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4 Chapter Three ― Coração de uma Guerra
Notas iniciais
Chapter Three
Coração de uma Guerra.

Como disse anteriormente, parei de procurar Jack e Elsa. Não acreditava que podiam voltar, para mim o que vi entre eles foi uma coincidência.
Depois de encontra-los na França, eu nunca mais os vi. Pelo menos não por um longo tempo.
NOTA:
Uma era inteira da humanidade se passou.
Bem eu não gosto de ser estraga prazeres, mas todos morreram, no fim. Entretanto, é um ciclo. Humanos nascem humanos morrem. Assim como a humanidade vai, ela retorna.
E nessa nova era na Terra voltaram mais imundos que antes. Já estávamos no século XX da segunda era quando houve a segunda batalha. Batizaram-na carinhosamente como a Grande Guerra Mundial. E foi enquanto praguejava e odiava os humanos medíocres nos campos de batalha que para meu espanto e desespero encontrei Jack.
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Stalingrado, Rússia ― Século XX (1942).
Um homem estava escondido atrás de um pequeno monte de terra firme segurando com força uma arma comprida e negra. Suas vestes de um intenso verde musgo estavam amarrotadas, sujas, e exibindo pequenos buracos. O capacete verde escuro estava coberto de poeira sobre sua cabeça.
Do lado esquerdo no antebraço, um símbolo preto refletia em contraste com o pano vermelho que estava pintado. A cruz nazista refletia majestosa em seu braço, apesar do rapaz não parecer contente com isso.
Seu rosto, banhado por suor, estava sujo de preto por toda parte e o semblante derrotado, cansado, estragara a beleza que outrora o belo jovem possuía.
E seus olhos... Ah aqueles olhos azuis refletiam todos os tipos de sentimentos. Tristeza, compaixão, saudade, arrependimento, confusão... Medo.
Jack era alemão dessa vez. E estava em um campo de batalha, no meio de uma guerra lutando ao lado daqueles em que adiante a humanidade odiaria com todas as forças. Jack era nazista. Mas não um nazista comum. A cada tiro que saía de sua arma de fogo, um pedido de desculpas martelava seu coração.
A culpa que o rapaz carregava estava cravada em sua arma, que servia para matar vários soldados do outros países, que sequer conhecia, mas fora obrigado a odiar. Carregava sua Carabina como se pesasse o dobro de seu peso.
Eu olhava-o com pesar vendo-o ter que por obrigação sujar as mãos de forma tão imunda matando seus iguais. Talvez eu devesse chorar por ele, mas não o fiz. Não o fiz, pois antes disso, Jack tirou de dentro de sua farda um colar em forma belíssima de um floco de neve.
Encarando aquela joia, que de longe, parecia um pedaço de estrela em meio ao mundaréu de explosões e balas perdidas, Jack pareceu se sentir em casa. Sua expressão se suavizou e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios finos, rachados.
Por um breve instante, que mais pareceu uma eternidade, o rapaz loiro sentiu paz. Na sua mente e em seu coração. Parecendo perdido no tempo, mal percebeu quando o rapaz que estava ao seu lado, levou um tiro no peito, jazendo no chão duro.
Agradeci aos céus, por nem mesmo a morte de um companheiro interromper o momento de Jack. Qualquer um o chamaria de egoísta, mas não saberia certamente o que o rapaz estava passando naquele momento.
Eu tomei suas dores, seus amores, sentimentos mais profundos enquanto o rapaz chorava silenciosamente, no meio do inferno em que estava. Senti sua culpa gutural romper toda sua base, e sua consciência, por um segundo vacilar.
Ele estava perdido. Perdera-se entre o sentimento repulsivo que os humanos de sua era criaram, por pura disputa de poder. Um sentimento forte cresceu em mim, algo como rancor e ódio. Algo que nunca pensei que pudesse sentir, sendo um espectro.
Mas era vivo, e tão real, que até mesmo eu vacilei. Olhei para Jack, que já havia parado as lágrimas, mas não as secara. Os olhos azuis estavam ainda mais claros e levemente vermelhos. Mas ele, contraditoriamente, ainda sorria.
Beijando levemente o curioso material de prata, ele apertou os olhos e juntou as duas mãos no peito ignorando os gritos e explosões a sua volta. Suas ultimas palavras antes de sair detrás do forte que o protegia da maldade humana foram pura e simplesmente:
Ich Liebe dich, Elsa.
Eu te amo, Elsa.
Naquele momento senti algo inexplicável. Nem o pobre menino holandês, muito menos o adoravelmente metido francês, me foram tão comoventes como aquele alemão.
Ele sorriu triste e saiu correndo atirando em todos aqueles que se opunham ao grande miserável que o comandava. A cada tiro um pedido de desculpa. A cada grito uma lágrima.
A cada morte um coração partido.
E o meu se fora assim que o tiro não saiu de Jack, mas foi em sua direção. Jack fora atingido no peito em cheio e dessa vez o grito... A lágrima... E o coração partido foram de Jack, que agora jazia no chão duro e empoeirado com os olhos semicerrados.
O pedido de desculpas também veio de Jack. Em suas mãos estava novamente o colar de prata reluzente, o floco de neve magnífico, impotente. E dali soube que outra promessa fora feita. O “prometo que vou voltar” fora novamente dito. E seria novamente descumprido.
Jack alemão prometera a sua Elsa que voltaria. Assim como o pequeno holandês, que morreu também escravo da crueldade de sua própria espécie. Não voltara para a holandesa dos campos de tulipas. E agora, não voltaria para sua alemã.
Enquanto Jack era socorrido por outros soldados eu saí em busca de Elsa. Não queria saber como, mas iria contar a ela. Eu daria um jeito de avisá-la mesmo que não fosse permitido, mesmo que não tivesse solução.
Não foi muito difícil de acha-la na verdade. Estava em uma enorme casa, cercada por um extenso jardim de rosas de todas as cores. Sentada rente a sacada de seu quarto, olhando para o horizonte.
Usava um longo vestido azul escuro, que marcava sua cintura fina com uma fita de cetim preto. O cabelo platinado preso em um coque formal e os olhos azuis aflitos.
Em sua mão o mesmo colar que outrora Jack segurava. Não consegui fazer com que ela me visse. Talvez porque era algo não permitido seres cósmicos terem contatos com seres humanos.
Então tudo que pude fazer foi olhá-la. O que sempre fiz. Pela primeira vez em toda minha eternidade, me senti impotente. Não consegui sequer manda-la um sinal, para que não mais esperasse Jack, pois o mesmo a deixara, outra vez.
Assim os dias se passaram... E nenhuma notícia de Jack. A loira chorava todas as noites e ao dia também às vezes.
Sozinha por um longo tempo naquela casa antiga e cheia de fotos suas com Jack feliz. Apenas eu e ela. Por mais que minha presença ali fosse indiferente à ela.
Até que um dia três batidas na porta oca de madeira foram ouvidas. Elsa que estava deitada em sua enorme cama no lado que outrora Jack dormia, saiu correndo para abri-la.
Desci em terra para acompanha-la de perto na noticia tão trágica que achava estar por vir. Entretanto eu estava errada. Assim que a loira abriu a porta, deparou-se com um homem de cabelos extremamente loiros quase brancos.
Os olhos azuis brilhavam marejados enquanto a encarava. Aquele era Jack. Em suas mãos... O pingente meio torto e sujo que outrora fora seu belo colar de prata. Não conseguindo mais aguentar a dor da saudade, abraçou-a como se a qualquer momento ela fosse se dissolver em seus braços e sumir de sua visão.
Elsa chorava compulsivamente apertando os braços firmes em volta de Jack à saudade martelando em seu peito. E então ambos se beijaram. Forte e ardentemente.
Necessitados. Beijaram-se com paixão, saudade... Tudo junto e misturado. Jack pegou-a no colo e levou-a para o quarto.
Eu te amo foram as ultimas palavras pronunciadas antes de matarem a saudade e consumarem o amor da forma mais profunda que os humanos conseguiam.
Voltei para meu lugar no Cosmo. Deixando meu posto de observadora dei lugar e privacidade aos dois amantes alemães separados pela imundice de sua espécie. Mas ao todo eu estava feliz.
Jack Arktis M ü ller o alemão, cumprira a promessa que Jack Van der Vorst não conseguiu cumprir. E mesmo inconscientemente Elsa estava agradecida por ele ter o feito. Afinal, ela passara uma eternidade esperando que ele finalmente a cumprisse.
Assim como eu.
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