Manual para ser pedida em casamento
12 If you hold me without hurting me…
POV BELLA
Capri não pareceu tão bonita naquela madrugada, Talvez porque eu já não conseguia ver beleza sem sentir medo.
Ou porque, depois do que aconteceu no terraço, a ilha inteira tivesse mudado de textura. As luzes douradas continuavam acesas nas encostas, o mar seguia respirando lá embaixo com aquela calma enganosa, e o vento ainda carregava o cheiro de sal, limão e flores. Mas para mim tudo tinha ficado mais estreito, mais pesado, como se a noite tivesse decidido se fechar sobre o meu peito e me manter ali, presa entre o que eu queria e o que eu estava prestes a perder.
Eu estava sentada na varanda da suíte de Alice, abraçando os joelhos contra o peito, olhando para o escuro como se ele pudesse me devolver alguma resposta.
E ele não devolvia.
O pedido de Damon ainda ecoava dentro de mim, não como uma lembrança romântica, mas como uma ameaça, um erro enorme e bonito demais para ser ignorado.
Eu ainda conseguia ver o anel, conseguia ouvir a voz dele e conseguia sentir o peso daquele instante em que o terraço inteiro me olhou como se eu fosse a solução de uma equação que eu nunca concordei em resolver.
A pior parte não era o pedido, era a certeza no olhar dele e no tom. A certeza de que, no fundo, Damon tinha falado comigo como se eu já tivesse sido sua antes mesmo de dizer “sim”.
E eu não tinha dito sim.
Eu tinha dito: você é louco?
E, honestamente, era a coisa mais verdadeira que eu tinha conseguido dizer em semanas.
Meu celular vibrou sobre a mesinha ao lado da cadeira.
Alice.
Eu olhei para a tela por um segundo antes de atender.
— Bella? — a voz dela veio baixa, urgente, como se já soubesse que eu estava quebrada demais para conversa normal.
— Estou acordada.- suspirei.
— Eu imaginei.
Pelo fundo da linha eu ouvi um ruído leve, a respiração controlada de Rosalie, talvez mexendo em alguma coisa.
— Vem até o nosso quarto — Alice disse. — Agora.
Eu fechei os olhos.
— Isso nunca é bom.
— Não é mesmo — Rosalie respondeu ao fundo, e até isso soou cansado.
Eu levantei devagar, como se meu corpo estivesse feito de outra pessoa, e atravessei o corredor silencioso até o quarto de Alice.
A porta estava entreaberta e eu entrei.
Rosalie estava encostada perto da janela, braços cruzados sobre a barriga já visivelmente arredondada, expressão séria e cansada. Alice andava de um lado para o outro com um notebook aberto nas mãos e a energia afiada de quem estava a um segundo de explodir. Quando me viram, as duas pararam.
O silêncio entre nós era pesado , constrangedor e eu soube, antes mesmo de alguém falar, que aquela conversa não ia me fazer sentir melhor.
— Senta — Rosalie disse.
Obedeci.
Sentei na ponta da cama, com as mãos juntas no colo, tentando manter algum tipo de dignidade que já tinha sido arrancada de mim junto com a minha capacidade de respirar direito.
Alice fechou o notebook com força demais.
— Certo — ela disse. — Nós precisamos conversar.
— Isso costuma ser o começo das piores noites da minha vida.- Eu soltei uma risada fraca.
— E ainda assim você continua tendo noites piores — Rosalie murmurou.
— Bella, eu vou ser direta porque não consigo fingir leveza agora.- Alice me lançou um olhar rápido.
— Ótimo — eu murmurei. — Eu também não consigo.
— Você está há mais um mês em Capri.- Ela respirou fundo.— Você largou seu trabalho e praticamente desapareceu da sua vida.
Eu não respondi.
Silêncio.
— Alice...- Rosalie tentou conter as palavras da nossa amiga.
— Não, deixa eu terminar — ela cortou, caminhando até a cama e apoiando as mãos no colchão à minha frente. — Você deixou o seu pai, sua rotina, seu apartamento, sua realidade… tudo. E eu entendo por quê. Eu entendo. Mas isso aqui… — ela fez um gesto breve com o notebook na mão — …não pode virar o centro da sua vida só porque você está sentindo tudo ao mesmo tempo.
Meu estômago apertou.
Rosalie me observava em silêncio, mas havia alguma coisa de mais suave nos olhos dela.
Algo como compaixão e julgamento ao mesmo tempo. O pior tipo.
— Eu precisava respirar — murmurei.
— Tempo não é abandono — Rosalie disse, seca.
— Eu não abandonei ninguém.-Eu levantei os olhos.
— Não? — Alice arqueou uma sobrancelha. — Você sumiu em outro país com um homem que acabou de conhecer.
— Damon não é “um homem que eu acabei de conhecer”.- Aquilo me irritou.
Rosalie soltou um riso breve, sem humor.
— Isso é justamente o que me preocupa.- Alice se sentou ao meu lado na cama e voltou a abrir o notebook— Bella… nós encontramos coisas.
Meu coração afundou.
— Sobre o quê?
Ela hesitou.
Isso, vindo de Alice, já dizia tudo.
— Sobre Damon.
O ar no quarto ficou diferente.
Mais frio.
Mais pesado.
Eu senti a pele do meu braço arrepiar.
— O que vocês encontraram?
Alice virou a tela para mim.
A primeira imagem era uma matéria antiga, em italiano, com uma foto de Damon em um evento de gala, sorrindo para alguma revista como se o mundo inteiro tivesse sido feito para ele. Eu deslizei os olhos por cima da manchete, tentando entender o suficiente para perceber que não era uma boa notícia.
— Alice, eu não leio italiano tão rápido assim.
— Eu traduzi — ela disse.
E então começou.
Katherine.
Um nome que eu não conhecia, mas que Alice fez questão de me ensinar como se fosse uma sentença.
— Ela era uma mulher de Londres — Alice disse, a voz baixa, concentrada. — Engenheira. Inteligente. Linda. De acordo com as matérias, tinha acabado de sair de um relacionamento longo. Noivado de seis anos.
— E apareceu com Damon dois meses depois.-Rosalie cruzou os braços mais forte.
— E o que aconteceu com ela?- Meu peito apertou.
— Ela caiu.-Alice me olhou por cima da tela.
— Caiu?
— Do terraço do hotel.- completou.
O quarto ficou em silêncio.
— “Sem querer” — Rosalie completou, com desprezo. — Essa foi a versão oficial.
Meu estômago revirou.
— E ninguém investigou?
Alice soltou uma risada seca.
— Investigaram o suficiente para encerrar o caso antes de ele virar problema. A família Salvatore abafou tudo.
Eu senti a mão gelar.
— A família dele…
— Tem dinheiro — Rosalie disse. — Muito dinheiro. E influência suficiente para comprar silêncio em qualquer lugar.
Meu olhar voltou para a tela.
Outra foto.
Outra matéria.
Outro nome.
— Elena — Alice continuou, e dessa vez o tom dela endureceu. — Essa aqui foi pior.
Eu franzi a testa.
— Pior como?
— Elena namorava com Stefan.- Ela respirou fundo.
Meu peito apertou.
— O irmão dele?
— Sim — Alice respondeu. — Eles tinham uma relação longa, uns 8 anos. Mas aparentemente Damon entrou no meio depois que ela e Stefan começaram a se desentender.
Rosalie soltou um som baixo.
— Ela estava confusa, recém-saída de um relacionamento longo, emocionalmente fragilizada… exatamente o tipo de mulher que Damon parece escolher.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Escolher?
Alice deu um pequeno clique no touchpad.
Mais fotos.
Damon com Elena em um barco.
Damon com ela em uma festa.
Damon em Capri, sempre muito perto, sempre com aquele mesmo sorriso quase bonito demais para ser confiável.
— O problema — Alice disse — é que Elena desapareceu no mar.
— Como assim, “desapareceu”?
— Literalmente — Rosalie respondeu. — Um passeio de barco. Uma discussão. Stefan me disse que houve uma briga séria entre os irmãos. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu depois, mas ela sumiu.
Eu senti a garganta fechar.
— E acharam o corpo?
Alice desviou o olhar por um segundo.
— Não.
Aquilo me deu um arrepio muito mais forte do que o vento da varanda.
Rosalie voltou a falar, sem rodeios.
— E tem Katherine de novo. O mesmo padrão. Mulher confusa. Relação longa que tinha acabado de terminar. Apareceu morta diante do hotel, depois de “cair sem querer” do terraço.
O silêncio ficou insuportável.
Eu não sabia o que dizer.
Não sabia o que sentir.
Só sabia que, pela primeira vez desde que conheci Damon, a palavra “perfeito” começava a parecer uma máscara muito bem moldada.
Alice fechou o notebook devagar.
— O padrão é o mesmo, Bella. E isso é o que me assusta.
— Mulheres quebradas — Rosalie disse, a voz quase um sussurro. — Mulheres em transição. Mulheres confusas.
Ela inclinou a cabeça.
— Exatamente como você estava quando chegou aqui.
Aquilo me atravessou como uma lâmina e eu me levantei da cama num impulso.
— Não.- sussurei.
— Não o quê?- Alice me olhou.
— Não me digam que eu sou uma vítima qualquer num padrão de internet.- disse entre dentes.
— Ninguém está dizendo isso — ela respondeu rápido. — Mas você precisa enxergar o que eu estou vendo.
— E o que você está vendo?
Ela não hesitou.
— Que ele parece um príncipe encantado até você olhar direito.
Meu coração disparou.
— Alice…
— Bella, eu não estou brincando.
— Eu sei.
— Você conhece a família dele?- A pergunta me pegou de surpresa.
— Claro que eu conheço...
— Não conhece, não — Rosalie cortou.
Eu virei para ela.
— O que isso significa?
Alice respondeu primeiro:
— Significa que você conheceu a vitrine. Não a casa por trás dela.
Eu não consegui responder, porque, no fundo, ela estava certa e isso me dava um medo físico.
Porque tudo que eu queria era dizer que Damon estava sendo só romântico, só intenso, só… apaixonado. Mas, de repente, a palavra apaixonado parecia pequena demais para o que ele estava fazendo.
Alice colocou uma mão no meu braço.
— Bella… eu não estou dizendo que ele é culpado de tudo. Estou dizendo que você precisa abrir os olhos antes que ele transforme esse “amor” em uma coisa que você não consiga mais sair.
Eu olhei para baixo.
Para minhas mãos.
Para o chão.
Para qualquer coisa que não fosse a verdade.
Rosalie me observava com aquela expressão séria de quem sempre falava menos, mas quando falava acertava mais fundo.
— E tem mais — ela disse.
Eu ergui os olhos.
— Mais?
Ela assentiu.
— Ele age como se você já tivesse escolhido.
O quarto silenciou de novo e eu soube, naquele exato instante, que aquilo era a parte que realmente me assustava.
Não o anel.
Não o discurso.
Não a humilhação pública.
Mas a calma dele depois de tudo.
A forma como ele me olhava como se minha decisão já estivesse tomada, como se eu fosse uma peça que ele apenas precisava mover na direção certa.
Meu telefone vibrou sobre a cama.
Uma mensagem de Damon.
Bella mia, precisamos conversar. Non fare la fredda con me.
Não.
Não fazia frio.
Eu estava em pânico.
E talvez essa fosse a primeira vez que eu não consegui me convencer de que aquilo era apenas amor demais.
⸻
POV EDWARD
Eu encontrei Stefan no bar do hotel por acaso, OU talvez não por acaso.
Talvez Capri estivesse começando a devolver a todos nós exatamente o que merecíamos.
Emmett já estava rindo alto demais ao lado do balcão, um copo na mão e uma expressão satisfeita de quem já tinha decidido gostar do mundo, independentemente do que o mundo merecesse. Jasper o observava com a paciência de sempre, enquanto eu ficava em silêncio, rodando o copo de água entre os dedos sem realmente beber.
Quando Stefan se aproximou, eu soube que a conversa não seria leve.
Ele se sentou sem pedir licença.
— Você é o homem que deveria estar do outro lado da história — ele disse, olhando para mim com um tipo de cansaço controlado.
Eu ergui uma sobrancelha.
— E você é o irmão que decidiu me abordar no bar.
Um meio sorriso apareceu, quase involuntário.
— Eu ouvi o pedido.
— Difícil não ouvir.
Ele desviou o olhar por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Você sabe quem é meu sócio?- Eu franzi a testa.
— Aro Volturi.- A expressão de Stefan mudou só um pouco.
— Então você sabe que o mundo é menor do que parece.
— Mais ou menos — respondi.
Ele girou o copo entre os dedos, sem beber.
— Eu conheço Aro há anos.
Emmett ergueu as sobrancelhas do outro lado do balcão, claramente ouvindo tudo sem fingir discrição.
— Isso é um problema? — eu perguntei.
Stefan soltou uma risada breve.
— Depende de quem está perguntando.
Silêncio.
Ele então me olhou de forma mais direta e séria.
— Eu vou te dizer uma coisa que talvez você não queira ouvir.- suspirou
— Ótimo. Eu adoro más notícias.- brinquei
— Meu irmão tem um padrão.
Meu corpo inteiro ficou atento.
— Que padrão?
Stefan inclinou o rosto, o tom dele baixando.
— Para mulheres.- A palavra caiu como uma pedra.— Ele se envolve rápido. Faz tudo parecer intenso. Faz parecer verdadeiro. Faz parecer que a mulher da vez é a única coisa que já importou na vida dele.
Eu não respondi.
Porque estava ouvindo.
— E então ele… muda.
Meu maxilar travou.
— Muda como?
Stefan me olhou por um segundo longo demais.
— Ele não sabe perder.
O bar ficou mais silencioso em torno de nós, ou talvez fosse só a minha atenção se fechando em torno daquelas palavras.
— E quando ele percebe que a mulher não é mais dele… — ele continuou, — ele se torna outra pessoa.
Aquilo me percorreu pelas costas como um aviso.
— Isso é sobre Bella?
Stefan hesitou.
Só o suficiente para ser honesto.
— Isso é sobre toda mulher que ele decide que quer.
Emmett parou de sorrir no mesmo instante.
— Cara… isso ficou pesado.
— Emmett — Jasper chamou, baixo.
Stefan ignorou a interrupção.
— Elena tentou sair do lugar. Katherine tentou sair do lugar. Nenhuma delas saiu ilesa.
Meu peito apertou.
— Elena?
Stefan passou a mão pelos cabelos.
— Ela estava comigo. Relacionamento longo. Anos. Tinha acabado de terminar quando meu irmão resolveu achar que podia… oferecer um mundo melhor. Elena era confusa. Vulnerável. E Damon adora isso.
— Adora? — repeti, sem esconder o nojo.
Ele me encarou.
— Ele adora o momento em que a mulher ainda não sabe se quer fugir ou ficar. É aí que ele entra.
Meu sangue esquentou.
— E o que aconteceu com ela?
Stefan ficou em silêncio por dois segundos.
Um silêncio horrível.
— Ela sumiu no mar de Capri.
Eu encarei ele.
— Sumiu?
— Nunca acharam o corpo.
O bar parecia ter diminuído de tamanho.
Até Emmett tinha parado de respirar direito.
— E Katherine? — perguntei, e já sabia que não ia gostar da resposta.
Stefan bebeu o resto do copo em um gole só.
— Apareceu caída na frente do hotel.
— Caída?
— Do terraço — ele corrigiu. — “Sem querer”, como disseram.
Eu senti o estômago virar.
— E vocês acreditam nisso?
Ele sorriu sem humor.
— A família nossa acredita no que precisa acreditar. O restante é abafado com dinheiro, influência… e uma quantidade absurda de silêncio.
Aquilo foi pior do que qualquer grito, porque dava para perceber que não era uma teoria de boato.
Era história.
História de verdade.
— Por que está me contando isso? — perguntei.
Stefan sustentou meu olhar.
E então respondeu com uma honestidade brutal:
— Porque você parece um homem prestes a deixar sua vida depender de uma escolha que já foi feita por outra pessoa.
Meu peito apertou.
— O que isso quer dizer?
— Isso quer dizer que, quando Damon decide que quer uma coisa… — ele inclinou a cabeça, o olhar escuro — …ele não aceita facilmente que a resposta seja não.
Eu fiquei em silêncio.
Emmett soltou um assobio baixo, sem alegria nenhuma.
— Isso foi… assustador.
Stefan não olhou para ele.
Os olhos continuavam em mim.
— Cuida dela — ele disse. — Ou ele vai cuidar do que restar.
E então saiu.
Como se tivesse falado sobre o clima.
Como se não tivesse acabado de me entregar o tipo de verdade que muda o formato do medo.
⸻
POV BELLA
No almoço do dia seguinte, o terraço parecia o mesmo. Mas eu já não conseguia olhar para ele do mesmo jeito.
As mesas estavam impecáveis, o mar continuava lindo e as flores nos vasos continuavam vibrando com o vento.
Mas havia um gosto de aço no ar, uma tensão tão espessa que parecia se acomodar entre cada prato, cada taça, cada respiração.
Damon estava no centro de tudo como se nada de ruim tivesse acontecido, como se o pedido da noite anterior tivesse sido aceito e eu não tivesse fugido do terraço depois de dizer não.
Como se eu não tivesse passado a madrugada inteira sendo atravessada por descobertas sobre ele, se não existisse algo podre por baixo da superfície perfeita.
Ele sorriu para mim quando me viu sentar.
— Bella mia — disse, com aquela calma ensaiada. — Dormiu bem?
Eu quase ri.
Foi tão absurdo que quase doeu.
— Não muito — respondi.
Ele veio até mim como se a conversa fosse trivial.
Como se estivéssemos falando do clima.
— Non ti preoccupare — ele murmurou. — A noite passada foi… intensa. Eu entendo.
A forma como ele disse aquilo me irritou imediatamente.
Intensa.
Como se o que ele tinha feito comigo pudesse ser resumido numa palavra educada.
Eu senti Edward olhar para mim do outro lado da mesa e aquilo me deu força.
— Damon — eu disse, firme.
Ele parou.
Sorriu.
Mas só com a boca.
— Sim, amore mio?
Respirei fundo e então falei:
— Acho que você não entendeu.
O sorriso dele permaneceu pequeno e perigoso.
— Entendi o quê?
Meu coração bateu mais rápido.
Mas eu continuei.
— Quando eu disse não… eu quis dizer não.
Silêncio, não total mas o suficiente.
Eu vi o brilho no rosto dele mudar.
Um segundo.
Só um, mas mudou.
— Bella — ele disse, com uma suavidade que me deu arrepios — não vamos dramatizar isso.
Aquilo me atingiu como uma pancada.
— Não vamos dramatizar? — repeti, incrédula. — Você me pediu em casamento na frente de todo mundo, depois de me tratar como se a minha resposta já estivesse dada, e agora quer me dizer para não dramatizar?
Damon deu um leve sorriso, mas já não era bonito.
Era fino e aferrado.
— Eu só acho que você está assustada.- disse ele colocando uma mecha do meu cabelo para atrás da orelha.
— Não — eu respondi, sentindo a raiva crescer. — Eu estou bem lúcida.
A mesa inteira ficou em silêncio.
Renée me observava com os olhos afiados.
Charlie também.
Esme parecia preocupada.
Carlisle tinha aquela expressão clínica de quem já percebeu que a situação está errada, mas ainda não decidiu como intervir.
E Damon…
Damon continuava me olhando como se eu fosse uma coisa que ele ainda podia mover de lugar.
— Você não vai embora — ele disse.
A frase foi baixa, apenas para mim.
Mas todo mundo sentiu.
Meu estômago afundou.
— Como é?- perguntei o desafiando
— Você está confusa. Isso passa.- Ele inclinou a cabeça.
Eu senti o sangue subir ao rosto.
— Eu vou voltar para Seattle.- disse firme.
A reação foi imediata.
Rosalie ergueu as sobrancelhas, Alice prendeu a respiração e Edward me olhou como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais importante da semana.
Damon, por outro lado, ficou imóvel.
Só o sorriso começou a falhar.
— Não — ele disse.
Simples.
Como se estivesse corrigindo uma criança.
Eu pisquei.
— Não?
— Não.- respondeu tranquilamente segurando meu queixo como se quisesse corrigir minha postura.
A mesa ficou em silêncio absoluto.
— Eu não vou ficar com você — continuei.
— Bella…- A voz dele desceu mais um tom.
— Eu estou falando sério, Damon.- disse firme
Ele deu um passo à frente e foi aí que Charlie se mexeu.
— Chega.- A voz do meu pai cortou o terraço inteiro.
Ele se levantou devagar, rígido e imponente com os olhos em Damon.
— Eu acho que ela já falou o suficiente.- ele disse.
Damon se virou para ele com educação tão perfeita que quase parecia uma ameaça.
—Signore Swan...
— Não me chama assim como se eu fosse concordar com você — Charlie respondeu, seco.
Renée fechou os olhos por um segundo, como se já estivesse prevendo uma briga.
Damon abriu as mãos, um gesto teatral de quem fingia paciência.
— Eu só estou tentando proteger a Bella.
— Protegendo ela de quê? — Charlie rebateu. — De si mesma?
Silêncio, pesado.
— Estou protegendo-a de uma escolha precipitada.-Damon sorriu de lado, mas agora era um sorriso duro.
Eu quase engasguei.
— Precipitada? — repeti. — Você me pediu em casamento no meio de uma plateia.
— Porque você me deixou sem alternativa.- disse ele tranquilo.
Aquilo fez meu coração despencar.
— Isso não é verdade.- respondi sem paciência.
— É sim.- ele disse com um tom baixo.
— Não é.- eu o desafiei.
— Bella…- ele sussurou tentando me manipular.
— Não me chama assim como se eu ainda estivesse do seu lado!- A minha voz subiu e o terraço inteiro pareceu congelar.
Damon respirou fundo, como se estivesse se controlando.
— Io non ti sto forzando — ele disse, baixo. — Eu só estou tentando fazer você enxergar o que nós somos.
A palavra nós soou errada e eu senti.
— Nós não somos nada — eu disse, antes de perceber o quanto aquilo doeu.
O rosto dele endureceu por um segundo.
Só um.
Mas foi o suficiente.
— Claro que somos — ele respondeu, ainda calmo, ainda controlado, mas com alguma coisa escura começando a aparecer sob a superfície. — Você está só com medo de admitir.
— Não — eu falei, firme. — Eu estou dizendo a verdade.
Damon me encarou.
Eu vi a mudança.
Microscópica.
Mas real.
A voz dele veio mais baixa quando respondeu:
— E a verdade é que você vai precisar de mim.
Aquilo me paralisou.
— O quê?
— Você vai voltar para Seattle — ele disse, como se estivesse aceitando algo que ainda podia ser revertido. — E vai perceber que nada lá faz sentido sem tudo o que aconteceu aqui.
Meu peito apertou de raiva.
— Não use isso contra mim.- disse aborrecida.
— Eu não estou usando nada contra você, bella mia — ele rebateu, num tom quase gentil. — Estou sendo honesto.
Mentira, era manipulação e agora eu enxergava.
— Eu já sei para onde vou — eu disse, a voz tremendo de indignação. — Eu volto para Seattle, para a minha casa, minha família. A minha vida!
Damon ficou completamente quieto e então Alice, com a expressão mais decidida do mundo, falou:
— Nós partimos ao anoitecer.
A frase caiu como uma lâmina.
— Alice…-Eu a encarei.
— A passagem está confirmada.- Ela não piscou.
Damon se virou para ela pela primeira vez como se realmente a estivesse enxergando.
O sorriso tinha sumido.
— O quê?
— Nós partimos hoje — Alice repetiu, firme.
O rosto dele mudou, não de forma dramática.
Mas o suficiente para o ar pesar.
— Bella, no — ele disse, virando-se para mim de novo. — Você não vai embora assim.
Aquilo saiu mais áspero.
Mais afiado.
E eu senti o surto chegando antes mesmo de acontecer de verdade.
— Eu vou — respondi. — E você vai ter que aceitar.
Ele me encarou como se eu tivesse acabado de insultá-lo.
— Você está deixando um erro influenciar uma decisão enorme.
— Não, Damon — eu disse, já sentindo a cabeça latejar. — O erro foi você achar que podia decidir isso por mim.
O silêncio seguinte foi terrível e então ele sorriu.
Mas agora o sorriso tinha virado uma coisa vazia.
Tensa.
Perigosa.
— Muito bem — ele disse, com uma calma que me deixou ainda mais assustada. — Vá.
A palavra soou quase falsa.
Quase venenosa.
— Mas isso não acabou aqui.
E dessa vez…eu acreditei nele.
⸻
A viagem de volta parecia um sonho ruim, o tipo de sonho em que você acorda cansada.
Eu estava sentada perto da janela, olhando o mar desaparecer abaixo de nós enquanto a italia ficava para trás como um lugar que nunca deveria ter existido por tempo demais dentro da minha vida. Emmett estava tentando aliviar o clima com piadas. Rosalie respondia com ironia, enquanto acariciava a barriga de grávida; Alice fazia listas mentais no celular. Charlie cochilava com Sue encostada ao lado dele. Esme conversava baixinho com Carlisle. Até Edward parecia mais calmo do que eu merecia.
Mas eu não estava calma, eu estava silenciosa e pior, estava com medo.
Medo do que ficava em Seattle, do que eu tinha deixado para trás, do que Damon podia fazer, do quanto ainda doía pensar em Edward.
Eu abri o celular e procurei meu perfil.
As fotos de Capri ainda estavam lá.
Damon em várias delas,sorrindo, tocando meu ombro e me olhando como se eu já tivesse aceitado o que ele queria.
Minha garganta apertou e então eu comecei a apagar.
Uma.
Duas.
Três.
Todas.
Apaguei as fotos do meu Instagram como se estivesse arrancando fragmentos de uma vida que já tinha começado a parecer envenenada.
Quando terminei, fiquei olhando para a tela vazia por alguns segundos, com a sensação de que eu estava apagando muito mais do que imagens.
Edward percebeu.
— Você está bem? — ele perguntou baixo.
Eu olhei para ele.
A pergunta estava tão cheia de cuidado que quase me partiu no meio.
Eu balancei a cabeça devagar.
— Não.
Ele não insistiu.
Só esperou.
Então eu respirei fundo e disse a verdade.
— Eu estou com medo do que me espera quando eu chegar em casa.
Edward ficou em silêncio por um momento.
E então, sem rodeios, levou a mão até a minha.
O calor dele foi o suficiente para me fazer quase desabar ali mesmo.
— Você não vai estar sozinha — ele disse.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Mas mesmo assim…o medo não foi embora.
Só mudou de lugar.
⸻
Seattle me recebeu com chuva, claro que recebeu.
Era quase ofensivo como a cidade conseguia parecer exatamente a mesma que eu tinha deixado e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Charlie e Sue insistiram para que eu fosse para a casa deles primeiro, e eu aceitei só porque não tinha forças para discutir. O abraço de Sue foi quente, carinhoso, daquele tipo que parece lembrar seu corpo de que você ainda existe.
Charlie me olhou com uma preocupação silenciosa que me fez vontade de chorar.
Mas eu não chorei,ainda não.
Eu subi para o quarto de hóspedes, tirei os sapatos, tentei dormir.
Não consegui, a cama parecia larga demais, a casa, silenciosa demais e a minha cabeça, barulhenta demais.
Capri voltava toda vez que eu fechava os olhos.
O terraço.
O mar.
O anel.
A voz de Damon.
E Edward.
Sempre Edward.
Eu levantei no meio da madrugada com a sensação de que, se ficasse mais um minuto ali, ia enlouquecer.
Peguei as chaves do carro sem pensar muito e fui sem destino, só o movimento, a chuva, a cidade cortando a noite como uma ferida familiar.
Eu passei por ruas conhecidas, luzes apagadas, vitrines fechadas, sem perceber direito que estava dirigindo há tempo demais até que, de repente, eu vi.
O prédio.
O prédio onde eu morava com Edward.
Meu corpo inteiro travou.
Aquela esquina.
Aquela entrada.
Aquele pedaço de vida que eu tinha deixado para trás e que continuava lá, como se me esperasse.
Eu encostei o carro.
Desci.
Fiquei parada por um segundo na chuva fria, olhando para o edifício iluminado por dentro.
E então pensei:
É agora ou nunca.
Subi.
Não sabia se ele estaria acordado, se ele ia me receber. Não sabia de quase nada, mas sabia de uma coisa. Eu precisava dele.
Quando bati na porta, meu coração estava tão alto que eu mal ouvi os passos do outro lado.
A fechadura girou, a porta abriu e Edward estava ali.
Descalço, cabelo bagunçado, uma camiseta velha, expressão cansada e completamente vivo.
Ele me olhou como se tivesse levado um choque.
— Bella?
Minha garganta fechou.
Eu não consegui responder com palavras, então fiz a única coisa que fazia sentido.
Eu o beijei.
E ele me beijou de volta como se estivesse esperando aquele momento desde sempre.
POV EDWARD
Eu sabia que ela chegaria quebrada, mas não sabia que ela chegaria assim.
Molhada da chuva, com os olhos cheios de alguma coisa que eu não consegui nomear de imediato, medo, talvez. Cansaço, saudade ou tudo isso junto.
Quando ela me beijou, qualquer pensamento que eu ainda tinha foi embora.
O beijo começou com urgência e virou necessidade em poucos segundos.
Minhas mãos encontraram o rosto dela como se fossem obrigadas a lembrar o caminho e então a puxei para dentro, fechando a porta atrás de nós.
Sem perguntas, explicações ou demora.
Só ela.
Só nós.
Só o fato de que, no fim, continuávamos voltando um para o outro mesmo quando jurávamos que não.
— Você está tremendo — murmurei contra a boca dela.
— Eu sei — ela respondeu, e o som da voz dela parecia carregar semanas inteiras.
Levei-a até o sofá primeiro, mas ela me puxou de volta.
Mais perto, como se não suportasse distância nenhuma entre nós. Eu a beijei de novo e dessa vez foi diferente.
Não era só saudade, era alívio, era raiva, era fome emocional, era tudo o que a gente tinha deixado sem resolver, agora voltando em forma de calor e respiração e mãos desesperadas.
Bella passou os dedos pela minha nuca,pelo meu cabelo e eu senti o corpo dela se encaixar no meu como se nenhum dos últimos meses tivesse existido.
Como se Capri tivesse sido só um sonho febril e nada além desse instante importasse.
— Bella… — eu disse, porque precisava da voz dela de alguma forma.
Ela enterrou o rosto no meu pescoço.
— Eu não consegui dormir.
Aquilo quase me quebrou.
— Vem — murmurei.
Levei-a até o quarto sem pensar demais, sem querer pensar demais, porque agora eu não queria distância, nem planejamento, nem cautela.
Queria ela, inteira e viva.
Na minha cama e na minha vida.
O beijo que veio ali já não tinha mais nada de hesitação.
Tinha verdade.
Tinha saudade.
Tinha a dor dos meses anteriores e o peso dos anos todos em que eu esperei pelo momento perfeito e acabei perdendo o que importava.
Agora não havia mais perfeito, só havia necessidade e amor. Muito amor.
Bella me olhou por um segundo antes de puxar a camiseta por cima da cabeça, e naquele instante o resto do mundo deixou de existir de novo.
Eu a beijei como se isso fosse a única maneira de dizer tudo o que eu ainda não sabia colocar em palavras.
E talvez fosse, porque com Bella sempre tinha sido assim.
O amor não vinha em frases prontas, vinha em desespero, em toque, em volta.
Em voltar sempre.
Naquela noite, não houve mais medo.
Só nós dois.
E a cidade lá fora continuou chovendo enquanto eu finalmente lembrava o que era pertencer a alguém sem precisar pedir permissão para isso.
Fale com o autor