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16 Bam vs WK
Mal Gatts se levantara, a espada já estava pegando fogo. Ele tinha upado um nível desde a luta contra Dark Corpse, e agora a habilidade estava um pouco mais forte. A extensão do fogo era maior e a chama, mais intensa.
A única intervenção de Kiara foi uma esfera de luz flutuante que concederia uma luz fraquíssima, forte o suficiente apenas para que eles pudessem se enxergar. Apesar de que naquele momento, ela parecia uma bola de vidro amarelo e fosco, mascarada pela luz da espada de Gatts.
Ele levou a espada acima do ombro para ganhar impulso, então desferiu o primeiro golpe em Donnie. Como enfrentava um mago, sabia que não podia deixá-lo ganhar distância. Mesmo que o rapaz pulasse para evitar o golpe, o fogo o pegaria.
Então, o rapaz fez algo surpreendente.
O cajado de Donnie, feito de madeira que se alongava a partir do centro(que era onde ele segurava o cajado) de repente brilhou com uma luz roxa, e ele o virou para parar o golpe de Gatts. Instantaneamente, o fogo da espada se apagou, restando apenas a força do golpe, que foi interrompido pelo cajado.
Gatts foi pego de surpresa. Kiara, que olhava a cena, soltou uma exclamação assustada. Aquele rapaz, Donnie, havia usado o cajado de madeira... Como se fosse uma lâmina.
Como Gatts era canhoto, Donnie tinha que atacar pela esquerda, mas se fizesse isso, deixaria seu flanco direito desprotegido. Ele girou o cajado para a direita, obrigando o guerreiro a mover a espada naquela direção, e logo o voltou para uma estocada rápida no peito do rapaz. Não parecia que fora madeira que o tinha atingido. Tinha sido algo pesado e incrivelmente forte. Gatts o olhou, os dentes cerrados.
Desta vez, Donnie atacou. Um giro por cima, facilmente bloqueado pela espada de Gatts. Com a mão direita no cabo para aumentar a força, ele deslizou a espada pela madeira e a colocou por cima do cajado, descendo a espada com toda a força de modo que o cajado tocou o chão, preso pela espada. Antes que o rapaz magro pudesse reagir, levou um poderoso soco de direita no lado do queixo.
O golpe o fez perder a noção de estado por um momento, longo o suficiente para Gatts carregar a espada de eletricidade. A próxima estocada veio na direção de seu peito desprotegido mas, no último instante, Donnie se recuperou colocou o cajado entre ele e a espada. A lâmina bateu na madeira, mas a eletricidade não afetou o mago como ele esperava.
Donnie girou o cajado com habilidade fazendo com que ele ficasse do lado direito da espada, e a empurrou para a esquerda, jogando o braço de Gatts naquela direção e colocando a mão atrás dele.
O guerreiro usou as pernas para empurrá-lo e Donnie recuou, erguendo a mão e uma órbita negra saiu da palma e flutuou entre eles. Kiara abriu a boca para gritar — mas logo a fechou, decidida. Não deveria interferir na luta. Portanto, não poderia avisar que o mago havia conjurado uma outra esfera daquela bem atrás do guerreiro.
Gatts gritou de dor quando ambas as esferas pareceram reagir e um raio negro as ligou, passando por Gatts e conferindo-lhe a maior sensação de dor que já sentira. Era uma sensação intensa, uma dor forte que parecia chegar até os ossos — felizmente para ele, durava apenas poucos segundos antes que as bolas explodissem no ar.
Ele mal teve tempo de se recuperar, pois Donnie estava em cima dele novamente. Tentou golpeá-lo por cima, pelos lados e pela frente, sempre bloqueado pela espada de Gatts.
O guerreiro pensava aturdido. Donnie era um mago, não havia dúvida, mas ele nunca tinha visto um mago como aquele, que usava o cajado como se fosse a lâmina de uma espada. Ele não parecia ter nenhum ataque a distância — ao contrário, num momento em que ambos recuaram e ganharam distância, um círculo roxo surgiu à frente do mago e dele saíram correntes negras, que se envolveram em Gatts e o puxaram para perto. Ele congelou a própria espada assim que elas o soltaram, mas o gelo quebrou assim que a espada atingiu o cajado de Donnie.
–Que diabos é isso? — ele perguntou e Donnie apenas sorriu, enquanto respirava para mais um golpe.
O guerreiro tentou incendiar a espada mais duas vezes, e novamente o fogo foi apagado. Ele se perguntou que truque era aquele. Mas ele não dependia da magia para vencer uma luta, e simplesmente continuou a usar a lâmina normalmente.
Ele pensou em atacar, mas percebeu que o rapaz era mais rápido que ele. Usando um cajado de madeira leve e equilibrado como aquele, ele teria essa vantagem contra uma espada longa e pesada. Mas o peso da arma nunca atrapalhou Gatts em uma luta. Ele sempre podia se defender, fingindo estar cansado para, na verdade, cansar o inimigo que pensaria estar sendo melhor que o oponente.
Porém, Donnie não se deixou enganar, não que o rapaz esperasse que o fizesse. Tinha visto o brilho inteligente e sagaz naqueles olhos escuros e sabia que estava diante de um oponente perigoso e digno de respeito. Isso fez um sorriso aparecer nos lábios de Gatts. Apesar de tudo, aquilo era um jogo, feito para as pessoas se divertirem com as lutas. E ele adorava lutar. Mas sendo quem era, não conseguia achar muitos oponentes que valessem uma boa batalha. A maioria desabava antes do quinto golpe, e quando a luta era mais prolongada, bastava ele acender a espada que tudo terminaria. "Pelo menos, não peguei um fracote que nem aquele Corpse", ele pensou com selvageria.
Finalmente, um oponente digno. Um pouco mais que isso, ele constatou ao bloquear um golpe que instantaneamente mudou de cortada à direita para uma estocada rápida, atingindo-lhe o peito e provocando uma dor incômoda ali.
Ele recuou alguns passos e então pulou, saltando para dar impulso ao golpe. Desceu a espada segurando-a com as duas mãos, mas Donnie se esquivou com facilidade.
Só que essa não era a intenção do golpe. Quando bateu a espada no chão, a terra tremeu e raios de energia surgiram dele, jogando uma forte luz azul na direção do céu em um raio de cinco metros. A habilidade agora estava no nível máximo, e ele já havia aprendido como dominar o pulo e usá-la.
Quando olhou para Donnie, viu o rapaz em pé, o cajado tocando o chão e a eletricidade parecendo sumir ao entrar em contato com ele. Assim que ela passou, o mago voltou a usar o cajado, como se nada tivesse acontecido.
Gatts praguejou silenciosamente. Que tipo de mago era aquele que anulava suas magias? Enquanto pensava nisso, deu-se conta da desvantagem que estava sofrendo. Escudeiros poderiam ser fracos no início, mas à medida que suas magias ficavam mais fortes, eles se tornavam uma classe extremamente poderosa e destrutiva. E agora, como Cavaleiro Branco, ele tinha uma força ainda maior.
Quando ele não podia usar a magia, entretanto, era reduzido ao ataque normal da própria arma, como eram a maioria dos Soldados e Lanceiros. Mas eles se especializavam no dano da arma em si, e não em atacar com outras habilidades, e podiam se virar bem sem elas. Como Davien, quando nem percebeu que suas habilidades tinham sido bloqueadas num momento da luta contra Alishar. Mas para os Escudeiros, era diferente. Eles eram bons com a arma, era verdade, mas sem a magia, eram os mais vulneráveis.
Por outro lado, Donnie era um mago e podia usar o máximo de suas magias. Ele era diferente, era verdade, mas era um mago e seus ataques, mesmo que parecessem ataques com lâminas, usavam a magia. Gatts era rápido, mas Donnie estava com a vantagem. Seu cajado de madeira escapava com frequência da espada de Gatts, atingindo-lhe um ombro, uma perna ou a barriga, em golpes fortes e doloridos. Mas o guerreiro também tinha uma vantagem: a grande maioria dos jogadores era destra. Sendo assim, estava acostumado a enfrentar oponentes que usavam a arma do mesmo lado que ele(não confunda, imagine um canhoto e um destro frente a frente empunhando as armas e entenderá o que estou dizendo. Não faça a mesma cagada que fez com o olho do Rabisco). Por outro lado, enfrentar um canhoto era uma experiência nova para Donnie. Seus golpes eram incertos e um tanto hesitantes, pois quando atacava, Gatts tendia a ir para um lado, ficando fora do alcance do cajado. O mesmo acontecia com o guerreiro, mas sendo um dos poucos canhotos, já estava acostumado.
Mesmo assim, Donnie era mais rápido, e a confusão que ele tinha ao enfrentá-lo não durou muito. Ainda estranhava enfrentar um canhoto, mas era mais rápido e seu cajado parecia ter uma força imensa, que Gatts duvidava que vinha daqueles braços magros. A força absurda daquele pedaço de madeira tinha que vir da luz roxa. Para combater aquilo, ele poderia usar magia na própria espada — mas sempre que fazia isso, o cajado parecia simplesmente absorvê-las.
Então ele teve uma idéia. Tinha uma habilidade que permitiria que ele impedisse Donnie de absorver as magias, mas ele precisaria de uma chance — para garantir que o que quer que ele usava para quebrar sua magia não quebrasse aquela também.
A oportunidade surgiu quando, de repente, Donnie sumiu, simplesmente desapareceu no ar. Sem saber muito bem como, Gatts previu a manobra que ele estava fazendo e se virou para trás instantaneamente, depois saltou para longe dele. O rapaz havia se teleportado e reaparecido atrás do adversário.
Depois de recuar, Gatts jogou a espada para a frente como se tivesse visto algo e estivesse apenas apontando para uma direção. Então alguma coisa saiu dela, uma pedra que se separou em quatro, ligadas por correntes de raios e envolveram o corpo de Donnie. Ele tentou se libertar, mas não havia motivo. As pedras quebraram assim que o envolveram, desaparecendo no ar.
Gatts sabia que o oponente perceberia o que tinha feito. Mas antes disso, partiu para o ataque.
Agora era a vez de Gatts atacar, uma sequência desconcertante de cortadas em arco, estocadas e viradas rápidas. De vez em quando, ao preparar um golpe, mudava a direção no último segundo para surpreendê-lo. A habilidade que usara, uma espécie de runas mágicas, desativava as habilidades ativas do adversário(como Proteção Arcana) e o impedia de usá-las.
O bloqueio de Donnie ainda era sólido e eficiente, mas sem a luz roxa para fortalecê-lo, não era tão poderoso quanto antes. Ele usou a espada como se fosse um taco, num golpe de baixo para cima. Donnie bloqueara com o cajado mas Gatts, num hábil movimento, torceu a espada de forma a dar a volta pelo cajado e enfiá-la no ombro esquerdo do oponente.
Ele fez uma careta de dor, mas Gatts não tinha terminado. O movimento instintivo da mão do mago na direção do ombro ferido deu ao guerreiro tempo de incendiar a espada novamente e atacá-lo.
Desta vez, não havia cajado luminoso ou absorção de magia que pudesse salvá-lo. Donnie barrou o golpe com o cajado, mas o fogo da lâmina subiu implacável e o atingiu em cheio no rosto. Com a mão direita, Gatts segurou o braço ferido do rapaz e, com a perna estendida à frente, puxou-o e o fez tropeçar na perna, jogando-o de costas no chão.
Gatts saltou, a espada erguida acima da cabeça para dar um golpe diretamente no peito do garoto antes mesmo que ele terminasse de se estender no chão. As chamas mortais e bruxuleantes havia sumido. Em seu lugar, cobrindo a espada havia uma crosta de gelo duro e pontudo, engrossando ainda mais a lâmina e aumentando seu tamanho.
Os reflexos de Donnie permitiram-lhe girar para evitar a espada, mas ainda assim o impacto dela contra o chão era forte demais. E ele podia sentir o frio que emanava da espada, entorpecendo seus músculos e criando uma fraca sensação de queimadura desconfortável em sua pele. Os mesmos raios de antes saíram do chão, desta vez acertando o rapaz em cheio.
Gatts estava à esquerda de Donnie, a espada no chão e o rapaz caído ao lado dele. Sendo canhoto, a espada estava entre o guerreiro e o mago, então ele girou, tomando um grande impulso e jogando a espada para frente num corte onde seu cotovelo ia para trás do corpo.
Ele tropeçou levemente ao sentir a resistência dura do cajado de Donnie, que agora brilhava com a luz roxa(não o Donnie, animal, o cajado). Desanimado, viu o gelo derreter quando a magia do rapaz voltou. Até os olhos do rapaz pareciam brilhar com o roxo intenso do cajado, criando uma luz violeta escura e ameaçadora neles.
Não havia tempo para pensar: Donnie virou o cajado obrigando a espada de Gatts a ir para baixo, em seguida acertou-lhe o rosto com a ponta rombuda do material. O guerreiro levantou a espada instintivamente para se proteger, mas o próximo golpe veio pelo seu lado esquerdo, atingindo-lhe o quadril.
Quando ele parou para tomar fôlego, Donnie hesitou brevemente para tomar uma poção azul de uma garrafa grande e ornamentada. Gatts notou vagamene que o cajado se apagou ao fazer isso — aparentemente, só brilhava quando ele estava atacando. Aborrecido, ele se deu conta de que poções de MP não estavam incluídas na proibição, apenas as de HP. Ele pensou em tomar uma, mas logo viu que não era necessário. Sendo Cavaleiro Branco, tinha mais MP dentre todos os tipos de guerreiros.
"E eu nem pude usei muita magia", pensou com um olhar zangado para o cajado do oponente.
Em vez disso, ele preferiu usar a oportunidade para mais um ataque, um arco selvagem mirando o pescoço do adversário. Como esperava, Donnie não era bobo e levantou o cajado para se defender, mas então, Gatts fez algo inesperado.
A espada bateu na madeira e, como ambos usavam a arma em mãos diferentes, não estavam frente a frente. Gatts segurou a ponta do cajado com toda a força, as luvas evitando o calor repentino que vinha do fogo roxo do cajado.
Ele usou a mão para puxá-lo para seu lado direito, desta vez, fazendo-o tropeçar com o joelho. Donnie girou na perna estendida e caiu de barriga no chão.
Kiara estremeceu quando o amigo desceu a espada no adversário, bem no meio das costas. Sabia que aquilo não faria muita coisa além de tirar HP, mas a visão ainda era assustadora. Ela quase esperou que Donnie não se mexesse mais, mas é claro que ele o fez.
Quando Gatts recuou a espada para um segundo golpe, Donnie girou no chão com rapidez surpreendente. Quando estava com as costas no chão, sua mão direita já subia com o cajado erguido, na direção da cabeça do guerreiro e usando as pernas para dar impulso.
Gatts, contudo, desviou o golpe rebatendo-o com a espada para um lado, o que fez o cajado passar direto por ele. Donnie agachou-se e girou, seu cajado batendo nas canelas do guerreiro. Estava protegido naquela parte, mas foi como se a magia tivesse atravessado o metal duro e penetrado em seus ossos, a sensação desconfortável de um chute forte na canela.
Ignorando a dor, ele já estava com a espada pronta para o que quer que viesse agora, para bloquear o próximo golpe. Ele veio — mas o atingiu no lado do corpo antes que ele pudesse evitar.
Donnie bateu o cajado na perna, depois no quadril, depois no ombro direito do guerreiro. Defendeu um golpe e saltou para a direita ficando à esquerda do guerreiro e golpeando-lhe o ombro. Gatts se virou, Donnie pulou para o lado oposto e e estocou-lhe o peito no lado direito. Gatts levou a arma naquela direção, mas ao fazer isso, deixou uma brecha para que o mago atacasse pelo flanco esquerdo novamente.
Gatts recuou um passo, mas Donnie o seguiu ficando perto dele novamente, disparando uma enxurrada de golpes. O guerreiro consegui defender apenas duas vezes, e quando o fez, o cajado deslizou pela espada e lhe atingiu o peito e o ombro. Sempre que o cajado o atingia, ele se sentia mais cansado, como se a magia estivesse lhe sugando a força. Logo, ele começou a ofegar. O que estaria acontecendo? Ele não estava pronto para esta súbita mudança na velocidade dos ataques de Donnie. Ele atacava com rapidez e precisão, mas de repente, estava atacando quase que três vezes mais rapidamente, em golpes tão desconcertantes que ele só chegava a sentir a dor de um depois de levar outros dois.
Exasperado, ele percebeu que tinha caído na velha armadilha usada por guerreiros: fingir que era fraco para então, depois que o oponente tivesse se acostumado, usar a força total. O problema era que Donnie já era rápido, então não havia por que pensar que ele não estava dando o máximo de si nos ataques. Enquanto pensava isso, notou que, durante seus ataques, podia ver uma maça, um cajado, uma espada ou outra arma forma por luz roxa aparecendo no meio dos golpes. A visão durava apenas meio segundo e ele apenas a via num rápido lampejo.
Ele também notou o brilho no olhar de Donnie, uma luz selvagem de um lutador que atacava com o máximo de si, com controle total do que estava fazendo. O nível do mago era inferior ao do guerreiro, mas isso não fazia muit diferença naquele momento.
Gatts tentou incendiar a espada mais uma vez, mas o fogo logo se apagou. Ele tentou gelo, depois raio e novamente gelo, mas o cajado de Donnie rapidamente fez a espada voltar ao normal. Ele ofegava, enquanto tentava se defender da enxurrada veloz dos golpes do bruxo. Não duraria muito tempo se continuasse assim.
"Maldita magia negra", ele pensou, achando que estava usando o termo correto. Ela o fazia lembrar de uma aula de artes do MinarForest, alguns anos atrás.
–Preto e branco são cores neutras — ela dizia em um tom lento monótono — O preto é escuro porque absorve todas as cores, criando o tom que conhecemos. Já as cores brancas são assim porque refletem todas as cores, e não absorvem nenhuma...
Era exatamente o que estava acontecendo: a magia negra absorvia todas as suas magias, não importava qual fosse. Se ele tivesse...
Era isso! Sacudindo a cabeça por não ser se lembrado disso antes(e levando uma boa madeirada no lado da cara), ele pensou em outra de suas cargas, diferente do fogo, do gelo ou do raio. Era uma carga fraca ainda, ele não havia aumentado muito seu nível porque tinha Kiara para cuidar das magias sagradas... Mas ainda assim, ela talvez resolvesse...
Era uma chance remota, mas era a melhor que tinha. Mas precisava de alguns segundos — coisa que não se tinha quando se enfrentava alguém como Donnie. Suspirando, ele dobrou levemente os joelhos e empurrou o chão com toda a força que dispunha.
O ataque, aumentado pelo impulso das pernas e tendo o peso dos músculos e da armadura de Gatts, foi como se uma parede estivesse desabando sobre o mago. Colidiu em cheio com o bruxo, e ele inevitavelmente se estatelou no chão. Gatts sentiu a barriga arder quando sentiu o golpe que sabia que viria antes da batida. Ele não tentou se proteger, queria apenas derrubá-lo para ganhar tempo.
Donnie se levantou numa fração de segundo, mas Gatts conseguira o que queria. Carregara a espada novamente, mas não com fogo ou gelo, mas sim com uma quarta carga totalmente diferente.
Ela não aumentava o tamanho da espada nem lhe conferia algum efeito especial assustador. Era apenas uma luz fraca e hesitante, como se uma lâmpada estivesse no lugar da lâmina. Mas ele sorriu por dentro ao ver o olhar de Donnie vacilar um pouco quando ele compreendeu o que estava acontecendo.
Gatts testou um golpe, e dessa vez, a luz fraca não se apagou, resistindo à magia negra que já estava pronta para reagir. Ao contrário, Gatts ficou surpreso ao ver que foi o cajado de Donnie quem pareceu vacilar, como se o roxo tentasse fugir da luz fraca que emanava do cajado do guerreiro. Com um sorriso selvagem, ele insistiu no golpe e a força de seus músculos, muito superior ao do corpo magro que o enfrentava, empurrou o cajado para trás permitindo até que ele escolhesse o ponto onde iria atacar.
Donnie, contudo, não estava disposto a permitir escolhas. Escapou da situação com um teleporte, mas ouviu-se um grito selvagem quando Gatts, sem nem olhar par ao lado, virou-se na direção exata do teleporte e mandou um golpe certerto no peito do oponente. Donnie teve tempo de levantar o cajado para desviar a espada, mas sem a força adicional da luz roxa(que ainda estava lá, apesar de que agora não era mais tão efetiva) ele só pôde transferir o golpe do peito para um ponto perto do ombro.
Gatts, a espada erguida enfiada em Donnie, recebeu um golpe do peito e recuou para se proteger. Sua carga sagrada era fraca, mas altamente eficaz contra a magia negra de Donnie. Mas o que ele conseguira fazer fora equilibrar a luta, e não ganhar vantagem sobre o mago.
Agora o combate havia começado de verdade. Gatts atacava sem piedade e Donnie, apesar de mais rápido, estava usando um cajado de madeira totalmente ineficaz contra o pesado aço e o braço forte e musculoso do oponente. Aquela luz o incomodava. Ele sabia lidar com ela, mas Gatts era um guerreiro experiente demais, e ele não conseguia impor sua magia negra sobre a luz, mesmo fraca, na espada no inimigo.
A luta durou várias horas. Era um tanto estranha e confusa, visto que os dois seguravam as armas no mesmo lado. Aquela parte de El Nath ouviu o barulho de metal e madeira se chocando sem parar o tempo todo, com apenas algumas breves pausas quando um deles parava para tomar fôlego. Em um gesto de respeito mútuo, um parava sempre que o outro parava para respirar e se recuperar, e esses períodos eram muito raros. Na maior parte do tempo só o que tinha era o bater interminável do aço na madeira, e um ou outro gemido de dor quando a defesa de um deles era brevemente atravessada. E Donnie logo percebeu que golpes iluminados pela carga sagrada, apesar do nome, não eram nada generosos e doíam muito mais do que os outros.
Finalmente, houve um momento em que a parada para descansar foi mais longa do que as outras. Tanto Gatts quanto Donnie queriam atacar, mas seus músculos protestavam e insistiam que eles deviam parar e descansar.
"Parece que julguei mal a força dele", Gatts se viu pensando enquando respirava ruidosamente.
Donnie também estava refletindo sobre o oponente. Ele era grande, corpulento e imponente. Extremamente habilidoso com a espada, não tinha a mente dos outros guerreiros que havia enfrentado. A maioria deles, ao se ver enfrentando o mago, ficava indignada com o fato de estar sendo atingida por um pedaço de pau e tentava esmagá-lo com sua lâmina de peso superior. Gatts tinha sido o primeiro a perceber logo de cara que a manobra não seria de muita ajuda e logo tratou de descobrir o que acontecia, usando a carga sagrada que não era absorvida pela magia negra.
Bem, Donnie já havia se recuperado por tempo demais. Levantou as mãos, querendo conjurar a corrente para puxar Gatts de volta a batalha — e o guerreiro já voltara a enrijecer os músculos ao ver o movimento — quando sentiu uma mão em seu ombro.
–Acho que já chega, Donnie — disse um jovem com veemência, aparecendo na luz.
Era o mesmo que havia falado para Kiara entrar na fenda. Estava saindo dela, aparecendo na luz, mas o rapaz não fez menção de responder. Ofegante, Gatts deu uma olhada no rapaz.
Ele também era alto, um pouco mais do que Donnie. Usava calça bege, tênis pretos com cadarços brancos e um casaco preto aberto cuja gola parecia ser feita com pele de algum animal, talvez uma onça ou um lobo. Seus cabelos castanhos eram grandes e eram uma verdadeira confusão acima de sua cabeça. Pela roupa, não parecia um guerreiro, mas a espada que carregava nas costas dizia exatamente o contrário.
A espada foi o que mais chamou a atenção de Gatts. O cabo aparecia no ombro direito do menino, o que sugeria que também era canhoto, mas a lâmina tinha um tamanho absurdo. Branca(embora não fosse possível dizer com certeza naquela luz incerta) e com pelo menos meio metro de largura e pelo menos dois de espessura, ela parecia uma barra de aço cortada em uma das extremidades para formar uma ponta triangular. Obviamente, não era equipamento comprado em um NPC. Ele imaginou que era prêmio de alguma Quest.
–Também acho que já está na hora de pararem — Kiara acrescentou timidamente.
–Vocês dois esperam o quê, lutar até a morte? Somos todos jogadores aqui. Não precisa dessa confusão toda...
–Eles tem razão — Gatts admitiu depois de um momento, a voz entrecortada pela respiração dura e pesada — Não há motivo para brigas. Não foi assim que o chefe Balrog me ensinou.
Ele embainhou a espada e deu um passo para se aproximar do bruxo, mas parou ao sentir uma dor intensa nos músculos. Agora que o calor da batalha tinha terminado, seu corpo começava a se entregar e a relaxar. Aquela luta contra a magia negra não só sugava outras magias, como também sugara suas energias.
Isso foi o bastante para despertar o espírito incontrolavelmente gentil da companheira. Kiara correu até ele, primeiro tratando de recuperar o HP que estava baixo, o que na mesma hora causou alívio ao seu corpo dolorido. O jogo estava cada vez mais próximo da realidade: agora, quando alguém perdia muito HP, o própro corpo sentia a vida se esvaindo. Se fosse analisar bruscamente, seria quase exatamente como numa luta real. Os jogadores lutavam e, quando não conseguissem mais se levantar, era porque a vida estava muito reduzida.
Depois de se certificar que pelo menos o HP de Gatts estava restaurado(ele ainda precisaria de cuidados e de um bom descanso para se recuperar) ela fez menção de ajudar Donnie, mas parou ao ver a luz verde que cobria o corpo dele. Ela viu que a magia vinha do próprio Donnie, o que significava que ele também havia aprendido magias de Cura.
–Você pode usar minha pedra — a garota ofereceu, e dessa vez ele curvou os ombros e aceitou.
Ele chegou mesmo a fechar os olhos e suspirar de alívio assim que se sentou na pedra azul da garota. Bruxos sentiam muito mais quando ficavam sem MP, por isso, recarregá-lo lhe dava uma sensação muito boa, somada com a natural paz que a pedra transmitia.
–Consegui com a Fada Mar, de Ellinia — ela disse — Ela me deu junto com... Um gato.
–Entendo — Donnie assentiu devagar, notando a hesitação quando ela falou sobre Rayki e compreendendo o que acontecera.
–Meu amigo está numa Quest onde ele precisa juntar uma armadura — ela explicou — Cada hora é um lugar, e ele ganha luvas, botas, pulseiras... E às vezes, fragmentos do peitoral. Quando ele juntar todos os fragmentos, a parte principal da armadura se forma.
Gatts ergueu as sobrancelhas. Não estava disposto a contar sobre sua tão amada Quest, mas a garota nem olhou para ele. Entretanto, Donnie apenas assentiu, mostrando que entendia. Ela estava confiando nele, contando o real objetivo deles para mostrar que não queriam mais discussões. Ele tirou o pedaço de bronze do bolso e o revirou nas mãos.
–Estávamos procurando alguma coisa por aqui — ele disse depois de refletir por um momento — Meu amigo tem uma bússola que pode detectar falhas no jogo. E ele encontrou uma por aqui.
–Falhas — Gatts repetiu irônico — O jogo está cheio delas, não é difícil achar.
Donnie lhe deu um sorriso cansado.
–Não estou falando dos erros, mas sim de brechas. Pontos onde o jogo é instável. Na verdade...
Ele hesitou, sem saber se devia ou não dizer a eles. Pareciam confiáveis, e seu instinto nunca havia lhe falhado. Mas ainda assim, Sheddeer lhe dissera para contar ao menor número de pessoas possível.
–Acho que podemos confiar neles — disse o homem de espada incrivelmente grande.
–Estamos procurando os lugares onde os administradores saem do jogo — ele disse rapidamente — Alguns deles entram aqui de vez em quando, e existem lugares onde a opção de sair do jogo está ativada. Porque...
–Ela não foi removida, apenas tirada do menu — o rapaz disse — Mas ainda existe na programação geral. E existem alguns pontos onde se pode usar a opção de sair do jogo.
–Mas não entendo — Gatts começou após um momento — Não seria mais fácil eles simplesmente liberarem a opção para esses hackers?
O rapaz sacudiu a cabeça.
–Não, apesar de que... Acabei de me lembrar, eu sou o Aphanyus — ele se interrompeu.
Se Thugles estivesse ali, não teria resistido ao comentário "Puxa, e eu achava que o Davien era esquecido".
Gatts apenas sorriu.
–Eu sei disso. E você deve estar com o Rockfield, não é?
Donnie estreitou os olhos.
–Como você sabe disso?
–Eu era da sala dele, no MinarForest — ele disse apenas — Mas você não deve se lembrar de mim.
–Ele teve bastante tempo pra te olhar hoje — Aphanyus comentou secamente.
–Seja como for — Donnie continuou — Eles não podem liberar a opção de sair do jogo para quem quiserem. É um código geral que usaram para esconder, e eles podem usar algo para burlá-lo, mas apenas em lugares do jogo. Não sei bem como funciona — acrescentou.
–É mais ou menos o seguinte: um código faz esconder o botão de sair do jogo. Eles podem editar a programação de algumas áreas para ignorar o código, mas não podem editar os jogadores. Por isso, não podem selecionar pessoas específicas, e além disso, mudar os códigos para permitir que um lugar tenha o botão é demorado e complicado. Então, acreditamos que os lugares onde se pode sair sejam sempre os mesmos, já que eles não acreditam que nenhum dos jogadores sabe disso.
–Mas eles ainda poderiam colocar em equipamentos, ou itens...
–Não é assim tão simples — Aphanyus negou com veemência — Armas não foram feitas com o propósito de poderem evitar códigos. Eles poderiam alterar, mas levaria muito tempo. E além disso, os hackers têm poder limitado aqui. Os administradores lutam o tempo todo, e agora conseguiram instalar um programa que impede que eles coloquem essa opção em algum item. A coisa toda está sendo uma luta bem tensa.
–Essas coisas que você disse me deixam tonto — Gatts admitiu.
–Como vocês sabem de tudo isso? — Kiara perguntou curiosa. Aphanyus a olhou com uma expressão de culpa.
–Meu pai ajudou a hackear tudo isso — ele disse desanimado — De vez em quando, ele vem me ver. Não pode me tirar daqui, mas... Como posso dizer? Ele está cheio de "energia", que é o que usamos para rastrear os pontos onde acreditamos haverem essas brechas que permitem a saída. Afinal, ele sai de vez em quando, mas não pode fazer isso com frequência. Pelo que sabemos, tem uma saída aqui em El Nath.
–E pensamos que deve ter algum catalisador ou coisa assim — Donnie ajuntou — Um item simples, pequeno e desinteressante... Entende?
Gatts assentiu, mostrando que entendia. Então era por isso que não queria entregar o fragmento de armadura a ele. Mas então sua expressão endureceu quando ele percebeu o que ele dizia.
–"Desinteressante"? Isso é um fragmento da lendária armadura do... do... Não sei como aquele ferreiro banido a chamou, mas mesmo assim...
–Gatts, controle-se, vocês acabaram de brigar — Kiara lhe lembrou com um suspiro. Donnie riu quando ele se calou.
–Já que acabaram os mal-entendidos e brigas sem sentido — disse uma outra voz dentro da fenda — Que tal se todos vocês entrarem e conversarmos aqui enquanto tomamos uma bebida quentinha? É melhor do que ficar aí fora no frio.
–Qualquer coisa, desde que ela me deixe sentar nessa pedra — Donnie resmungou, e todos riram.
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