Tinha até o ex-membro de um clã inimigo que usava armaduras pesadas de ferro. Ela foi me contando isso como se não quisesse que a imagem do clã morresse. Como que... Para que houvesse alguém que se lembrasse da história do clã.
Houve um momento de silêncio. Os que estavam mais perto da garota podiam ver as chamas dançando nos enormes olhos castanhos, contrastando com a escuridão que agora havia neles.
-Ela amava uma pessoa — continuou — Um amigo de infância que sofreu muito. Quando ela me contou isso, pensei que fose chorar, mas ela sorriu como se falar sobre ele a deixasse feliz. Depois ela chorou. Esqueci de contar que o olho direito dela tinha sido arrancado e era só um buraco vermelho — ela acrescentou como que irritada consigo mesma.
-Uma mulher ferida, armadurada e que só chora pelo olho esquerdo — Donnie franziu a testa de leve.
-Como ela disse — Rockfield disse, erguendo uma sobrancelha.
Anna tossiu.
-Então, depois disso ela segurou minha mão. Parecia querer dizer alguma coisa, mas ela só sorriu. E ficou olhando pra mim com o olho sadio. Depois ela morreu. Só quando recebi a Quest foi que eu percebi que ela era uma NPC. Tinha ficado tão assustada que nem pensei nisso.
-E que Quest era essa? — Thugles quis saber, curioso. O rapaz adora Quests.
-Se chama "As Armaduras da Maga Guerreira" — Anna contou — Me mandou pra vários lugares de Victoria, e eu encontrei uma delas... Aquela de fogo que eu estava usando — agora, ela usava um simples casaco marrom e calças camufladas estilo militar — E uma outra, negra com espinhos.
-Tenho uma boa idéia de como é ela — tornou Rockfield, amargo.
-Aí eu cheguei em Perion — concluiu ela — Voltei pra lá, passei na caverna, mas não havia nada. Então eu vi que não conseguiria dormir lá e achei que, se eu tinha encontrado o lugar, outra pessoa também poderia. Aí eu fui pra uma pousada na cidade... — ela hesitou — E não me lembro de mais nada.
-A última lembrnça que você tem é essa?- Donnie perguntou. A garota balançou a cabeça afirmativamene.
-É, na verdade, até isso é meio confuso. Eu não... Consigo lembrar direito nem isso. Desculpe — acrescentou, claramente não se referindo apenas à perda de memória.
-Não se preocupe — Kiara sorriu para ela — Você vai descobrir. Na verdade... Quer sentar aqui um pouco? Essa minha pedrá ó, é ótima pra acalmar a mente. Eu uso ela o tempo todo!
-Obrigada — ela disse com um sorriso tímido. Só parecia desapontada por não poder levar a pedra para a barraca, teria que se sentar ali à vista de todos, mas seria grosseiro dizer isso.
-E assim encerramos a hora da história — Thugles disse batendo uma palma e levantando-se com um gemido. Nick o olhou.
-Já?
-Sim, já, a hora da história era uma desculpa pra Anna contar o que tinha acontecido lá em Perion, entende. E eu tô com sono. Boa noite pra vocês.
-Acho que eu vou caçar — Aphanyus anunciou — Uma luta contra uns monstrinhos aí, é o que eu preciso. Aquela queda na luta hoje de manhã até que não tá doendo tanto assim.
-Fale por você. Meu orgulho ainda está um pouco ferido — Gatts resmungou. Kiara riu.
No fim das contas, Thugles e Nick foram dormir, haviam praticado bastante magia durante a tarde, e estavam esgotados. Aphanyus foi para o outro lado de El Nath. Gatts foi meio que arrastado por Kiara pra dar uma volta.
Anna e Donnie ficaram sozinhos perto da fogueira. Mas ao contrário do que se pudesse esperar, ele apenas a olhou por alguns momentos e anunciou um boa-noite, que ela respondeu com tranquilidade. A pedra azul de Kiara realmente fazia maravilhas. Uma sensação de paz tomou conta dela, a maior que já sentira desde que entrara naquele jogo... E desde muito tempo antes dele.
Uma paz profunda, absoluta e aparentemente imperturbável. Como se as emoções dela estivessem controladas e equilibradas sem que ela precisasse fazer nada.
O equilíbrio acabou e foi substituído por emoções que nem a pedra azul era capaz de absorver quando Donnie decidiu dar-lhe um beijo de boa noite, bem na testa.
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