–Desapareceu? — Rockfield repetiu sem acreditar — Como assim? Pra onde ela...

Ele se calou tarde demais. Já deveria ter aprendido a não dar esse tipo de brecha para o amigo. Donnie suspirou profundamente.

–Se soubéssemos pra onde ela foi, não estaria desaparecida — ele disse e Rockfield resmungou, balançando a cabeça.

–Eu tenho uma pergunta um pouco menos óbvia — interpôs Thugles — A Anna estava aqui, numa fenda com apenas duas barracas, e como ela é menina, talvez vocês quisessem dar mais privacidade a ela e talz. Mas não teria como ela ficar sozinha em uma e ajuntar o resto tudo na outra, então é provável que ela tenha ficado com alguém. Quem seria essa pessoa? Pode ser qualquer um de vocês, mas se supormos que é o Donnie, vai dar mais credibilidade à minha teoria. Então vamos fingir que é o Donnie. Se ela estava dormindo numa barraca sozinha com o Donnie, por que diabos ela teria fugido?

Thugles respirou profundamente, recuperando o fôlego. Donnie e Rockfield se entreolharam, depois olharam os demais.

–Por que deixamos ele terminar de falar tudo isso sem ninguém interromper? — Donnie disse fazendo uma careta. Vampiritico apenas deu de ombros.

–Não sei, ele costuma falar rápido pra ninguém interromper. Mas aí... Vocês têm muita coisa a explicar pra gente, não?

Ele olhou para todos ali, num gesto que abarcava todos os presentes naquela fenda. E não estava errado. Anna havia desaparecido, o guerreiro que tinham visto sendo enfaixado em El Nath estava junto com eles, havia um grupo de pessoas amarradas e jogadas numa parede e, mais ainda, Sheddeer estava ali, como se nada tivesse acontecido.

Sr. Estou Aqui Como Se Nada Tivesse Acontecido se adiantou.

–Vocês vão ter tempo pras explicações, mas agora, eu preciso sair. Estava esperando você — acrescentou para Rockfield — Ia começar a seguir a pista dela, mas não consigo seguí-la de noite. Tive que esperar até o amanhecer, mas aí você chegou.

O gatuno assentiu brevemente. Sheddeer tinha Rastreamento nível 15, que permitiria que encontrasse o rastro da garota com muito mais facilidade do que ele. Entretanto, o nível da habilidade caía consideravelmente durante a noite, o que não acontecia com Gatunos. Quando escurecesse, Rockfield poderia continuar levando-os na direção certa, pois a habilidade nível 12 dele não se alteraria.

–Quer dizer então que o Sheddeer poderia ter saído pra procurar ela antes da gente chegar — Thugles começou, pensativo — Puxa, se a gente tivesse chegado aqui e o Sheddeer já tivesse saído, o Donnie teria dito tipo "Rock, o Sheddeer disse pra você ir atrás dele" aí um de nós responderia tipo, com todo aquele tom sombrio — Thugles imita tom sombrio — "Ah, então foi assim que ele morreu, foi procurar a Anna e aí morreu..." — Thugles pára de fazer tom sombrio — Aí chega um de vocês e diz num sorriso: "Ah não, ele está vivo! Olhem só..." aí eu olho pro menu de amigos e vejo CARALHO, O SHEDDEER TÁ VIVO! COMO QUE ISSO ACONTECEU OMG COMO ELE TÁ E TALZ COISA N SEI e essas viadagens que eu faço quando tô animado demais. Já pensaram? Teria sido uma excelente jogada da trama se isso aqui fosse um livro. Mas como não é, nem sempre as coisas acontecem da maneira mais dramática.

–Ou talvez o autor tenha esquecido — Vampiritico sugeriu com um sorriso para o rosto de Donnie, que olhava fixamente para o clérigo.

–Antes que o Thugles comece outro discurso — Rockfield resmungou segurando o riso — Vou ali buscar uma fugitiva fofinha e já volto. Sheddeer, vai na frente fazendo o trabalho chato de rastrear enquanto eu fico atrás pensando na vida fingindo estar cuidando da retaguarda, sim?

–Sim — ele respondeu um tanto desanimado — Bem, não gosto muito de despedidas, então estou indo. Vlwflw.

Eles saíram pela pequena entrada da fenda, Sheddeer com um aceno de despedida para os amigos. Eles ainda olhavam para a saída quando Donnie tornou a falar.

–Acho melhor nos sentarmos. Tem muita coisa pra explicar e pouco tempo pra gastar. Melhor começarmos logo.

–Começando por como o Sheddeer fez pra voltar do mundo dos morridos — Nick disse enquanto se sentava.

–Começando pelo problema que o Rock disse quando chegou aqui — Donnie corrigiu com firmeza — Qual é?

Thugles e Vampiritico franziram a testa enquanto punham os pensamentos em ordem. Nick foi o primeiro a falar.

–Tem um cara da Gangue do Cadáver seguindo a gente — ele começou devagar — Não sabemos sobre ele, mas pelo que o Rock disse, é bem poderoso. A gangue toda ficou animada quando soube que ele vinha.

–Sim, continue? — Donnie franziu a testa para ele, na pausa que se seguiu. O garoto olhou para os amigos, pouco à vontade.

–A gente tava esperando o Dave dizer que não é nenhum problema, que damos conta deles facinho — Thugles disse por ele.

–Ele...

–Ah não, ele tá vivo — Thugles se apressou a responder(mas depois olhou o menu de amigos) — Ele deu ataque de nervos e debandou.

–Não me surpreende — Donnie respondeu revirando os olhos pra cima — Mas acho que eu concordaria com ele. Ultimamente, o que eu mais quero é pegar um jogador matador pra ensinar uma boa lição.

Ao ouvir isso, Gatts inclinou a cabeça para um lado.

–Você tem sorte de não ter muita gente mais forte que eu nesse jogo — ele disse simplesmente. Kiara e Aphanyus riram.

–O que foi? — Nick perguntou para Thugles. O garoto parou de olhar o guerreiro de armadura para encará-lo. Thugles parecia estar tentando se lembrar de alguma coisa, mas então a impressão se foi.

–Nada — ele disse com um aceno de "deixa pra lá".

–Ele provavelmente vai estar acompanhado dos capangas — continuou Vampiritico — Talvez vocês os conheçam. Tem o Cadáver, claro, que inspirou o apelido que a gente pôs na gangue, uma mulher que atira shurikens bem pra caralho... por falar nisso, o Cadáver também atira bem pra caralho...tem também um arqueiro com uma cabeça de cavalo bem convincente, um garoto loi...

Donnie se levantou tão bruscamente que Vampiritico bugou. O garoto olhou para Aphanyus sem entender, mas o guerreiro tinha uma expressão estranha no rosto. Confusão, incredulidade... E algo que se parecia muito com medo.

–Essa mulher que você disse — Donnie começou com os olhos fixos no garoto — É aquela ali?

Vampiritico e os amigos olharam na direção que ele apontava sem olhar: os quatro sacos de batata amarrados pelos pés e pelas mãos junto à parede. Três deles eram homens que eles não conheciam, mas as roupas pretas e roxas de uma figura feminina eram inconfundíveis.

–Sim, é ela mesma! — Vampiritico concordou muito surpreso, acenando para ela — Oi, mulher que o Rock superou!

A mulher estava profundamente adormecida, talvez por um feitiço de Donnie ou algo mais sinistro. Por isso não respondeu.

–Você tem sorte de ela não poder ouvir — Donnie disparou — Não seria bom se soubesse que o Rock é espião nosso, seu babaca.

–Puxa, é mesmo... Sabe que eu nem notei?

–Eu esperava que ele dissesse que não é ela — Aphanyus disse num suspiro — Mas pelo jeito, é. A gente vai ter que sair daqui.

Tanto Nick quanto Thugles e Vampiritico olharam para ele, sem acreditar no que ouviam. Gatts também deu aquele olhar. Kiara permaneceu sentada na pedra azul, como de costume. E o Poke não fez nada porque ele não estava ali ouvindo a conversa.

Donnie os encarou e voltou a se sentar. Quando falou, a voz estava mais calma, embora não menos urgente.

–Vocês — ele fez uma pausa, passando o olhar para cada um deles — Vocês sabem com quem estão se metendo?

–Com a Gangue do Cadáver, desgraçado, acabamos de dizer.

–Vocês provocaram a Team Italo — Aphanyus revelou ignorando o sarcasmo do Gatuno, que riu.

–Team Italo? Puta que pariu, eu pensava que Gangue do Cadáver era zoar, mas o próprio nome já...

–Não é o nome deles — Aphanyus interrompeu sacudindo a cabeça — É que tinha um bug que, quando se criava um clã, não importa qual nome colocasse, o nome seria "Team" e o nome do líder. Eles consertaram, mas deu tempo pra muita gente perceber. O nome verdadeiro é "Sunrise of Astoria"

–O Nascer do Sol de Astoria. Ainda assim...

–O nome não é importante — Donnie respondeu — E sim os membros dela.

Vampiritico encarou os dois, um após o outro.

–O Thugles vocês não interrompem, né? Seus...

–Eles não gostam nada de serem chamados de "Team Italo" — Donnie falou elevando a voz, o que causou alguns resmungos em alguém — Por isso, nós chamamos ele assim.

–E quem é esse cara que está vindo atrás da gente? — Nick quis saber.

–É o Italo — Aphanyus disse como quem explica algo muito óbvio.

–Não consigo pensar em ninguém mais pra fazer o Rock achar que é um problema — Donnie concordou — Além do líder. Se ele está vindo...

Nick franziu a testa.

–Mas pensei que o Dark Corpse fosse o líder, não? — ele disse, e Donnie e Aphanyus sacudiram a cabeça na mesma hora.

–Nah, ele é o mais ativo do grupo, isso é verdade — o guerreiro disse pensando um pouco — Mas é só o braço direito do líder.

–O capanga mais próximo, é um termo melhor — Donnie corrigiu, sombrio. Aphanyus assentiu, mostrando que concordava com ele.

–Quê isso, ele é tão bom assim? — Gatts entrou na conversa, abismado. Não havia oponente que o fizesse recuar em uma luta. Ele não era arrogante — nem arregão — a ponto de achar que era o melhor, mas encararia uma luta sem hesitar. Se fosse para proteger os aliados, seria o primeiro a entrar num combate. Mas qualquer esperança de algum feito heróico sumiu ao ver o lhar estranho no rosto de Donnie.

–Esqueça isso. Eu sei o que você está pensando — ele disse num sorriso maldoso — Acredite em mim, você não vai querer enfrentar o Italo. Ele não parece grande coisa, mas o Rock disse que já viu ele lutar uma vez. E a cara dele quando me contou isso era a mesma que ele fez quando estava pra contar que o Italo está vindo aqui nos dar um abraço.

–Awn, eu gosto de abraços! — Thugles comentou — Pena que a Anna não vai estar aqui pra ele abraçar. Ele não podia, sei lá, agendar a matança pra outro dia?

–Quando você perceber a crueldade que tem no que você disse, vai se calar — Vampiritico olhou para ele com frieza — Mas eu me pergunto por que estamos parados aqui sendo que tem um cara tão legal assim no nosso encalço.

–E pra onde você pretende ir? — Donnie perguntou com paciência — Vamos sair daqui, mas eles ainda vão demorar pra chegar aqui. Eles pensam que estamos em Mu Lung — seu rosto se curvou num sorriso — O grupo que veio nos atacar estava indo pra lá, quando o Rock avisou que estávamos aqui. Ele precisou fazer isso pra não ser descoberto. Não sabíamos que eles viriam, mas conseguimos pegá-los. Eram oito deles, nenhum saiu daqui — acrescentou maldosamente. Haviam apenas quatro pessoas amarradas.

–Ninguém mais sabe que estamos aqui — continuou o bruxo — Mas eles vão acabar percebendo a pista falsa e vão conseguir nos rastrear. Afinal, estamos com um deles. Eles devem saber como chegar até ela.

–E eles vão demorar pra nos rastrear, já que a melhor gatuna deles se encontra amarrada com a gente — Aphanyus lembrou — Então podemos ficar aqui continuando com as explicações.

–Pelo amor de Deus — Thugles disse em um tom de súplica — Eu tô aqui faz minutos e só quero saber como que o Sheddeer voltou. Você tem alguma habilidade de Ressurreição aí com você ou algo assim?

–Tem isso não — Donnie retrucou, mas não disse mais nada. Foi Aphanyus quem teve pena dele e se adiantou.

–O Sheddeer nunca chegou a morrer — ele disse com um sorriso — O que te fez pensar isso?

–O menu de amigos — Nick respondeu automaticamente — Diz aqui que ele tava offline, e...

Os olhos dele se arregalaram lentamente enquanto ele compreendia o que dizia. Aphanyus fez um gesto positivo para ele. Vendo que Thugles e Vampiritico ainda estavam em dúvida, ele sorriu ainda mais.

–O diamante verde ao lado do nome do amigo. Qual a função dele?

–Mostrar se a pessoa está viva — Vampiritico respondeu. Aphanyus sacudiu a cabeça.

–Mais ou menos, mas isso é porque o jogo foi hackeado. Qual é a função verdadeira do diamante?

Houve uma pausa enquanto eles pensavam no assunto. E começaram a compreender também. Embora isso levantasse outra questão.

–Ele saiu do jogo — Thugles disse olhando o chão nevado, a boca um pouco aberta — Mas... Como?

–E por que ele voltou se conseguiu sair? — interpôs Vampiritico.

–Aí entra uma longa explicação que pretendemos guardar pra quando estivermos seguros — o guerreiro falou.

–Uma coisa que, com o Italo atrás da gente, talvez demore a acontecer — Donnie retrucou com sarcasmo — É um momento tão bom quanto qualquer outro.

Aphanyus deu de ombros, mas estava satisfeito. Ele gostava de explicar o que estava prestes a dizer.

(Exatamente depois da frase anterior, nesse mesmo momento, eu fui ali cuidar de uns efeitos colaterais que às vezes aparecem depois de se comer como se não houvesse amanhã do dia anterior. Me sinto muito bem agora, como se um grande peso tivesse sido retirado dos meus ombros. Não dos ombros, na verdade. Não é uma coisa legal de se colocar no meio de uma fanfic, mas como você pode ver, eu coloquei)

–O jogo tem algumas brechas, afinal os administradores entram aqui de vez em quando...

–Eu sei, o Rock já contou isso — Vampiritico interrompeu, impaciente. Aphanyus fez cara feia.

–Então não preciso dar a explicação toda. Resumindo, eles não retiraram o botão de sair do jogo. Só usaram um código que faz ele sumir do menu...

–Puxa, que diferença — Vampiritico respondeu revirando os olhos.

–Ah, faz muita diferença, sim. Entenda, não é fácil simplesmente liberar a opção "Sair do Jogo" para quem eles quiserem. Não, se usaram um código geral, ele tira a opção de todos os jogadores. E toda essa confusão com os administradores tentando recuperar o controle também é conveniente pra gente. O máximo que os hackers conseguiram fazer foi codificar certos lugares do mapa, que liberariam a opção de sair do jogo.

–Então é só chegar num desses lugares que o botão aparece? — Thugles perguntou, mas o guerreiro fez que não com a cabeça.

–Não é assim tão fácil. Se fosse assim, teria o risco de alguém achar o lugar na cagada e ver que pode sair do jogo por lá. Então, o que eles fizeram foi tipo, você precisa ter um certo item, e estar num certo lugar, pra opção aparecer. Se a pessoa tiver o item e for até o local, ela pode sair.

–Não seria mais fácil fazer um item que libere a saída? — Gatts perguntou, mas foi Donnie quem respondeu.

–Pensamos a mesma coisa, mas por algum motivo, eles não conseguiram — ele disse simplesmente.

Aphanyus tossiu.

–Continuando... É por isso que estamos aqui. Um desses hackers quis se achar o bonzão e apareceu dizendo que podia sair quando quisesse, sabe, se exibindo. Aí...

–Aí o Sheddeer garantiu que ele nunca mais saísse — terminou Donnie.

–É, e nós ficamos com o aparelho que ele tinha. Eles o projetaram pra não ser dropado se a pessoa morrer, mas como ele tava segurando o negócio pra se exibir... Ele dropou. É tipo uma bússola, que aponta pro lugar mais próximo onde tem a saída. Estávamos aqui planejando emboscá-los, mas..

–A tal bússola piscaria quando estivéssemos no lugar certo — Donnie explicou — Ela nos levou pra cá, mas quando o Sheddeer a segurou, ela apontou pra parede. Não achamos nenhuma passagem secreta e a montanha é um objeto imortal, então não dá pra quebrar. Por fim, simplesmente deixamos pra lá e usamos o lugar como acampamento.

–É um bom lugar — Nick comentou, olhando as paredes e para cima deles. Ali era um buraco na montanha, mas acima deles havia um buraco por onde a luz entrava. E a entrada era um corredor estreito e quase impossível de ser notado ao acaso. Era um esconderijo perfeito, ele pensou.

–Resumindo, pensamos que tínhamos achado o lugar. Só faltava o item — ele olhou para Gatts significativamente — Que supostamente é alguma coisa pequena, como um pedaço de metal.

Gatts assentiu mostrando que compreendia. Tinha sido por isso que Donnie relutara em entregar o fragmento da armadura, afinal. Era muita coincidência que ele tinha estado justamente no lugar onde acreditavam estar um portal para sair do jogo.

–Agora, como o Sheddeer conseguiu sair... — Aphanyus fez uma pausa e Thugles, Nick e Vampiritico olharam para ele imediatamente — De algum jeito, ele conseguiu usar a proximidade pra liberar o botão. Veja bem, a tal bússola é toda codificada e com frescuras de modo que, ela é quase como se fosse um aparelho trazido diretamente do mundo real. Por isso, a gente pode mexer nele, não é como uma espada que é indestrutível por ser virtual, por exemplo. Ele fez uns negócios no aparelho e o botão apareceu.

–E foi quando tudo deu errado — Donnie disse com tristeza — Ele explodiu como se tivesse realmente morrido. Pensamos que talvez tinha dado certo, mas então ele voltou. Ele disse que não sabe o que aconteceu, que o mundo só ficou escuro por um segundo, mas na verdade, ele ficou offline por mais de dez horas. Depois disso, paramos de tentar sair sem juntar o tal item e achar o lugar certo.

–O Sheddeer sempre entendeu de aparelhos — Nick concordou — Consigo até imaginar ele curvado sobre ele mexendo aqui, apertando ali, os olhos apertados e a boca se mexendo...

–Foi assim mesmo — Aphanyus respondeu, rindo com vontade.

–Mas como vocês sabem de tudo isso? — Kiara manifestou-se pela primeira vez naquela conversa — Sobre essa situação com os hackers, os códigos e tudo?

O rosto de Aphanyus ficou sombrio.

–Meu pai — ele explicou um tanto desconfortável — Ele ajudou a hackear todo o sistema. Pagaram muito bem pra ele, mas isso... Só torna a coisa ainda pior.

–Ele se arrependeu assim que descobriu o que tinha feito — Donnie ajudou — Quando viu que o filho dele estava preso também, tentou tirar a gente daqui. Mas ele não podia levantar suspeitas. Foi por isso que ele garantiu que o tal item dropasse do cara que veio se exibir pra gente.

–Ele não pode contar como sair?

–Não, porque todos os que entram aqui têm o corpo monitorado — Aphanyus tratou de responder — Eles não podem colocar câmeras e nos vigiar, mas o pessoal que entra é sempre observado. Tudo o que eles falam é transmitido. Eles garantem que ninguém ajude ninguém a saber. Se quisermos sair sem pegar nível 200, vai ter que ser por nós mesmos.

Houve uma pausa enquanto os amigos digeriam o que tinham ouvido. Aquelas novas informações eram um tanto desconcertantes para eles. A expressão de Thugles chegava até a ser estranha: tinha os olhos fixos em Gatts, o olhar abobado e a testa franzida.

–Já deu, cara — Vampiritico deu-lhe um tapa na nuca — Nem é uma coisa de outro mundo, ninguém tá achando graça nessa sua cara de bolacha.

Mas Thugles não estava prestando atenção nele. Continuava a olhar para Gatts com aquele olhar que Nick vira antes... E finalmente, seus olhos pareceram saltar quando ele descobriu o que era.

–Lucas! — ele gritou de repente, fazendo o guerreiro de armadura se enrijecer — É você mesmo... Da 903, com os óculos e tudo! O Arroiz, lembram dele?

Até Donnie se virou para encarar o guerreiro com mais atenção, e o fato de ele estar com a cabeça abaixada como se estivesse constrangido apenas os ajudou a se lembrar do rapaz corpulento e curvado, que passava o tempo todo na sala de aula, saindo apenas para ir embora. Se lhe colocassem o uniforme verde e cinza do MinarForest e os óculos...

–É você mesmo! — Thugles repetiu com animação — Por que não falou antes? Ah, cara...

Arroiz ergueu a cabeça com um olhar sofrido.

–Nunca fui muito de falar — ele disse — E também não sabia como. Mas você acabou lembrando, não foi?

–Caralho, o jogo muda mesmo a personalidade das pessoas — Vampiritico assentiu com cara de "nada mal" — Geralmente você não responderia, ou então resmungaria.

–Somos todos da mesma escola — Thugles explicou notando a expressão confusa de Kiara — Eu, Vampy, Nick, Sheddeer, aquele cara que debandou, Donnie e Anna somos da mesma sala, inclusive.

–Por falar nele — Donnie falou — Nós vamos ter que procurá-lo. Ele não sabe o que é sair por aí sozinho, com a Team Italo atrás de nós.

–Não estou muito preocupado com o mais forte do nosso grupo — Vampiritico disse secamente — Ele arranjou uma foice logo no primeiro chefe. Estou mais preocupado é com quem ele vai descontar a raiva.

–Ele poderia descontar no Italo — Nick respondeu com um suspiro — Ele sempre escolhe o melhor momento pra arregar.

–Não se preocupem, eu estou aqui — Gatts falou com um largo sorriso — Acho que posso lutar bem quando quero. Quase venci o Donnie ontem mesmo.

–E quase perdeu, também — Kiara ajuntou secamente. Gatts deu de ombros.

–Talvez. Mas se eu encontrar esse Italo, vou fazer ele ver o que é bom.

Mais tarde, ele se lembraria desse pensamento. E com amargura.

–Explicações dadas, discursos resolvidos — Vampiritico listou — Só falta saber por que a Anna desapareceu.

–Num momento ela estava aqui, no outro, não estava — Donnie respondeu rapidamente, em um tom que dizia que o assunto estava encerrado. Vampiritico deu de ombros.

–Tudo bem, não importa. A questão mais importante é... Que foi, Arroiz?

Vampiritico olhava o guerreiro, que tinha os olhos fixos no menu como se estivesse vendo a prova de que uma esquadra alienígena tinha invadido a terra. Ele olhou para o gatuno depois de um momento, depois para os outros, depois para a menina.

–Apareceu um aviso de que sou o jogador com o sexto nível mais alto do jogo! — exclamou ainda sem acreditar. Thugles e os outros arregalaram os olhos, impressionados.

–WOW, parabéns!

–Boa, cara! Aproveitando, você não teria uns mesos aí pra me dar não? Cem mil tá bom...

–E eu vou poder pegar prêmios a cada três dias pela minha posição! — disse o guerreiro com um largo sorriso — Puxa, eu sempre pensei que era forte, mas não sabia que era tanto! Tá perguntando se quero aparecer no top 10... — ele franziu a testa — Ora, é claro que eu quero! Quem recusaria uma coisa dessas?

–Eu recusaria — Donnie disse com calma — Parabéns. Agora precisamos decidir que fazer em seguida.

–Vamos esperar o Rock e o Sheddeer — Aphanyus falou — Aposto que um está apagando o rastro de vocês e o outro está seguindo os da Anna. Apagar rastros é demorado, mas vai nos dar tempo até eles descobrirem que não estamos em Mu Lung.

–Sim é melhor ficarmos aqui enquanto isso — tornou Donnie — Rockedder sempre pode rastrear a gente e nos encontrar, mas enche muito o saco. E não temos todo esse tempo. Vamos esperar aqui pra eles poderem saber onde estamos.

–Como se você se importasse, fez a gente vir pra lá depois pra Ludibrium depois pra cá de novo — Vampiritico zombou. Donnie olhou pra ele.

–E também fiz você virar Gatuno, aumentar as habilidades corretamente, saber que tipo de adaga usar no começo e os lugares pra upar mais rápido. E não foi culpa minha se vocês queriam nos encontrar. Eu não chamei ninguém pra vir aqui, sabe.

O garoto olhou para o chão e não disse mais nada. Nick deu uma risadinha. Gatts se levantou.

–E acho que é aqui que nos separamos — ele disse e todos olharam para ele — Desculpem, mas não estou aqui pra procurar por saídas. Foi por acaso que encontramos o Donnie, eu preciso continuar minha busca. Já tenho muitos fragmentos, e o próximo me leva pra Nautilus.

–Você e essa assíntota que chama de Quest — Kiara tornou num suspiro — E eu vou ter que ir com ele. Ele é legal, e não posso arriscar que ele morra se não tiver alguém pra curar ele.

–Não que eu precise muito de Cura — ele disse e logo se arrependeu ao ver o olhar da garota — Não que eu não precise, também. Quase não preciso. Um pouco, talvez. Não muito. Mas não dispenso.

–Vai perder a grande batalha contra o líder da Team Italo? — Vampiritico perguntou sorrindo. O rosto de Gatts se fechou.

–É mesmo, tinha esquecido. Tudo bem, talvez eu fique...

–Não vai haver luta! — Donnie disparou com veemência — Não temos tempo pra isso, e nem sabemos se podemos vencer. Tem sempre aquele negócio de "podemos ganhar, mas um pode morrer". Alguém aqui está disposto a morrer pra uma luta sem motivo nenhum e que podemos tranquilamente evitar?

Ninguém respondeu. Um clima tenso se formou entre o grupo, menos pra Kiara porque ela está sentada na pedra azul e a pedra azul deixa a pessoa calma e aí a pessoa não fica tensa etc.

–O que pretende fazer com eles? — Nick perguntou, sério. Donnie sabia que ele se referia aos quatro bandidos amarrados. Ele deu de ombros.

–Mantê-los aqui, refletindo sobre a vida. Talvez eu os jogue na cadeia. Todos têm vermelho suficiente no diamante pra isso. É uma coisa nova que surgiu — acrescentou — Quando uma pessoa mata muita gente e o diamante começa a ficar vermelho, ela passa a ser procurada, isto é, se tiverem testemunhas que viram o crime acontecer. Cada cidade tem uma cadeia, e sempre tem recompensa pela captura dos ladrões. Principalmente por essa Mad Shadow — acrescentou, olhando com desdém para a mulher amarrada — Mas eu acho que vamos ter que ficar com eles.

–Por quê? — Vampiritico perguntou no mesmo instante, e Donnie piscou.

–Resgate — ele disse com simplicidade — Podemos mantê-los aqui e pedir resgate por ela. Ela é boa gatuna e tenho certeza que eles sentem a falta dela. Apesar de que eu não sei se vou deixá-la sair assim, pra voltar a matar — ele disse sombriamente — Mas acho que eles podem acabar sendo úteis pra nós como reféns.

–Decidam vocês o que fazer com eles — Thugles levantou, espreguiçando-se e torcendo o corpo — Cansa ficar rodando a retaguarda do grupo e curando toda hora. Vou montar minha barraca e dormir um pouco.

–É, também tô cansado — Vampiritico concordou com um bocejo — Não dormimos essa noite, e agora é um bom momento. Supondo que podemos ficar aqui, claro.

–Claro que podem — Aphanyus respondeu distraído — Vocês também — ele disse pra Gatts e Kiara — Sei que têm os próprios problemas, mas se algo der errado, é sempre bom contar com o top 6 da lista de jogadores.

–Não, eu vou ficar — Gatts assegurou, uma sombra perpassando seu rosto — Tenho um assunto inacabado com esse Dark Corpse que pretendo resolver.

–Eu também — disse a garota, numa voz que não encorajou ninguém a perguntar o motivo.

Apesar desse fim de reunião sombrio, Thugles dormiu até o anoitecer, e o clima na pequena fenda estava mais leve depois que acabaram os assuntos urgentes. Eles conversaram, brincaram e até riram, Donnie sempre de olho na pedra em que Kiara sentava. Ele queria ir para Ellinia tentar pegar uma, mas teria que guardar isso para mais tarde.

Eles decidiram encerrar o dia logo que escureceu. Não havia muito o que fazer, mas ninguém estava muito a fim de dormir. Foi só depois das onze horas que o sono chegou, um convidado extremamente bem-vindo, e eles foram dormir, mas não antes de isolar Mad Shadow dos outros três prisioneirs. Acharam melhor mantê-la separada dos outros, apenas por precaução. Todos foram dormir, exceto Vampiritico que, tendo dormido à tarde, oferecera-se para o primeiro turno.

Era um dos únicos que ainda estavam acordados. O outro era Donnie, que ainda estava sentado perto da fogueira como se pensasse em alguma coisa.

–O que foi? — o mago perguntou, ao ver que o garoto o encarava. Vampiritico fez um gesto de cabeça e se adiantou.

–Tem uma coisa que não se encaixa nessa história da Anna — ele disse. Donnie apenas o olhou, então ele continuou — Pelo que disseram, ela desapareceu, assim, sem mais nem menos. Só que, pelo que o Rock disse antes de sair, ela...

–Fugiu? — Donnie terminou por ele — É, bem... Não sei ao certo. Pode ser que tenha sido isso.

Vampiritico ficou um pouco surpreso com a resposta, mas insistiu.

–E por que você acha isso?

–Bem, ela... Dizia que estava atrapalhando muito o nosso grupo. Falava que não combatia bem, não sabia montar armadilhas, nem se esconder nem nada. Ela estava ficando muito deprimida com isso — ele continuou, olhando sem ver a lenha carbonizada dos restos da fogueira — Eu temia que ela tentasse alguma bobeira. E então, ontem à tarde, ela não saiu da barraca pra comer. Achamos que estivesse só chorando sozinha, mas quando entrei pra ver... Ela não estava lá.

–Entendo — Vampiritico assentiu devagar, várias vezes — Sabe, talvez ela volte. Quando a pessoa foge assm, geralmente se arrepende e volta no outro dia. Espero que ela faça isso.

–E se não fizer, Rock e Sheddeer vão trazê-la de volta — tornou ele, levantando-se com firmeza excessiva — Bom, eu vou dormir. Me acorda daqui a três horas pra ficar de guarda, tá? Boa noite.

–Boa noite — Vampiritico respondeu vendo-o se afastar para entrar numa barraca.

O garoto andou pelo acampamento, analisando a entrada e seu interior. Não sabia bem o que fazia, estava mais tentando se distrair do que qualquer outra coisa. Então um movimento chamou sua atenção. Ele olhou e viu um vulto encolhido tentando encontrar uma posição confortável.

–Olá, Mad Shadow — o rapaz cumprimentou, agachando-se exatamente na frente da mulher. Ela apenas o olhou, sem muito interesse.

–Talvez você se lembre de mim — continuou — Floresta de Ellinia... Não lembra? Ah é, eu estava atrás de você no momento. Como vão suas costas?

–Melhores que minhas mãos — ela disse, como se não fosse nada importante — Essas cordas estão muito apertadas. Se você pudesse me ajudar...

–Ah não, isso não vai acontecer — disse Vampiritico, rindo baixinho — Além disso, nem dá pra afrouxar corda. Ou você desamarra ou corta. O jogo não deixa você escolher meio termo. Espero que mudem isso no futuro.

–Pra você me desamarrar? — ronronou ela, curvando a cabeça num sorriso. Vampiritico o retribuiu.

–Por que, você espera estar aqui com a gente "no futuro"? Falando assim, quase me convence de que não vai tentar nada pra escapar e que vai aceitar a situação numa boa.

–Você tem sorte de a situação não ser inversa — ela disse, seu rosto imediatamente adquirindo uma certa frieza. Vampiritico não se abalou.

–Vadia, se a situação fosse inversa, você não teria nem me amarrado. E eu sei o que você está tentando fazer, não funciona comigo. Pode tirar esse sorrisinho da cara.

–Não funciona meeeeeeesmo? — insistiu ela, voltando a sorrir docemente. Vampiritico ergueu uma sobrancelha — No que você está pensando? — ela perguntou depois de uma longa pausa em que o rapaz apenas a encarou.

–Estou pensando.

–Impressionante — ela retrucou — E no quê está pensando?

–Nas horas que vou ter que ficar aqui vigiando vocês pra não tentarem fazer nenhuma bagunça.

–Ah, garanto que vão ser horas tão divertidas quanto as minhas — ela riu.

–Nah, as minhas mão ser mais. Eu posso fazer isso — ele flexionou os braços e esticou e contraiu as pernas casualmente — Você pode? Hein? Não.

–Ai, ai... Por que tinha que ser logo você o vigia?

Vampiritico olhou para baixo para ocultar um sorriso. O tom de voz dela não era exatamente o tom de uma reclamação.

–Por isso, que eu estive pensando... Talvez eu possa fazer essas horas de tédio passarem um pouquinho mais rápido.

–E como pretende fazer isso? — ela quis saber, embora a resposta, a resposta estivesse claramente estampada no sorriso dela.

Vampiritico puxou a adaga, uma pesada lâmina prateada com o cabo cuidadosamente trabalhado. Mas não fez nenhum movimento ameaçador, nenhuma indicação de que estava prestes a usá-la.

–Eu tenho uma faca, certo?

–Certo.

–E você está amarrada. Pelas regras do jogo, se eu golpear você no pescoço umas vezes, você explode. Sabe disso, não sabe.

–Seeei...

–Então você sabe que, pra eu não enfiá-la nesse seu pescoço e fazer você explodir em milhões de pedaços, você tem que fazer o que eu quero, não é?

Ela olhou para ele demoradamente antes de responder, a voz quase um sussurro:

–Sim.

Ambos os rostos refletiam a mesma expressão.

–Ótimo — o rapaz respondeu, largando a faca no chão e aproximando o corpo, os olhou muito perto do rosto sorridente e convidativo da gatuna.

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–EU PEGO VOCÊ, VENDA VERMELHA DESGRAÇADA!

O golpe de Davien passou rente ao homem vendado. Recebeu uma Garra Gélida em resposta, mas ela não o congelou.

Os ataques de Davien eram rápidos e sibilavam maldosamente ao cortar o ar, frequentemente chegando muito perto do corpo do mago. Ele se esquivava teleportando, mas o guerreiro havia melhorado muito desde a última batalha. Estava mais rápido e com os reflexos mais apurados. Sempre que o oponente sumia com a luz azul, Davien o localizava com a visão periférica e jogava a foice exatamente naquela direção.

Um dos golpes chegou perto demais e o bruxo, sem querer consumir mais MP já que a barra azul era o que mantinha sua Proteção Arcana funcionando, ergueu o escudo triangular para se defender. O escudo em si era pequeno, mas as asas de luz que saíam dele serviam para proteger.

A lâmina de Davien, curva e longa como o bico de uma ave assassina, estava indignada com aquele escudo feito de luzinha em forma de asinha. No mundo das lâminas de aço assassinas, havia um certo protocolo em relação a ataque e defesa. E luzes em forma de asas de fada certamente não eram dignas de enfrentar o aço duro e afiado de uma arma puramente fabricada.

Como se a própria foice estivesse com raiva disso,a lâmina hesitou apenas um momento ao sentir a resistência, mas logo a ponta curva e implacável quebrou a luz fina como se fosse uma chapa de vidro, penetrando na carne do braço esquerdo do mago.

A túnica preta, totalmente inadequada para proteger alguém de uma arma como aquela, foi praticamente ignorada e o corte no braço ardeu até a alma. Não sangrava, a túnica impedia danos físicos, mas a dor e o dano foram como se ele estivesse pelado.

–Myths ignora defesa contra armas das túnicas de bruxo — Davien comentou com um sorriso voraz antes de atacar novamente.

A luz do escudo voltou logo depois, mas a raiva e a rapidez do guerreiro foram tantas que o golpe seguinte veio sem nem mesmo recuar os braços para tomar impulso. A arma, dessa vez, acertou em cheio no peito dele.

O homem urrou de dor quando a foice entrou até o cabo no corpo dele. Davien sorriu com um prazer selvagem e vingativo, recuando a arma para mais um golpe.

Ele não podia ver o MP do oponente, apenas o HP. Por isso, não sabia que aquele golpe havia esgotado completamente o MP do homem. A Proteção Arcana o salvara, mas o dano tinha sido tão grande que zerou a magia, e parte do dano foi para o HP. O guerreiro viu a mão dele ir automaticamente para o bolso para puxar uma poção, mas não estava disposto a deixá-lo se recuperar.

A cortada mortal de Davien errou a cabeça do homem por vários centímetros. O braço direito dele ardeu quando o cachorro foi em socorro do dono, forçando-o para baixo e atrapalhando o golpe. O guerreiro o espantou com um safanão e tentou acertá-lo com a foice, mas o cachorro era mais rápido do que qualquer um deles. Já havia se afastado vários metros, o olhar vermelho de raiva.

Alerta, Davien se voltou para o homem rápido o bastante para ver a grande garrafa de Elixir Energético desaparecer no ar. Não era problema — Davien saltou novamente para atacar, mas o bruxo usou Teleporte. Davien se voltou para a esquerda, a foice sibilando enquando planava mortalmente em direção ao peito dele. Desta vez, o guerreiro não cometeria o mesmo erro. Se o cachorro atacasse novamente, ele estaria preparado e não seria pego de surpresa.

O guerreiro realmente esperava que ele se teleportasse novamente, embora soubesse que seu golpe chegaria antes. O que não esperava era que ele abrisse os braços para trás e para cima, o cajado erguido em uma e o escudo na outra.

E nem que o corpo dele(do homem) fosse envolvido por um pilar azul e branco ondulante, apenas a ponta do cajado aparecendo fora dele. Quase que imediatamente, o golpe de Davien parou e ele sentiu a conhecida sensação de frio que o paralisava. Contudo, aquilo era diferente. Não era a Garra Gélida, e aquele frio penetrava em seus músculos de uma maneira que chegava a doer, seu corpo inteiro parecia gritar de dor, o HP descia lentamente, embora devagar demais para causar algum dano sério...

Ele viu o homem se teleportar para trás e um brilho surgir na mão que segurava o cajado. Estava esperando pela tempestade de raios — e estaria preparado para voltar a lutar depois disso — mas dessa vez, veio apenas um. Um único raio, segurado junto com o cajado, brilhando, ondulando e faiscando que nem no filme poser de Percy Jackson, um segundo antes de ele atirar.

Davien conseguiu experimentar uma coisa que se parecia com Teleporte: num momento estava parado com os braços erguidos, no outro estava de costas com o corpo cheio de areia encarando uma barrinha vermelha quase até a metade. Ela logo tornaria a diminuir com o segundo raio, que não causou tanto dano já que ele não estava congelado(habilidades elétricas infligem mais dano em oponentes congelados). Mas fez ele voar mais alguns metros, dessa vez caindo de cara no chão.

Davien se levantou muito lentamente, usando os dois braços para se levantar. A foice havia voado para longe dele(quando isso acontece, a arma volta pro inventário). Todo o corpo do guerreiro doía. Ele bebeu uma Poção Branca que não ajudou muita coisa contra a grande quantidade de HP que havia perdido, mas ele a bebera mais para aliviar um pouco a dor do que por qualquer outra coisa.

–Você é bem forte — ele ouviu a voz vinda de algum lugar à frente dele — Não se leva duas Lanças Elétricas em cheio e depois levanta assim.

Davien não respondeu. A raiva fervia em seu corpo, funcionando como um anestésico que o ajudava a esquecer a dor. Puxou outra poção de HP do bolso, depois mais uma e por fim, a última.

–Exceto quando se é um Guerreiro — o homem continuou, a voz mais próxima dele agora — Claro que eles aguentam mais golpes. Mas isso quando usam a armadura correta. Quando depositam toda a confiança na arma...

–Cala a boca — Davien conseguiu dizer, a voz distorcida pela raiva. Tinha os olhos fixos no homem parado tranquilamente a poucos passos de distância. O cachorro o olhava com um brilho perigoso no olhar.

–Você foi muito bem, Pikka — o homem elogiou, afagando o pescoço do cachorro de leve — Agora, depois da vitória, devemos cumprimentar nosso oponente, não é mesmo?

Pikka latiu animado. Uma garrafa parecida à que o homem bebera apareceu na boca dele, só que esta tinha um líquido rosado ao invés de roxo escuro. Ele se aproximou do rapaz caído, como se a oferecesse a ele. O guerreiro não fez nenhum movimento para pegá-la, mas hesitou ao ouvir o rosnado longo e baixo que vinha do cachorro. Ele podia estar se oferecendo para ajudar, mas não o perdoara por quase ter matado o dono.

Davien o encarou por um longo momento, mas finalmente a necessidade superou o orgulho. Ele pegou a poção da boca do cachorro e a bebeu. Imediatamente, o pouquíssimo MP que gastara se recuperou, e o HP subiu quase completamente. Era um Elixir, que recuperava metade do HP e MP máximo. Também ajudava a reanimar as forças. Os músculos ainda doíam, mas era como se fosse uma dor de horas atrás, já em recuperação.

–Você precisa de uma armadura melhor — disse o homem — Esse peitoral de aço que você usa é inútil no seu nível. Só vai ajudar a conduzir eletricidade. Você precisa atualizar um pouco seu equipamento. A propósito, não nos apresentamos ainda. Meu nome é Guilber.

–Não é um conselho muito bom pra me dar, já que ainda quero acabar com você — ele disse, a foice já de volta à mão.

Mas ele não atacou. Os músculos dos seus braços escolheram aquele momento para lhe enviar um sinal de dor, como um aviso de que aquela era uma má idéia. E o homem lhe tinha dado um Elixir, não um Elixir Energético. Podia estar sendo cordial, mas não iria se arriscar a recuperá-lo totalmente.

–Isso — ele disse ao ver a careta de Davien ao tentar erguer os braços para "ajeitar melhor a foice" — É o que acontece quando se enfrenta alguém mais capaz que você, e com os equipamentos errados. Se me deixar te ajudar, vai ver que não se trata de ter a arma mais forte e esquecer todo o resto.

Ele não estava sendo arrogante, apenas estava dizendo a verdade. Davien estava pronto para dar uma resposta sarcástica, mas algo o fez hesitar. Ele se viu lembrando do chefe Balrog, e como ele sempre dizia que parte do segredo para serm um bom guerreiro era aceitando que existem pessoas mais fortes que você. E se elas estivesem dispostas a ajudar, era meio caminho andado.

E verdade seja dita, Davien nunca se preocupara com armaduras. Comprou a melhor que tinha na loja de Perion, e desde então nunca precisou se defender. Sua foice costumava garantir que o adversário não tivesse a chance de contraatacar, mas pela primeira vez ele viu o que acontecia quando Myths não dava conta de protegê-lo. Precisava de uma armadura. Mas não sabia bem onde encontrar uma melhor. Na verdade não fazia idéia de onde encontraria outra, afinal, sua lógica lhe dizia que Perion, sendo a cidade dos guerreiros, deveria vender as melhores armas e armaduras. Havia acabado de descobrir que não era bem assim.

–Eu sou o Davien — ele disse finalmente — Eu... Aceito uma ajuda. Mas você anda atrás de mim — ele acrescentou — Ainda não garanto que consiga me controlar e deixar de passar a Myths nesse seu pescoço.

Pikka rosnou, mas Guilber apenas riu.

–Ah, você consegue sim. E eu prometo me controlar pra não te fazer pagar pelo meu peito, que está ardendo como o diabo.