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17 Chapter Thirteen ― Orgulho e Preconceito
Notas iniciais
Chapter Thirteen
Orgulho e Preconceito.

São muitos os defeitos dos humanos, mas nenhum de minha total compreensão, de fato. Quanto a seu temperamento, não respondo por eles. É, segundo creio, um pouco ríspido demais na maioria das vezes… Para a conveniência entre si. Não esqueço com facilidade tanto os disparates e vícios deles bem como não esqueço as ofensas que já os vi praticarem entre si. Seus sentimentos não se manifestam por qualquer coisa, a menos que sejam por causas ruins; neste caso, eles explodem.
Seu temperamento na minha opinião, poderia talvez ser classificado de vingativo, na maioria das vezes. Mas o problema disso, é que minha opinião, uma vez perdida, fica perdida para sempre.
Mas ora, quem sou eu, se não um ser invisível a olho nu, para julgá-los de forma que eu enxergo, levando minha visão como uma verdade absoluta. Não, não. Digo isto tudo, pois em minhas observações não consegui encontrar-me com um único ser humano que não possuísse uma, se não ambas das duas características que venho a lhes expor na história de hoje.
Velho a lhes apresentar uma história singela, tecida pelas linhas do destino de forma bela, tal como um conto de fadas digno de filmes. A história de Jack Leventis e Elsa Maniantis. Uma história do mais puro Orgulho e do Preconceito.
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Corona, Grécia ―Século XIX (1832).
Devo começar apresentando a vocês aquele quem encontrei primeiro. Cabelos castanhos claros, que sempre me remetiam à sua encarnação de camponês na Holanda. Os olhos porém, estavam azuis límpidos, naquele belo tom turmalina, expressivos. Vestia uma roupa formal, com uma bela capa na cor roxa que o deixava excepcionalmente charmoso, ao meu ponto de vista e acredito que ao de todas as outras garotas que tinham o prazer de apreciar sua imagem.
Ele estava sentado em uma grande poltrona, uma belíssima coroa de prata reluzia em sua cabeça... Jack era um príncipe. Exímio, por sinal. Sua mãe – que se espantem ou não era ninguém mesmo que nossa nada querida Elinor – governava o reino unido da Grécia, e tendo como Jack seu único herdeiro, desde pequeno o criara do lado de dentro dos portões de seu enorme castelo, impedindo que o jovem visse o mundo que havia por detrás daqueles blocos de tijolo e daquele jardim bem cuidado.
Ele passara vinte e um anos de sua vida trancado. Jamais vira sequer uma fotografia do mundo lá fora, o que sempre o instigara de forma absurda a apenas jogar suas obrigações como futuro herdeiro e apenas fugir da sua prisão particular.
Foi por esse motivo, que o jovem arquitetou um plano. Na noite da virada para o seu vigésimo segundo aniversário, ele esperaria que todos fossem dormir após a janta cerimonial.
Quando o relógio da torre do castelo desse suas doze badaladas marcando exatamente três horas da madrugada, ele fugiria do castelo por meio do gigantesco bosque que havia e escalaria a mais alta árvore posta ao lado do muro, a usando como escada para pular a única cela que o impedia de sua liberdade.
Como tradição, no dia de seu aniversário, sua mãe o deixava permanecer em seus aposentos até o fim da tarde sem ser incomodado, o livrando de todas as obrigações. A noite tinha o tradicional baile de aniversário onde todos os importantes representante dos reinos e até mesmo a alta burguesia compareceriam para desejar ao futuro herdeiro das terras gregas um feliz e próspero aniversário.
Desse modo, a única preocupação que ele teria, era a de ser reconhecido por alguém. Pensando nisso, pediu a ajuda de um dos criados do castelo, Hiccup Maniantis, que também o ajudou a arquitetar um plano sem falhas. Hiccup sendo muito simples e vivendo com sua mãe e irmã em uma pequena casa no vilarejo da cidade de Corona, emprestaria para o príncipe suas roupas de camponês, e até o próprio sobrenome para que Jack não fosse pego pela guarda real.
Quando o jantar cerimonial no dia antecedente ao seu aniversário terminou, Jack esperou que todos do castelo dormissem e foi até a cozinha, roupando algumas frutas e pães para passar a tarde sem ter que comprar nada, gerando suspeitas pelo ouro que teria de carregar.
E então, seguiu para seu quarto, mantendo-se acordado em total ansiedade, esperando as badaladas da madrugada. Não tardou muito a ouvir os sons do sino, e então pôs-se a correr ainda que de forma silenciosa para o bosque dentro do castelo.
Não tardou muito a achar a árvore que serviria como escada para o alcance de sua tão almejada liberdade, e então jogando a mochila – improvisada — com a comida em suas costas, e escalou rumo a seu destino.
Quando pode finalmente apreciar o vilarejo, se encantou com a beleza da cidade que no futuro governaria. Era muito simples de fato, mas não soube explicar algo o encheu de alegria ao avistar aquelas casas feitas de madeira e algumas tendas.
Mais à frente, pôde ver um lago meio congelado, devido ao frio que fazia naquela época – ainda bem que não se esquecera de pegar uma capa surrada de Hiccup antes de partir – e rodeando as aguas frias uma pequena floresta que ele pensou logo poder servir de um abrigo ao menos até o sol irradiar a cidade.
Correndo para lá, Jack adentrou sem pensar no meio das árvores e seguiu em linha reta, pretendendo não ir muito longe para que não se perdesse. Porém algo o impediu de continuar em linha reta. Uma voz suave e melodiosa se fez presente em seus ouvidos, o estagnando no lugar onde estava e o instigando a seguir o caminho que o levaria a dona de uma voz tão magnífica.
Contrariando todos seus instintos de sobrevivência, ele rumou em busca da melodia suave, chegando até o lago e avistando uma jovem sentada bem próxima as margens da agua gélida. Sentada sobre as folhas, ela fazia desenhos sobre a superfície endurecida pelo frio enquanto cantava em sua língua-mãe uma antiga canção que ele conhecia bem:
― Kai xechnó, ta xechnó, gínomai éna me ton ouranó... (E esquecer, esquecer, eu me torno um com o céu...) Kai xechnó, ta xechnó, to dákry synkrató (E esquecer, esquecer a espera lágrima) Eímai edó, eléftheri, (Aqui eu sou livre), as pagósei i gi (vamos congelar a Terra) to krýo ti kardiá mou den tin enochleí... (O frio não incomoda meu coração) ― Ela cantava baixinho, e Jack se sentia hipnotizado.
Na tentativa de se aproximar mais para ouvir melhor o que ela cantava ele cometeu um pequeno deslize, escorregando pelas folhas úmidas da árvore em que se apoiava e acabando por chamar a atenção da jovem, que logo se assustou com o movimento repentino.
Jack sentiu um objeto cortante atravessar o lado esquerdo de seu rosto cortando sua bochecha e parando firme na árvore que havia atrás de si. Apavorado olhou para frente vendo a jovem com um arco nas mãos já preparada com outra flecha, mirando-a bem no meio de sua testa, pronta pra matar o intruso noturno.
Ela o encarava com os olhos apertados e uma expressão firme, pronta para mata-lo por um mínimo movimento, sem pestanejar. O príncipe engoliu em seco.
― Quem és tu? ― perguntou séria, dando um passo em sua direção. Ele engoliu em seco.
― Jack... ― sussurrou sentindo suas pernas tremerem. As pessoas do lado de fora do castelo eram tão agressivas assim?
― O que te traz aqui, Jack? ― perguntou dando mais um passo na direção dele, mirando a flecha no peito.
― Ti foní sas. ― respondeu sincero, até assustando-a um pouco.
― O que disse?
― Tua voz. ― repetiu levando a mão esquerda de forma calma e lenta até sua bochecha, sentindo um líquido quente escorrer por entre seus dedos. A flecha que ela atirara fizera um belo de um corte me seu rosto. Seu primeiro machucado, que honra. ― Eu procurava abrigo do frio aqui por perto, quando ouvi-te cantar aquela canção. Então segui a melodia, encontrando-te aqui.
Ela afrouxou um pouco o aperto em volta do arco e flecha, mas ainda assim não o tirou da mira dele.
― E porque tu ficastes à espreita me espiando, Jack? Pretendias atacar-me? ― Perguntou acusando-o.
― Den! ― Disse apressado, para não levantar mais suspeitas. ― Não, de maneira alguma. Apenas não queria te assustar. Cantavas de forma tão bela, não queria interromper-te.
Ela o olhou desconfiada, mas deu um suspiro e finalmente abaixou aquela arma. Jogou-a sobre os ombros e seguiu na direção dele, analisando-o e quando estava bem próxima o encarou fundo nos olhos. O rapaz não movera um músculo apenas engoliu em seco. Ela estava bem perto ele conseguiu sentir um leve aroma vindo dela, provavelmente de seus cabelos platinados que estavam presos em uma trança bagunçada naquele momento.
Ela ergueu a mão até a flecha enfiada na árvore – a causadora do primeiro corte dele – e a puxou com força, arrancando-a da madeira. Enfiou na mochila e se afastou um pouco botando as mãos na cintura, olhando-o de cima a baixo.
― Diga-me, Jack... O que fazes na floresta tão tarde da noite? Aliás, o que fazes aqui? Nunca te vi antes, e olhe que conheço este lugar como as palmas de minhas mãos.
Ele pigarreou desencostando-se da árvore e ajeitando suas vestes. Olhou nos olhos azuis dela – que ele só notara a cor agora – e resolveu responder.
― Já lhe disse... Estou em busca de abrigo. Venho de uma cidade bem, bem distante. É a minha primeira vez aqui, estou perdido.
Ela suspirou e olhou para os lados.
― É, você não parece estar mentindo. Venha comigo, sei de um lugar que podemos passar o resto da noite sem morrermos congelados.
Ele se alegrou bastante com o convite e soltou um sorriso enorme para ela que retribuiu com uma careta.
― Qualquer gracinha e minhas flechas vão parar no meio de sua testa.
Ela disse com tanta convicção que ele não ousou duvidar. E então, ele a seguiu floresta a dentro, se sentindo estranhamente confortável com na companhia daquela moça.
É claro que não preciso dizer a vocês quem ela era. Elsa e Jack se encontraram como as outras vezes. Sempre se encontrariam.
Ela o guiou até o outro lado do rio, onde começava uma série de montanhas rochosas que circundavam todo o reino. No meio dos amontoados de pedra, uma pequena e quase imperceptível caverna se escondia não muito longe do chão.
Escalando algumas rochas eles alcançaram o refúgio e lá subiram. Jack observou que uma pequena fogueira já quase apagada fazia um pouco de luz no fundo da caverna que mais parecia uma tentativa falha de uma casa.
Alguns farrapos de pano estavam estirados no chão, dois para ser mais precisa. Um do lado do outro. No fundo, perto da lareira tinha uma cuia que Jack supôs ser uma panela improvisada.
Ele olhou para a loira. Ela sorriu e esticou os braços rodopiando em torno de si.
― Seja bem-vindo, á minha humilde residência. ― Brincou jogando-se no pano estirado e se aconchegando. Jack a olhou indignado. Ela morava naquele lugar? ― Tá olhando o quê, esquisitão? Essa cama é minha. Se quiser fique com a do meu irmão, essa aqui do lado.
Brincou, mas Jack não riu. Ainda a olhava estupefato.
― Como consegue morar... aqui? ― Perguntou sentando-se na “cama” do irmão dela. Ela sentou para ficar mais próxima dele. Suspirou, sorrindo triste.
― Não é como se eu tivesse escolha. Não temos lugar para ficar, e aqui é o único lugar onde a neve não cobre no inverno. Mas você se acostuma, sabe?
Ela sorriu para ele e tirou a capa marrom e esfarrapada que cobria seu corpo. O moreno parou para observá-la melhor. Cabelos longos e loiros, quase brancos presos em uma trança ao lado do corpo. Alguns galhos estavam presos nos fios, mas ele não parecia ao todo sujo embora estivessem um tanto desgrenhados.
Os olhos eram muito azuis, quase tanto quanto os seus próprios. Mas possuíam um brilho misterioso que ele não soube distinguir. Aqueles olhos o instigavam...
Ela usava um vestido branco e longo, mas que muito provavelmente era velho, pois tinha diversas manchas e alguns rasgos na barra. Ela colocou seu arco e flecha ao lado da cama e se jogou ao lado dele o fitando.
― Ah! Esqueci de me apresentar. ― Ela estendeu a mão para ele. ― Meu nome é Elsa.
Ele sorriu e apertou sua mão.
― É um prazer, Elsa.
Definitivamente, era um prazer.
― Então, Elsa... Como você veio parar aqui?
Ele não queria ser invasivo, embora soubesse que aquela era uma pergunta um tanto íntima. Mas ela não pareceu se incomodar, pois suspirou e se virou para ele, deitada.
― Meus pais sempre foram muito pobres. Morávamos na vila quando eu era pequena e passávamos por muitas dificuldades. O rei sempre foi muito bondoso quando em vida, e sempre nos ajudou, permitindo que deixássemos de pagar impostos e em troca trabalhássemos no campo, onde teríamos comida. ― ela olhou para o teto, como se recordasse daquele tempo. ― De qualquer forma, quando ele morreu, as coisas só pioraram. Aquela bruxa da Elinor nos tirou o emprego e ordenou que pagássemos impostos, mas sem trabalho tivemos que dar a ela nossa casa.
Jack ouvia tudo atentamente. Não se importara por ela ter chamado sua mãe de bruxa, pois concordava que a atitude de Elinor fora desprezível. Mal acreditava na maldade de sua mãe.
― As coisas se tornaram impossíveis quando meu irmão nasceu. Sem casa, sem emprego, sem comida, sem esperanças. E então um dia ouvimos uma história de que a rainha estava contratando novos empregados e meus pais viram no meu irmão a esperança que há muito não tínhamos. Então eles o mandaram para trabalhar no castelo e nos sustentar. Ele fez o que pode mas não foi o suficiente para que conseguíssemos nos alimentar de verdade. Então meus pais decidiram sair para caçar. Me ensinaram a manusear o arco e flechas então eu pude ajudar em algo. Mas um dia tentamos pegar um coiote e... As coisas deram errado. Meu pai foi atacado e minha mãe caiu sobre pedras quando tentou salvá-lo. Morreram e eu não pude fazer nada. Desde então sou só eu e meu irmão.
Jack quis dizer alguma coisa mas nada saía de seus lábios. Ele tivera uma vida tão fácil e plena que não conhecia outra realidade. Especialmente uma realidade tão sofrida como a dela.
― Eu... Eu sinto muito. ― conseguiu dizer apenas, tentando confortá-la. Ela deu de ombros.
― Está tudo bem. Não dói mais tanto quanto antes. Enfim. ― ela sorriu, passando a mão sobre os cabelos desgrenhados. ― E você, Jack? Conte-me tua história.
O rapaz gelou. Seria muito indelicado se negar a contar sua vida depois de ela lhe falar a dela tão abertamente. Mas não poderia contar a verdade. Sua mãe fora a principal causa do sofrimento dela, e ela não o perdoaria. Teria de pensar em uma mentira, e rápido.
― Bem... Eu venho de... Athena... ― ela soltou uma exclamação admirada. Ele se sentiu horrível por mentir.
― Uau! Tu vens da capital! Como é lá? ― ela estava muito animada.
― Erm... Sim. Lá é... Bem, tem um castelo, bem grande... E um Rei... E uma vila.
― Tem certeza que é de Athena que está falando? ― ela riu com a coincidência. Mas ele não falava mesmo de Athena, mesmo.
― Bem... Morava na vila de lá, meu pai também é um camponês. ― a cada segundo ele se sentia mais terrível por estar mentindo para ela que foi tão sincera com ele.
― E o que te trouxe aqui, Jack?
― A liberdade. ― ele não estava mentindo aqui. ― Queria ser livre. Conhecer o mundo fora daquele em que eu vivi a vida toda.
Ela balançou a cabeça para concordar, sorrindo.
― Sinto muito por ter se decepcionado. Aqui é igualzinho lá, pelo que me disse. Com exceção da rainha tirana, é claro. ― brincou rindo e o moreno sorriu sem graça. ― Qual é teu nome?
― Eu já te disse. ― ele comentou estranhando. Ela não havia dito seu nome há alguns segundos? ― É Jack.
― Não, não. Teu nome completo.
Jack engoliu em seco. Mais uma mentira.
― Maniantis. Jack Maniantis.
Ela arregalou os olhos de leve. De repente os olhos azuis escureceram, e ela crispou os lábios, mas tudo aconteceu tão rápido que Jack mal conseguiu perceber.
― É um belo nome. ― sorriu como se nada tivesse acontecido. ― Bem, Jack Maniantis, acho melhor irmos dormir. Tão logo estaremos de pé.
Eles então se puseram a dormir, e tão logo o dia amanhecera já estavam de pé. Jack sentia uma incômoda dor nas costas por ter passado o resto da noite deitado naquele chão duro e gélido, e ainda se perguntava como a loira Elsa conseguia viver num lugar como aquele.
Ele tinha muitas perguntas para serem respondidas. Elsa disse que a manhã eles passariam caçando para comer, e ficou muito feliz quando soube que ele tinha comida. Ela comeu com gosto os pães e as frutas alegando nunca ter comido tão bem em sua vida.
Como agradecimento, ela disse que o levaria até o lago, onde o ensinaria um truque que ela aprendera quando mais nova. Jack, sempre muito fino – por mais que tentasse esconder isso dela para sua verdadeira identidade não ser descoberta – alegou que não precisava de agradecimentos. Mas ela insistiu tanto e sua curiosidade e vontade de passar mais tempo com ela o venceram, e ele a seguiu colina abaixo rumo ao lago onde haviam se encontrado.
Quando chegaram lá, ela retirou sua capa e o aconselhou a fazer o mesmo. Ele a obedeceu e se assustou ao vê-la retirar os sapatos também.
― O-o que está fazendo? ― perguntou. Ela sorriu de leve e delicadamente colocou os pés sobre o lago congelado.
― O que está fazendo?! ― Assustado, repetiu se aproximando na tentativa de fazê-la parar aquela loucura. ― O gelo está muito fino! Ele pode se quebrar!
Ela riu da preocupação dele, o que o fez cogitar a possibilidade de ela ser maluca.
― Não se preocupe. Está forte o suficiente para aguentar o que vamos fazer. Tire seus sapatos e venha também.
Ela deu mais alguns passos até que estivesse próxima a metade do lago. Ele encarou as águas cristalizadas com desconfiança e depois do que pareceram ser minutos, finalmente cedeu com um suspiro e retirou seus sapatos, caminhando hesitante e com cautela extrema até onde ela estava.
― Eísai trelós! ― ralhou quando a alcançou tentando se equilibrar sobre o gelo escorregadio. ― Você é maluca.
Ela riu alto e pegou nas duas mãos dele. Jack se sentiu ligeiramente envergonhado, mas apenas a olhou.
― Vamos escorregar. ― ela deu um enorme sorriso e começou a puxá-lo pelas mãos escorregando sobre o gelo.
― O-o que? ― ele olhava para o chão e para ela. ― Isso é seguro?
― Não sei. ― deu de ombros. ― Mas é divertido.
Ela o puxou fazendo alguns rodopios, como se dançasse. Jack ainda estava temeroso no início, mas ao notar a leveza nos movimentos dela, decidiu se soltar mais. E então, eles dançaram.
Escorregando no gelo, dançando. Ás vezes perdendo o equilíbrio, mas sempre com um sorriso enorme no rosto.
Impossível não se lembrar dos nossos Franceses, que patinaram no gelo sem saber que já haviam feito isso antes. Em outra vida...
Dançaram e escorregaram no gelo até escurecer. Ele adorara escorregar no gelo, prometeu a si mesmo que o faria sempre que pudesse dali em diante. Seu coração estava acelerado e ele soube que ali nasceria um sentimento intenso... E tinha quase certeza que seria correspondido.
E assim, a tarde se passou. Jack tivera de ir por mais que não quisesse, pois sabia que uma hora ou outra dariam falta de sua presença. Então disse a Elsa que iria morar na vila procurar um emprego e se estabelecer ali. Mas prometeu que sempre a visitaria.
E cumpriu a promessa. Todos os dias ele arranjava um jeito de escapar do castelo e se vestir de camponês, para encontrar Elsa no lago e passarem a tarde escorregando no gelo. Jack se sentia feliz como nunca esteve em toda sua vida. Foi assim por muito tempo e ele não a contou sobre sua verdadeira identidade, mas não pretendia o fazer. Ele sabia que ela estava apaixonada por ele, mas pelo camponês. Ela não o conhecia como príncipe e ele temia que tudo mudasse se ela soubesse que ele havia mentido por tanto tempo.
Um ano inteiro se passou. Jack se considerava o mais feliz de todo no reino.
Mas a felicidade durou pouco. Numa noite, estavam no gelo, escorregando juntos, como sempre. Em um movimento Elsa soltou-se de sua mão e deu uma pirueta e alguns passos se afastando dele até estar bem no meio do lago. O lugar exato onde a neve não congelara bem a água. E ela parou ali em cima. Olhou para ele, e ele a olhou de volta. Ela abriu os lábios, diria algo a ele. Algo que ele não pode ouvir pois tão logo o gelo trincou e o corpo de Elsa desceu sendo engolido pelas águas congelantes daquele lago.
Jack gritou o nome dela, e sem pensar se dirigiu para o buraco na superfície gelada que a tragou para baixo. Ele não poderia pular, pois não conseguiria salvá-la se o fizesse. Mas ele conseguia ver a sombra do corpo dela entre a agua e então agindo rápido pegou um galho retorcido semelhante a um cajado que havia ali por perto e o usou como gancho para puxar o corpo dela para fora da água.
Ela estava pálida e encharcada. E gelada, muito gelada. Jack segurou firme seu corpo que parecia tão frágil e com muito cuidado, saiu do lago, temendo que este se rompesse novamente. Ele se sentou no chão coberto de neve e colocou ela em seu colo, segurando seu rosto pálido com as mãos quentes.
― Elsa... Elsa por favor acorde. Elsa? ― ele esfregava as mãos sobre o rosto dela para aquecê-la. Pegou sua capa e jogou sobre o corpo dela, tentando a todo custo mantê-la longe da neve que caía espessa naquele momento.
Ela abriu os olhos de forma lenta e deu um sorriso fraco para ele. Seu corpo tremia inteiro e Jack sentiu seus olhos marejarem. Precisava salvá-la.
― N-não acredito que está c-chorando por uma d-desconhecida... ― ela sussurrou fracamente e de forma entrecortada devido ao intenso frio que sentia.
― Você não é uma desconhecida... Você é a Elsa. Por favor aguente firme. Vou te salvar. ― ele sentiu as lágrimas escorrerem lentamente em seu rosto. Ela apertou firme sua mão na dele e continuou sorrindo mesmo com seu corpo tremendo. ― Você está tão fria...
― E-está tudo b-bem, Jack... O f-frio não incomoda m-meu c-coração...― Ela passou a mão suavemente no rosto dele, limpando as lágrimas. ― N-não há nada que possa f-fazer... Eu n-não tenho m-muito tempo... E-então...
― Não diga isso! Você não vai morrer! Eu vou te salvar! ― ele chorava compulsivamente e fez menção de apertar a mão dela em seu rosto.
― V-você me lembra meu irmão... ― ela parecia reunir todas as suas forças para falar com ele. Era de se partir o coração. ― C-cuide de H-Hiccup para mim... Jack.
O loiro arregalou os olhos e a encarou. Hiccup... Seu amigo que o ajudara todo esse tempo... Era ele o irmão de Elsa?
― E-eu sempre soube q-quem você e-era... ― mas ela não estava com raiva por ele ter mentido. Ainda sorriu.
― Me perdoe... Me perdoe! ― ele implorou sem conter as lágrimas, que caiam do seu rosto sobre o rosto pálido de Elsa.
― E-está tudo b-bem... M-Maniantis é um s-sobrenome que c-combina mesmo com v-você... ― Ela deu uma risada fraca e secou algumas lágrimas dele. Sentiu que estava por um fio. Aquelas seriam suas últimas palavras... E ela não se arrependeria de tê-las dito.
― J-Jack... S 'agapó ― E sorriu, no seu último suspiro. ― Eu te amo.
Entremeio as lágrimas e soluços ele a abraçou com cuidado.
― Eu também te amo, Elsa.
Gostaria de dizer que não foi uma história trágica, mas infelizmente não posso. Esse foi o fim da história deles. Triste e dolorosa. Tal qual a dos nossos amantes Capuleto e Montecchio, que também tiveram seu fim de forma trágica. O fim de suas vidas, mas não o fim de seu amor.
Ouvi dizer de um conhecido da vida que em seu poema desenhou as seguintes palavras:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
Mas com a história desses dois amantes, eu não os condeno caso contrariem tal afirmação. O amor é uma ferida aberta, e que de fato dói.
A flor que a chuva lhe deixou
Fez um velho amor renascer
Mas aquele grande amor
Não podia ser
E a mesma chuva retornou
E a flor chorando carregou.
Assim, a história de alguém
Que amou a flor terminou
Porque onde a flor nasceu
Alguém morreu.
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