Manual de sobrevivência do Apto. 408
8 07 - Aquele com olhos da dissimulação
Notas iniciais
Verde externo, 13.
Vermelho semi-interno, 18.
Preto, 06.
Você tem um lugar para colocar seus pensamentos em ordem? Um lugar só seu onde não pode ser perturbado pelos desagrados cotidianos?
Sim, caro leitor, redundante anunciar que você está prestes a ingressar em mais um novo capítulo dessa conturbada história. Devo parabenizá-lo por ter chegado até o capítulo sete desta loucura. Sua paciência é realmente admirável e, em nome dela, decidi que hoje não irei atormentá-lo muito com as minhas tolas divagações.
Bom, como lhe indaguei, no início desse capítulo: você, futuro desafortunado, tem algum lugar onde possa esfriar a cabeça? Se não tem um lugar assim, apresse-se em arrumá-lo, pois em algum momento da sua jornada de convivência com ela será necessário escapar e, se possível, a este local mágico some também uma atividade que lhe ajude a esvaziar a mente.
De qualquer modo, adiantando-me em responder a pergunta que deve ter pairado sobre sua cabeça, eu tinha um lugar especial para aliviar e extravasar minha energia onde podia desenvolver uma atividade relaxante para me livrar das tensões diárias. E, não, esse lugar não era o banheiro e nem a atividade que me relaxava era essa que sua mente corrompida deve ter imaginado. Por favor, estamos no capítulo sete! Dê-me um pouco mais de credibilidade!
O lugar a que me refiro nada mais era que a cobertura do prédio em que morávamos e devo avisá-lo que, apesar do seu futuro apartamento estar localizado num condomínio desvalorizado, a vista dele não era de todo ruim. Na verdade, poder observar dali o contraste da luz do sol sobrepondo-se aos grandes arranha-céus dava aquela cobertura certa graça e fazia aquela manhã de sábado menos desagradável ao me fazer esquecer os últimos acontecimentos.
— O que você está fazendo aqui?
Ou pelo menos, tentar esquecê-los...
Obviamente você, amigo por quem já tenho certo apreço, nunca estará livre totalmente se ela vier a descobrir o seu refúgio.
Assim, da mureta em que me encontrava escorado, vi surgir, de repente, a sombra da silhueta de sua inconveniente futura colega, aproximando-se de modo altivo. Ela toda me encarava agora com certo ar de afronta como se tivesse me flagrado em alguma espécie de delito e aquele “o que você está fazendo aqui?” soou-me naquele instante como um “você não deveria estar aqui”. É claro que, dentro do paradigma da nossa estranha relação, palavras como essas nunca seriam pronunciadas por ela, pelo menos não naquele momento.
— Só estou cansado de ficar...
— Idiota! — Qualquer possível resposta que sonhei em dar foi interrompida por um dardo, arrancado do alvo, e jogado em minha direção.
— Cansado de ficar parado — completei, desviando-me do dardo jogado em minha direção, vendo-o atingir a parede a poucos centímetros de mim e cair no chão — Cansado de ficar sentado naquele maldito sofá sem poder ... sem poder... — As palavras me faltaram a certa altura quando meus esforços para me arrastar pela parede e me agachar para pegar a porra do dardo, que ela havia atirado, mostravam-se inúteis.
— O que a Sakura te disse? Na verdade, a Sakura não! — lembrou de súbito — O que o ortopedista te disse? — Em poucos segundos e de modo assustador, a Uzumaki aproximou-se de mim em fúria, agachando-se para pegar o dardo antes que eu conseguisse concluir minha lenta ação.
— Não é ele ou Sakura que estão sendo obrigados a assistir todos os animes imbecis lançados nos últimos anos!
— Óbvio que não! E sabe por que não estão sendo obrigados a isso? — indagou, virando-se para atirar o dardo em direção ao alvo e conseguindo atingir a região verde central.
"25 pontos? Só pode ser brincadeira? Eu estou há uma hora aqui e o máximo que consegui foi um vermelho semi — interno valendo 18 pontos!"
— Porque não apanharam de alguns trabalhadores por serem uns cretinos e sem escrúpulos! — respondeu finalmente, voltando-se para me encarar.
Tsc... Aquele ar de superioridade, aliado a brisa da manhã que envolvia seus cabelos em uma balançar suave, me fazia perder ainda mais o controle. Sinceramente, quem era ela para falar de escrúpulos? Uma pessoa que rouba todo o tipo de amostras grátis da caixa de correio do síndico do prédio pode ser levada a sério? Uma pessoa que encontra seu melhor amigo e permanece a semana toda em silêncio sobre esse encontro é digna de confiança?
E, mesmo assim, mesmo não estando na posição de pilar da moralidade para me julgar, ela fazia questão de jogar na minha cara o pequeno e infeliz incidente da última semana sempre que possível, claro. Não seria Karin se não atirasse em mim meus próprios erros, o que nos leva, querido leitor, a lição de número... de número... Em que lição estamos mesmo?
— Foda-se! — esbravejei, respondendo aos meus questionamentos internos e fazendo o possível para não me desequilibrar e cair no chão.
— Bastardo imbecil! Como você subiu até aqui?
— Eu não sou um inválido! Posso não conseguir me agachar, mas ainda consigo subir uns simples lances de escada. Isso é ridículo! Eu já estou bem melhor e...
Embora a vontade de me socar fosse visivelmente enorme, Karin superou a própria raiva, ao observar a minha tentativa falha de esconder a dor, aproximando-se e obrigando-me a apoiar o braço em seu ombro.
Apesar de eu não precisar de sua ajuda, confesso que a minha região lombar não estava nas melhores condições, devido às mazelas narradas no último capítulo deste manual, e – para completar – a cinta ortopédica amarrada em volta do meu abdômen parecia mais me sufocar do que me ajudar naquele momento, agravando ainda mais a minha deplorável situação.
— Cuidado! — reclamei enquanto ela sentava-se ao meu lado num enorme divã roxo abandonado na cobertura do prédio. — Eu não sou um quilo de carne que você compra no açougue!
— Claro que não! A carne do açougueiro da esquina está valendo bem mais. — Riu por entre os dentes, aproximando-se um pouco mais.
— Muito engraçado, ai... — A dor aquela altura tinha voltado com força total destruindo a minha frágil tentativa de encenar o papel de homem forte e inabalável.
— Como é fraco!
— Ai! — resmunguei, mais uma vez, quando inesperadamente suas mãos puseram-se a levantar, com muita falta de cuidado, um lado de minha camisa e desamarrar a cinta que envolvia a minha cintura — O que você...
— Relaxa, garotinho medroso! É só uma pomada! — disse, tirando o pequeno recipiente do bolso da calça moletom.
Ah, a maldita pomada, como esquecê-la? Como esquecer uma das causas do meu sofrimento diário desde o maldito incidente? Maldita seja Hinata que trouxe mais esse tormento para as nossas vidas.
A sessão de tortura a que passei a ser submetido todas as manhãs, de alguma maneira, inexplicável conseguia ter algum efeito estranho sobre mim e quando digo estranho quero dizer que... que... era muito perturbador e muito desagradável sentir os dedos gelados de Karin percorrem a extensão do meu abdômen. Sentir o modo como eles circulavam numa massagem leve e, diga-se de passagem, estranhamente delicada, arrastando-se por toda a extensão das costas e chegando até minha cintura onde ela concentrava maior atenção.
— Ai! — Obviamente, assim que eu parecia mais relaxado e vulnerável, a massagem era substituída por um súbito beliscão que era entendido por mim como uma punição, como um aviso dela me lembrando de que eu era um completo idiota.
Afinal, não seríamos nós se qualquer momento de docilidade não fosse substituído por um momento de brutalidade, não é mesmo?
— Suas unhas estão piores do que as da gata da vizinha do 303!
— Por que você mesmo não passa a droga da pomada?
Não seríamos nós se os momentos de gentileza não fossem subitamente quebrados por um dos dois?
— No dia em que eu tiver dois braços acoplados as minhas costas, eu passo! — Voltei o rosto em sua direção, observando a face irritada direcionada a mim, mas que – ao mesmo tempo – carregava um olhar atento, verificando atentamente uma possível diminuição do inchaço no meu corpo.
Não seríamos nós se não houvesse reclamações e brigas...
— Você é insuportável, Suigetsu!
Assim, enquanto a brisa da manhã continuava transpassando nossos corpos e em meio aos resmungos mútuos, eu comecei a observá-la mais atentamente, começou quase sem querer. Comecei por pequenos detalhes, como o contorno que sua sobrancelha fazia quando ela se encontrava em modo avaliativo ou a forma como seus óculos sempre caíam para ponta do nariz e ela se via obrigada a ajeitá-los ou a maneira como mordia os lábios levemente quando parecia concentrada demais.
De repente, parei de me importar se seria descoberto e não contive mais meu olhar indiscreto. Despejei-o sobre ela como se desejasse ser flagrado e, quando finalmente seus olhos encontraram os meus, eu senti – pela primeira vez – que estávamos próximos de não sermos nós. Ao sentir a ponta do nariz dela tocar o meu, eu senti, pela primeira vez, que nós não éramos – naquele instante – a Karin e o Suigetsu dos resmungos, que nós não éramos a Karin e o Suigetsu das brigas, das implicâncias.
Nós éramos naquele instante...
— Ah, então é aqui que vocês estão!
Duas pessoas interrompidas pelo responsável por minhas últimas noites em claro.
— Juugo! — O rosto feminino desviou-se subitamente do meu e a exclamação presa na garganta revelava um misto de surpresa e ansiedade difícil de disfarçar.
...
Observar os dois juntos, quando descemos até o nosso apartamento, foi um exercício de resistência. Um exercício de resistência não expor o papel ridículo que ambos encenavam, como se não tivessem se visto há exatamente uma semana, como se não fosse a ele a quem ela dedicava todas aquelas mensagenzinhas via whatsapp.
— Como anda a pesquisa?
“Como anda a pesquisa?” Como se você, dissimulada, não tivesse feito essas mesmas perguntas quando se viram. Só agora percebo como os olhos que admirava há minutos atrás representam pura dissimulação.
— É um processo! Estou na cidade inclusive para...
Não tenho vergonha de assumir que naquela época fui incapaz de ouvir e discernir o que Karin e Juugo conversavam assim que sentamos um de frente para o outro no balcão da cozinha. Eu simplesmente não conseguia ouvi-los, uma vez que estava empenhado em ler seus movimentos, decifrar seus trejeitos, interpretar seus olhares.
— Mas também é física, Juugo, física é sempre complicado. Se bem que eu era até muito boa no colegial, poderia ter me tornado uma cientista brilhante se eu quisesse...
“Poderia ter me tornado uma cientista brilhante se eu quisesse”.
Para chegar ao ponto de imitar a voz irritante de Karin mentalmente, eu definitivamente havia chegado ao fundo do poço, mas infelizmente era onde eu queria estar.
— A física é mais simples do que as pessoas acham, veja que...
“Desde quando eles têm tanta intimidade? Quando isso começou?”
— Não me trate como se eu fosse idiota, eu conheço muito bem os conceitos básicos da sua pesquisa, viu.
“Há quanto tempo vocês devem sair juntos pelas minhas costas e eu não sei?”
— Eu não duvido da sua capacidade, Karin!
“Há quanto tempo Juugo está, de fato, na cidade? Será que já se encontraram no nosso apartamento? Será que já... Me causa repulsa só de imaginar! Não! Karin jamais faria isso! Ela sabe muito bem que temos uma regra clara aqui: nada de namorados no apartamento!”
— Acho bom mesmo! Mas, enfim, você vai ao casamento do idiota do Naruto, não?
“Mas, caso tenham se encontrado aqui e estejam se relacionando há algum tempo, será que já... Não! Sem chance!”
— É óbvio que eu vou ao casamento do Naruto! Não perderia isso por nada, Karin!
“Não perderia isso por nada, Karin!”
— Fico feliz em saber disso!
“Eles definitivamente já transaram! Eles definitivamente já transaram no nosso apartamento!”
— Suigetsu? Está tudo bem? — questionou-me o traidor.
— Sim, eu só estou pensando...
“pensando nos possíveis lugares do apartamento onde vocês já transaram...”
— No casamento do idiota do Naruto — completei disfarçadamente enquanto minha mente permanecia em estado de ebulição. — Dá pra acreditar que aquele cara vai se casar?
“Na cozinha! Óbvio que já transaram na cozinha! É o primeiro lugar onde eles transariam, claro. Transaram enquanto ela o envenenava com um daqueles pratos malucos que cisma em fazer”.
— Os preparativos estão incríveis, mas a Ino realmente me tira do sério, às vezes, Juugo, é cada mínimo detalhe que ela quer que fique perfeito — queixou-se a dissimulada enquanto servia uma xícara de chá ao traidor.
— Não! — neguei o chá que ela estava prestes a colocar em minha xícara.
— Você não quer chá? — estranhou, pondo-se a franzir o cenho como se eu tivesse cometido o maior dos pecados.
— Não! — respondi mais firmemente — Por que o estranhamento? Você nem gosta de chá!
— Não, mas — modulou a voz como se fosse responder algo malcriadamente ou como se tivesse me lido naquele instante em que seus olhos dissimulados novamente encontraram os meus. — Sabe, Juugo, — ignorou-me, optando por prosseguir a conversa — Às vezes, acho que o casamento é dela e não da Hinata!
Enquanto isso minha mente confusa prosseguia repleta de pura desconfiança...
“No banheiro! É evidente que já rolou no banheiro. Sempre rola no banheiro. O banheiro é quase o playground pós-sexo. É o lugar onde você recupera as energias e dá mais umazinha".
— Suponho que seja normal esse nervosismo, mas e a casa, Karin, como está o andamento das obras? Já viram a questão da mobília?
“Para de pensar! Para de pensar! Para de pensar!”
— Ainda não! Mas parece que ela vai ver isso na próxima semana! Bom, eu acho que eles tinham que ter certeza de que a casa vai ser entregue no prazo até porque escolher a mobília sem casa pronta não dá! Sem falar que escolher os móveis com pressa não dá também. Você não pode escolher um sofá com pressa, por exemplo.
— O sofá! — retorqui de modo automático, intrometendo-me na conversa de ambos, e sentindo minha garganta fechar.
— Sim, o sofá! — Karin respondeu-me como se estivéssemos numa conferência mundial sobre o aquecimento global, como se a escolha do sofá fosse realmente muito importante.
“Eles transaram no nosso sofá! Inacreditável! No sofá? É sério? Como ela teve coragem?”
Eu já não podia mais, eu não podia mais fingir que estava tudo bem. Precisava confrontá-los. Seria aquele o momento! Eu os confrontaria e exigiria a verdade!
— Enfim, foi ótimo te ver, mas eu preciso mesmo resolver algumas coisas, Juugo.
— Que coisas? — indaguei incrédulo. Ela parecia ter adivinhado que um possível enfrentamento estava prestes a acontecer. — Pensei que hoje fosse seu dia de folga?!
— É por isso mesmo que eu não vou perdê-lo aqui com você, idiota!
Tudo bem. Eu sabia esperar e, cedo ou tarde, eles não poderiam evitar esse enfrentamento para sempre. Na verdade, talvez fosse melhor desmascará-los separadamente.
— Tanto faz. — Dei de ombros, fingindo desinteresse. — Juugo e eu temos um grande sábado pela frente.
— Grande sábado? — questionou-me surpresa quando se levantou. — Espero que seja um que envolva seus vídeo games estúpidos ou uma sessão de Star Wars.
— O que mais seria? — devolvi o questionamento com desdém.
Assim, vi Karin partir um tanto quanto desconfiada e lançando olhares estranhos para seu... seu...Argh... Para Juugo!
— E, então, eu super escolho uma sessão de Star Wars!
— E nós vamos ver, amigo, mas não hoje! — repliquei de modo incisivo, dando pequenos socos ritmados no balcão da cozinha.
— Bom, como você está mal — iniciou de modo condescendente como se estivesse me fazendo um favor — aceito te destruir em algum game, mas eu escolho qual vamos jogar...
— Também não vamos jogar!
— Então, o que nós vamos fazer hoje?
A pergunta me pareceu a lá Pink e Cérebro, então, não encontrei outra maneira de respondê-la sem que fosse a altura dessa oportuna referência.
(Eu realmente precisava melhorar logo antes de sofrer uma lavagem cerebral assistindo a todos aqueles animes e desenhos).
— Primeiro, ligaremos para o Kiba para ele te ajudar a remover esse sofá do meu apartamento...
— Me ajudar a remover o sofá? Mas por quê? Como assim?
— E depois nós vamos num lugar muito especial! — concluí como se estivéssemos prestes a dominar o mundo.
...
Talvez seja uma surpresa ou não para você, caro leitor, mas em um tempo não muito distante, eu fui um atleta. E não qualquer atleta, diga-se de passagem, eu era o atleta. Durante três anos integrei a equipe de polo aquático da universidade. Como já havia praticado o esporte durante o ensino médio, não demorei muito para ingressar na equipe no segundo ano do curso de economia.
Só não havia mencionado isso para você anteriormente, futuro desafortunado, para que não recaísse sobre mim esse ar glorioso que os atletas excepcionais carregam. Não queria que meu talento fosse visto como arrogância. Algo que geralmente acontece quando se é muito bom no que faz.
Assim, longe dos treinamentos, por causa da lesão na coluna, e com uma possibilidade remota, mas real de não conseguir jogar a primeira partida da temporada, eu me encontrava frustrado. Obviamente, para que isso não viesse a acontecer sabia que precisava retornar aos poucos para as águas e, mesmo sob as inúmeras advertências que Sakura e o ortopedista me deram quando a questionei sobre isso há uma semana, decidi que aquele sábado, em que Juugo havia finalmente aparecido, era o momento ideal.
— Karin vai te matar! — disse pela milésima vez — O pior é que ela não vai só te matar, ela vai me matar também!
— São dois anos de experiência, eu sei lidar com a Karin! — Mostrei-me falsamente confiante já na água.
— Por que isso agora? Você deveria pensar em se restabelecer primeiro e depois...
— Muita conversa e pouca ação! — decretou Kimimaro, meu companheiro e capitão do time, jogando a bola em nossa direção. — Sua coluna vai parar de doer quando você jogar!
Digamos que Kimimaro não era muito paciente e tinha uma lógica muito estranha de raciocínio, mas não nos prendamos muito a descrições psicológicas de Kimimaro agora, querido leitor, num momento mais adequado, você saberá mais sobre ele.
— Suigetsu, é sério! Você não deveria estar aqui! — gritou, tentando me arrastar para a beira da piscina — Nós não deveríamos... — Ao levar uma bolada no meio do rosto, Juugo não conseguiu completar a frase.
Devo dizer que, assim como não fui responsável por Juugo estar na equipe adversária a minha naquele leve treinamento, eu não tive nada a ver com a bolada que levara. Simplesmente aconteceu de meu pacífico amigo estar no meu caminho quando pedi a bola ao meu companheiro de equipe.
Desse modo, o treino seguiu com alguns outros pequenos incidentes envolvendo Juugo, pobre coitado. Parte dos amigos de economia que integrava meu time naquela amistosa partida descompromissada agia de modo um tanto quanto agressivo com Juugo. Foram chutes, empurrões, golpes baixos, caneladas, incursões que renderiam algumas leves faltas se estivéssemos em uma partida oficial.
— Ei, Sakon! Esse não parece nada o amigo que essa anta do Suigetsu disse que jogava bem!
— Não, Ukon! Ele está mais para uma girafa sem sincronia na água! — Riram quase em uníssono os gêmeos mais esquisitos que já conheci na minha vida.
Seu riso, por sua vez, aos poucos se tornou algo geral expandindo — se como um eco.
Todos riram.
De Kabuto a Kidomaro, todos riram. Até Kimamaro, no auge de sua seriedade, pareceu esboçar um leve sorriso de escárnio diante da falta de sincronia de Juugo.
Eu sabia muito bem no que aquilo ia dar, ansiava por aquilo. Durante toda a partida quase não havia me movimentado e apenas havia feito pequenas incursões e lançamentos a curta distância. Eu não era de todo idiota e sabia muito bem que não podia estar ali, então, somente deixei que o pessoal do time se divertisse um pouco.
— Ei, Juugo, você era um pouco melhor no colégio! — disse de uma distância considerável. — Os cálculos te deixaram lento, foi? Você parece uma girafa de salto alto dentro d’ água! Quando vai começar a jogar? Foi por isso que a Nora te deixou, não? Se você não consegue ter o mínimo de sincronia na água, também não deve ter sincronia para outras coisas.
As gargalhadas aumentaram fatalmente com aquela piada que para os outros parecia não passar de uma piada levemente suja entre amigos, mas que, para mim, feria Juugo bem onde eu queria.
Foi aí que aconteceu...
O rosto de meu desengonçado amigo aos poucos se enrugou de ira. Eu finalmente havia conseguido! Seu jeito temperamental e bipolar finalmente dava as caras. Finalmente havia o irritado ao máximo ao mencionar Nora. Mencionar Nora era atingir Juugo onde eu havia sido atingido há uma semana.
Quase não pude calcular direito o momento exato em que ele veio em minha direção na velocidade de um projétil. Naquele momento só pude sentir o impacto na minha já frágil coluna quando ela encontrou-se com seu joelho. Foi de uma vez só.
Certeiro e forte.
Lembro-me ainda de tentar me recompor numa lufada de ar antes de perder completamente os sentidos.
...
— Outra vez? — Foi a primeira coisa que ouvi assim que recobrei um sentidos enquanto uma mão delicada direcionava uma luz, do que parecia uma pequena lanterna, aos meus olhos. — Por que você não o impediu?
— Eu tentei... Eu avisei que não era para estarmos ali... — explicou-se a girafa traidora.
— Karin vai matar vocês!
— Ela não precisa saber! — intrometi-me, abrindo completamente os olhos e tentando me reerguer da cama, mas sendo interrompido por uma dor lancinante no meio da ação.
— O que eu te disse? Na verdade, eu não! O que o ortopedista te disse?
Ri de canto ao lembrar as mesmas palavras ditas por Karin no início daquela manhã. Impressionante como, mesmo sendo tão diferentes Karin e Sakura, às vezes, se igualavam pelo jeito enérgico.
— Eu achei que não faria mal um treino leve, Sakura, além do mais não achei que o Juugo iria surtar por causa de uma simples brincadeira. Não achei que alguém que está envolvido em um novo e feliz relacionamento ainda guardaria mágoas de um relacionamento passado!
— O quê? — A incredulidade estampada em sua face era quase palpável. — Que relacionamento? Do que você está falando?
— Você sabe do que eu estou falando!
Sakura, por sua vez, olhava de mim para Juugo como se assistisse a uma partida de tênis sem entender nada.
Dra. Haruno, dirija-se imediatamente à emergência! Dra. Haruno, dirija-se imediatamente à emergência!
— Eu tenho que ir — anunciou diante do chamado em seu nome — mas seja o que for: resolvam-se!
— Sakura... — expressei-me com descontentamento como se quisesse dizer que ela não entendia o que estava acontecendo e me perguntando internamente se eu entendia.
— Resolvam-se! — deu o ultimato, batendo a porta do quarto com força.
— Do que você...
— Eu vi vocês! — gritei antes que ele fizesse aquela pergunta cretina novamente.
— Viu quem?
— Você e Karin juntos na semana passada na casa de chá do velho Sarutobi! — despejei finalmente.
— Aquilo...
— Aquilo é a prova de que vocês estão juntos, de que se falam todos os dias, de que estão íntimos!
— Não! — esbravejou prestes a perder novamente o controle. — Aquilo que você viu não significa nada! Não estamos juntos! Só nos encontramos e conversamos como bons amigos.
— Então por que você não me contou que estava na cidade, Juugo? Você chegou aqui faz uma semana e só me procurou hoje. Por quê?
— Eu não posso dizer agora.
— Ah, por Kami!
— Mas você precisa acreditar em mim quando digo que não há absolutamente nada entre Karin e eu, além de amizade.
— Eu não acredito em você!
— E você já se perguntou por que não acredita em mim? Já te ocorreu que você está transferindo para mim algo que você sente?
— Como assim?
— É perfeitamente possível que dois amigos se apaixonem, Suigetsu, mas também é perfeitamente possível que dois amigos sejam somente isso: dois amigos.
Senti-me desarmando diante daquelas palavras. O que Juugo estava supondo em sua mente fantasiosa? Infelizmente, antes que eu pudesse questioná-lo sobre aquela suposição, ele saiu do quarto me deixando ainda mais confuso.
...
A volta para casa foi a pior possível e ao lado da pessoa mais improvável. Já era final da tarde quando finalmente havia batido todos os raios-x possíveis e tinha ouvido mais uma vez todas as recomendações do ortopedista e agora voltava ao meu – já não tão querido apartamento sem sofá – ao lado de Kimimaro, que fora o único a permanecer no hospital e, portanto, aquele incumbido por Sakura a me acompanhar.
O silêncio no táxi, por sua vez, era quase sepulcral e eu, por diversas vezes, pensei em justificar o pedido feito essa manhã por mensagem quando pedi a Kimimaro que Juugo recebesse um tratamento diferenciado do time. Mas do que adiantaria? Kimimaro não se importava com esses desentendimentos com ar adolescente. Ele apenas viu naquilo uma oportunidade para treinar o time ao máximo. Assim, sem ao menos esboçar uma expressão que demonstrasse algum sentimento ou mesmo curiosidade, acompanhou-me em silêncio do hospital até a entrada da rua da casa de chá.
Rua da casa de chá?
— Senhor — chamei o taxista do banco traseiro, de repente, despertando a atenção de Kimimaro — O senhor deveria ter entrado na principal e não aqui.
— Mas esse foi o caminho que o seu amigo informou pelo aplicativo — indicou com o polegar apontado para Kimimaro.
— Kimimaro?
— Chegamos!
— Mas...
— Desça do carro!
Devo dizer que esse era um péssimo momento para aturar a aura mafiosa de Kimimaro. Eu realmente não estava muito animado para tomar um chá ou qualquer coisa do tipo e também não estava animado para encarar qualquer funcionário inconveniente daquele maldito estabelecimento aquela hora (leia-se Tayuya e sua boca suja. Em breve, saberá mais também sobre Tayuya, caro leitor. Aguarde).
— Eu vou para casa!
— Desça do carro!
O último pedido soou como uma ordem de alguém que estava prestes a perder a paciência. Não que Kimamaro me impusesse algum medo, imagine você se sou homem de me intimidar com qualquer coisa, mas decidi que era melhor fazer o que ele pedia (leia-se exigia).
— Você pode... — pateticamente pedi por seu apoio para me equilibrar já que devido a última pancada dada por Juugo mal conseguia ficar de pé.
De mal grado, o capitão do time de polo aquático estendeu sua mão para que eu a segurasse e pudesse sair do carro, envolvendo em seguida meu braço em seu ombro. Sim, a cena era patética sem dúvida. Não tanto por mim, mas pela cara de desprezo de Kimimaro. Assim, aos poucos e ainda me escorando nele, andamos até a casa de chá que parecia estar fechada aquela hora...
Fechada? Por que fechada em pleno sábado comercial?
As luzes apagadas indicavam que não havia ninguém ali, o que me deixou ainda mais apreensivo. Será que Kimimaro pretendia se livrar de mim agora que me tornei inútil para o time?
— Kimimaro, escuta...
— Continue andando!
Pronto. Era agora! Eu iria morrer sem saber quem ganhou o maldito reality show dos anões cantores. Desde o episódio dos tomates não sabia quem havia passado para a próxima etapa, mas eu queria saber quem ganhou.
Quando finalmente Kimimaro, pôs-se a girar a maçaneta do estabelecimento, veio a...
— Surpresa!
As luzes se ascenderam praticamente ao mesmo tempo em que ouvi os gritos.
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