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23 A Lendária Batalha de Nick e Thugles


Dark Corpse suspirou.

–É meu último aviso. Cem mil mesos ou a vida. Agora.

Ele teve que se controlar quando os três garotos riram, olhando para ele como se tivesse perdido o juízo. O pistoleiro já estava cansado daquilo. Geralmente, inspirava medo e desconfiança quando estava por perto, e se seus modos não fossem suficientes para isso, seu diamante alaranjado, em um tom quase vermelho, garantiria isso.

No entanto, havia aqueles que simplesmente ignoravam tudo isso, como se aquele homem magro de casaco marrom fosse só um aproveitador tentando pagar de bonzão. Como aqueles três de Edelstein.

Eram adolescentes, quinze ou dezesseis anos no máximo. Não pareciam muito impressionantes, mas a julgar pelas roupas, armaduras e pelas barracas caras, tinham dinheiro. O mais alto deles, um negro careca e forte, usava um peitoral de aço com ouro que não concedia nenhum bônus especial em relação à versão comum sem ouro. Só era mais cara. E mais luxuosa.

Os outros dois também usavam ornamentos de ouro. Só de olhar pra cara deles já dava pra ver aquele típico grupinho de adolescentes que se acham os maiorais, que atrapalham as aulas na escola e não parecem dar importância a coisas banais como notas, estudos e bom compotamento. Tinham uma arrogância que os fazia querer ter sempre os itens mais caros, apenas para mostrar que tinham dinheiro.

Uma atitude burra e infantil. Na opinião de Dark Corpse, itens dourados ou com pedras preciosas só servem pra encorajar ladrões a roubá-los — não que ele estivesse reclamando, é claro.

–Iiiih... Tinxergaí ô, tá pensando o quê? Vai ficá de caô ca minha cara, mermão tu vai...

Oito tiros. Diretamente na cara, os dois últimos no peito quando ele se agachou com o susto. Foi o bastante para que o HP zerasse e ele caísse no chão.

Era estranho como menos de dez tiros eram suficientes ali, quando vinte pareciam nem arranhar alguém como Gatts, ou sequer descer o HP de Donnie até a metade. Ele concluiu que isso acontecia porque eles sabiam jogar, e sabiam os equipamentos corretos, afinal. Era mais fácil esvaziar a barrinha vermelha de pessoas que compravam os equipamentos pela aparência, e não pela praticidade.

Agora, quando o HP chegava a 0, a pessoa ainda ficava alguns segundos no chão antes de morrer, não mais desaparecia imediatamente. Mas eram só alguns segundos. Era impossível para aquele infeliz tomar uma poção agora.

Dark Corpse poderia ter intimidado os outros dois, mas não aguentava mais. A forma como falavam, os gestos, a maneira de andar... Ele odiava aquele tipinho, aqueles grupos de escola que se acham melhores que todos os outros.

Como esperava, eles se viraram e desataram a correr, expondo as costas para as pistolas. Dark Corpse não levou mais do que cinco segundos para recarregar as duas e então atirar, acabando com o segundo.

Ele atirou duas vezes no negro, mas não o matou. Afinal, não estava ali para isso.

–A armadura — ele disse suavemente enquanto o segurava pelo colarinho — Me entregue. E não quero mais cem mil mesos, quero duzentos.

–Duzentos mesos? — o rapaz perguntou tolamente. Entendeu a resposta ao ver o pistoleiro estreitar os olhos.

Recebida a armadura e a quantia de mesos, Dark Corpse o soltou, e o homem caiu no chão. Estava prestes a se virar para ir embora quando ele se levantou.

Um movimento com as pernas, a espada estendida à frente em um golpe mirando o peito de Dark Corpse, praticamente desprotegido coberto apenas pela camisa branca e a jaqueta marrom. A boca do rapaz negro estava fechada e os olhos brilhavam com uma luz triunfante.

Que se apagou logo em seguida, a espada caindo da mão e voltando ao inventário, que não demorou a desaparecer junto com ele.

–Não sei por que vocês ainda insistem nisso — ele disse para as costas do rapaz que se desfazia no ar.

Ele então se virou, abrindo o inventário para analisar o que havia ganho. "É uma boa armadura", pensou. Nível 40, aço com liga de ouro, defesa considerável. Duvidava que conseguisse vender rapidamente no Mercado Livre — apenas um tolo usaria aquilo. Mas poderia vender em algum NPC. Pelo mundo Maple, havia versões douradas, laminadas, com ligas de ouro e outras, de itens, que serviam apenas para aparência. Talvez fosse uma boa idéia usá-los, se a morte ali não fosse permanente. Pelo menos, o fato dessas armaduras serem menos comuns fazia com que NPCs vendedores pagassem a mais por ela.

Talvez conseguisse uns sessenta mil mesos na armadura. E ainda havia pego um kit de poções raras de uma garota e um enorme martelo de um outro jogador, antes de ir até aquele grupo. Sorrindo para si mesmo, ele pensou que havia sido um bom dia de trabalho, afinal.

Ele estava decidindo se usava um Pergaminho de Retorno ou se ia a pé quando algo chamou a atenção. Alguma coisa se movia vindo do norte, mais ao longe no terreno árido em que se encontrava. Ele estreitou os olhos... Era um vulto grande, maior do que ele, negro, uma mancha branca na frente...

Ele demorou pra reconhecer que era apenas um cavalo, aproximando-se num galope rápido em sua direção. O rapaz foi para um lado temendo que ele o atropelasse, mas o cavalo reduziu a velocidade e parou quando chegou perto dele.

–Mas o quê...

Ele olhou o animal, as sobrancelhas erguidas sem entender. O cavalo parado diante dele era preto, embora não tão escuro para que ele pudesse chamá-lo de "cavalo negro". A parte posterior da cabeça, do focinho aos olhos, era branca. A crina preta eram apenas alguns pêlos que lhe caíam pela testa. Os olhos eram vermelhos, e enquanto o olhava com mais atenção, viu que o corpo era coberto de cicatrizes longas e finas. Uma sela marrom cobria seu lombo.

O cavalo o encarou com aqueles olhos, grandes e avermelhados. Dark Corpse não sabia bem o que fazer, até que uma tela de menu apareceu entre eles.

Dark Horse

Este cavalo foi abandonado, atacado e desprezado, encontrando generosidade dos que não estão acostumados a concedê-la. Aparece ao jogador que tiver o mais baixo nível de Honra. Pode se esconder quando não estiver carregando ninguém.[/i]"

Aturdido, Dark Corpse olhou para seu diamante e constatou que ele estava vermelho. Um vermelho vivo e escuro, como se fosse feito de sangue. Matar aqueles três adolescentes deve ter causado a mudança, ele pensou.

O cavalo resfolegou e mexeu a cabeça, impaciente. Então Dark Corpse sorriu, entendendo o que ele queria. Pôs um pé no arreio e subiu na sela com agilidade. Nos tempos atuais, muitas escolas tinham aulas de equitação, e ali estava um rapaz que as apreciava.

Ele virou a cabeça do animal para a floresta com as rédeas, e percebeu como era fácil controlá-lo. Não esperava que fosse tão simples e que os comandos fossem respondidos tão rapidamente — mas, afinal, era um jogo. Estava prestes a impeli-lo para a frente quando uma idéia lhe ocorreu.

O rapaz soltou as rédeas da mão direita, puxou a pistola e atirou três vezes para cima. O cavalo empinou e gritou, agitando as patas dianteiras enquanto ficava sobre duas delas. Era uma parte difícil da equitação, equilibrar-se em um cavalo que empinava, mas era fácil. Até demais.

O pistoleiro bateu os joelhos ns laterais do cavalo quando ele tornou a pôr as quatro patas no chão. Dark Horse iniciou um galope rápido, acelerando quase que imediatamente. Montado nele, Dark Corpse atirava para cima enquanto o cavalo aumentava a velocidade, o som seco e cortante de sua risada juntando-se barulho dos tiros.

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Um vulto solitário caminhava pela estrada a leste de El Nath, prestes a começar a escalar a enorme montanha onde, em um lugar um pouco acima do meio, estava o elevador para a Mina dos Mortos.

Aphanyus não pretendia entrar na Mina, é claro. Já sabia da mudança que tinha ocorrido nela, que os zumbis eram muito mais fortes do que eram semanas atrás. De qualquer forma, ele queria apenas testar sua lâmina nos monstros que haviam perto dali: os Yetis.

Era o início na manhã em El Nath. Ele deixara os amigos acampando. Pelo que sabia, Gatts e Kiara iriam continuar a jornada sozinhos, pois tinham outros interesses a cumprir. Thugles e Nick tinham ido completar o avanço de 3º job. Ele sorriu para si mesmo ao pensar naquilo. Segundo Donnie e Rockfield, ele sabia o que esperava os dois rapazes, mas nunca tinha tido a experiência. Afinal, sua espada, que vinha de uma Quest rara, lhe passava também uma nova classe: Moon Acolyte. Ele não poderia aprender nenhuma das habilidades de Templário, o terceiro avanço dos Guerreiros/Soldados, mas ganharia um set diferente e, na opinião do guerreiro, as novas habilidades eram mais do que suficientes para compensar.

O rapaz não precisou subir a montanha para encontrá-los. Quando estava a poucos passos de encontrá-los, conseguiu ver os pequenos montes brancos que pareciam fazer parte da neve, saltitando pelo local.

Eles eram pequenos, monstrinhos peludos com olhinhos negros curiosos, sem pernas ou braços. Eles sempre estavam agrupados, afinal, depois que se passava por El Nath, os monstros começavam a aparecer, em número cada vez maior.

Pareciam inofensivos. De fato, eles eram. Não atacavam os viajantes, e nem tinham como revidar quando atacados.

O que os tornava uma presa ridiculamente fácil para a grande espada branca de Aphanyus.

Dois cortes, um pra esquerda e um para a direita. Um salto, um terremoto, outro salto, uma descida repentina da espada no chão. Dez deles atingidos, caindo ao primeiro golpe da lâmina mortal que, assim que atingia um, passava imediatamente para o próximo.

Havia mais dois deles perto de onde ele estava. Um simples movimento com a mão esquerda e eles caíram no chão, murchando como balões de ar. Ainda havia mais pelas redondezas, mas o guerreiro achou que era suficiente.

Mesmo depois dos golpes, Aphanyus não guardou a espada.

De repente, algo pareceu se mover na neve, exatamente onde estava o primeiro monstrinho caído. Só que ele não estava caído, estava tornando a se erguer. Na verdade, estava crescendo... O corpo ganhava forma e volume, separava-se para formar as pernas, os braços grossos e pesados surgiam ao lado do corpo...

O mesmo aconteceu com o segundo que ele matou. E com o próximo, e com todos os outros nove. Estavam crescendo, ficando de um tamanho duas vezes maior que o próprio Aphanyus.

Os braços, antes inexistentes, agora tinham mãos pesadas com dedos. A cabeça era só uma elevação no corpo, com os mesmos olhos pretos de antes. Desta vez, eles abriram a bocas enormes em rugidos de ameaça e bateram no peito, como um grupo de gorilas pronto para atacar o invasor.

Uma outra pessoa teria se surpreendido e corrido rapidamente para salvar sua vida. Não Aphanyus. Fora justamente pra isso que ele viera.

Já havia enfrentado os Yetis antes... E ele ardia de vontade de matar mais alguns.

Ele já estava de guarda, segurando a espada com a mão esquerda logo acima do ombro direito, a lâmina apontando para baixo e para a esquerda como que protegendo seu corpo em diagonal. Com os joelhos levemente agachados, era sua postura favorita de ataque. Tinha visto em um anime e decidira repetir ela no jogo. Poderia mandar uma imagem, mas é de uma mulher, e isso não soaria tão legal pro Aphanyus e sua espada larga.

Os Yetis o rodearam. Eram lentos demais e às vezes paravam para gritar ou socar o próprio peito. Aphanyus sorria. Era um prazer lutar contra monstros, e verdade seja dita, o jogo ainda tinha parte do objetivo original: a diversão.

(Dinheiro também, mas isso não faz diferença nessa luta).

Esperou os primeiros se aproximarem e levantou a espada para cima e girando-a num arco horizontal para a direita, acertando dois monstros. Rapidamente pôs a outro mão no cabo para conferir mais apoio e deu um impulso com os pés, saltando ao mesmo tempo que atacava com a arma.

Caiu na frente de três Yetis, que levantaram os braços para socá-lo. Mas eles eram lentos demais para o rapaz. Aphanyus enfiou a espada no peito da criatura mais próxima até o cabo e tentou girá-la para o lado.

Entretanto, a espada não se movia. Era como se estivesse presa em cimento sólido, e ele descobriu que a barriga do monstro era mais densa do que pensava. O rapaz ainda tentava soltá-la quando as mãos do monstro atacado se fecharam sobre sua cabeça, numa palma única e abafada.

A cabeça de Aphanyus explodiu em dor e ele caiu de joelhos, mas ainda segurando a espada. O HP desceu consideravelmente chegando quase até a metade. Seus dentes estavam arreganhados e apertados enquanto ele lutava contra a dor intensa que parecia uma coisa viva, a pior dor de cabeça que já sentira.

Atrás dele, já tinha um Yeti pronto para socar-lhe as costas. Aphanyus grunhiu de raiva. Por que aqueles monstros não eram feitos de holograma para a sua conveniência? Mas pelo menos, a raiva foi útil para que ele ativasse uma habilidade passiva: Fúria.

Com um grito, Aphanyus puxou a espada do corpo do Yeti, enfiando-a na cabeça do que estava prestes a atacá-lo. Foi apenas um golpe, mas suficiente para que ele caísse no chão, desintegrando-se um pouco mais lentamente do que outros monstros que já tinha visto. Mas ele não estava prestando atenção em um Homem das Neves esfarelando.

Antes de o Yeti atingir o chão a espada já estava de volta no corpo do que o prendera, depois foi girando partir o pescoço de mais um. Aphanyus saltou novamente, mas quando caiu, não usou a habilidade de terremoto — apenas desceu a espada com toda a força no Yeti mais próximo como um guilhotina.

Ainda restavam oito deles. Aphanyus hesitou um momento. Eram tantas habilidades... Optou pela que arrastava a espada no chão, lançando o ar que parecia uma nuvem dourada rápida, que empurrava os gorilas para trás. Só um pouco, por causa do enorme tamanho deles, mas o suficiente.

Ele ia atacar novamente, mas hesitou. Então, de fato, atacou– uma sequência de três golpes em diagonal, formando um X. Era uma das habilidades que usava pouco. E era bem útil, já que os dois Yetis caíram no chão quando os golpes cessaram.

Aproveitando o movimento, ele girou em torno de si mesmo e cortou o ar, jogando o que parecia uma lua crescente dourada para a frente. Mais duas outras "luas" surgiram em sequência. Desta vez, a eficiência foi ainda maior.

Os Yetis todos já não existiam mais, apenas alguns dos Jr, os menores, que pulavam ao redor como que perguntando se ele queria continuar a batalha. Mas ele já estava satisfeito. Talvez quisesse mais, mas sua cabeça ainda latejava bastante com aquele golpe.

–Eu devia ter trago um analgésico — reclamou para si mesmo, esfregando a nuca com a mão.

–Não se preocupe... Ha, depois do que eu fizer com você, vai ser muita coisa se ainda tiver cabeça pra engolir alguma coisa!

Aphanyus se virou para encarar quem o olhava, e deu de cara com a pessoa mais estranha, mais repugnante e menos confiável que já vira em todo o jogo.

O estranho estava longe de inspirar confiança. As roupas marrons e verdes eram uma confusão estranha que misturava camisa, casaco, calça e capa, cheia de bolsos e dobras desleixadas. Calçava um par de sapatos marrons gastos, e a cabeça era uma bola caucasiana com um tremendo moicano preto estilo "feio pra caralho". Os olhos eram pequenos e emitiam um brilho raivoso com o de um cão selvagem, e nas mãos, ele carregava as armas: um par de luvas pontudas de um tipo que ele já havia visto: eram soqueiras. Aquele estranho era um Pirata, o que dava sentido às roupas sujas e rotas.

Então ele mostrou um complemento à classe: arreganhou os dentes tortos e careados num sorriso estranho. Tinha babinha entre os dentes dele. Ai credo.

–Cara, você podia ter escovado os dentes antes de ir pra aula — Aphanyus comentou enojado -Mas suponho que você está aqui pra causar confusão...

–Ah não. Eu só vim aqui te prender.

–Me prender — Aphanyus repetiu calmamente — Entendo. E quais as acusações?

–Não importa! — ele disparou naquela voz bruta e inamistosa — Ou você vem comigo, ou vou descer o cassete, seu viado!

Aphanyus soltou um profundo suspiro.

–Cara, olha só pra mim, eu tenho essa espadona aqui, porque acha que...

Ele mal teve tempo de se virar, o outro já estava em cima dele, gritando e disparando um soco com a mão direita. Aphanyus se esquivou com facilidade para a direita e, sendo canhoto, fez um movimento com a mão e a espada pegou as costas dele.

Mas o pirata já se virava, dessa vez, acertando um poderoso soco no peito de Aphanyus. O rapaz fez um "ufff" e logo recebeu outros dois socos que deixavam seu corpo dolorido.

O pirata maluco estava perto demais para que ele pudesse manejar a espada com precisão, então ele pulou, um salto vertical cujo impulso espalhou ar ao redor, confundindo o atacante.

Aphanyus o olhou do alto. Certamente, aqueles socos eram algum tipo de habilidade. Ninguém poderia atacar tão rapidamente assim, ele pensou. Que seja. Daria um jeito nele, virou os pés para cima e "empurrou o ar" para impulsionar o corpo para baixo, numa de suas habilidades aéreas favoritas.

Novamente, ele percebeu o quanto a adorava. Saltava no ar vários metros, e então virava os pés para cima e mergulhava rapidamente para o chão, descendo a espada com toda a força no que quer que estivesse abaixo dele.

Ele desceu, o pirata recuara mas ainda estava perto demais, a larga espada atingiu o chão e...

Aphanyus não viu o que aconteceu em seguida. A espada tocou o chão e pareceu pular, então seu corpo atingiu a neve sem equilíbrio e ele foi jogado para trás novamente, como se tivesse caído num pula-pula... Mas o chão ainda estava duro. O queixo dele explodiu em dor quando o joelho direito do pirata o atingiu, e ele não viu quando, no mesmo movimento, em um giro com o joelho ainda no ar o oponente pôs ambas as mãos no chão e o chutou com toda a força da perna esquerda.

Foi como se um raio tivesse atingido seu peito, e Aphanyus foi jogado para trás, a espada caindo vários metros longe dele. A arma voltaria para o inventário, mas antes que conseguisse pegá-la, o atacante já estaria em cima dele.

O pirata investiu para atacar novamente, mas Aphanyus não caiu com as costas estendidas no chão como ele esperava. Em vez disso, usou os braços para se apoiar e fazer um habilidoso salto mortal para trás, pondo-se de pé ao mesmo tempo que aumentava a distância entre os dois e puxava a espada novamente.

O pirata foi atingido no rosto pela lâmina larga e fina de Aphanyus. Antes que pudesse se recuperar, levou um soco no estômago, nem de longe tão rápido ou afiado como os do pirata, mas sólido e inflexível o bastante para fazê-lo perder o ar.

A espada de Aphanyus estava apontada para a esquerda e ele fez um movimento para trazê-la para perto do pirata, que evitou o golpe abaixando-se e passando para o outro lado, e que fez o guerreiro notar vagamente como o cabelo espetado não sofreu nada quando a espada passou diretamente por ele.

Então o pirata deu a ele outra coisa que pensar, socando-o no ombro, pequenos raios amarelos explodindo ao contato da soqueira com o braço do rapaz, causando uma dor forte e incômoda no local.

Ele recuou para trás com agilidade. Esperou que o pirata investisse novamente, mas o próximo soco não era para ele, mas para o chão.

Era uma habilidade, que erguia estalagmites de pedra do chão em linha reta para a frente, e à frente do pirata só tinha Aphanyus e um vendedor de poções, mas como o vendedor estava a centenas de quilômetros de distância lá em Ariant, a linha afiada de estalagmites foi direcionada inteiramente para o guerreiro.

Ou, pelo menos, essa era a teoria. Uma estalagmite de dois metros apareceu na frente do pirata, é verdade, e mais duas à frente dela. Mas a segunda media metade do tamanho da primeira, e a última não era maior que um toco de árvore. Aphanyus deu uma risada. Era evidente que aquela habilidade antes não tinha sido devidamente aumentada.

Ao contrário das de Aphanyus, que já estavam quase no nível máximo.

Três ataques rápidos. Os cortes que lançavam as luas crescentes do inimigo, causando dano consideravelmente maior. Uma sequência de cortes rápidos, surpreendentemente precisos de serem feitos com uma espada daquele tamanho. Um golpe de baixo para cima em um giro, em seguida o golpe se repetia, jogando o inimigo para cima onde era atingido com toda a força pela espada em meio ao salto de Aphanyus.

Esse último jogou o pirata longe, onde caiu de costas do chão quase esmagando um Yeti Jr. Ele ergueu a cabeça, o corpo doendo, mas o guerreiro já estava parado perto dele, apontando a espada para seu peito.

–Acho que é o suficiente — ele disse. Uma telinha apareceu piscando "Rendido". Era o que acontecia quando se imobilizava alguém daquela maneira com uma espada ou lança, por exemplo. Enquanto estivesse naquela situação, qualquer golpe que Aphanyus desse mataria o rapaz na hora.

A raiva era clara em seus olhos. Na verdade, Aphanyus tinha dúvidas se ele realmente seria sensato a ponto de continuar no chão ou se tentaria atacar, não dando escolha ao guerreiro senão matá-lo. Apesar da condição de Rendido ser algo perigoso, em alguns casos a pessoa não se conformava com aquilo e simplesmente a ignorava e revidava. Então, duas coisas podiam acontecer. Ou o revide era bem sucedido...

Ou a pessoa que rendia era rápida o bastante para parar o ataque, acabando com a vida da pessoa na hora.

–Vamos começar de novo — disse Aphanyus — Qual o seu nome?

O homem não respondeu. Na verdade, se o tinha feito, Aphanyus jamais saberia.

Pois de repente, o corpo dele vibrou como se ele estivesse em contato com um fio altamente carregado, ereto enquanto sentia o choque percorrer seu corpo até atingir a cabeça, que já doía com por causa daquele Yeti. Seu crânio doeu como se a eletricidade tivesse ligado uma bomba ali. Em menos de cinco segundos, Aphanyus se dobrou sobre si mesmo e caiu sem sentidos no chão.

–E é por isso — disse o bruxo que acabara de salvar o pirata — Que você ainda não pode caçar esse pessoal sozinho, Bruken.

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A menina cantava baixinho para se mesma, distraída enquanto ninguém aparecia para comprar suas poções em um beco da cidade de Kerning.

Oculto nas sombras, Vampiritico a analisou mais detalhadamente. Sabia que tinha doze anos, mas agora que a via pessoalmente, ela parecia um pouco mais velha. Usava um vestido azul simples com babados, que o garoto achou particularmente horrível.

Quem olhasse para ela pensaria que se tratava apenas de mais uma NPC vendedora de poções. Curiosamente, havia mais vendedores em Kerning do que em qualquer outro lugar, o que não surpreendia Vampiritico. A própria cidade já parecia infestada de gangues e outras coisas ruins só pelas paredes de tijolos pichadas e as casas simples, sendo o único lugar que realmente se parecia com uma cidade da vida real.

Sinceramente, Vampiritico não tinha nada contra ela. Não ligava para vendedores de poções, comprava tudo na farmácia principal da cidade. Pelas lojas "clandestinas", podia se conseguir outros tipos de poções pelos mais variados preços, e o menino via isso como um elemento bem bolado do jogo.

Mas ele estava ali, observando-a cantando e olhando o céu distraidamente. Sem perceber a presença do menino que tinha ido até ali com a intenção de matá-la.

Havia muitas lojinhas espalhadas por Kerning e, naturalmente, havia as disputas por gangues e territórios. A Mist Brotherband, a organização a qual havia recentemente se juntado, era aliada de uma dessas gangues. E aquela menina de vestido azul na verdade vendia produtos contrabandeados de outra gangue, o que atrapalhava os negócios.

Apesar de que Vampiritico não via como isso podia ser possível. Pra começar, a loja era irracionalmente montada num beco escuro e afastado, e ninguém parecia ir até ali para comprar. O rapaz pensou que os "compradores" deveriam ser NPCs invisíveis que existiam apenas para dar credibilidade à trama. Afinal, era um jogo.

Mas, mesmo naquela localização duvidosa, a lojinha tinha sido montada com certa precaução, afinal. O balcão ficava perto de uma parede, e a menina atrás dele ficava de costas para ela. Acima do beco, os telhados das duas casas que o formavam se uniam formando um teto, e a entrada do beco era bem iluminada por postes de luz.

Se Vampiritico entrasse ali, a menina veria, e poderia disparar o alarme que chamaria a gangue. Ninguém apareceria, na verdade, o que iria acontecer era algo mais prático: a Quest iria falhar, e ele nunca mais poderia completá-la. E ele também não podia se aproximar o bastante para fingir que compraria uma poção e então assassiná-la com a adaga.

"É um teste", ele pensou, "Pra ver se eu posso matar se não puder me aproximar..."

Fora pra isso que a mulher que o recrutara havia lhe dado a nova lâmina. Ele a analisou na palma da mão aberta. Era um triângulo alongado de aço, com um cabo do mesmo material e um círculo na outra ponta para equilibrá-la. Uma fitinha negra decorativa estava amarrada na ponta com o símbolo da Dark Brotherband: uma mão branca com uma furo em forma de shuriken de seis pontas.

–É uma faca de arremesso — a mulher havia dito — Você pode atirá-la mesmo sem uma garra, e em termos de eficiência, é tão útil como uma shuriken... Só que mais pesada e, portanto, mais mortal.

Ela tinha falado as últimas palavras com um leve sorriso, que também se refletia no rosto de Vampiritico. Um novo set de habilidades tinha sido adicionado à sua lista de Arruaceiro, o que o deixou ansioso para aumentá-las.

Agora estava ele naquela missão, com a oportunidade perfeita para usar a nova arma. Com habilidade, saiu do muro onde estava escondido e colou-se a uma das paredes do lado de fora do beco, aproximando-se da entrada. O mais lentamente que se atreveu, ele espiou com um olho para dentro, para localizar a posição da vendedora.

Ela ainda estava parada, atrás do balcão enquanto cantarolava baixinho para si mesmo. A mão de Vampiritico hesitou um pouco enquanto baixava levemente a ponta da arma. Ele não hesitaria em matar um NPC, mas o fato de ser apenas uma menina... E ela estava cantarolando docilmente, o que o desarmara.

Ele balançou a cabeça, dizendo para si mesmo que era apenas um jogo. Então se lembrou de que ela fazia parte de uma gangue, e que não era a garotinha inocente que aparentava ser. Mesmo assim, era apenas uma menina... Era apenas um jogo... Mas ainda assim...

Aconteceu em menos de um segundo. Por um momento, a menina o viu quando ele apareceu completamente na entrada do beco, um braço estendido na direção dela. A última nota da música interrompeu-se no ar e se transformou num grunhido estrangulado, atrapalhado pelo sangue que lhe enchia a boca.

Vampiritico recuou sabendo que tinha feito um bom trabalho. Ainda tinha mais quatro facas de arremesso com ele, para compensar o delay que a primeira levava para voltar ao inventário. Felizmente, estava escuro e a menina havia caído imediatamente atrás do balcão, de modo que ele não poderia reparar no quanto aquela morte tinha sido real.

Real. Era uma palavra perigosa para ele agora. Havia acabado de matar uma garotinha, ainda que membro de uma gangue... Espera... Quem garantia que ela era de alguma gangue? E se fosse apenas uma desculpa para que ele matasse? Ele duvidava disso, mas não era impossível. Não devia ser possível, na verdade, afinal era um jogo e não a vida real onde esse fato estaria sujeito a discussões. Ainda assim, ele tinha matado... A sensação havia sido extremamente real apesar de que, é claro, ele não sabia o que era matar alguém realmente.

Não era o primeiro NPC que assassinava. Mas todos os outros tinham sido guerreiros, bruxos ou piratas experientes que não hesitaram em atacá-lo quando ele se aproximou. Esse tipo de gente ele mataria sem pensar duas vezes. Mas ele não tinha matado uma assassina. Tinha matado uma garotinha solitária cantarolando no fim de um beco.

E o pior de tudo... Ele não se sentia tão abalado. Não pela morte da menina. Era como se estivesse... Acostumando.

Vampiritico suspirou e se virou, andando para longe com passos largos. Ele disse para si mesmo que isso acontecia era porque ele sabia que era apenas um jogo, que não havia tirado a vida de ninguém na realidade.

Entretanto, Kevin e Wiren escolheram aquele momento para aparecer em sua mente, censurando o garoto por pensar assim. Lembrando-o de que as vidas deles não tinham sido um jogo.

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Nick e Thugles voltavam para El Nath, ambos muito animados e orgulhosos de si mesmos.

Haviam finalmente completado o último teste para conseguir o terceiro avanço de classe. O primeiro era ir até um solo sagrado no caminho para a Mina dos Mortos e colocar o Cristal Negro sobre um enorme obelisco negro que lhes faria perguntas, então voltar ao instrutor de terceiro avanço — Robeira, no caso deles. A NPC morava em uma casa grande de três andares com um pequeno subsolo, junto com os outro quatro instrutores. Cada um segurava uma arma pertencente à classe que ensinavam e todos usavam robes com capuzes que lhe cobriam os olhos, criando um certo efeito místico que conferia uma sensação de poder e mistério ao terceiro avanço.

Depois, Robeira os enviou até o teste final: deveriam trazem um item chamado Prova Negra, dropado do chefe que deveriam derrotar. Ela os mandou a um lugar coberto de cristais azulados e brilhantes, e quando chegaram no que parecia ser um pátio abandonado, ele apareceu.

Naturalmente os dois, Nick e Thugles, cumpririam o desafio separadamente. O mapa era o mesmo, mas era como se estivessem em dimensões paralelas, onde um não poderia interagir com o outro. Esperavam um enorme monstro, ou talvez um demônio, ou até algum mago do mal querendo dominar o mundo. Só não esperavam dar de cara com Grendel, o Muito Velho, cajado em punho e órbita na outra mão, flutuando alguns centímetros acima do chão brilhante.

No início eles ficaram contentes em ver o instrutor, mas logo ficou claro que algo estava muito errado. Pra começar, ele não estava na biblioteca de Ellinia, e havia alguma coisa... Ele flutuava lentamente em direção ao aprendiz, a órbita cintilando na mão esquerda, o cajado levemente erguido na direção da outra...

Foi Nick quem percebeu de imediato que aquele não era Grendel. Ou, se era, estava ali numa versão maligna, para enfrentá- los e testá-los. Por isso ele conseguiu escapar do ataque: um pilar de gelo que envolveu o corpo do mago flutuante, espalhando gelo em todas as direções.

Thugles, no entanto, apenas ficara parado se perguntando o que estava acontecendo, tentando falar com Grendel. E foi pego nas explosões flamejantes que surgiram ao redor do mago.

Tinha sido uma luta difícil e penosa, que não melhorou quando Grendel começou a invocar Taurolanças e Tauromacis — enormes minotauros com lanças azuis compridas ou maça amarela em forma de lua crescente, a cabeça sempre curvada para investir com os chifres, de modo que eles nunca podiam ver-lhe os rostos.

E ainda havia um outro fato, que Nick percebeu antes de Thugles. Os ataques de Grendel, além das Garras Arcanas, eram explosões, pilares de gelo ou um anjo que lançava algum tipo de magia ao redor do conjurador. Sempre os mesmos, o que só podia significar que eram habilidades. Era normal inimigos ter em habilidades, mas então Nick teve uma idéia. Havia algo familiar nelas, e logo percebeu o que era. Explosões de fogo. Pilares congelantes. Anjos brilhantes. Fogo, gelo e elemento sagrado sim, em inglês seria melhor: Fire, Ice, Holy. -HOLY-... -ELEMENTO SAGRADO-. Uma habilidade para cada uma das três classes que Grendel ensinava. Será que...

–Será que vou ter esse pilar de gelo? — Nick desejou, muito excitado ao sentir o corpo congelar e doer com o gelo afiado.

"Será que o Dave vai me sacanear muito por minha skill ser uma anja?" — Thugles pensou no mapa paralelo ao de Nick.

Mais ainda, Thugles notou que todas aquelas habilidades tinham efeito de área. Portanto, faria sentido que tivessem mais habilidades de ataque. Ansiosos para testá-las — Nick já decidindo que o primeiro ponto de habilidade iria para aquele pilar lindoso — eles redobraram os esforços.

No fim, apesar de difícil, a luta foi mais fácil do que deveria. Para começar, eles não tinham tanto medo de morrer já que pensavam que, se aquele era o teste que todos faziam no terceiro avanço, então todos estariam no nível 70 quando fossem cumprí-lo. Logo, era lógico que o teste não deveria conter mais do que eles seriam capazes de lidar. A batalha era árdua e o falso Grendel não pegava leve, mas sabendo que não enfrentavam algo que não poderiam vencer, eles tinham a moral elevada e deram o melhor de si na luta.

Nick terminou alguns minutos antes de Thugles, que só tinha a Garra Arcana para atacar — já que Donnie o proibira terminantemente de colocar mais do que um ponto em Flecha Divina, a habilidade de ataque de Clérigos que, segundo o companheiro, se tornaria inútil no terceiro avanço.

–Eu fui Clérigo no beta — Donnie havia dito, quanto Thugles lhe perguntara por que sabia tanto sobre a classe — Lá eu descobri uma certa... Classe especial. Que decidi testar aqui — completou, e não pela primeira vez, Thugles desejou que ele contasse por que tinha aquelas habilidades tão estranhas, como iluminar o cajado com a luz roxa ou as esferas negras. Mas Donnie sempre dizia que era uma explicação para ser dada em outro momento. Thugles prometeu a si mesmo que, quando terminasse aquela luta, convocaria outra hora da história.

Ele não sabia, mas a hora da história que planejava naquele momento jamais iria acontecer.

Os dois aprendizes se encontraram nos limites de El Nath logo que derrotaram o "instrutor". Depois de pegar a Prova Negra, um cristal se iluminara e, quando Thugles o tocou, apareceu do lado de fora de El Nath, perto de um Nick extremamente excitado e ansioso.

–Cara, por que você demorou tanto? Quase fui sem você, tô doido pra ter aquele pilar de gelo! Você viu só, aquela habilidade que congelava... A sua vai ser um anjo, com certeza!

–Uma anja — Thugles corrigiu em tom professoral — E não foi culp a minha, você pode congelar e tempestear raios, eu tenho que atacar com a mesma habilidade que venho usando desde que a gente caçava Cogumelos no nível 15!

Eles discutiram durante todo o caminho, quase não aguentando e usando um Pergaminho de Retorno. Mas eles preferiram não desperdiçar o item. Depois do que pareceram vários minutos, eles entraram na casa quase que arrombando a porta — só que ela era um portal, naturalmente.

Ao contrário do instrutor de Ellinia, Robeira falava apenas com um jogador de cada vez, como se ignorasse completamente a existência de qualquer um que não fosse o interlocutor a quem falava — como em qualquer jogo. Disputar quem seria o primeiro a falar com a NPC talvez tenha sido uma luta mais difícil do que a de Grendel. Disputaram no par ou ímpar, e...

–A LENDÁRIA BATALHA DO PAR OU ÍMPAR-


Nick se prepara, os joelhos levemente dobrados, a expressão franz ida de concentração. Thugles parece um pouco mais tranquilo, sua expressão não deixando transparecer a emoção que aquele momento derramava nele, a excitação que sentia.

Seria uma batalha rápida. Um único movimento. Haveria um único vencedor.

A tensão era palpável no ambiente, quase possível de se tocar, como se fosse um material. Robeira demonstrava seu apoio, flutuando atrás deles com a boca séria, concentrada em encarar a parte interna do capuz que lhe cobria os olhos. Ela perderia a maior batalha de todos os tempos!

Nick ergue a varinha — Thugles faz movimentos com o cajado.

–PAR! — grita Thugles. Nick nada responde. Dessa forma, Thugles não poderia saber qual opção ele escolhera, mas como eram amigos há muito tempo, Thugles sabia muito bem com qual habilidade Nick jogaria. A temível, odiada e poderosa classe ímpar.

Desta vez, o Clérigo não consegue mais esconder a agitação. Sua testa sua, as mãos tremem levemente, não que Nick esteja em melhor posição. As mãos direitas estão atrás das costas enquanto eles planejam o movimento, movendo os dedos, sabendo que só teriam uma oportunidade e que deveriam escolhê-la com cuidado.

Eles se compreendiam muito bem. mas será que isso faria diferença? Nick conhecia Thugles, portanto sabia como ele agiria. Mas Thugles sabia bem disso, e poderia usar outra tática para enganá-lo. Por outro lado, Thugles, grande amigo de Nick, sabia o quanto o garoto era criativo e poderia ser imprevisível quando queria. Uma lágrima escorreu de um dos seus olhos, que logo se estreitaram assim como os do garoto à sua frente. O pequeno Nick, vestido com aqueles trajes azuis aparentemente inocentes, amigo de vários anos... E que agora estava ali, parado à frente dele, a mão atrás das costas enquanto planejava friamente o golpe que o levaria a destruição, lançando-o para as profundezas mais quentes do inferno para se r torturado impiedosamente por toda a eternidade.

Isso é, se Thugles perdesse. Mas quem era ele para pensar assim? Não estava planejando fazer o mesmo com Nick? Em um segundo de hesitação, ele ponderou acabar com aquilo e tentar resolver o assunto com uma conversa, mas percebeu que já era tarde demais. O combate havia sido declarado e não se podia voltar atrás. Ambos haviam se comprometido com aquilo, com aquele embate mortal e que terminaria apenas quando restasse apenas um de pé.

Claro que isso de "sem volta" é porque o Davien não quis ser bruxo e nem estava ali no meio da disputa.

Nick começa a mover a mão. Thugles o imita. As mãos estão fechadas, prontas para exibir o ataque que está tão claro na mente deles. Nick sente um calafrio na espinha. O coração de Thugles parece querer saltar fora do peito, como se quisesse ele mesmo parar de bater para Thugles e começar a bater no adversário, pondo fim àquela luta par a que seu dono não tenha que morrer de forma hedionda e dolorosa. Então o coração parece se acalmar um pouco, não tanto, é claro, senão ele relaxa demais e Nick ganha por W.O. Mas logo o órgão se lembrou de que Thugles confiava nele, e muito, durante todos aqueles dezessete anos de vida. E não queria decepcionar o amigo.

–RÁ!

–WOAH-OH-OH-AH-AH-AH-AAAA... HA-AH.. aaaah!

A mão de Thugles murchou no ar, ao ver o resultado da batalha. Ele não podia acreditar em seus olhos. Era... Era.. Simplesmente... Algo tão cruel, macabro, hediondo, horrível, dantesco, animalesco, CSIéssico, desprezível, que tamanha barbaridade não pode existir em nenhuma mente humana, mesmo a mais perigosa e psicopática do universo. A censura é 13+, então mesmo sendo em um jogo, não poderia mostrar aqui.


–RÁ! GANHEI!

–Não me diga — Thugles resmungou, e embora a emoção já tivesse passado, o coração continuava a bater com força, como que repreendendo-o pela derrota.

–Hmm... Então, você conseguiu — disse Robeira, com sua voz clara e pronunciada — Como esperava de você. Pressinto a magia em você, Nick. Posso imaginar que chegará a níveis muito superiores de magia, os quais não terei a capacidade de ensinar a você. Quando chegar a hora... Bom, a hora não é essa. Você está apenas começando neste novo nível da magia, que é apenas o início nas magias arcanas do Gelo e do Raio.

Ela fez uma pausa e Nic k assentiu várias vezes, ansioso.

–Então, pelo poder que me é concedido, pela autoridade permitida a mim pelo mestre Grendel... — ela abriu os braços, e Nick soube imediatamente que era aquele o momento — Você, Nick, aprendiz do arcano do Gelo e do Raio, provou ser tanto sábio quanto capaz no uso das magias que lhe foram ensinadas. Seu corpo, sua alma e seu coração ligaram-se tão completamente à magia que já é capaz de aprender as de um nível altamente superior, de uma compreensão e poder completamente diferente de tudo o que tem visto. Você, Nick, está pronto para ascender à classificação de Mago, e abraçar este novo poder que será dado a você?

–Puxa, eu pensava que já podia ser chamado de mago... Ah... Sim, por favor! SIM!

–Então que a situação esteja sempre a seu favor — Robeira disse em um tom mais baixo — HODAH!

–HODAH! — fez um coro forte e marcante, que fez os dois bruxos se virarem assustados. Atr s deles estava somente Arec, o instrutor de Gatunos, mas estava claro que o grito havia sido dado por todos os cinco mestres presentes ali.

Os dois ainda olhavam para trás quando um anjo apareceu, espalhando luz por todo o aposento e enchendo a sala com ela, e Nick se virou para Robeira. Ela permanecia parada flutuando em seu robe verde. Mas desta vez, um leve sorriso suavizava a expressão severa de seu rosto.

–Então, está feito, jovem Nick. Você é um Mago do Gelo e do Raio a partir de agora. Treine com sabedoria e nunca se esqueça do que Grendel lhe ensinou nos seus primeiros dias de aprendizado. Uma nova etapa começa para você, começando com um novo ponto de habilidade, que você poderá usar para iniciar as magias do terceiro nível. Espero vê-lo novamente, quando estiver mais forte... Mas é um momento para o futuro, não tão próximo. Agora você deve continuar a sua jornada e provar que realmente merece se dizer um de nós, estudantes da onipresente magia de Maple.

Após isso, ela se calou, voltando à expressão dura e enigmática de antes.

–Cara... QUE LEGAL! EU SOU MAGO! VOCÊ VAI VIRAR O QUÊ, MAGO SAGRADO? VAI GANHAR AQUELE ANJO LEGAL QUE QUASE ME MATOU QUANDO GRENDEL DEU O SEGUNDO GOLPE?

–Anja — Thugles disse com firmeza, e falou com Robeira. ELa lhe disse basicamente o mesmo que dissera a Nick, mudando apenas para falar sobre sobre o elemento divino ao invés do Gelo e do Raio. E Thugles não seria "Mago Sagrado", mas Sacerdote.

–É um caminho duro, o do Sacerdote — ela acrescentou depois do "HODAH!" — Não são muitos os que o seguem. É árduo e difícil pelo fato de que você não foca na destruição, mas na salvação. Preocupe-se com seus aliados, esteja pronto para dar sua vida por eles.

–Certo — Thugles assentiu — Curar os amigos. Lutar até o fim. Morrer por eles se for preciso, ainda que seja idiota já que sou o médico do grupo e deveria mantê-los vivos, morrer não adiantaria nada... Tudo bem.

Ele disse aquilo na brincadeira, justamente no momento em que a Robeira resolveu torcer o canto do lábio na sombra de um sorriso. Era quase como se tivesse ouvido e compreendido. Mas logo a expressão dela tornou a ficar séria e a sensação se foi.

–Vamos voltar ao acampamento — ele disse a Nick — Tô doido pra mostrar o Anjo Brilhante para eles.

Os dois saíram de El Nath na direção de onde os amigos estavam acampados. Viram que a neve ainda estava um pouco remexida, o jogo tinha esse elemento para que aparecessem pegadas e marcas deixadas por barracas, por exemplo.

Mas onde elas deveriam estar, só tinham as marcas. Pegadas fundas por toda parte... E marcas maiores, que indicavam onde as pessoas haviam caído depois da luta.