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4 A Estrada Enegrecida
Fazia pouco mais de uma semana desde que os amigos desistiram de acompanhar Davien Gustfel.
De acordo com o guia de Sheddeer, eles deveriam estar treinando em Henesys, fazendo uma quest de grupo que envolvia destruir plantas para obter sementes de várias cores(seis no total), para depois plantá-las e invocar o Coelho da Lua [s]que tem um pilão de socar alho[/s]. A missão do grupo era protegê-lo das criaturas que apareciam: bolas de fogo azul, olhos com asas de morcego e outras. Quando o coelho terminasse de fazer dez Bolinhos de Arroz, eles deveriam entregá-lo a Growlie, o faminto NPC que ficava dentro do mapa. Eles ganhavam uma boa quantidade de experiência e depois podiam ir a um mapa bônus cheio de Porcos que, segundo eles logo descobriram, tinham uma chance bem maior de dropar equipamentos.
Thugles animara-se imediatamente ao saber da quest de grupo, e insistiu tanto que até Davien acabou cedendo. E a EXP da quest era boa — a atividade em si também era bastante divertida. Os quatro amigos deram boas risadas plantando sementes erradas, explodindo fogos mágicos flutuantes e comendo Bolinhos de Arroz pra sacanear a quest.
Mas chegou o momento em que a Experiência já não era tanta, ainda mais para Davien, que estava no nível 22. Agora que podia usar sua foice, ele clamava que queria testá-la em algo um pouco mais sólido do que fogos azuis e porcos. Para Nick e Thugles, ambos no nível 19, a Experiência não era tão ruim assim, mas agora que o fato foi colocado em pauta, Vampiritico achava que também concordava. Havia feito a quest três vezes e ainda estava nos 80% para chegar ao nível 21.
–Vou enfrentar os Drakes — Davien anunciou certa manhã — O guia do Donnie diz pra eu ir pra lá no nível 25, mas isso é pra guerreiros que não tem uma foice que nem a minha. Como eu tenho uma foice que nem a minha, acho que dou conta deles.
Os outros concordaram, até Thugles, que começava a enjoar de ficar fazendo a Quest repentinamente. Assim, eles foram até Perion, e o guerreiro os liderou pelo deserto àrido até onde ficavam os Drakes.
Eles era répteis com quase duas vezes o tamanho de uma pessoa, a pele dura e rígida como uma carapaça. Os olhos eram fendas amarelas e a boca era cheia de dentes afiados e pontiagudos. Os braços e pernas eram proporcionais ao corpo, os primeiros terminando em três dedos com unhas que mais pareciam garras afiadas. Tinham tudo pra serem monstros temíveis — mas Davien também tinha.
Assim que viu os lagartos perambulando pelo lugar, ele partiu em um ataque furioso, desintegrando um deles com um único golpe, depois girou a foice para acertar outro e a virou por cima, derrubando um terceiro. Só a Experiência de Thugles subira pros 5%.
Ele e Nick decidiram ajudá-lo com umas magias, mas elas ou missavam(dar "MISS", isto é, errar o ataque) ou não causavam um efeito mais grave que um arranhão. Mesmo assim, os ataques ajudavam a desviar a atenção de Davien, evitando que todos se concentrassem nele. Vendo isso, Vampiritico nem tentou atacá-los. Era rápido, mas havia muitos deles por ali, e sua classe não tinha o bônus de defesa ou de HP que Davien tinha.
–Cara, isso é legal demais — Thugles comentou, eufórico. Havia upado dois níveis em uma hora. Com a habilidade Proteção Arcana, ele podia até se arriscar a enfrentar os Drakes com mais afinco, mas ele poderia até ficar parado sem fazer nada que ainda assim, seria mais EXP do que ele conseguiria ganhar sozinho. Davien, obviamente, era quem ganhava mais pelo fato de estar atacando. O que os amigos recebiam de Experiência era apenas um resto, que já era o bastante para eles no nível em que estavam.
–Nível 28! — ele gritou, triunfante. Suas costas estavam voltadas para os amigos, os ombros curvados endireitando-se após mais uma cortada com a foice — Cara, isso é...
–Incrível? É, pra alguém do seu nível, eu diria que sim.
Davien se virou para ele, assim como os amigos. O estranho era um homem alto, com um roupão preto e luvas e sapatos azuis, o que não combinava muito com a venda vermelha que cobria seus olhos.
–Como assim "alguém do meu nível"? — O guerreiro perguntou não gostando muito dos modos do homem. O recém-chegado apenas sorriu.
–Só estou dizendo que você é muito forte para alguém que esteja no nível 28. Não são muitos os que vejo por aqui antes do nível 30. Não foi bem um insulto.
–É mesmo? Bem, eu podia jurar que era, pelo jeito que você falou.
Ele deu uma cortada num Drake que surgira ao seu lado quase sem olhar para ele. O homem não se impressionou.
–Você deve se considerar muito bom, então — disse o outro. Davien deu de ombros.
–Se você lembrar que eu tenho a melhor foice do jogo e comecei a matar esses monstros três níveis antes do recomendado, vai entender.
Ele não sabia com certeza se sua foice era a melhor do jogo, mas era lógico supor que, como aquele havia sido o único evento anunciado abertamente a todos, aquela arma era bem rara. Talvez fosse a única. Ao ouvir isso, o homem deu uma breve risada, completamente desprovida de sarcasmo. Estava rindo mesmo.
–Já que você é tão bom, que tal um duelo agora mesmo? — propôs.
–Dave — Thugles alertou-o, hesitante — Ele pode... — então se calou ao ver o olhar sério que o rapaz dirigia ao outro.
–Eu sei, Thug — ele respondeu sem tirar os olhos da figura que o encarava — Não vou me arriscar tanto assim a ponto de me matar. Sei que ele deve estar tentando algum truque.
A última frase soou clara o bastante para que o estranho ouvisse. Erguendo a mão em um gesto conciliador, ele explicou.
–Não é um duelo até a morte, claro — ele tratou de esclarecer — Nós lutamos até o HP do outro ficar baixo o bastante, mas sem deixar morrer. Mas é meio arriscado, porque a gente não tem como saber se você aguenta um golpe meu, por exemplo.
O "por exemplo" saiu em um tom estranho, reforçado pela nesga de um sorriso que torceu os lábios do homem. E aquilo foi o bastante para Davien. Não importava quem fosse aquele cara, ele sabia que não poderia morrer com um golpe. Era um guerreiro, com bônus de defesa e HP, e além disso, aquele homem não tinha como ser muito mais forte do que ele. Estavam seguindo o guia de alguém que evidentemente treinara durante a fase beta, o que lhes dava uma vantagem considerável.
E esse era um fato que aquele homem desconhecia. Apesar de agora saber o nível de Davien, ele não tinha como saber que ele treinava as habilidades corretas, de modo a aumentar o máximo que podia de seu potencial como guerreiro. Muitos jogadores as aumentavam errado, ou então aumentavam as habilidades certas cedo demais. Por exemplo, Davien tinha um ataque chamado Golpe Fulminante que mostrava-se bem forte mesmo no nível 1, o que fazia muitos ansiarem por aumentá-la, ganhando um golpe mais forte logo no começo. Mas o guia de Donnie lhe dizia que o nível dela não deveria passar desse, pois seria substituída por uma habilidade melhor de nível superior. Ele ficou contente por não agir no impulso que certamente o faria deixar Golpe Fulminante no máximo.
–Eu aceito — Davien disse por fim, e o sorriso do homem vacilou por um instante. Esperava que ele aceitasse o desafio por impulso, mas não que falasse com calma e tamanha convicção.
–Espera aí — Thugles interrompeu, temendo que algo saísse errado — Eu confio no Dave, sei que ele não vai te matar se prometer isso. Mas você tem que dar a sua palavra. Mesmo que isso não signifique muito, vai nos dar uma desculpa pra caçar você se você passar do limite.
–Eu acho que, se ele for capaz de derrotar o Davien, não vai ter muito o que a gente possa fazer pra vingar a morte dele — Vampiritico colocou com frieza.
O homem encarou o garoto por alguns segundos.
–Nas opções do menu, tem uma seção chamada "Aviso de HP". Você pode ver seu HP sem dificuldade, mas lá você pode colocar pra te dar um aviso quando ele cair pra menos da porcentagem que você escolher. Dou a minha palavra que, se o dele cair pra menos de 10%, paro de atacar e encerramos a luta.
–Eu também — o outro replicou. E matou mais dois Drakes curiosos que decidiram explorar ali perto.
–Mais uma coisa — disse o homem — Eu não estava pensando apenas num duelo pra ver quem é melhor. É uma aposta, na verdade. Cem mil mesos. No mesmo momento em que perder.
–Minha resposta é a mesma — Davien deu de ombros, mas obviamente Thugles discordava dele.
–Peraí, cara, você pensou que talvez a gente não tenha dinheiro pra pagar ele se você perder?
–E você pensou que talvez eu não esteja planejando perder?
–Peraí gente, cem mil é bastante coisa — Vampiritico disse com a mão no queixo — Ia dar um bom estoque de poções e bons equipamentos, e ainda ia sobrar...
–É, mas e se ele perder, como fica? — Nick retrucou — Sei lá, a gente chega a ter cem mil mesos juntos?
–Pera, acho que a gente tem — Davien abriu o menu e analisou melhor sua carteira — Ah, aqui Thugles, vou te mandar 30 mil, só pra você não começar a discutir comigo — disse, e Nick e Vampiritico também enviaram um pouco para juntar.
–Dá cem mil mesos com uma boa folguinha — assentiu o rapaz — Eu não sabia que a gente era tão rico!
–Talvez a gente fique ainda mais rico — Vampiritico acrescentou, feliz.
–Espera aí, eu ainda não me convenci — Davien disse agora olhando para o homem — Quem me garante que você vai me pagar depois que eu te derrotar? Você não me inspira muita confiança, sabia?
–Isso aqui não tem um sistema de duelos, onde a gente coloca o valor das apostas e o vencedor leva tudo? — Vampiritico lembrou.
–Só nas cidades — respondeu o homem — E mesmo assim, nada de "parar aos 10%" ou coisa assim. Um duelo oficial aqui é até a morte. Mas você está certo, realmente não há motivos pra confiar em mim, então...
Ele moveu a mão esquerda à frente, passando o dedo por ela com a direita e abrindo o menu. Instantes depois, ele o fechou.
–Pronto — falou, com a voz mais inocente do mundo. Davien o encarou, desconfiado.
–O que você...
–Ele acabou de me mandar cem mil mesos — Thugles disse com as sombrancelhas levemente erguidas — Gostei disso, cara. Mas não acho que ele faria isso se estivesse planejando perder.
–Talvez ele já esteja adiantando o pagamento — Davien sorriu, embora sua mente estivesse em alerta. Não iria baixar a guarda contra aquele homem.
–Bom, então, aos seus lugares.... — Nick começou, hesistante — Hã... Podem começar.
O homem pegou um cajado de madeira quase do tamanho dele na mão direita e invocou uma pequena fada com a outra. "Um mago?", Davien pensou, e suas mãos se apertaram em torno da arma. Não gostava de enfrentar magos. Em outros jogos, eles normalmente levavam vantagem pelas habilidades a distância, enquanto guerreiros tinham que se aproximar para usar os ataques.
A fada jogou-lhe um pó azul com uma varinha antes de sumir no ar, e Davien tinha certeza que já tinha visto aquela magia antes. Era Proteção Arcana, a magia que substituía parte do dano ao HP por dano ao MP. Isso deixaria as coisas um pouco mais complicadas, porque ele não podia saber qual nível ela era. E nem seus amigos tinham ela no nível máximo, logo, ele não sabia o quanto de dano máximo ao HP ela convertia pra dano ao MP, para que ele pudesse ter uma idéia.
Enquanto pensava, o homem atacou, uma esfera de energia azul que correu na direção dele rapidamente. Davien usou a foice para bloquear e sorriu. Não sabia que a arma podia bloquear ataques. Foi um teste, arriscado, mas bem-sucedido.
O homem mandou mais duas bolas de energia, uma delas não atingindo Davien por pouco. Decidindo que precisava fazer alguma coisa, ele correu na direção do adversário. A foice lhe dava um bônus de 20% de velocidade extra quando corria, o que era uma bela vantagem.
Quando se aproximava, o homem atacou novamente, mas dessa vez, não era uma esfera, mas sim a Garra Arcana. Davien esperava por isso. Se seus amigos só deixaram a Esfera no nível 1 porque ela era requerimento para a Garra, não havia por que aquele ataque ser o principal. Era óbvio que estava guardando a garra para uma surpresa. Mesmo ela sendo mais rápida, Davien conseguiu desviar.
Ele atacou o homem, uma cortada lateral que atravessou o corpo como se ele fosse feito de luz. O HP desceu um pouco, mas apenas um pouco. Ele deu mais dois outros golpes, e a rapidez da foice era tanta que o homem não conseguiu desviar.
Recuando para evitar ser pego por algum truque, Davien analisou a situação. Não havia tirado nem 10% da barra de vida do adversário. "A Proteção Arcana", pensou. Como mago, ele podia não ter muito HP, mas seu MP certamente era alto, mais do que suficiente para cobrir o dano da habilidade.
Ele ergueu o cajado para trás, e Davien se preparou para bloquear com a foice. Mas o ataque dessa vez tinha sido a Garra Arcana. A foice bloqueou o primeiro, mas foi o duplo que pegou o rapaz. E na surpresa, deixou ser pego por mais dois ataques.
A velocidade da Garra Arcana era impressionante. Mal acabava de registrar o segundo dano, e outra já estava a caminho. Desesperado, Davien rolou para um lado, depois para outro, sem saber o que fazer. Seu HP já estava em 356/578.
Ele conseguiu desviar de uma, e como não tinha escudo ou outra forma de bloquear a enxurrada de magias do outro, decidiu que o ataque seria a melhor defesa. Correu o mais rápido que podia, ignorando os danos que as Garras inflingiam nele.
A venda vermelha aparentemente não impedia o homem de enxergar, pois assim que ele se deu conta da situação, pulou para evitar o golpe. Davien acertou bem de raspão, mas acabou em um "MISS". O golpe seguinte não perdoou. Nem o próximo. Nem o outro...
Quando Davien deu uma leve parada para recuperar o fôlego, o homem recuou vários passos para longe dele. O HP estava consderavelmente mais baixo, embora estivesse bem acima da metade. Bebeu uma poção de MP e conseguiu até dar um sorriso de escárnio.
–Nada mal, sério mesmo.
O homem disse a frase com uma leve hesitação, não tão confiante quanto parecia no início. Mas Davien nem reparou. Ao ver ele tomando a poção azul, tivera uma idéia...
Ele próprio parou e bebeu uma poção apenas para garantir. Antes que o adversário pudesse se recuperar, ele investiu.
Cortou-o com a foice, passou-a por cima da cabeça, saltou e o atingiu com um berro selvagem. Enquanto atacava, recebia golpes de Garra Arcana, mas não se importava. O HP do homem descia, mas a uma velocidade muito menor que o dele próprio... Se continuasse assim, ambos atacando um ao outro, o de Davien chegaria aos 10% primeiro...
O plano obteve o resultado que o rapaz esperava, logo depois de uma investida com a foice. Dessa vez, o dano que ele causara tinha sido muito maior do que em qualquer um dos golpes anteriores, e Davien sorriu ao ver o homem fazer uma careta de espanto ao perceber que tinha sido enganado. O que parecia ser apenas uma investida louca e descuidada, na verdade era um plano bem simples: zerar o MP dele para inutilizar a Proteção Arcana.
E com o MP zerado, ele não poderia usar habilidades. Teria que parar para tomar uma poção... Mas Davien não permitiria. Seus ataques agora redobraram os esforços, implacáveis, cortando-o rapidamente...
Seus amigos davam vivas, mas o homem não iria deixar vencer-se tão facilmente. Segurando-se no rapaz, ele deu uma rasteira que o derrubou no chão, surpreso. Davien não levou mais do que dois segundos, mas foi tempo suficiente para que o adversário recuasse.
Ele tinha uma poção de MP na mão... Uma azul, como antes. Davien sabia que não seria suficiente: ela recarregava apenas 100 de MP, uma quantidade que ele poderia zerar facilmente com um ou dois golpes de foice. Com um grito, o rapaz pulou em direção ao oponente, a foice preparada.
O golpe, porém, cortou apenas o ar quando o homem simplesmente desapareceu em uma luz azul. Atônito, Davien tropeçou quando não sentiu o leve acolchoamento que indicava que havia atingido alguém. Thugles, Nick e Vampiritico gritavam, mas era tarde demais...
Ele sentiu um ataque nas costas e ficou imobilizado. Sentia frio, não conseguia nem erguer os olhos, era como se estivesse preso no meio de algo muito gelado. Sem opção, encarava o vazio à frente dele, quando ouviu um barulho e uma chuva de raios desabou ao redor do rapaz. O ataque quebrou o gelo, e fez com que ele caísse deitado de costas no chão. Na sequência, o homem aproximou-se e manteve um pé sobre o peito do rapaz.
Davien ofegava de susto, dor e espanto. Era ele quem havia sido enganado o tempo todo... Agora ele pensava que talvez nunca tivesse zerado o MP daquele homem, que ele próprio talvez tivesse desativado a Proteção Arcana para fazer ele pensar que estava vencendo...
–Se quiser continuar essa luta, é só dizer — o homem disse calmamente.
Davien não respondeu. Seu HP estava baixo, mas não o bastante para ativar o aviso que o alertaria que havia baixado os 10%. Mas ele analisou as palavras do homem com cuidado. Notou que, inicialmente, elas continham um certo sarcasmo, uma pequena dose de deboche que o incitaria a atacá-lo e a aceitar o desafio. Agora, esse tom havia desaparecido. Ele falava em tom sincero, e foi quando Davien percebeu que aquela batalha estava perdida desde o início.
Vendo que o adversário nada iria dizer, o homem aliviou a pressão sobre o peito dele e se afastou.
–Acho que você aprendeu algo hoje — ele disse com simplicidade. Não estava se gabando, mas isso não importava para Davien. Nunca iria se esquecer daquilo.
O homem checou o menu e deu uma risadinha.
–Fico feliz de ver que seu amigo é honesto. Bem, até a próxima — ele se despediu, acenando para os três rapazes que corriam na direção do companheiro, que levantava-se e bebia uma Poção Branca, que ainda não era suficiente para restaurar seu HP por completo.
–Bem feito — Vampiritico foi logo dizendo — Isso é pra você aprender a parar de se achar como se pudesse ganhar de todo mundo.
–Não escuta ele, você foi bem. Aquele movimento de tirar a Proteção Arcana foi bem arriscado, se você tivesse desviado da rasteira, teria...
–Eu sei, Thugles, eu sei! E se você não tivesse devolvido o dinheiro pra ele, a gente teria ido embora feliz!
–Você sabia que eu iria devolver — o rapaz disse, sacudindo a cabeça — E você também teria, depois da raiva. Ei, por que não aproveita que está putinho e usa rage pra matar mais Drakes? Quero upar logo!
–É, aqueles Drakes ali tavam torcendo contra você, e tão zombando — Vampiritico apontou pra um grupo de lagartos que passeava inocentemente a alguns metros dali — Vamos ganhar EXP, sim?
Apesar de com o bolso — e, mais ainda, o orgulho — ferido, Davien se animou um pouco ao ver os monstros. Era uma boa terapia para ele descontar a raiva. Em meia hora, ele já conseguia parar de pensar um pouco na luta(e upar mais dois níveis, também). Foi quando uma lâmpada brilhou sobre sua cabeça.
–Gente olha, o Dave teve uma idéia! — Thugles exclamou, fingindo estar exageradamente animado — É algo tão raro que até o jogo decidiu colocar uma lâmpada pra mostrar pra todo mundo!
–Eu tenho uma foice, desculpa aí — o rapaz disse apenas, afastando-se dos Drakes para analisar a nova opção do menu de Quests. Apareceu uma janela perguntando se ele aceitava "A Informação do Chefe Balrog". Curioso e com certa excitação, ele aceitou e a aba de "Etc" piscou no inventário. Ele puxou uma carta e leu.
–Caraca, só ele recebe carta aqui, hein? — Nick brincou — O que diz dessa vez?
–É do chefe Balrog... Ele diz que tá acompanhando meu treinamento, e que é pra eu ir pra Perion ver ele. Diz que estou pronto pra "avançar em corpo e espírito a um novo passo da minha infinitiva jornada" — ele fez uma careta confusa — Alguém sabe o que isso significa?
–Significa que você está pronto pra avançar em corpo e espírito a um novo passo da sua infinitiva jornada — Thugles respondeu com uma careta de "dââ" — Você não sabe nem interpretar uma carta?
O rapaz resmungou algo e abriu o menu.
–Bem, vejo vocês em Perion. Vocês têm que ver o chefe Balrog... Ele é diferente, mas estou com pressa. Ele me deu uns dez pra voltar pra lá, vocês devem ter uns que voltam também. Tchau!
–Não pera, Dave, usa o pra voltar pra Cidade mais Próxima, é mais barat...
Tarde demais, o rapaz já se apagava em uma aura azul. Nick deu um tapa na própria cara.
–Mas que idiota — exclamou — Vocês sabem que é só usar o de Cidade mais Próxima que volta pra Perion, né?
–Bem pensado — Thugles assentiu pensativo — Eu estava pensando em usar o meu perga de Ellinia e depois pagar o táxi pra me levar pra Perion. Que sorte termos alguém tão inteligente quanto você!
Ele e Vampiritico riram, em seguida pegaram os pergaminhos. Assim que os leram, o mundo se apagou para em seguida tudo voltar a aparecer: estavam em Perion.
A cidade parecia ter sido esculpida em uma gigantesca rocha. Era cheia de cavernas, pedras que serviam de rampas, escadas esculpidas que levavam a partes superiores, totens, bandeiras tribais. Nada disso era uniforme, dando uma aparência muito mais natural, como se aquilo tudo fosse resultado de anos e anos de erosão.
–Hrfhs!
–Hein?
Thugles voltou-se, assustado, para a figura curvada que o encarava. Era um homem escuro, coberto por uma bata amarela e um colar feito de penas de pássaro. Não parecia muito amigável. Ele riu.
–Você me parece um viajante, garoto. E eu preciso de materiais pra construir a minha casa, você poderia me ajudar?
–Ah... Oba, uma quest! Bem, sim, o que preciso fazer?
–Estou precisando de uns materiais. Galhos de árvore e pedaços de lenha, se você puder me arranjar 25 de cada...
–Eu tenho, toma!
–Beleza! — o homem deu uma risada e aceitou os itens, concedendo a Thugçes um pouco de Experiência — Vou poder construí-la agora, mas sabe... Eu precisava de um telhado. Você não teria trinta Folhas pra me arranjar?
–Bem... Tenho 23 — o rapaz disse, mexendo no menu desapontado — Peraí, Vampy... Vampy Vampy Vampy! Cê ainda tem aquelas folhas de antes?
–Tenho sim, por quê?
–Ótimo, preciso de sete pra uma quest, me dá!
–Vamos logo — Davien gritou ao vê-los, de uma escada um pouco longe dali — Thug, depois você faz as quests, vamos embora!
–Ah, deixa de bobeira, o caminho do guerreiro deve ser solitário e feito por um homem só!
Mas ele decidiu-se por esperar o amigo. Eles precisavam conhecer o chefe Balrog, o rapaz pensou. Nenhum NPC era como aquele... De qualquer forma, Thugles acabara as quests e fora correndo em direção a Davien.
–Mostrem respeito — recomendou, ao chegarem na entrada da caverna onde ele morava. Vampiritico pareceu não entender.
–Como é, você, conheceu um NPC que exige seu respeito? Esse eu quero conhecer!
Sem cerimônia, ele atravessou a cobertura de pano que era só o que protegia a entrada quadrada da caverna onde o chefe Balrog morava. Por sorte, ela estava vazia de outros jogadores.
O lugar era bem legal de se estar. Grande e espaçoso, com um pequeno arsenal com algumas espadas, machados e alabardas em um canto perto da entrada. Alguns escudos e peças de armadura encontravam-se encostadas por perto, mas esse era o único móvel. Além disso, só o que havia era uma fogueira acesa perto da parede oposta à entrada.
Para Thugles, Nick e Vampiritico, que esperavam ver um imponente guerreiro vestido numa armadura reluzente e uma espada tão larga que nem passaria na porta, o que viram foi um imenso choque. Sentado ao calor da fogueira em posição de agura, estava o homem mais velho que já haviam visto no jogo. Thugles e Nick conheciam Grendel, mas este tinha o corpo coberto por uma túnica, e uma barba que suavizava quaisquer traços de velhice que pudessem haver em seu rosto. O chefe Balrog, entretanto, era diferente. Pequeno e franzino, pele morena constrastando contra o grandioso cocar de penas brancas que era quase do tamanho dele, parecia ser apenas pele e osso, e seu rosto não tinha um fio de barba, salientando bem os malares ossudos e acidentados. Aquele sim, era um homem velho. E passava bem longe da imagem que as pessoas tinham de "Grande guerreiro" ou "NPC que o Davien respeita"
–O senhor queria me ver, chefe? — Davien aproximou-se dele cuidadosamente, e fez sinal para os amigos o seguirem. O homem abriu os olhos e olhou para ele.
–Ah, Davien, sim, sente-se, por favor. Quanto a vocês... Suponho que não estão aqui para aprender a ser guerreiros, não é?
–Não, viemos aqui porque o Davien disse que o senhor é foda.
Foi como se um tatu estivesse mastigando o dedão do rapaz, mas o homem apenas sorriu.
–Disse, eh? Isso é ótimo. Eu esperava que as pessoas espalhassem que sou um velho raquítico e acabado, fico feliz de ver que você não pensa assim.
Ele deu tapinhas amigáveis no ombro do rapaz, que sorriu sem jeito.
–Então, não vai me apresentar aos seus amigos?
–Ah sim, desculpe, hã... Esses são Thugles, Nick e Tássio, mas a gente chama ele de Vampiritico — ele disse apontando um a um à medida que citava seus nomes — E esse, como eu já disse, é o chefe Balrog.
–O senhor tem um cocar lindão — Thugles observou. O homem assentiu.
–É uma maravilha, não é? É leve e não incomoda, e eu sempre gostei dele. Afinal, não seria bom se eu usasse só essa tanguinha aqui.
Ele se levantou, exibindo a pequena peça de tecido marrom que era tudo o que ele usava. Thugles e Vampiritico se entreolharam com um misto de diversão e incredulidade. O chefe sentou-se novamente.
–Bem, Davien, como você disse, sim, eu chamei você aqui. Você anda treinando bastante, como imagino?
–Todos os dias, senhor. Estava matando uns Drakes com meus amigos antes do senhor me chamar.
–E antes de um cara vendado aparecer e humilhar ele numa luta — Thugles acrescentou — Com a derrota a gente ainda teve que pagar cem mil mesos.
Davien arregalou os olhos, controlando-se para não pular em cima do amigo. Mas o chefe Balrog apenas assentiu, tranquilo.
–A derrota faz parte da vida de um guerreiro, é algo tão natural quanto uma flor nascendo no meio da grama. Quando você reconhece que perdeu e aceita a vitória do adversário, isso é humildade.
–Bom, não acho que ele tenha aceitado bem a derrota — Thugles contou rindo — Mas também não pulou em cima do cara, então ele se controlou bem.
–Isso é excelente. Deve-se guardar a derrota o suficiente para lembrar de seu adversário, mas deve aceitar que foi uma vitória limpa enão guardar nenhum rancor. Por que está com essa cara? — ele disse repentinamente virando-se para Davien, que sacudiu a cabeça.
–Agora, sem mais delongas, eu te chamei aqui porque acho que você já está pronto para seguir em frente. Está na hora de você aprender novas habilidades.
Nick e Vampiritico fizeram um grande "Ooooooh!!!", ao passo que Davien pareceu se empertigar.
–Se o senhor acha isso, não vou reclamar — disse, e o chefe Balrog deu uma risadinha.
–Ah, acredito que esteja mais do que pronto. Como não gosto de adiantar muito, vou logo lhe adiantando. Você precisa passar por um pequeno teste, uma provação para garantir que você está mesmo apto para seguir.
–E que teste seria esse?
–Isso você terá que descobrir com o segundo Instrutor de Guerreiros. Ele lhe dirá tudo o que você precisa fazer. Você pode falar com ele aqui nos arredores do Perion.
–E a gente pode ajudar? — Thugles perguntou delicadamente, embora achasse que já sabia a resposta. Para sua surpresa, o homem inclinou a cabeça levemente.
–Bem, por que não? Um guerreiro não precisa estar sozinho. É sempre bom contar com um grupo de aliados, e mais ainda, três amigos — ele disse com seriedade — Apesar de que o teste é algo que ele vai ter que fazer sozinho. Seus amigos não poderão acompanhá-lo depois que você encontrar o Instrutor de Gatunos.
–E onde ele fica, exatamente? — Davien quis saber, ansioso para partir. O chefe Balrog deu um sorriso.
–É um Instrutor de Guerreiros, que vai lhe aplicar um teste para desafiar sua capacidade. Onde mais ele poderia ficar?
–No caminho pra Selva do Sono — Nick deduziu. O chefe o encarou e sorriu novamente.
–Foi uma resposta simples a uma pergunta fácil — disse em tom poético — Mas não vejo motivos para não lhe dizer que Grendel deve estar orgulhoso de ter um aluno como você.
Nick assentiu sem jeito. Thugles ergueu as sombranchelhas.
–Ei, e eu?
–Bom, você não tem medo de falar nem de ser sincero contando a derrota de seu amigo — ele deu de ombros — E olhando pra você... Posso dizer que sei que vai escolher o caminho da magia verde.
Ele sorria enigmático, mas Thugles não entendeu bem o que ele quis dizer.
–Mais uma coisa — ele disse para Davien — Um conselho antes de partir... É bom visitar a loja de poções antes de pensar em pegar a estrada. O caminho é meio perigoso, mas o teste em si... Não seria um teste meu se fosse fácil demais, não é?
–Não, senhor — Davien assentiu, sabendo que deveria esperar por algo bem difícil.
–Você tinha razão, esse cara é demais! — Nick disse quando saíram da caverna — Vocês viram, eu nem disse que era mago, e mesmo assim ele já sabia...
–Dââ, você tá usando roupões de mago, e obviamente ele é um NPC que pode ver qual classe você é!
–Eu sei, mas Thugles, mesmo assim, ele é...
–Diferente — Davien assentiu com orgulho — Eu disse pra vocês, ele não é como os NPCs que encontramos por aí. E teve uma vez, antes de ele me admitir como guerreiro, que eu tinha certeza que ele sabia...
–Que isso é um jogo? — Vampiritico adivinhou, e Davien olhou pra ele surpreso — Pois é,o Lorde Negro também. Talvez tenha sido só uma impressão, mas parecia.
–Grendel também — Thugles comentou, franzindo a testa — Peraí... Será que todos os instrutores sabem?
–Se o de Gatunos sabe, não vejo por que o professor do Sheddeer não saberia — resmungou Davien — Mas eu não tô muito a fim de pensar sobre isso. Vocês vão comigo até o Instrutor?
–Ah, vamos sim. Alguém tem que garantir que você não aposte mais cem mil mesos em uma batalha por aí, não é?
Thugles riu quando a frase obteve o efeito que desejava.
Eles ainda pararam na loja de poções para comprar umas Brancas pra Davien e umas Laranjas para os outros. Nick e Thugles pensaram em comprar algumas que recarregassem MP, mas a loja só tinha a Azul, que restaurava uma quantidade muito pequena. Além disso, eles não podiam gastar muito, dada a situação em que estavam.
A estrada para a Selva do Sono era um caminho bem óbvio. A placa era de madeira desgastada, como se tivesse sido colocada ali há milênios. Nos primeiros trechos da caminhada, ela era como qualquer outra, mas depois, o chão começava a ficar negro, como magma resfriado. Era como se a rocha tivesse sido queimada.
Além disso, não havia nenhum outro jogador por ali, o que aumentava a impressão de perigo e criava um clima um tanto tenso sobre eles. Davien ia na frente, a foice preparada, mas os três logo começavam a se questionar o real motivo de estarem acompanhando o rapaz, sendo que ele era seis níveis mais alto que Vampiritico.
–Acho que vou voltar — o rapaz falou — Sei lá... Por que a gente teve que vir aqui mesmo?
–Bem, porque... — ele ficou rígido. Alguma coisa corria em sua direção, saindo de uma curva adiante. Mas ele não teve trabalho para acabar com o animal.
–Um javali — disse — É melhor terem cuidado por aqui.
Vampiritico resmungou.
–Não me diga.
O grupo seguiu em frente, com os três encolhidos muiro próximos uns dos outros, temendo um ataque. E logo em seguida, ele surgiu.
Uma horda maçica de javalis pareceu vir do nada, correndo, sanguinários, na direção dos quatro amigos. Davien já tinha a foice preparada, Thugles e Nick já conjuravam a Proteção Arcana. E Vampiritico usava Visão Noturna, uma habilidade que permitia que ele se camuflasse.
–Viadões — Davien olhou pros três amigos que pareciam tremer de medo — Não se preocupem, é rapidinho.
Os javalis se aproximavam... Mas dessa vez, havia algo diferente.
Alguns deles eram cinzentos, roliços e com duas presas brancas brilhantes projetando-se para fora da boca e para cima, como o que ele vira antes. Entretanto, havia um outro tipo diferente ali. Presas um pouco menores, corpo menos roliço, o vermelho substituindo o cinza. E a parte que mais chamava a atenção: as chamas, que cobriam todo o corpo do animal.
Davien atacou o primeiro grupo com um só golpe, mas matou apenas Javalis comuns. Os outros sobreviveram ao primeiro golpe e puseram-se a atacá-lo, numa série de investidas e cabeçadas que obrigaram-no a recuar. Seu HP descia rápido, nada alarmante, mas era perigoso...
Ele voltou a atacar, mas precisou de mais dois golpes para matar cada Javali de Fogo. Thugles e Nick também acrescentavam suas magias ao ataque, embora o dano delas fosse muito pequeno. Mas não importava o quanto matavam, mais monstros chegavam.
–Corram! — Davien gritou enquanto sua foice saltava de um lado a outro na tentativa de segurar os inimigos — Usem os pergaminhos!
Vampiritico não hesitou — no momento seguinte, já tinha desaparecido. Mas Nick e Thugles continuavam no local.
–Não dá, tem que esperar um pouco depois que a gente ataca!
–Ah, droga...
Uma horda ainda maior de javalis corria em direção a eles. E o pior, eles vinham de todas as direções. Estavam num ponto onde a estrada se alargava, e o caminho agora estava apenas marcado no chão como uma rua. Mas os monstros vinham de todas as direções.
Sem opções, os dois amigos juntaram suas forças ao combate.
Davien conseguia evitar ser atingido, pelo tamanho de sua foice e pelo dano que causava, mas Thugles e Nick precisavam se movimentar bastante. E isso fazia o rapaz ter que rodear o local para matar os javalis que tentavam atacá-los. Se estivesse sozinho, teria que focar apenas na própria defesa, e suas chances de vencer seriam maiores. Do jeito que estava, ele tinha que defender a si próprio e os dois amigos que, apesar de estarem atacando com o máximo de empenho que podiam, não ajudavam muito.
Foram dez minutos de luta, poções bebidas e cortes mortais com a foice, mas finalmente a situação foi controlada. Embora os javalis continuassem chegando. Davien virou-se para os dois.
–Corram pra longe daqui. Usem os pergaminhos enquanto eu os distraio!
–Cara, você vai morrer! Eles vão...
–Por favor! — ele gritou com urgência — E você acha que o chefe Balrog teria me mandado aqui se eu não fosse aguentar?
–Ele tem razão, a gente só vai atrapalhar — Nick falou para o amigo, puxando-o — Vamos, a gente ajuda mais estando em Perion!
Ele e Thugles então correram para um ponto onde não vinham Javalis, alguns os viram, mas o "cooldown" do ataque passou e eles desapareceram no ar. Davien sorriu para si mesmo.
–Agora sim — ele disse para os Javalis — Podem vir, vamos ver do que vocês são capazes!
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