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17 Mudanças
–Vamos ter que nos separar -falou Rockfield, a expressão sombria.
Os cinco estavam no meio da travessia de El Nath, passando pelos últimos quilômetros de gelo que separavam a torre da vila ao leste. Depois do que acontecera a Sheddeer, resolveram começar a andar o quanto antes. Eram cinco da manhã quando o alto companheiro recebeu a mensagem.
–Preciso voltar para a base dos ladrões — explicou — Eles vão fazer uma reunião geral com os membros mais importantes, e se eu não for, vão suspeitar.
–Que tipo de reunião é essa? — Nick quis saber.
–Ah, alguma coisa bem séria — ele garantiu — Eles não chamam a gente de repente pelo mundo pra fazer festinhas ou coisa do tipo. Deve ser algum ataque em massa, algum clã que pretendem roubar...
–E o que mais havia na mensagem? — perguntou Vampiritico. Rockfield olhou para ele.
–Havia uma nota sobre um grupo que atacaria um certo bruxo chamado Donnie, e seus amigos. O grupo em questão é de uma mulher chamada Mad Shadow... Vocês devem se lembrar dela.
–É a que andava com o Corpse?
Rockfield fez que sim com a cabeça.
–Sim, e isso me preocupa. Ela é a melhor Assassina da gangue... Eu não sou da gangue — acrescentou significativamente — E, bem, o Sheddeer é...
–Um dos melhores que você já viu? — Thugles terminou por ele. O rapaz assentiu com um sorriso triste.
–Ele é a última pessoa que eu esperaria ver morta. Mas o Donnie, a Anna e o Apha ainda estão vivos. Eles devem ter fugido, mas pra terem conseguido matar o Sheddeer...
–Você acha que eles foram capturados? — Vampiritico insinuou, preocupado.
–É bem provável. Apesar de que o Donnie poderia ter fugido. O Apha também não é idiota. Já a Anna... — ele fez um gesto vago com as mãos — Ela se queixava de não servir pra muita coisa, porque não era muito boa numa luta.
Houve um momento de silêncio enquanto eles ligavam as informações e imaginavam o que poderia ter acontecido. Um grupo treinado de bandidos, liderados pela assassina mais capaz do grupo, atacando o lugar onde eles estavam escondidos. Sheddeer sempre fora muito competente em jogos. Eles quase podiam ver o rapaz lutando até a morte para protegê-los, e depois disso, eles se entregando. Não era impossível que tivessem simplesmente se rendido depois de ver um deles morto. Não iriam querer arriscar perder mais ninguém, então se deixariam levar docilmente.
Davien virou-se para encarar o homem de preto.
–Então não temos tempo a perder — ele disse com determinação — Precisamos ir atrás deles agora mesmo. Talvez ainda podemos...
–Eu não posso — Rockfield sacudiu a cabeça com veemência, retirando sua máscara. Antes, isso não acontecia, mas desde alguns dias, ela passara a alterar a voz dele para um tom rouco e sombrio sempre que ele a usava, tornando-a irreconhecível. Era perfeito para um ladrão, ele pensou — Preciso voltar para a base. Eles vão estranhar se eu não aparecer, e é uma ordem do grupo.
–Além disso, talvez essa seja a chance de descobrirmos onde estão Donnie e os outros — Nick falou.
–Exatamente. Mas precisamos ir até onde eles estavam antes, talvez possamos encontrar alguma pista para rastrear por lá.
Thugles se sentou, encorajando os outros a fazerem o mesmo.
–Então, qual é o plano?
Rockfield se espreguiçou no chão antes de responder.
–Nós vamos voltar à fenda onde eles estavam escondidos. Talvez eu consiga alguma pista, um traço de onde eles estão. O Vampy pode ir rastreando eles, você já tem Rastreamento nível 5?
–Vadia, por favor, peguei 8 nisso aí semana passada.
–Então você já tem Dedução de Calor — Rockfield adivinhou, e Vampiritico revirou os olhos — Sim, claro que tem. Você vai poder rastrear pegadas e descobrir a trilha deles. Talvez eu não consiga descobrir a localização do grupo sem levantar suspeitas, então é bom vocês irem se adiantando.
–E como você vai nos encontrar depois? — Nick quis saber, lembrando-se de uma questão importante. Rockfield apenas deu de ombros.
–Quando acabar a reunião, eu... Com minha habilidade de Rastreamento nível 12... Vou seguir a trilha de vocês. E então eu chego até onde vocês estão, e nós decidimos o que fazer.
–Você não pode, tipo, se oferecer para vigiar os prisioneiros e então fingir que eles escaparam? — Thugles sugeriu.
Rockfield balançou a cabeça, mas foi Nick quem respondeu.
–Não pode, Thugles. Seria suspeito demais. O Rock já é um espião do nosso lado, isso já é suficiente pra levantar a maior das desconfianças. Se começarem a suspeitar dele, poderão descobrir a verdade.
–E é melhor que eles não saibam que conheço eles — o rapaz acrescentou — Aí sim eles iriam me vigiar. Não, eu preciso manter minha posição de vingador mascarado que procura o gatuno misterioso que vive interrompendo-os com shurikens — ele disse imitando um tom de voz pomposo.
–Ou seja, que vive atrás de você mesmo — Thugles resumiu. O rapaz deu de ombros mais uma vez.
–É, ou isso. Bem, é melhor irmos. Não temos tempo a perder, não é?
–Espera — Thugles gritou de repente — Como nós vamos achar onde o esconderijo do Donnie?
Rockfiels franziu a testa.
–Vocês vão voltar lá, ué, que nem na última vez. O esconderijo é o mesmo — ele disse, mas desta vez os outros balançaram a cabeça — Ah, quê isso, ninguém aqui lembra onde é?
–Não — Vampiritico respondeu com um sorriso de desculpas — E estou pensando em outra coisa. Por que você não vai pra essa reunião com os bandidos assassinos? Aí você volta e a gente tenta encontrar o Donnie e o resto. É melhor, porque assim você não perde sua festinha e a gente ainda fica sabendo onde eles estão escondidos, se você conseguir descobrir.
–Não sei... Levaria tempo demais...
Nick o olhou com um gesto de zombaria.
–Bom, não vai dar pra gente achar o esconderijo sem você, não é? E nem vamos saber bem o que fazer depois de achar. Se você for lá, nós vamos poder ter uma idéia de onde eles estão.
–Além disso — Vampiritico acrescentou com um sorriso que nada tinha de engraçado — Se eles conseguiram derrotar o Donnie, o Aphanyus, o Sheddeer e uma garotinha fofinha, por que dois magos e um Gatuno teriam alguma chance?
Aquele era um bom argumento. Rockfield inclinou a cabeça para um lado distraidamente, enquanto refletia sobre a idéia. Ele poderia se juntar com Dark Corpse e tentar descobrir o que acontecera com os outros. Depois, voltaria para buscá-los e iriam juntos até onde ele estivesse, ou até a fenda se ele não conseguisse descobrir nada.
–Tem razão — ele disse por fim — Mas é melhor vocês encontrarem algum esconderijo. Se bem que, tirando a gangue na qual eu sou um espião secretamente infiltrado, não tem muita gente perigosa que vocês não podem dar conta. Mesmo assim, é sempre bom garantir. Sheddeer insistia nisso.
–Eu sei que ele insistia — Thugles retrucou.
–Tem razão — Nick respondeu — Todos nós concordamos que... Epa, falando em todos nós... O que você acha, Dave? — ele se virou para onde o amigo estava sentado — Tá aí sozinho calado, parece até que tá puto com alguém, credo.
–Ah não, eu estou bem — respondeu a voz rabugenta de Davien — Agora que vocês prestaram atenção em mim, tá tudo bem, né?
–Que papo é esse?
–Coisa de viado, Thug — Vampiritico respondeu — Você não... Espera, você entende sim! Foi você quem ensinou pra ele, né?
–Ah sim, tudo que eu sei... Não pera...
Davien fez uma careta.
–Vocês não levam nada a sério — sentenciou — Eu me pergunto por que eu fico aqui parado deixando vocês planejarem as coisas.
Rockfield baixou a cabeça, os olhos ainda presos nele.
–Bem, sinta-se à vontade pra questionar e conversar conosco — ele disse num certo tom sarcástico — Não precisa esperar que alguém peça sua genial e tão importante opinião. Pode falar conosco quando quiser.
–Não há nada para falar! — ele explodiu, e os amigos se assustaram com aquela raiva repentina — Estamos perdendo tempo com conversinha enquanto vocês querem fazer esse joguinho babaca de espião infiltrado!
–É o único jeito — Rockfield disse com paciência — Eu preciso...
–Que precisa o quê! Tem gente ali capturada, nós precisamos ir salvá-los!
–Que estranho, Dave — Vampiritico comentou, rindo — Você, ansioso pra salvar alguém acima de tudo?
Ele encarou o pequeno gatuno com o olhar ameaçador.
–O Sheddeer estava nas mãos deles — lembrou, a voz tremendo de raiva — Agora ele morreu e nossa melhor chance de upar está presa. Se não salvarmos o Donnie, como vamos poder continuar?
–Como vamos poder continuar? — Rockfield repetiu imitando o tom irritado do guerreiro — Ora, é muito simples! Continuamos a upar até chegarmos ao nível 200, e então nós saímos daqui! Ou você é um noob que precisa dos outros para dizer aonde ir?
Foi a gota d'água para Davien. Ele olhava de um para o outro, a raiva crescendo dentro dele. Deliberadamente, num gesto altamente controlado, ele se aproximou de Rockfield.
–Você não sabe o que está falando — ele começou com firmeza, mas não resistiu e começou a berrar — E agora você fica aí com a ganguezinha e seus planinhos de espião! Não venha falar de mim assim, seu babaca! Você...
Ele se levantou, subitamente não aguentando mais e explodindo de raiva. Thugles, Nick e Vampiritico pularam para trás, assustados. O guerreiro segurava a imensa arma nas mãos e agora a puxava para trás, dando impulso para o golpe que zeraria o HP de Rockfield e criando uma sensação de vazio.
Entretanto, Rockfield fora igualmente rápido. Ao mesmo tempo que Davien puxara a foice, o outro se levantara de um salto com os joelhos levemente dobrados, uma shuriken pronta na mão direita. E isso fez Davien interromper o golpe na mesma hora.
Não era uma shuriken como as que ele usava, uma estrela preta e cheia de pontas. Aquela era prateada e parecia uma rosa-dos-ventos com vinte pontas, mas não era isso que causara aflição ao guerreiro. Era o fato de que a shuriken era do tamanho dele.
Ela cobria Rockfield quase que inteiramente, deixando aparecer apenas o topo do gorro preto que ele usava. Durante o movimento, ele havia colocado sua máscara, passando de amigo a assassino frio que não hesitaria em serrá-lo com aquela shuriken grande como uma roda de trator.
–Eu esqueci — Davien disse sem demonstrar medo, mas em um tom de voz mais controlado — Você é o queridinho do Donnie. Quer saber, fique você preocupado em resgatar ele. Pra mim chega. Vou upar sozinho, não preciso de um bando de idiotas me atrapalhando.
Rapidamente, guardou a foice e com um olhar do mais profundo desprezo ao homem coberto de preto, começou a andar a passos duros no lado oposto da estrada.
–Dave, espera o que vo...
–SAI DA FRENTE, THUG BOIOLA!
–Uuuuf!
Thugles caiu de costas da neve, a mão segurando a barriga onde o soco o havia atingido em cheio. Depois disso, os outros dois decidiram não incomodar o guerreiro.
Thugles se levantou, tossindo e cuspindo, e correu para onde o amigo havia ido. Davien desaparecera atrás de uma colina, o Clérigo foi logo em seguida...
–Ele se foi — Thugles anunciou, depois de reaparecer detrás da colina e chegar até eles — Usou alguma coisa... Um pergaminho e... Desapareceu! Ele...
–Ele vai ficar bem — Nick o consolou, solidário.
–Melhor do que nós três juntos, tenho certeza — Vampiritico resmungou.
Rockfield nada disse. Ainda olhava para onde Davien havia ido. Virou-se para os outros, visivelmente abalados e desconcertados. Mas nenhum deles culpou o rapaz pelo que acontecera, talvez porque não fosse adiantar nada, talvez porque conheciam bem demais o temperamento de Davien.
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Longe dali, a extremo nordeste do mapa, um grupo conversava em voz baixa na segurança de seu esconderijo.
A casa era de madeira, quadrada e sem divisões. Havia apenas um único aposento, com uma mesa retangular no centro e algumas cadeiras. As paredes internas tinham prateleiras baixas que serviam perfeitamente como bancos. Aquele lugar era o esconderijo de um NPC — um conhecido ladrão famoso por roubar jóias e sair sem deixar nenhuma pista no lugar(e nem jóias). Um ladrão perigoso, capaz e de sangue-frio, que Dark Corpse dera cabo semanas atrás.
Matar NPCs desonrados aumentava a honra da pessoa, mas aquele pequeno feito já havia sido oculto por dezenas de assassinatos a outros jogadores, a maioria ainda mais corajosa do que o pequeno Bart.
O diamante que encimava sua cabeça quando alguém desejava vê-lo estava laranja-escuro, quase vermelho. Ele brincava dizendo que não gostava da cor, por isso vinha evitando matar nos últimos dias. Mas era apenas brincadeira. Agora, dentro daquela casa, eles discutiam os próximos planos malignos do grupo.
Depois de se certificar que a porta da casa estava protegida por um trinco nível 5, ele se inclinou sobre a mesa para falar aos seus companheiros.
–Então, companheiros — ele começou — Algum dos idiotas louvadores do Poke tem neurônios suficientes pra se lembrar de qual é o plano? Seria bom repassarmos for sake daqueles que não sabem mas têm medo de perguntar.
–Eu sei — disse um espadachim loiro, prontamente. Todos olharam para ele. Sua mão desceu frouxamente enquanto ele se arrependia de ter falado.
–Pode falar, Evil Corpse — o pistoleiro lhe disse, fazendo um gesto de encorajamento.
Ele pigarreou, atrapalhado. Hesitou mais alguns instantes — aquele sempre tinha sido um problema na escola. Odiava apresentar trabalhos em grupo, e a sensação era exatamente a mesma. Respirando fundo e aplicando a técnica de olhar para uma das tábuas de madeira da parede ao mesmo tempo em que fingia estar sozinho, ele começou.
–Bom, primeiro, Davien e os outros estão indo se encontrar com Donnie e os outros "outros" em El Nath. Como a Mad Shadow ainda não voltou, já deve ter acabado com eles. Como ela ainda está viva, sabemos que não está morta — ele hesitou quando ouviu as risadas — Bom... Eu quis dizer que, como ela ainda está online, sabemos que está viva — ele se corrgiu, apressado.
–Não é bem um "plano", é mais um resumo dos acontecimentos — bradou um corpulento guerreiro de pele cara — Mas continua.
Ele pigarreou novamente, olhando fixamente para a madeira enquanto falava.
–Quando ela chegar aqui, precisamos dizer que ela tem que voltar pra lá, pra ficar no lugar onde ela capturou eles. Quando Davien e o pessoal chegarem, vão encontrar uma armadilha. Capturamos eles e os obrigamos a entregar as armas em troca de deixar eles viverem. Depois, voltamos pra cá e esperamos a próxima missão.
–Entendeu tudo, Plank? — o homem que falara gritou, agitando um punho fechado para a madeira onde o espadachim olhava. O grupo inteiro caiu na risada, nem mesmo Dark Corpse conseguiu deixar de rir com os dentes cerrados e sorrindo.
–Hue, acho que o Plank entendeu bem — interpôs Vile Slayer(dele eu não tenho medo que vocês se esqueçam quem é) — Boa explicação, Evil Corpse.
–Então a Mad Shadow deu um jeito neles, hein? — comentou Bloody Tarantula, o rapaz que era conhecido como Rabisco.
Mas Dark Corpse exibiu uma leve expressão de indecisão.
–Bom... Aí é que está, o combinado era ela ir pra Orbis depois de completar a missão. Ela ainda tá viva, então não sei por que ela esteja demorando...
–Talvez ela tenha encontrado alguém interessante no caminho? — sugeriu um outro, mas o pistoleiro simplesmente sacudiu a cabeça.
–E isso custaria tanto tempo assim? Se ela conseguiu pegar o Donnie, não tem por que demorar com algum viadinho de beira de estrada. Não, alguma coisa está atrasando ela.
–Será que ela falhou?
–Aí ela teria morrido, né, babacão — Vile Corpse respondeu com desdém — Ou ela ganha, ou ela morre ou ela foge. E se tivesse fugido, estaria aqui. Sabemos que ela é melhor... Até mais que você, Dark Corpse.
–Talvez — tornou o outro — Mas...
Eles se interromperam ao ouvir uma leve batida na porta, três batidas leves seguidas de três batidas rápidas. Momentos depois, aporta se abriu, e um rapaz completamente vestido de preto, até mesmo no rosto, entrou.
–Bom dia, pessoal! Desculpem ter atrasado, tive uns problemas com aquele viadão que venho caçando... Ele está se recuperando bem do veneno.
–Deixa de justificar, Professor Lordiota, entra aí! O Corpinho estava explicando pra parede qual é o nosso plano em relação àqueles marmotinhas que estamos caçando.
Ele fechou a porta, aparentando curiosidade.
–E qual é?
–Vamos esperar a Mad Shadow voltar pra fazer ela voltar pra onde pegou eles — Dark Corpse contou rapidamente, com um leve olhar de desprezo para o colega. Professor Lord o olhou, surpreso.
–Espera, ela ainda não voltou?
Dark Corpse abriu a boca para responder, mas quem respondeu foi uma figura corpulenta armada com um imenso machado.
–Olha bem pra cá — ele disse com sarcasmo — Você está vendo alguém com as mãos escondidas debaixo da mesa e uma mulher de roupas justas em cima da mesa? Acho que não, então não, ela ainda não voltou.
–Ah, como a Mad Shadow faz falta aqui — comentou um gatuno em meio às risadas que se seguiram.
Professor Lord olhou para Dark Corpse.
–Mudança de planos — ele disse rapidamente e todos se calaram — O Davien arregou do grupo. Fugiu e ninguém sabe onde ele está.
Isso fez alguns deles se levantarem das cadeiras rapidamente.
–Espera, o arrogantezinho saiu? — grunhiu um deles, sem acreditar no que ouvia.
–Ora, então podemos dar cabo dos outros facinho! — comemorou o guerreiro de pele pálida — E depois a gente manda alguém procurar o Davien... Você mesmo, Lord! Você pode procurá-lo depois disso. A gente viajar até El Nath agora mesmo!
–Era o que eu estava fazendo — ele disse um tanto secamente — Mas aí eu recebi uma mensagem urgente me mandando voltar pra cá.
–Bem, você pode ir embora agora, já fez o que tinha que fazer — Dark Corpse retrucou com aspereza.
Rockfield hesitou. Por um momento perguntou-se se não havia sido uma grande bakisse ter contado que Davien havia se separado dos demais, mas afastou o pensamento. Dark Corpse já não gostava dele, e quando mais ele pudesse provar que era útil, melhor seria para ele.
Dando de ombros, Rockfield se virou para sair. Não era mais necessário ali, já que, supostamente, iria seguir a pista do guerreiro. Ele nem fazia idéia de para onde ele tinha ido. A mão já estava no trinco quando um lutador musculoso ergueu a voz novamente.
–E dessa vez, eles não vão escapar — ele disse, triunfante — O Italo vai chegar daqui a algumas horas, e pode ir com a gente.
Rockfield ficou paralisado. Felizmente, os pouco mais de vinte integrantes do bando estavam ocupados demais assobiando e fazendo caretas para o guerreiro sorridente. Vile Slayer, notando a surpresa, adiantou-se um passo.
–Ele me mandou uma mensagem hoje de manhã — contou com animação — Nem sei como conseguiu, esse serviço de mensagens que nunca funciona direito... Ele deve estar chegando agora. E aí você vai se vingar deles, Dark Corpse.
–Pode apostar que vou — o rapaz respondeu sombriamente, sorrindo com a idéia.
Então ele ouviu o leve clique quando Professor Lord fechou a porta e ergueu as sobranchelhas levemente interessado. O rapaz havia anunciado que ia sair havia alguns segundos, mas só agora havia deixado o local. Por que seria?
Já no chão, Rockfield correu para o aeroporto, querendo ir até o balão que o levaria a Ossyria. E então seu coração pareceu saltar do peito quando ele viu a figura que acabava de chegar vindo da direção que ele estava indo.
Por pura coincidência, ele estava lá. O rosto estava coberto, mas o casaco azul com capuz e a lança roxa de duas pontas era inconfundível. Antes que pudesse se esconder, foi visto pelo outro. Ele balançou a cabeça e o saudou animadamente.
–Olá, Rock. Saindo apressado de novo? — ele perguntou na voz tranquila e agradável de sempre.
–Sim — ele disse, satisfeito pela máscara disfarçar a sua voz — Infelizmente, essas missões nunca acabam. Não posso nem descansar e já vem mais uma.
–Talvez nem tão "infelizmente". Sempre é bom ter mais uma missão, afinal, é pra isso que estamos juntos — ele disse em tom professoral. Rockfield deu de ombros.
–É... Nunca mude esse seu jeito, Italo. Ah, e o pessoal está dando uma pequena festa lá na casinha. Estão te esperando pra te levar de volta pra El Nath.
–Entendo — respondeu o rapaz, e então o outro o saudou e continuou seu caminho para o aeroporto.
Os minutos que tinha que passar no balão eram torturantes. Mas finalmente, ele chegou. Mal havia aparecido em Orbis e já estava correndo a toda velocidade para o portal que levava à cidade e, consequentemente, à torre.
Precisava avisar seus amigos que Italo Wilfox logo estaria atrás deles.
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Cerca de uma hora depois de amanhecer, os quatro viajantes chegaram na fenda onde o grupo de Donnie estaria.
Para surpresa deles, era a mesma que haviam checado dias antes, a que havia sido atacada e que estava com sinais de luta. Sheddeer certamente não acharia muito sensato fugir de um lugar depois voltar e acampar exatamente no mesmo lugar. Então eles se lembraram de que agora não havia Sheddeer para avisar de fatos como esse.
Não haviam tempo a perder. O grupo de Dark Corpse agora voltava seus olhos para eles, e se não se cuidassem, poderiam ser pegos. E Rockfield, ou melhor, Professor Lord, precisava voltar para continuar a manter sua posição como bandido do grupo(que, basicamente, seria passar informações falsas sobre o paradeiro de Davien).
Eles haviam feito uma rápida revisão dos planos. Achariam o acampamento, então Rockfield voltaria para os ladrões enquanto o resto do grupo seguia a posta de Donnie e dos outros. Assim que chegaram à parede, ele fez sinal para eles pararem.
–Esperem aqui — Rockfield sussurrou — Melhor eu me certificar de que...
–Podem entrar! — gritou uma voz conhecida.
Rockfield baixou a cabeça, um largo sorriso curvando seus lábios, apesar de tudo.
Os quatro entraram, cautelosos, e a cena que viram era mais atordoante do que qualquer um dos mapas de chefes que já haviam enfrentado, mais até do que da vez que Thugles roubou o computador de uma colega e encontrou fotos do Davien de sunguinha.
O espaço dentro da fenda era do tamanho de dois quartos de dormir grandes e era quase circular. Uma fogueira queimava no centro, a curva da fenda ocultando completamente a luz quando estava de dia.
As barracas ainda estavam lá, como Rockfield se lembrava. E enquanto olhava para elas, uma figura alta e conhecida saiu de uma delas, usando uma grande espada retangular pontuda prateada.
–Apha! — Rockfield cumprimentou, um misto de surpresa e alegria. Ambos sorriam, felizes pelo reencontro. Mas apesar disso, a emoção que sentiam não era nada comparada à de Thugles. Ou de Nick e Vampiritico.
Pois em um canto, um jovem de roupas verdes, chapéu de couro e expressão serena os encarava, sorridente. Ele começara a se levantar, mas tornou a cair no chão sem fôlego.
–Thug — disse a voz tranquila e amena de Sheddeer, um pouco distorcida pelo forte aperto no bruxo. Ele sorria. Em seguida, Nick e Vampiritico correram para esmagá-lo, sem acreditar no que viam.
–Cara, mas você... Você morreu! Eu vi! Agora eu tô vendo você vivo, eu vi você aqui agora você... mas antes você tava...
–Opa opa opa, devagar com a carruagem! — Sheddeer interrompeu o intermitente fluxo de palavras que saía da boca de Nick — Uma coisa de cada vez! Fale, Thugles, você sempre foi o mais controlado.
–VOCÊ TÁ AQUI OMG MAS MORREU EU VI VC TINHA MORRIDO AI OMG AHMEUDEUS EU VI AMS AGR TO VENDO O THUG TÁ VENDO MAS O THUG NÃO TÁ CREDITANDO AH KRA VC TA AI MIFALA LA NO MD DOS MORTOS VC TROUXE DOCE DE LA CARA VC TA VIVO AHMEUDEUS ELES DIZIAME EU DIZIAM E CHORARO E NGM CHORO DAVE A DAVE KD ELE PQP DAVE
–Você tinha morrido, cara — Vampiritico sorriu para ele, quando Thugles finalmente o largou -Será que tava bugado?
–Vamos discutir tudo isso depois — ele disse — Temos outros problemas para resolver.
Só então os amigos olharam o lugar com mais atenção, e perceberam que Jonathan e Sheddeer não eram os únicos ali. Thugles franziu a testa levemente ao reconhecer, sentado num lugar e agitando a mão num cumprimento tímido, o rapaz que vira ferido em El Nath e a garota que o curava, agora sentada numa pedra azul clara. E mais estranho ainda, quatro pessoas jogadas a uma canto, firmemente amarradas por cordas. Eles dirigiram um olhar interrogativo a Sheddeer, mas ele apenas balançou a cabeça. "Tudo a seu tempo", o gesto parecia dizer.
–Então você voltou — disse uma outra voz, saindo de outra barraca.
–Bom, é meio óbvio, não é? Minha armadura não me esconde tão bem assim. Até você pode me ver aqui, de preto no meio de todo esse branco.
Mas palavras foram ditas com um largo sorriso ao ver o melhor amigo sair da mesma barraca onde Aphanyus estava. Eles se abraçaram por um momento. Então o rapaz se lembrou da verdadeira razão de ter retornado ali e o soltou.
–Temos um problema — ele começou olhando-o fixamente, mas Donnie o interrompeu.
–Nós também — ele disse, a voz repentinamente mais séria — A Anna desapareceu.
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Os primeiros raios de sol atingiam a areia com facilidade, pois não havia nuvens para bloqueá-lo.
Davien caminhava pelo deserto, distraído. Chegara ali bem rápido. Tinha parado em um bar para descansar, e então um jogador de expressão astuta lhe oferecra um cristal laranja por um preço considerável. Ele não sabia bem se devia aceitar, mas queria ir para longe. Então comprou o bagulho.
O preço tinha lhe ferido um pouco o bolso, mas pelo menos o cristal funcionava. Assim que o quebrou no chão, foi envolvido por uma névoa fria e momentos depois a areia deu lugar às tábuas frias de madeira do estabelecimento onde estivera momentos antes.
O estranho também tinha lhe dado um mapa "É um brinde", o homenzinho lhe dissera. O mapa não era mais que um desenho tosco feito à mão, mas pelo menos lhe dava uma noção bruta de onde estava. Pelo menos, sabia que estava no deserto Nihal, a leste de Ariant.
Ele havia aparecido no meio do nada, e foi quando entendeu por que o homem estava tão ansioso para vender o cristal. Era autêntico, mas transportava a pessoa para um lugar aleatório do deserto. Mas ele havia dito que "Te levará ao Deserto Nihal, instantaneamente!". Acostumado a usar pergaminhos de retorno que sempre levavam a cidades, onde era fácil se orientar, ele se viu verdadeiramente perdido no meio daquela imensidão de areia.
Não que ele estivesse reclamando. Queria ficar sozinho, de qualquer maneira. Ele uparia sozinho, de agora em diante. Provaria que seus amigos só o atrasavam.
Ali o sol estava nascendo, apesar de que em El Nath ele já havia aparecido. Itens de teleporte causavam uma sensação engraçada por causa disso: quando se saía de um lugar a leste ao nascer do sol, como El Nath, e depois ia para um lugar a oeste, como o deserto Nihal, ainda seria noite.
Pra onde ele iria agora? O rapaz não fazia idéia. Parecia lógico que, se continuasse a andar, teria que encontrar alguma cidade ou estrada. Sendo assim, ele simplesmente continuou a caminhar enquanto as horas se arrastavam e o calor aumentava.
Felizmente, não era o calor escaldante e sufocante de um deserto. Pelo menos nisso os administradores do jogo tinham sido competentes.
Davien viu uma pedra no meio das dunas e a golpeou, mais para aliviar a pressão do que por qualquer outra coisa. O que não serviu para nada, já que um barulho de erro se fez ouvir e apareceu a mensagem "Objeto imortal". O fato o encheu de raiva. Havia quase se esquecido de que estava dentro de um jogo, realmente tinha esperado que a pedra rolasse para longe.
–Nervoso? — perguntou uma voz, trazida até ele pelo vento.
Davien olhou para frente e enxergou uma pequena figura usando um cajado, aproximando-se naquela direção. Um vulto menor corria ao lado dele, e logo eles chegaram perto o bastante para que ele notasse um cachorro preto e branco, aparentemente uma versão miniatura de um husky siberiano. Era uma visão estranha, um cachorro daqueles no meio de um deserto de areia.
Mas o animalzinho não parecia se importar com o fato. Seguia o dono docilmente, e quando ele se aproximou mais, Davien pôde analisá-lo melhor.
Ele usava uma túnica preta ricamente desenhada e um chapéu da mesma cor com tiras azuis de couro que desciam até o queixo. Não era um preto sinistro, contudo, era um preto brilhante e magnífico, com uma parte branca entre o preto. Mais tarde, Davien descobriria que aquele set se chamava Anakamoon, as túnicas que imitavam as de um mago famoso na história do jogo. Seu cajado era um estranho bastão com o crânio de um bode ornamentado por brincos e argolas douradas ao redor da boca e das narinas. Na outra mão, carregava uma pequena pirâmide azul de onde saíam asas feitas de luz que aumentavam seu diâmetro, e o guerreiro percebeu que era um escudo. "Um escudo feito pra magos", ele pensou. Imaginou que aquela luz deveria ser tão forte quanto uma boa chapa de aço.
–Não é muito legal ficar nervoso por aqui — ele tornou a dizer, e Davien se enrijeceu ao reconhecer a voz grave e zombeteira.
Mais ainda, ele podia ver o rosto do homem quando ele se aproximava. Um pouco cheio, nariz curto e boca torcida num sorriso sarcástico enquanto ele chegava cada vez mais perto. E ainda, a característica inconfundível que não deixava dúvidas sobre quem era aquele homem: a venda vermelha que cobria inteiramente seus olhos.
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