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27 A Guerreira de Leafre
O gramado de Leafre era realmente uma programação magnífica. Curta e aparada, com cheiro, textura e ruídos idênticos à da grama da vida real. Italo tinha que admitir que a paisagem também havia sido minuciosamente caprichada.
A parte onde se encontrava, ao sul de Leafre, era uma planície verdejante suavizada por algumas colinas baixas aqui e ali, espalhadas até onde a vista alcançava. Mais ao sul e a sudoeste, começava uma densa e interminável floresta, que ele sabia que era conhecida como Floresta Minar.
O recém-avançado Cavaleiro Negro já tinha ouvido falar daquela floresta. Tinha ouvido vários rumores não apenas pelos NPCs de Leafre, mas também de outros jogadores que encontrava pelo caminho. Eram informações vagas e incertas, como sempre eram os boatos, mas havia alguns fatos que sempre se repetiam. Um deles era a existência de monstros como dragões e tartarugas gigantes, além de uma enorme criatura de três cabeças na parte mais oeste da floresta. Pelo que sabia, vários jogadores tinham se aventurado nela, mas não encontrara nenhum que sobrevivera à parte mais funda da floresta.
Ele sabia que não devia acreditar completamente no que ouvia. Nem mesmo dos NPCs, já que, conforme ele há muito descobrira, havia pessoas mentirosas até mesmo entre os não-jogadores. Inclusive, eram eles quem geralmente apresentavam os fatos mais mirabolantes — um dos NPCs chegou a dizer que havia um enorme vulcão cuja lava era capaz de atingir Victoria, outro dissera que havia um enorme templo flutuando nas nuvens a oeste da floresta.
No entanto, Italo não estava ali para ouvir boatos. Pensou mesmo em se aventurar pela floresta — se era tão temida assim, certamente estava cheia de segredos que nenhum jogador tinha explorado — mas era experiente demais para se arriscar. Além disso, tinha acabado de atingir o quarto avanço de sua classe, e seria o cúmulo da tolice morrer logo depois de liberar a mais avançada seção de habilidades.
"Vou voltar aqui no 140", ele prometeu para si mesmo. "Agora minha preocupação é com meu clã".
No meio dos rumores, ele ouvira algo sobre alguma espécie de evento ou novidade envolvendo os clãs. Uma arqueira chegou a lhe dizer que era luta entre clãs, e o rapaz tinha uma boa idéia do que isso poderia significar. Podia ser apenas um boato, mas ele queria estar em casa para o caso da informação se revelar algo realmente sério.
Ele seguiu a caminhada, andando pela estrada que era nada mais que uma faixa sem grama serpenteando pelo caminho. Vez ou outra, encontrava algumas ovelhas com chifres ou um monstro que parecia algum tipo de besouro com um chifre bifurcado, mas não dava atenção às criaturas. Havia aprendido com os Haflings, o povo NPC que habitava Leafre, que: embora os monstros da região fossem perigosos, normalmente eram pacíficos e só atacavam quando ameaçados. E francamente, depois de ter derrotado Manon e Griffey, os dois monstros mais temidos da parte leste da floresta Minar, coisinhas como ovelhas e besouros grandes não eram nada para ele.
Durante boa parte do caminho, sua mente continuava inquieta, perturbada pela sensação de que havia alguma coisa familiar desde que chegara até ali, mas que não conseguia descobrir o que é. Repentinamente, ele se deu conta do que era: na pequena casa de madeira em Edelstein, tinha ouvido Rakyaat dizer que estudava numa escola chamada MinarForest. Ele franziu a testa curioso. Italo não se lembrava de existir nenhuma floresta real que tivesse relação com esse nome. Era como se aquele mapa do jogo tivesse recebido o nome da escola. Era uma coincidência grande demais para...
O rapaz deixou esses pensamentos de lado ao ouvir um pequeno tumulto numa colina a poucos metros de onde estava. Curioso, ele se moveu com rapidez e leveza, o casaco azul esvoaçando levemente quando ele corria.
Três pessoas lutavam na base de uma colina, aparentemente, dois garotos contra uma figura coberta por uma armadura de aço prateado que parecia brilhar na luz tranquila do dia. Usava uma pesada maça que era uma bola cheia de espinhos numa mão e um escudo na outra. Apesar de estar consideravelmente mais protegido que os dois espadachins, estava claro que era ele quem estava em desvantagem.
-Yo — Italo gritou com clareza, sobressaltando os três combatentes.
-Ela nos atacou! Ajuda a gente! — um dos espadachins gritou de volta, sem se distrair com o recém-chegado. Italo franziu a testa.
-Ela atacou vocês, hã? Me desculpem, mas talvez eu não esteja muito inclinado a...
-Ataquei mesmo, e daí? Vocês deviam ter me dado logo todo seu dinheiro e sairiam vivos daqui! — gritou a voz dentro da armadura, uma voz feminina surpreendentemente jovem que fez Italo se retrair.
Ele se aproximou, olhou melhor... E se deu conta do que era. A mulher olhou para ele, os olhos aparecendo atrás de um visor estreito que não parecia nem um pouco confortável.
-Italo? — ela reconheceu, assustada. Então ela recuou, pois Italo acabara de puxar a lança de lâmina dupla, negra e de bordas serrilhadas. Ele dsparou um golpe contra o espadachim mais próximo, depois a girou e perfurou o outro. Então eles caíram, deixando um par de túmulos de pedra para trás.
-Uia! Com dois golpes? Caramba, que nível você é?
-120. Acabo de pegar o quarto avanço — Italo esclareceu. A menina arregalou os olhos, surpresa. Ela tirou o capacete, revelando um rosto jovem, liso e longos cabelos castanhos. Era bonita, e seus olhos se movimentavam rapidamente, dando a impressão de alguém que vivia bebendo açúcar e cafeína, apesar de que Italo sabia que não era nada disso.
-Puxa, você tá bem forte! — ela gritou, sacudindo os cabelos — Ah... Finalmente. Não gosto muito de capacetes, são desconfortáveis e eu só usei pra parecer mais assustadora, mas aí, você tá muito forte! E... — ela estreitou os olhos — Que cara de tacho é essa? Não lembra de mim? Como assim você não me reconhece?
-Leslie — Italo começou devagar — É claro que me lembro de você. Só estou surpreso por ter te encontrado aqui, é só isso.
-Ah, você lembra! — o rosto dela se animou de repente, como se fosse uma surpresa agradável ele tê-la reconhecido e não como se ela fosse bater nele se dissesse que não se lembrava — Sabe, eu vim aqui roubar esse pessoal, precisava de dinheiro, e eles não me pareciam boa gente, então achei que não teria problema, mas e você, você apareceu, foi bom que acabou com eles rapidinho, quer dizer, não que eu seja uma assassina fria e não esteja nem um pouco ressentida por eles estarem mortos, estou, mas não tanto porque talvez eles teriam me matado, não que eu não ache que poderia ter dado conta deles sozinha, eu poderia, mas não estou me gabando, talvez eles pudessem vencer, mas você chegou, então nós não...
Italo voltou à estrada, seguido de perto pela menina que tagarelava sem parar, parecendo nunca perder o fôlego. No entanto, ela não irritava o rapaz. Na escola, ele era quieto e ficava em seu canto, embora tivesse alguns raros amigos, era conhecido como "O fantasma". Vagueava pela escola, perambulava pelos corredores durante o recreio e assombrava as salas de aula quando não havia ninguém nelas. Italo era do tipo que se sentia bem sozinho.
Contudo, isso não significava que ele gostava de viver isolado. Tinha alguns amigos, era verdade, e socializava com os outros colegas sempre que possível. Por outro lado, Leslie era uma garota animada, alegre e extrovertida, que sempre tinha algo a dizer não importava sobre o que era. E ela tinha uma voz aguda e um tanto esganiçada, que era ao mesmo tempo deslocada e agradável. Ele poderia ouví-la falar por horas, apesar da imensa quantidade de palavras faladas de uma vez, ela não se atropelava e dizia as frases com clareza. E ele estava feliz em vê-la, afinal. Era sempre uma coisa agradável encontrar um colega da escola que havia entrado junto com ele naquele jogo.
-...eu tentei até pular e atacar — ela seguia dizendo — Fez eles perderem mais dano, imagina, que nem no Dark Souls! Mas aí eu...
-Você joga Dark Souls? — Italo parou de repente. O rosto de Leslie se animou ainda mais.
-Jogo, juntei dinheiro pra comprar desde que... — ela corou — Não importa. Jogo desde então, e adorei o jogo! Só não consigo passar por aquele dragão que guarda a Claymore. Tirei todas as roupas e mesmo assim, não fui rápida o bastante, aquele fogo desgraçdo sempre me pega no caminho!
-O Hellkite Dragon — Italo assentiu para ela — É, mas o segredo é esperar a rajada quando ele voa, aí você pode passar se for rápida. Ou você pode dar a volta...
Eles seguiram a caminhada, Italo, pela primeira vez, sendo quem explicava longamente sobre o assunto. Leslie o ouvia atentamente, mas depois de um tempo, incapaz de continua calada, o interrompia e fazia perguntas o tempo todo. Italo, pacientemente, respondia e ela assentia feliz, como se realmente fosse poder chegar em casa e testar as novas informações sobre o jogo.
Assim eles seguiram na direção de Edelstein. Italo pretendia chegar a Leafre e tomar um veículo, mas passou pela cidade sem perceber. Eles só notaram o quanto estavam conversando quando a areia do deserto Nihal surgiu gradativamente à frente deles, mas eles não se importaram. Uma caminhada fazia bem para a saúde, afinal.
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A pequena cabana de madeira da Sunrise of Astoria havia sofrido algumas pequenas melhorias. Uma lâmpada fluorescente brilhava no teto, havia mais cadeiras e agora a porta estava protegida por um trinco nível onze, o máximo que se podia colocar em um trinco daquele tipo.
-Precisamos de uma base nova — um homem resmungou. Dark Corpse assentiu para ele.
-Concordo com você. Somos o maior clã de matadores do jogo, e nossa base é uma pequena casa na árvore. Acho que merecemos alguma coisa um pouco mais... Sólida.
Ouviu-se um resmungo atrás deles. Nils, agora sem a capa,mexia-se impaciente.
-Somos um clã de lutadores, Dark Corpse. Nossa função é lutar e atacar. Que diferença faz qual seja nossa casa? Precisamos gastar dinheiro em armas e equipamentos, isso sim é importante.
-Uma casa pequena é mais difícil de ser localizada — ajuntou Mad Shadow.
-Eu sei, gente, mas é só que eu esperava alguma coisa melhor do que uma casa na árvore. Ainda mais com essa história de guerra de clãs chegando...
-Ouvi rumores de que os NPCs da criação de clãs estão falando a respeito — comentou Evil Corpse — Podem ser apenas boatos, mas não foi só uma pessoa que disse. Estava pensando em irmos lá pra Orbis pra verificar.
Dark Corpse assentiu, pensativo.
-Eu posso ir. Agora tenho um cavalo, posso chegar mais rápido. Quem sabe eu até encontre algum noobzinho por aí?
-Ah, então eu vou com você — disse Mad Shadow com uma expressão entediada — Não tenho muito o que fazer por aqui. A Mist Brotherband bem que podia me dar umas tarefinhas a mais.
-Ou eu posso dar algo bom pra vocês se ocuparem — disse uma voz cortante.
Eles se viraram e deram de cara com um homem pequeno armado com duas adagas. A porta encontrava-se aberta, o trinco nível 11 indignadamente aberto e esquecido. Uma das adagas tinha três pontas, a outra era longa e curva e tinha um círculo vermelho no centro. Dark Corpse já tinha visto uma dessas antes. Era pra ser usada a partir do nível 100.
-Ou então — Vilgrem continuou — Vocês podem me dar seu dinheiro. Não? — acrescentou num suspiro, vendo que a única resposta foi Nils levantando-se e pegando o machado — Que pena. Pra vocês.
Ele se adiantou e moveu as espadas a uma velocidade desconcertante, matando o Gatuno mais próximo em um piscar de olhos. Casualmente, virou-se para enfrentar o resto do grupo.
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-Vocês não podem pegar nossos amigos! — Gatts gritou. Bruken sorriu para ele.
-Podemos, sim. Temos um distintivo aqui que diz que...
-Que se danem os distintivos de vocês! Já não basta tudo o que a gente passa, ainda temos que aguentar um grupo de policiais que se acham só porque têm Quest Única da honra? Isso não é justo!
-Sei que não é — Guilber replicou — Mas mesmo assim, é o que nós fazemos. O jogo não distingue legítima defesa de um assassinato. Se eu pudesse parar nossa maga agora, eu o faria.
O guerreiro sentou-se, resignado. Acreditava no homem vendado, mas a situação ainda o indignava.
-Não se preocupe, Gatts — Anna disse para ele — Lembre-se de que ela está indo pegar o Donnie... Por falar nisso, qual o nível dela?
-Oitenta e dois. Maga de Fogo e Veneno — Davien disse.
Anna deu um sorriso estranho e não disse mais nada. Obviamente, pensava que Donnie conseguiria lidar com qualquer pessoa daquele nível, principalmente uma maga. Nenhum tipo de magia elemental era eficaz contra o garoto. Mas sua preocupação era alimentada por outro sentimento.
-Ela já devia estar de volta — Bruken falou de repente — Será que...
Surpreendentemente, alguém escolheu aquele exato momento para bater na porta de madeira da entrada. Pikka virou a cabeça na direção do som sem sair do colo de Kiara, enquanto o dono e os outros membros da Death Star se enrijeciam levemente nas cadeiras. Relaxaram, porém, ao ver a figura magra que entrava no aposento. E não estava sozinha.
-Pessoal? — Gatts parecia ao mesmo tempo surpreso e animado. Reconheceu Nick, Donnie, Thugles e Rockfield, mas não fazia idéia de quem era o pequeno rapaz de roupas brancas que os acompanhava timidamente.
-Gatts — Thugles começou, estacando no chão diante deles — Anna... Kiara... Davien... E você, aquele cara de arregaçou o Davien lá em Perion! Puxa... Quem eu abraço primeiro? É tanta gente conhecida aparecendo milagrosamente no mesmo lugar que eu buguei!
Ele olhou ao redor e pareceu tomar uma decisão.
-Sai... Sai! SAAAAI!!! — Davien gritava, tentando se afastar do rapaz grudento que avançava.
-Falhei na missão — Julia disse para Guilber em tom de desculpas, mas com um sorriso no rosto. O homem retribuiu o sorriso e assentiu. Então, subitamente, a expressão dele ficou séria e ele se levantou.
-Hehehehehehehe...
Todos se viraram para olhar, Kiara levantou da pedra, Pikka rosnou e Thugles, a meio caminho de estrangular a Anna, ergueu os olhos confuso. Parado na soleira da porta, os cabelos brancos espetados como sempre e um curativo branco no nariz acima da boca aberta num sorriso torto e cruel, estava ninguém menos que Dark Corpse.
-Caramba, pelo que sei, essa é a residência do clã da Julia — Thugles gritou de repente — Mas aí entraram o Gatts e a Kiara, e a Anna, depois eu, Nick e Donnie, e agora o Dark Corpse. Será que todo mundo entra aqui assim? Parece até o porão da casa do Gibbs!
Discretamente, Donnie olhou ao redor e constatou que Rockfield não estava em lugar nenhum. "Subiu pro segundo andar pra não ser descoberto", pensou.
-Por que essas caras? — ele disse no costumeiro tom sombrio e sarcástico — Só vim aqui fazer uma visita. Na verdade... Vim entregar um presente.
Ele puxou alguma coisa ao lado dele, apoiada na parede externa de forma que os ocupantes da casa não podiam ver. Exclamações horrorizadas se fizeram ouvir quando da mão direita do rapaz, firmemente amarrado a um monte de cordas e a boca coberta por uma mordaça, um homem agitado e desgrenhado foi empurrado para dentro aos pés deles.
-É... É o Vulgrim — Guilber anunciou sem acreditar no que a tela do dispositivo vermelho lhe dizia. Davien, compreendendo o que o intruso queria, deu um passo à frente.
-Qual é, não venha com essa! Conhecemos você e sua reputação, acha que vamos esquecer tudo se nos entregar um bandido? Sua honra pode aumentar um pouquinho, mas não pense que prender esse cara vai nos amolecer!
-É isso aí — Bruken acrescentou, pondo-se ao lado do companheiro — Você tá frito, mano, foi burrice sua ter vindo aqui.
-Opa opa, peraí! Quem foi que falou em prender? — Dark Corpse riu com desdém — Não, meus amigos, isso aqui foi só um aviso. Esse cara era bom, mas cometeu um erro gravíssimo: mexeu com a Sunrise of Astoria. Trouxe ele aqui... — sua boca se arreganhou no sorriso mais largo que já tinha dado até aquele momento — Pra que o aviso também sirva pra vocês.
Repentinamente ele puxou uma das pistolas, um movimento tão rápido que pareceu um borrão confuso, seguido pelo som do tiro certeiro na direção da testa do assassino. Seu HP, propositalmente reduzido quase até o final, finalmente se esvaziou, quebrando a tênue ligação que ele ainda tinha com a vida. Um gemido, um arregalar de olhos e ele desapareceu, deixando apenas uma pedra cinzenta coberta pelas cordas jogadas em seu lugar.
Kiara gritou horrorizada, Davien, Bruken e Gatts tentaram avançar, mas uma bomba de fumaça bloqueou a entrada. Guilber a afastou com uma simples lufada de gelo, mas o homem não era visto em lugar nenhum, apenas se ouviam as risadas altas e secas de algum lugar ao longe.
Bruken correu para procurá-lo. Davien, embora soubesse que seria em vão, foi atrás. Kiara fechou os punhos.
-Aquele... Porco imundo! Desgraçado, nojento, filho da...
-Eu devia ter acabado com ele quando tive a chance — Gatts resmungou baixinho — Se eu tivesse usado a carga de fogo desde o começo, talvez...
-Isso não é mais importante — cortou Guilber, e todos olharam para ele — Criminoso ou não, ele tirou um assassino perigoso do caminho. Nos poupou trabalho, e francamente, não faz diferença que tenha sido morto. Se tivéssemos saído atrás dele, Davien ou Bruken teriam feito a mesma coisa.
-Exatamente — acrescentou Rockfield, descendo as escadas enquanto Davien retornava à casa, finalmente desistindo da infrutífera caçada — Ele até que nos foi útil. Sem ele nós teríamos que ir atrás desse Vulgrem, enquanto eu estou doido pra fazer qualquer outra coisa legal... Já pensou que saco? Ainda bem que acabou.
-Mas tem alguma coisa, olhem! — Kiara gritou — Essa pedra, o que será isso? Parece um... — ela se interrompeu, franzindo a testa.
-Parece um túmulo — Nick constatou, surpreso — "Em memória de Vulgrem, nível 103, Mestre Arruaceiro". O que será isso?
-Deve ser alguma novidade dos hackers — opinou Thugles — Eu até que acho melhor, antes você desaparecia numa explosão de espelhinhos brilhantes, agora você desaparece em uma explosão de espelhinhos brilhantes e ganha um túmulo novinho em folha.
-Espero que essa porra não fique aí — Davien resmungou — Será que dá pra tirar... Droga, não sai, é muito pesada. Será que não dá pra...
-Deixa eu tentar — Nick se adiantou, erguendo a varinha. Ele se concentrou, ouviu-se um barulho de sucção, ele fez um movimento com a varinha e um raio atingiu o túmulo, quebrando-o em vários pedaços — Pronto. Problema resolvido.
-Agora falta alguém ir lá buscar o Bruken — grunhiu Davien — Aquele idiota acha que consegue pegar um cara montado. Por falar nisso, sabiam que ele tem um cavalo?
Donnie, Nick, Thugles e Rockfield se entreolharam, as sobrancelhas erguidas. Não tinham conhecimento do cavalo negro de Dark Corpse, mas sabiam, sim, desde o começo, que havia uma cabeça de cavalo no clã inimigo. Eles raciocinaram de maneira errada, e preferiram não pensar muito na cena do pistoleiro galopando no lombo de seu fiel cavalo.
-Tá... Agora, o que a gente — AH, FOFINHA!
-NAAAAAAGHHH!
-Thugles — riu Nick, vendo o amigo se lança num abraço desenfreado mais uma vez. Então voltou-se para uma das meninas — Você tem sorte de ele não ter tanta intimidade com você, Anna. Coitada da Julia, deve estar sufocando.
Duas coisas aconteceram imediatamente após essas palavras: Julia sentiu o aperto afrouxar um pouco e Anna se viu discordando, embora sorrisse timidamente. Ela gostava de abraços. Se ganhasse algum, significaria que alguém se importava com ela, pelo menos. Sua timidez na escola jamais a permitiria isso. De repente ela imaginou um outro rapaz dando-lhe um forte abraço e sacudiu a cabeça, tentando afastar o pensamento.
-Continuando o que o Thug Life ia perguntar... O que fazemos agora? — indagou Davien.
-Eu não sei vocês, mas eu quero dormir — Nick disse com um bocejo — Derrotei meu mestre hoje mesmo, descobri que a Anna era uma traidora e... Ah, Anna, você está aqui, desculpe... E vi um assassinato.
-E eu passei por uma luta e três tentativas de estrangulamento — Julia murmurou, finalmente liberta — Agradeceria muito se tivesse uma caminha.
-Vocês podem ficar — Davien falou — Só que não temos cama pra todo mundo. Temos uns colchonetes, mas...
-Só tem uma cama lá em cima — Guilber informou — E eu já estava achando que tava na hora de comprarmos mais melhorias. Não aguento mais deixar a Julia dormir na cama por educação, depois colocar ela no chão no meio da noite e tornar a colocá-la na cama antes de amanhecer. Isso me faz acordar cedo, mas é um tremendo aborrecimento.
-Como é que é? — Julia grasnou. Guilber riu.
-Não faz essa cara, você nem percebe. E o Thugles está certo em querer apertar você.
-Estou? AWN, VEM AQUI!
-NÃO! SAI! OLHA QUE EU EXPLODO VOCÊ!
-Bom, você é o líder do clã — Gulber disse para Davien, os lábios curvados em um leve sorriso — O que vamos fazer agora?
O guerreiro virou a cabeça para observar os companheiros que riam, dois deles correndo pela casa e bagunçando e exploidindo tudo o que não era objeto imortal. Ele voltou a fitar Guilber e o encarou, impassível.
-Vamos dar uma volta na cidade — ele deu de ombros — Enquanto compro melhorias, você pode ir atrás do Bruken.
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