Notas iniciais
Como vão? Bom... Acho que não tenho muita coisa para dizer sobre mim. Mas, desejo a vocês uma boa leitura e espero que passemos muitos momentos juntos.
Ah, e sobre o horário da história... Gente, desculpem aí. Sei que é tarde mas, é a inspiração, né? Quem nunca teve uma chuva de ideias jogando wolf quest de noite? Hehe... >.

P.O.V Macky

Lá estava eu com meu melhor amigo – que por incrível que pareça é meu próprio tio, o irmão solteirão da minha mãe, que praticamente tinha a mesma idade que eu – caçando um belo alce embaixo daquela floresta úmida de coníferas, aproveitando o clima fresco que a primavera nos proporcionava, após um longo e cansativo inverno.

Para ser sincero, acho que esse era um dos melhores períodos de caça. O cheiro das coisas estava fresco, o chão úmido cheio de lama... Na verdade, era uma maravilha. Menos para a minha mãe, é óbvio, que fazia questão de fazer limpar minhas patas umas mil vezes na grama antes de entrar na toca. Eu me perguntava como o papai tinha casado com ela, já que ele era porco. Acho que o amor é cego...

Enfim, estávamos na cola do alvo, mais ou menos a poucos metros de distância. Uns minutos antes daquela perseguição louca desenfreada se iniciar, eu já havia combinado com Artie – meu tio – que ele iria encurralar o alce por frente enquanto eu iria dar o final nele, pulando sobre seu lombo vulnerável. E mesmo que eu havia feito isso há um tempinho atrás, fiz questão de alertá-lo:

— Artie, para frente agora! – Ordenei, ao mesmo tempo que usava o máximo de minhas patas, me preparando para o toque final.

Pude ver Artie se posicionar a frente do alce e por um fio nosso plano estava perfeito. Porém, quando eu iria fazer o meu papel, tive a surpresa de observar o alce pulando sobre Artie, sem que o mesmo não fizesse nada a respeito.

Só me restou ver nossa caça, nosso amado jantar, trotando em marcha da liberdade.

— Artie! O que você fez?!? — Resmunguei, rosnando. — Era para você ter pego ele cara! Estávamos quase perto.... Quase.... Por que deixou o jantar fugir?!?

— Não é minha culpa se esse alce faz ginástica olímpica! — Artie espirrou.- Eu ia adivinhar que ele iria pular em cima de mim?!? Poxa cara... Foi mal. A gente acha outro. Ou quem sabe podemos dar outra coisa para sua mãe. Um sapo, um rato... Sei lá. Ei- ele teve uma ideia — Um espetinho de rato não seria nada mal...- disse ele, lambendo o focinho.

Revirei meus olhos. Inacreditável. Coisa que minha mãe ia aceitar outro bicho! Logo ela, que era toda exigente. Principalmente na cozinha. Bufei. O dia não poderia ficar pior.

— Relaxa cara. Por que não tentamos de novo? – Ele sugeriu. – Acho que ele não foi muito longe. É só mais uns metrinhos e... – ele parou ao perceber que eu estava cheirando o chão. – O que você está fazendo?

— Espere.- pedi, com o focinho bem próximo a terra. Um cheiro selvagem de esquilo invadiu minhas narinas. Concentrei-me mais. Cheiro de pinheiros. Cheiro de um alce... Defecando? Eca! Mas... Tem mais um. Um cheiro diferente, forte, marcante.

Ah, não. Essa não. Eu não conseguia acreditar. Aquele cheiro era de lobos brancos! Nossos maiores inimigos. E nem me pergunte o porquê. Nem eu mesmo sei. Mas, isso começou a muito tempo.

Pelo que me diziam quando eu era apenas um filhote, tudo começou quando a primeira alcateia de lobos negros migrou para Amethyst Mountain. Aqueles caras eram selvagens, fortes... Praticamente uma lenda. De tão fortes, diziam que só com o uivo eles afugentavam qualquer urso ou outro animal. Lutaram até mesmo com humanos. E sobreviveram. Eram os verdadeiros heróis do século e foram assim por muitos anos.

Até que algo ruim aconteceu. Algo que acaba com o orgulho de qualquer lobo. Fiquei sabendo que uma outra alcateia aparecera na região.

Eram uns estranhos. Totalmente diferente dos lobos negros. Eram da cor da neve e muitos tinham olhos da cor do céu. Acho que meu tataravô tentara ser gentil e tudo mais. Mas, eles não queriam dividir. Eles queriam poder, poder e poder...

Então, mesmo depois de meu tataravô tê-los acolhido muito bem, houve uma briga. Um lobo branco matara um lobo negro. E depois disso tudo, a alcateia virara um caos. E então uma onda de assassinatos de lobos negros se seguiu. Finalmente a verdadeira identidade dos monstros se revelara.

E devido a isso, meu tataravô teve uma decisão radical: propôs dividir as duas alcateias. E ambas seriam separadas por uma fila de pedras. Eram chamadas de pedras do sofrimento. E por longos anos seguiu-se assim: lobos negros de um lado e brancos de outro. Jamais alguém deveria ousar atravessar a cerca. Essa era a lei, que deveria ser respeitada, por toda a eternidade.

E por isso, os lobos negros temiam os brancos. Mas, não eu. Na verdade, eu não dava a mínima para aqueles bobalhões. Para mim, eram apenas uns bobocas. Nada mais.

— Macky, não me diga que estamos perto das... – Meu tio gaguejava – das...das...P-pedras do so-so-sofrimento.

— Exatamente. – Respondi.

— Sabe, acho que já está tarde e... Nossa!- meu tio olhou para o céu, com uma expressão assustada e surpresa, como se estivesse escondendo o seu medo. – Olha a hora! Sua mãe vai ficar preocupada. Vamos voltar agora?

— Você está com medo Artie? – Estreitei os olhos. Aquele lobão com medo de uma coisinha tão simples. Aquilo sim que era piada.

— Medo?!? – Ele hesitou. Era possível sentir um vacilo no seu tom de voz, como ele sempre fazia quando estava incerto de alguma coisa. – Eu? Não! Imagina... É que, já está meio tarde, e...

— Tudo bem então. Se quiser, pode ir indo na frente. – Caminhei um pouco mais a frente, onde pude avistar as pedras do sofrimento um pouco mais a frente. Lá estavam elas, intocáveis, esperando um desafiante a alturas delas. Alguém disposto a atravessá-las.

Artie permaneceu sentado mas perguntou:

— Tá mas... E você, onde está indo?

— Vou pegar a caça. Avise minha mãe que já estou indo. – Pedi. Eu sabia que mesmo em uma situação como essas, Artie não me deixaria na mão. Também, quantas aventuras passamos juntos.... Praticamente, nascemos juntos. Sabe, aquela história de irmão de adoção. Assim, de mães diferentes, mas no fundo.... Entende?

— É... – Ele olhou para um lado e para o outro, pensativo. – Acho que vou com você.

Assenti com a cabeça e juntos, caminhamos até a fila das enormes pedras que nos separavam dos supostos terríveis monstros. Minha mente estava a mil, e várias ideias rondavam a minha mente. Eu sentia como se algo me chamasse para o outro lado. Era uma sensação esquisita e intrigante.

E além disso, as perguntas não se calavam: Seriam aqueles lobos tão monstruosos como diziam? Seriam fortes como os nossos? Tinham realmente unhas afiadas e fascinantes como os descreviam nas histórias de nossa alcateia?

Realmente, só haveria um jeito de descobrir. Pulando aquele pequeno muro e explorando o outro lado.

Olhei para um lado e olhei para o outro, certificando-me se alguém nos observava. Agucei minha audição, apenas farfalhar de folhas e animais comendo. Nenhum lobo a vista. Esse era o momento certo.

— Eu pulo primeiro e vejo se há algum perigo. – Sugeri, flexionando minhas patas traseiras para o pulo. A frente, o muro se estendia bem maior do que eu imaginava. Seria necessário um grande esforço para alcançar seu topo. Mas nada tão difícil que não poderia ser feito.- Depois, a meu sinal, você pula. Ok?

— Acho que sim. – Ele engoliu em seco, enquanto fixava os olhos em cada movimento meu.

Ajeitei minhas patas e pulei o mais alto que pude. Agarrei o topo de pedras com minhas patas dianteiras, deixando o resto do meu corpo pendurado ao ar. Fiz o máximo de força o possível para impulsioná-lo por inteiro, mas eu continuava chutando o ar embaixo.

Finalmente, senti minhas patas traseiras apoiarem em algo duro e frio. Respirei aliviado, ao perceber que elas se encontravam apoiadas em uma fresta logo abaixo.

Respirei fundo e mais uma vez usei da minha força para impulsionar o meu corpo para cima. Consegui chegar inteiro ao topo e sem pensar muito, fruto de longos anos de treinos caçando para a família, mergulhei para o chão abaixo.

Aterrissei intacto. Era um bom sinal ao menos.

— Sua vez! – Gritei para que Artie pudesse ouvir.

Demorou alguns minutos até que ouvi ele escalando as pedras. Em seguida, vislumbrei suas orelhas pontiagudas erguendo-se acima das pedras. Fiquei a todo tempo monitorando-o e me perguntando se a situação não deveria ser o inverso. Afinal, ele era meu tio, não é? Normalmente ele deveria estar sendo minha babá, nas famílias normais. Mas, acho que nada na minha família era comum mesmo.

— Tudo bem aí? – Perguntei impaciente, ao ver sua cabeça inteira acima do muro.

— Está, já estou quase lá...- Finalmente com muito esforço ele havia chegado ao topo.- Mais uma pata e...- De repente ele se desequilibrou para frente e pude vê-lo caindo em minha direção.

E ploft! Por um momento, lá estava eu, esmagado, abaixo do meu próprio tio.

— Tio, dá para tirar o rabo da minha cara?!? – Bufei.

— Desculpe. E ei! – Ele se protestou se levantando, e depois de se chacoalhar, esparramando pelos negros para todo lado, acrescentou: — Pela milésima vez, não me chame de tio. Me faz parecer mais velho! Não pega bem com as fêmeas.

— Tanto faz. – Eu disse enquanto me chacoalhava também. – Venha, vamos pegar nossa presa.

— Olha, eu não estou entendendo. – De repente ele parou na minha frente, me barrando. Olhei confuso os seus olhos dourados vivos. – Por que quer tanto andar por aqui? Você nunca se interessou por uma caça tanto na vida... Não estou te reconhecendo Macky.

— Eu só não quero voltar de boca abanando lá em casa. – Respondi, mas acho que nós dois sabíamos que não era isso. Ele tinha razão. Sempre que eu perdia uma presa- e longe de mim se exibir, mas, isso quase nunca acontecia quando eu estava perto – eu logo concentrava minhas forças em outra. Mas, dessa vez havia algo diferente. Eu precisava saber o que havia de misterioso nesse local. Nem que eu me perdesse. Porém, mesmo assim, fiz questão de apresentar outros motivos: — Sabe como sua irmã, e minha mãe é estressada. Eu é que não quero receber mordidas dela! E tenho certeza de que não é o que você quer também.

— Certo. Vamos pegar a presa e dar no pé. Ok? – Ele me indagou.

— Sim, claro. – Prossegui andando, me desviando dele.

E de novo, ele se meteu na minha frente, com os olhos estreitados, ameaçando um rosnado:

— Macky!

— O que foi?!? – Perguntei, surpreso.

— Quero sua palavra. – Ele exigiu.

— Caramba! Eu já disse que é só isso. – Respondi, com toda a firmeza o possível. – O que você quer que eu faça? – Revirei os olhos. – Cara, aí sim você está parecendo meu tio... Mas, tudo bem. Dou minha palavra.

Artie assentiu com a cabeça, mas enfim, decidiu se juntar a mim.

Logo, comecei a farejar a minha presa novamente. Suas pegadas se mostravam frescas a minha frente e revelavam uma trilha bastante útil através das árvores. E além disso, vi algo que não havia percebido antes. Pelas marcas de seus cascos, tratava-se de um alce manco. Estávamos com sorte. Essas eram as fêmeas mais fáceis de se caçar, já que não estão com uma boa disposição física.

— Ali está ela. – Avistei-a, se alimentando de algumas folhas de capim, perto de um grande pinheiro. – Precisamos nos esconder e camuflar e quando ela menos esperar, atacamos.

Fiz um sinal com a cabeça, indicando para que nos escondêssemos em um grande matagal logo a frente. Com o máximo de silêncio o possível me infiltrei entre o mato verdejante, de modo que nenhuma parte de meu corpo ficasse a mostra. Estávamos a poucos metros de distância. Teríamos de ter o máximo de cuidado agora.

Tranquilizei minha respiração, reduzindo-a de tal modo que ela pudesse fazer o mínimo de ruído o possível. Minhas orelhas captaram o exato momento em que ela fez um leve movimento com o pescoço, desconfiada, para ver se estava sendo perseguida. Coitada. Mal sabia ela que dois lobos pretos a espreitavam.

— O que fazemos agora? – Artie sussurrou, o focinho perto de minha orelha.

— Espere e...

Em seguida, algo estranho aconteceu. Um pouco antes do nosso ataque ocorrer, ela começou a correr como uma desenfreada. Alguém havia a assustado. E esse alguém deveria ser nós.

Pus a cabeça para fora do mato a tempo de ver um bando de lobos brancos correndo atrás dela. Só podia ser brincadeira. Realmente aqueles estranhos pareciam tomar tudo que era dos lobos negros. Deveriam ser uns verdadeiros suga-sangue.

— Que raiva! – Arquejei. – A perdemos de novo!

— E pelo visto para sempre...- Artie suspirou, decepcionado.

— Ainda não é tarde. – Falei. Se corrêssemos mais um pouco, poderíamos alcança-la. Aqueles lobos não poderiam ser mais rápidos do que eu. Artie até que era um pouco lerdo. Mas eu quase nunca desistia da minha presa. E não eram uns lobos esquisitos e enxeridos que iriam tirá-la de mim. – Venha!

— Essa ideia não vai dar certo...- Artie respirou fundo e em seguida corremos juntos em direção ao alvo.

Forcei as minhas patas ao máximo o possível. Artie estava bem ao meu lado, ofegante. Vislumbrei aquelas sombras brancas correndo em sincronia fazendo uma estratégia desconhecida em minha terra. Eu detestava admitir isso, mas eles eram bem rápidos, como uma coruja jovem. E pareciam ser organizados também, porque pude perceber que eles tentavam a todo momento cerca-la. Eram três: um ia a cercava pela direita outro pela esquerda e outro pela lateral um pouco à frente do que estava à direita.

— Artie, fique alerta. – Ordenei. – Eles não estão de brincadeira!

Artie, como ordenei, procurou ficar mais perto do alce. Eu tentava ao máximo se aproximar do lobo da esquerda, afim de encontrar uma brecha para finalmente dar um ataque.

Preparei para dar outro pulo e então, o fiz. Aterrissei no animal em movimento, e ao perceber que estava sendo montado, meio que parou de correr e começou a girar em círculos, tentando me dar um coice.

E quando eu estava prestes a dar um fim naquele sofrimento todo, tudo parou. O alce desabou, e se atirou no chão junto comigo. Confuso, olhei a minha volta, especialmente para a traseira do alce, e logo percebi que alguém o havia mordido em uma das coxas de trás.

Havia um grande buraco ali, revelando um pouco de carne vermelha. A caça havia terminado. E infelizmente, não éramos nós que havíamos mordidos o alce.

— Pronto, cavalheiros, aí está o jantar. – Um dos lobos brancos disse, confiante.- Foi um longo dia, mas com essa presa, o papai vai ficar orgulhoso de mim. Tanto que vai implorar para eu aceitar a mão de sua filha.

Não pude acreditar no que estava ouvindo. Nós perseguimos aquela bendita coisa o dia inteiro e só agora aquele bando de palermas albinos decidiram ficar com a NOSSA presa.

— Isso não é seu!- exclamei, descendo do lombo do animal, agora morto. – Nós o achamos primeiro.

— Ora, ora... Parece que temos alguém corajoso aqui. – Aquele branco disse, se aproximando de mim para em seguida começar a girar em volta de mim, como se estivesse me interrogando ou me avaliando.- Lamento gracinha mas essa presa é nossa. E olha! Pessoal, temos um lobo negro aqui... De onde vocês vem suas mães os lavam com carvões quando nascem?

Os outros riram. Para mim, aquilo não tinha a menor graça. Bufei. Aquele cara estava me irritando. Artie se aproximou, com o rabo entre as pernas e com um tom assustado e baixo, sussurrou:

— Vamos embora. Deixe isso para lá, a gente acha outra caça. Venha – e então ele ia dar as costas para todos nós quando o branco enxerido disse:

— E quem é esse franguinho aí? – Ele provocou– Ele é um franguinho, um corvo, ou seu bichinho de estimação?

Mais risadas. É sério, meu nível de paciência estava quase se esgotando, e se reduzindo ao tamanho de uma formiga. Quem eles pensavam que eram para falar do meu amigo- ou melhor tio- assim?!?

— Vou fazer você engolir suas palavras... E você tão branco que acho que acho que criaram você em uma fábrica de pasta de dentes! – Falei de volta. Está bem. Não tinha muita graça, mas.... Acho que ele havia entendido o recado.

— Você é patético. – Ele riu. Uma risada forçada. – Cavalheiros, eis aí um exemplo de um filhote que acabou de sair de um ninho.- eles riram. Ele então, se voltou para minha direção e falou, bem próximo ao meu focinho. – Se eu fosse você eu iria embora com o rabinho entre as pernas e se mandava com seu amigo corvo daqui. Voltem de onde vieram e sumam de minha vista.

E quando ele deu as costas, achando que eu ia acatar as ordens de qualquer um que acabara de conhecer, principalmente de um lobo branco mimado, protestei:

— Não. Eu não vou sair daqui. — Rosnei. – E não vai ser você que vai me obrigar.

Ouvi um silencioso não vindo de Artie mas imaginei que eu havia feito a coisa certa.

— Não?!? – O lobo branco pareceu desarmado. Ouvi um de seus companheiros dizer “Mandou mal Jasper”. E então ele o repreendeu, virando-se violentamente para seu suposto puxa-saquinho: — Como é que é?!?

— Nada chefe, nada. – Ele respondeu.

— Que confusão toda é essa? – De repente alguém entrou no meio com uma voz autoritária. Alguém se aproximava nas sombras.

Continua...