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31 A Torre da Deusa


–Esta — Eak apresentou em tom pomposo — É a Torre da Deusa.

O grupo olhava a tudo fascinado. O interior da torre era largo e arredondado, como aparentava do lado de fora. Uma escada de madeira levava aos andares inferiores, e tábuas de pedra presas à parede como prateleiras subiam em espiral para levar ao topo. Estavam no saguão principal, onde estava disposta a principal atração da torre: a estátua da Deusa Minerva.

Media, pelo menos, cinco vezes o tamanho de uma pessoa normal, cinza-claro como as pedras que formavam a torre. A deusa Minerva usava um vestido fino que se abria nos pés como um sino. Uma das mãos carregava um longo cajado com uma esfera no meio de um par de asas na ponta.

No entanto, como Eak dissera, a destruição causada pelo Papa Pixie estava clara. A estátua estava coberta de furos, reentrâncias e rachaduras. As asas, uma coberta de penas e a outra lisa como uma asa de morcego, tinham um grande pedaço faltando. A mão que não segurava o cajado tinha a palma voltada para cima junto ao peito como se ali ela segurasse alguma coisa, mas que havia desaparecido. Os longos cabelos esculpidos tinham uma enorme falha em forma de "V", como se alguém tivesse cortado um pedaço com uma tesoura.

–Então essa é a tal estátua — South comentou — O Papa Pixie não me parece ter feito um trabalho muito bom.

Fez-se silêncio.

–Então — Thugles disse alterando o tom de voz — Essa é a tal estátua. O Papa Pixie não me parece ter feito um trabalho muito bom e o Vampy é gay.

Eak o fitou.

–Ele a consertou bem, sim — disse — Mas depois removeu alguns pedaços para que ela não pudesse ser restaurada.

–Por que ele não a destruiu em pedaços de uma vez? — Anna quis saber. Vampiritico riu.

–É um jogo, Anna. As Quests sempre são assim, o vilão poderia ter acabado com tudo, mas preferiu colocar uma solução por meio de enigmas.

–É... Claro — ela corou, envergonhada. Thugles tossiu e cutucou Eak.

–Posso sentir a energia da deusa emanando dos pedaços — continuou a nuvenzinha — Agora que me libertaram, posso usar parte da influência que tinha como camareiro da Deusa. Vou colocar portais azuis na entrada de cada andar que tiver uma peça... Vou precisar estudar cada um deles pra saber exatamente como o Papa Pixie o escondeu.

–Faça isso — Thugles assentiu, concordando. Então olhou para os amigos — Vamos subir, então?

As prateleiras junto à parede levavam, como imaginado, para os andares de cima. Como Eak havia dito, um portal azul brilhava no chão do andar quando terminava a "escada", que seguia em espiral para os andares mais acima — certamente, os outros estágios da torre.

–Começamos por aqui mesmo?

–É um lugar tão bom quanto qualquer outro — Thugles deu de ombros para Anna — Vamos. Preparem-se... Podem ter monstros perigosos lá dentro.

–Relaxa, mãe, a gente sabe jogar — brincou Vampiritico.

Zeru se adiantou.

–Em todo caso, eu vou primeiro. Tenho bastante HP, e pelo que estou vendo, minha armadura aguenta mais dano. Se estiver tudo bem, volto e aviso vocês.

Ao se aproximar do portal, no entanto, uma espécie de tela apareceu diante dele, e o guerreiro recuou alguns passos.

"O líder do grupo deve entrar primeiro"

–Parece que não são só os NPCs que têm frecura — Vampiritico suspirou — Vai lá, Thug. Primeiro as damas, de qualquer maneira.

Thugles deu de ombros e entrou. Nick, apreensivo, abriu o menu de amigos apenas para garantir que o diamante verde continuaria assim. Depois de alguns momentos, os outros cinco entraram um de cada vez com cautela, mas não havia necessidade de se prepararem. O lugar era um aposento circular com algumas falhas na parede por onde era possível ver o céu do lado de fora. No centro estava Eak, abaixo do que pareciam ser três blocos retangulares de pedra flutuantes.

–Esta é a Sala Lacrada, ou Sala do Equilíbrio — Eak lhes disse — Era usada como parte do que balanceava a magia da Deusa na torre inteira. São necessárias sete fadas, ou cinco humanos, distribuídos nestas plataformas para que o equilíbio se estabilize e a porta, liberada.

–Quantos devem ficar em cada plataforma? — Thugles quis saber, embora já soubesse o que a nuvem responderia.

–Bom... Eu não sei — Eak admitiu — Nesta forma, não sei muito sobre pesos. Uma vez que encontrarem a combinação certa, no entanto, poderei abrir a porta.

–Certo — South esfregou as mãos — Nós cinco fazemos peso nas plataformas, enquanto o Thugles fica falando com o Eak se está certo, certo?

–Podemos começar os cinco numa plataforma só, depois um vai pulando paras as outras e assim sucessivamente — Anna sugeriu, e Vampiritico sorriu.

–Sim, que nem na Quest de Ludibrium. Só que com menos caixas.

Eles subiram, e depois de alguns pulos, tentativas e gritos surpresos de quem sentia as mãos de Vampiritico empurrando da beirada da plataforma, eles conseguiram a primeira peça. Thugles a pegou, excitado.

–Esse pecinha pra montar aquela estátua gigante! — ele exclamou — Vamos, deve ter mais por aí!

Ansiosos para continuar, precipitaram-se para a saída, mas...

–AAAAAAAAAAH!

–South! — Nick gritou, virando-se assustado — Ué... Cadê ele?

–Caiu lá embaixo! — Zeru estava ajoelhado olhando fixamente para o chão — Atravessou o piso e... Caiu!

–Cara, achei uma porta secreta! — eles ouviram o rapaz gritar, a voz um pouco abafada — Não... Ah, é só um bug. O piso aqui é uma linha preta, não tem como sair!

–Fodeu — Vampiritico os olhou preocupado. Thugles pôs as mãos na cabeça, sem saber o que fazer. Seria o cúmulo da má sorte eles perderem porque South havia caído num bug, passando por uma falha no chão. De repente, Anna se virou para ele, um brilho no olhar.

–O portal. Saia dele, vamos pra torre.

–Por quê? — Thugles quis saber, mas obedeceu. Assim que passou o portal da torre, sentiu alguma coisa bater contra suas costas e derrubá-lo no chão: os seis haviam passado pelo portal ao mesmo tempo.

–Argh — fez Vampiritico, levantando-se. Thugles virou-se para Anna.

–Como você sabia?

–Só podemos entrar nas salas onde o líder estiver — ela deu de ombros, modesta — Pensei que, se você saísse, os outros seriam obrigados a sair também.

–Bem pensado — South elogiou — Sabia que você não parecia inteligente só por causa desses óculos enormes — completou, e Thugles deu uma cotovelada em Vampiritico.

–Rá! Eu disse que os óculos dela são imensos!

–Ele disse "enormes", não "imensos" — Vampiritico suspirou para ele.

–Nah, são imensos mesmo, parece até o Mike com aquele prato que ele usa como lente, sabem, Monstros S.A — South disse.

–Vamos pro próximo estágio — Nick disse numa risada — Vocês estão deixando a Anna vermelha que nem a roupa dela, coitada.

–Você a chamou de coitada — Thugles virou-se para ele de repente — Uma pessoa que levou bala foi baleada, uma pessoa que sofreu elogio foi elogiada. Então que seria uma pessoa "coitada"?

–Porra, Thugles — riu Vampiritico, sem se conter.

O próximo portal levava a um estágio onde havia quatro outros portais: 301, 302, 303 e 304. Os três primeiros estavam dispostos um ao lado do outro, enquanto o último estava um pouco mais afastado e não havia portal, apenas uma entrada em arco que levava à mais completa escuridão. Decidiram deixá-la por último.

–Conheço estes monstros — disse Zeru ao entrarem no primeiro portal — São Cellions.

–Eu já tinha visto a versão Jr deles — South disse — Mas nunca as feras.

O quarto estava tomado por criaturas que pareciam enormes felinos de pêlo branco-avermelhado que formavam tufos pontudos na cabeça, dando a impressão de que ela realmente estava pegando fogo. Os grandes olhos eram azuis e eles tinham um chifre dourado em forma de cone na testa. Pareciam muito bonitinhos, mas os amigos não hesitaram em matá-los.

Logo os Cellions provaram ser mais do que gatinhos bonitos. Ao serem ameaçados, rosnaram e correram para revidar, mas foram impedidos pelas Garras Gélidas de Nick. South e Zeru tentaram atacar, mas ao sentirem as lâminas das espadas, os Cellions recuaram e um par de espadas cruzada brilhou sobre suas cabeças. Depois disso, todos os ataques dos guerreiros causavam dano "1".

Os monstros rosnaram e bateram as patas no chão, criando um anel de fogo que se espalhou alguns metros como um terremoto de baixa magnitude. Depois disso eles resolveram deixar Nick cuidar do assunto.

–São monstros de fogo — Thugles constatou satisfeito — Dano extra pras magias de gelo.

–É, mas aposto que tem Lioners e Grupins nas outras salas — interpôs Zeru — Fortes contra raio e gelo, respectivamente.

–Que ironia — Vampiritico resmungou — Pena que a fofinha não está aqui.

–Ela está sim — Thugles replicou — E ela tem aquele fogo sagrado, esqueceu?

–Ah é — respondeu o Gatuno — Desculpa, Anna. Você é tão pequena que às vezes esqueço que está aí.

Anna não pareceu gostar nada da declaração, mas não disse nada.

A cada Cellion morto, um pedacinho de pedra caía no chão, obviamente uma pecinha de um fragmento maior da estátua. Nick atacava praticamente sozinho, auxiliado por alguns ataques mais fracos de Thugles. Estando no nível mais alto permitido para fazer a Quest, matava as feras com relativa facilidade.

Juntando todos os pedaços, foram para a sala seguinte que, como Zeru suspeitara, estava cheia de Grupins. Eram idênticos aos Cellions, exceto pelo pêlo azulado e os olhos amarelos — e os ataques de gelo. Mesmo em desvantagem, Nick ainda causava dano maior que o de Thugles, e foi a vez de Anna, com suas magias de fogo, se destacar. O que, entretanto, não durou muito — já que os monstros usavam uma skill que fazia qualquer magia ter dano equivalente a "1". Isso foi praticamente uma deixa para South, Zeru e Vampiritico entrarem em ação.

A outra metade do grupo observava com certa admiração os três atacantes. South exibia uma verdadeira demonstração de ataques rápidos, enquanto Zeru preferia ataques mais lentos e calculados, carregados de brilhos que certamente eram efeitos de alguma skill. E Vampiritico esgueirava-se com agilidade entre os monstros, usando a adaga nos pontos fracos dos Grupins, e sempre que um deles deixava uma brecha. Havia quinze monstros, mas eles focavam sua atenção somente em quem os atacava, ignorando completamente os três bruxos.

Completada a sala, eles se dirigiram para os Lioners, os de pêlo amarelado e olhos vermelho-escuro. Estavam curiosos para saber qual seria a habilidade deles, já que os Cellions bloqueavam ataque físico e os Grupins bloqueavam ataque mágico. Não havia outro tipo de ataque para bloquear.

Realmente, não havia. Os Lioners, os felinos do raio, não bloqueavam ataque algum. Assim, todo o grupo poderia participar da luta. Mas eles ainda tinham uma habilidade especial.

Assim que chegaram os seis, eles não esperaram pelo ataque como fizeram os Cellions e os Grupins: pularam em cima do grupo, como uma matilha de lobos.

–Cuidado! — Thugles gritou, mas não havia necessidade. Os Lioners eram muito mais velozes do que os outros monstros. Um deles estava para se aproximar do Sacerdote, Nick o atacou com uma Garra mas...

–Ele desapareceu! — o mago gritou sem acreditar — Onde...

Ele bufou surpreso quando o monstro reapareceu bem na sua frente, acertando-lhe o peito com um golpe que lhe tirou o fôlego. Podia ver as faíscas no chifre do Lioner e estremeceu ao perceber que o cone afiado havia penetrado sua barriga. A dor não era tão forte, porém a sensação era muito desagradável.

E ele não era o único com problemas. South e Zeru não conseguiam desferir muitos golpes nos felinos que desapareciam, e Thugles tinha dificuldade em curar todos eles. Anna também não estava indo tão bem. Apenas Vampiritico parecia estar no controle da situação, atirando uma faca de arremesso que atingia um monstro no exato momento que ele aparecia. Mais tarde, o rapaz não saberia explicar como fazia isso. Eram os reflexos, talvez algum instinto.

–Nick, congele eles! — Thugles vociferou, envolvido por três Lioners que o atacavam sem parar. O bruxo, com o coração a mil, havia se esquecido da skill nova. Hesitante e trêmulo no início, ele envolveu o corpo no pilar de gelo que congelou quatro monstros.

Não era muito, mas deu uma folga para que o Sacerdote curasse os mais necessitados. E Anna, mantendo a presença de espírito, jogou bolas de fogo sagrado nos que agora estavam com desvantagem a ataques daquele tipo. Zeru girou a espada de um que havia acabado de desaparecer para um congelado perto dele.

Movido por um novo ânimo, Nick disparou Garras Gélidas até congelar um monstro próximo, que se tornava o foco dos ataques de Vampiritico, Anna e Zeru. Ainda havia, no entanto, muitos deles, que os rodeavam e atacavam sem cessar.

–MP acabou! — Thugles gritou. Puxou, trêmulo, uma poção de e a bebeu, desesperado para recarregar a barrinha azul. Sem MP para fazer funcionar a Proteção Arcana, ele não aguentaria mais do que dois ataques. A cada poção que bebia, um Lioner chegava e lhe drenava o que havia acabado de carregar.

Em volta, a luta seguia penosamente. Vampiritico não tinha problemas, mas era o único. Nick também estava ficando sem MP e não se arriscava a congelar os monstros, pois também dependia da Proteção Arcana. Anna, embora forte, não tinha tanta experiência em batalhas, e se atrapalhava um pouco com os monstros que desapareciam.

Enquanto Thugles lutava para se curar, eles viram o quanto a luta podia ser difícil sem a cura abençoada de um Clérigo. Agora precisavam não apenas atacar, mas também se esquivar e conseguir recarregar o HP com poções.

–Qual o problema, vocês não eram os guerreiros fodões? — Vampiritico disse em dado momento, concentrado em um Lioner. Zeru se esquivou e ofegou, impotente. Enfrentava três deles, mais três estavam em cima de Nick e Vampiritico e outros dois corriam e desapareciam em torno de Anna e South. Thugles ainda enfrentava um nono, que não havia perdido praticamente nada de HP.

–Vou congelá-los de novo — Nick berrou — Estejam preparados! — E sem mais aviso, ele usou novamente a habilidade, reduzindo perigosamente o MP.

Mais tarde, eles não saberiam explicar direito o que acontecera.

A primeira coisa que viram foi Nick usando o pilar de gelo, tornando sua Proteção Arcana inútil com o pouco MP que tinha. Seis dos monstros foram congelados, mas não dois dos que estavam prestes a atacá-lo. Sem pensar, Thugles o curou, num gesto que salvou sua vida. Ao fazer isso, liberou uma brecha para que o Lioner perto dele o atacasse, mas South pulou à frente dele para defendê-lo.

Com seis dos monstros congelados, Anna tinha muitos alvos a escolher. Ela, Zeru e Vampiritico atacavam sem parar. Não havia tempo para exibições ou uso de habilidades de suporte, como a Fúria. Precisavam aproveitar cada segundo de congelamento de Nick.

Quanto ao Nick em si, o garoto havia corrido para o outro lado da torre, bebendo uma poção de MP com desespero. Virou-se para trás, em pânico, mas seu coração se aliviou ao ver os companheiros lutando contra os últimos Lioners, que não representariam mais problema.

–South, o que você está fazendo? — Vampiritico berrou para o rapaz após matar mais uma criatura. Ele atacava o último Lioner, a testa franzida de concentração. Os golpes eram rápidos, precisos e mortais, mas não tinham nenhum brilho especial ou aura saindo dela.

–Usa as habilidades! — Nick gritou. South estreitou os olhos, mas não desviou o olhar do monstro.

–Não tenho.

–Não tem! — Vampiritico explodiu — Idiota, deve ter colocado tudo em skill de Maestria e agora não tem nada pra atacar!

South golpeou a testa do monstro, depois girou o corpo e o acertou em cheio no peito, no golpe final que derrubou a última pecinha da estátua que restava naquela sala. Ele se virou para o Gatuno, a testa franzida.

–Qual o problema?

Vampiritico abriu a boca numa careta de deboche.

–Qual o problema? A gente tava morrendo ali, e você atacando normal sem usar skill nem nada! Que nível você é pra não ter skill?

–Eu não preciso de skills...

–Precisa sim, South — Zeru disse devagar — Já vi muita gente que queria se gabar da habilidade com espada e não usava skill nenhuma. E você sabe o que acontece com gente arrogante assim? Eles morrem, cara, morrem porque não...

–Não é arrogância — South se defendeu — Eu só não tenho nenhuma skill de ataque, caralho!

–Um verdadeiro noob — Vampiritico sibilou — Que porra de segunda classe você é?

–Nenhuma — South disse simplesmente. Nick e Vampiritico franziram as testas, confusos.

–Como assim, "nenhuma"? Você não...

–Eu sou um Aprendiz — South continuou olhando fixamente para o garoto — Só porque uso espada significa que eu tenho skill de Rage que nem o Zeru?

–Iiiiiissso me faz lembrar... — interveio Thugles — Ainda falta a última sala. Aquela escura que assustou a maioria de vocês que eu sei.

–Eu não — Vampiritico respondeu automaticamente — Eu não tenho medo de...

Ele não terminou a frase: Thugles saiu da sala expulsando todos do quarto.

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–Acho melhor descansarmos antes de entrar — Thugles sugeriu. Sem surpresa, os outros concordaram e sentaram-se no chão, gemendo.

–Na boa, se for uma sala escura cheia de Lioners que desaparecem... — South começou, deixando a frase no ar. Vampiritico assobiou.

–Nós vamos enfrentá-los como fizemos aqui. Talvez esse vestido da Anna dê luz pra gente.

–Não é um vestido, é a armadura da Imperatriz do Fogo — a menina corrigiu. Nick abafou uma risada.

–Então, você disse que ainda é um Aprendiz. Caramba, nunca vi um assim, no seu nível... Como é? — Thugles perguntou interessado para South.

–É bem bacana, pra falar a verdade — o rapaz respondeu sorrindo — As pessoas pensam que meu nível é baixo por causa dos equipamentos que uso, e ladrões acham que não tenho muito pra valer a pena ser roubado. E se tentarem alguma coisa, posso me defender sozinho.

–Mas sem habilidades! — exclamou Vampiritico — Deve ser duro pra matar monstros, não?

–Até que não, cara. Já me acostumei a atacar só com a espada. Fiquei sabendo que as classes têm uma skill passiva de maestria que te faz saber usar bem a arma em dois tempos. Não gosto muito disso, prefiro atacar com o que eu sei e ponto, sem usar programas de skills pra melhorar minha técnica. Sem ofender as de vocês, claro, mas eu prefiro.

–E por que você não quis mudar de classe? — Zeru quis saber — Não gostou de nenhuma...?

South riu,

–Ah não, claro que eu gostei. Eu queria ser Escudeiro, sabe, vi um beta nessa classe e me pareceu bem legal. Mas então eu vi um grupo discutindo quais classes eles seriam, lá em Porto Lith, e aí eu pensei... Por que não continuar como Aprendiz?

Ele se espreguiçou e gemeu, aliviado.

–Comecei com umas Quests simples, e meu up até que não tava tão lento, no começo. Depois começou a complicar, os monstros ficavam cada vez mais fortes, mas eu me virava. Pelo menos eu escolhi Recuperação e Pés Leves como skills de Aprendiz, e elas vêm me ajudando bastante. Depois... — ele deu de ombros — Me acostumei. Tenho 90% de desconto em táxis, e 20% em qualquer loja de NPC. Tô economicando pra comprar uns equips melhores, sabe.

Os amigos o miraram, e ele tinha razão. South não usava armadura, apenas uma camisa de manga preta com uma listra branca e calças jeans simples. A espada Zeru reconheceu como sendo Sparta, nível 60, e o escudo de madeira era a mesma Certa Gatuna que a maioria deles tinha ganho no nível 5.

–Aqui, você precisa de um escudo melhor — Anna disse por fim, acessando o menu — Consegui ele em num monstro em... Perion.

–Um Bloqueio de Pan! — Zeru reconheceu surpreso, quando South equipou o escudo e o girou para analisá-lo — Vi um desses numa loja, era mais de 800.000 mesos!

–Ele tá scrollado! — South exclamou — Deve valer uns dois milhões... Caramba, Anna... Valeu mesmo! Nem sei como te agradecer.

Ela deu de ombros com um sorriso tímido.

–Você precisa mais do que eu. Esse pergaminho eu consegui no mesmo monstro, e tentei usar no escudo só pra testar. No final, funcionou.

–Vou falar bem de você lá na Green Tag — South garantiu — Não é muito, mas vai te dar prioridade se precisar de alguma coisa.

–Ouvi falar dessa Green Tag Audiosurf quando a gente tava com o Donnie — Thugles lembrou, enquanto Anna assentia agradecida — Acho que é um clã que entrega coisas, mas nunca soube direito.

–É quase isso — o rapaz respondeu — Nós temos vários membros espalhados pelo mundo, e se alguém quiser mandar algo, por exemplo, de Orbis pra Victoria, só entregar o que quer que seja pra um dos nossos e ele leva.

–As pessoas confiam em vocês? — Nick perguntou. South assentiu.

–Sim. Não no começo, claro. Mas logo o pessoal começou a precisar de um serviço de entrega de itens, dinheiro e mensagens, já que aqui no Maple não tem um que funcione. E vocês sabem.. — ele abriu um sorriso presunçoso — Um machado entregue ali, uns mesos aqui, uns itens mandados de Kerning pra Orbis... Estamos ficando famosos, sabe.

Ele passou os minutos seguintes explicando como era organizado o clã. Eles tinham duas pessoas em cada cidade principal do jogo exceto em Victoria, onde havia uma em cada. Se tinham um item para entregar, ele era levado para a região mais próxima, e passava o item para o membro do clã designado nela. Assim, ninguém precisava andar a rota inteira e a entrega era feita mais rapidamente. South estava designado para Mu Lung, mas como o lugar não era lá um dos mais movimentados, fora para Orbis ganhar mais alguns níveis.

–E vocês têm alguma história pra contar? — o rapaz quis saber.

–Bom, eu, Nick e Vampy somos um grupo de amigos na escola. Anna também estuda com a gente. Tinha o Sheddeer, mas ele morreu — ele acrescentou com pesar — E o Davien.

–Davien, da Death Star? — Zeru franziu a sobrancelha, assentindo impressionado quando eles concordaram.

–Fazemos bons negócios com eles — South comentou — Depois que começaram a aceitar nossos serviços, as pessoas passaram a confiar mais em nós, e já fazemos negócio com bastante... Bastantes... Sei lá... Vários clãs. Death Star, SoS, Team Italo, Angel Bells...

–Rá! Sabia que não éramos os únicos a chamar aqueles cheiradores de peido de Team Italo — Vampiritico socou o ar, alegre.

–Todo mundo chama eles assim — South respondeu com uma risada — E sei o que estão pensando, mas não. A Green Tag Audiosurf tenta se manter imparcial, sabe. Transportamos mercadorias de qualquer pessoa a qualquer pessoa, em qualquer lugar. Se bem que, se eu fosse o líder, marcaria algumas exceções — ele acrescentou.

Zeru se levantou de repente, resmungando baixinho.

–Por favor, vamos logo nessa sala. Me mata ficar aqui esperando. Se tiver algum perigo, acho que já estamos descansados o bastante pra enfrentá-lo.

Anna e Vampiritico assentiram. De qualquer maneira, já haviam mesmo descansado o suficiente.

A sala 304 era uma abertura escura sem portal, portanto eles poderiam entrar de uma vez. Thugles e Nick ativaram as Proteções Arcanas e recarregaram o MP perdido. Os outros se mantiveram em guarda, tensos. Combinaram de atacar assim que pisassem no lugar — que provavelmente estaria cheio de Cellions, Lioners e Grupins, combinando as três salas anteriores.

Toda essa preocupação se transformou em enormes gargalhadas quando pisaram na sala.

Era, como suspeitavam, muito escura. Algumas esferas de fogo sagrado de Anna eram o bastante para iluminar uma boa distância, e Vampiritico tinha um par de óculos de visão noturna. Fora a escuridão, o quarto era exatamente como os outros três — a outra diferença era que, ao invés de monstros, ela estava cheia de caixas de madeira.

–BUUUUEEEEAAA!!! — fez Thugles atrás de Nick. Recebeu alguns ataques de gelo em resposta — o primeiro foi puro reflexo. Mas ele só parou quando esgotou a magia.

Eles apostaram para ver quem quebrava mais caixas, que continham cada uma uma pecinha da estátua. Vampiritico estava para ganhar, mas Nick o congelou e estava prestes a pegar a última peça quando sentiu uma espada afiada no pescoço.

–Ei, eu não tenho skills, então posso improvisar — South justificou, apossando-se do último pedacinho.

–Foram todos? Legal, me dêem aqui pra eu juntar — Thugles pediu — RÁ! Ganhei!

Antes que pudessem protestar, Thugles saiu do quarto e da seção da torre, levando todos de volta ao saguão principal.