Manual de sobrevivência do Apto. 408
4 03 - Aquele em que ninguém segura esse bebê - parte II -
Notas iniciais
O que é o que é um ponto amarelo no meio de um parque, rodeado por um mar revolto de crianças insanas?
Maldita. Foi. A. Hora.
Apesar de ainda estar confuso e meio perdido sobre o porquê de sentir sistematicamente um clima crescente e estranho surgir entre Karin e eu – principalmente depois do beijo inapropriado no canto da minha boca – me dispus a ir para zona leste a fim de assistir a apresentação infantil.
Obviamente, não demorei muito para me arrepender amargamente de ter feito essa escolha. Por que me prestei a esse papel? Graças a minha imbecilidade, agora estava condenado a passar horas terríveis. Imagine a cena, caro (a) colega: crianças com alto teor de açúcar nas veias, uma apresentação infantil com direito a mágicos, músicas irritantes, personagens e brindes, muitos brindes.
Imaginou? Pois bem. Acho que sua concepção de inferno deve ter mudado, e confesso que a minha também depois desse dia. Eu e minha blusa do pikachu não estávamos preparados para aquilo, mas – em contrapartida – outras pessoas:
— Eu! Eu!
Dá para acreditar que sua futura colega prestes a completar vinte anos daqui a alguns poucos meses prestava-se aquele papel ridículo? Levantando a mão como uma desesperada.
— Aqui! Me escolhe!
O pior de tudo é que usava o Shikadai como desculpa para participar das brincadeiras.
— Vamos lá... Preciso de mais um adulto e uma criança! — dizia o animador. — Você! — apontou em minha direção.
Era impressionante como certas coisas nunca mudavam para mim. No passado, os professores sempre me escolhiam quando nem tinha manifestado meu interesse em responder a questão. É curioso como exercícios sádicos não mudam.
— Não. Obrigado — respondi alto em meio aquele bando de crianças e adultos que me encaravam. — Não posso — expressei-me, olhando sugestivamente para Shikadai em meu colo, que já contaminado pelas outras pestes, digo, crianças... remexia-se em meus braços provavelmente com a intenção de que eu o atirasse ao chão.
Depois da minha recusa o animador infantil idiota finalmente escolhera Karin como consolação tal qual a nerd aceita para solucionar o problema depois que o professor conseguiu constranger o aluno que não sabia a matéria.
Após isso, afastei-me um pouco daquela confusão com o pequeno ainda em meus braços e me sentei num banquinho ao lado de algumas mulheres que pareciam exaustas e meio dopadas.
— Viu como é doida? — resmunguei para o pequeno Nara. — Ai, que vontade de ir pra casa.
— Nem fala — retorquiu, concordado uma mulher a meu lado.
— Um dos pais é sempre mais animado do que o outro — disse entre bocejos. — Meu ex-marido também era só sorrisos e brincadeiras. Gostava tanto de brincar que acabou divertindo-se com a secretária... Ele era tão sem originalidade — completou em tom de confissão e com um sorriso amargo. — Sua mulher parece bem animada...
— Não. Nós não somos casados.
Será que passaria o resto da tarde tentando desfazer esse mal entendido?
— Mas é claro que não são — intrometeu-se outra mulher sentada num banquinho um pouco mais a frente. — Olhe só pra cara daquela garota — apontou para Karin, frisando "garota" com certo desdém. — Olhe bem para aquele corpo e nenhuma olheira. Ela está mais para nova namorada do que para mãe.
— Ah, então ela é a outra! — concluiu a primeira mulher que puxara assunto comigo.
Pausa, agora, para análise do universo feminino:
Mais que loucura era aquela? Que péssima mania é essa que as mulheres têm de sair tirando conclusões precipitadas sobre tudo. Em menos de quinze minutos, eu já era um pai divorciado e que tinha uma nova namorada de corpinho atraente e sem olheiras.
— Não, ela não é minha namorada — respondi rapidamente antes que aquilo virasse uma bola de neve.
— Nossa, deixem o cara em paz. Será que não percebem que ele é só um pai tão cansado quanto nós? Quer um pouco o de café, amigo? — manifestou-se uma terceira mulher, portando uma pequena garrafa térmica.
Diante daquele oferecimento, nada mais existia para a mim e, por isso, não me importei mais com o que achavam. Alguém havia dito mesmo café?
— Olha só essa cara? Há quanto tempo você não dorme com tranquilidade, hein? — A estranha solidária e portadora da minha alegria perguntara em tom de preocupação, olhando para mim e Shikadai com cara de pena.
Minha vontade naquela hora foi de responder que não dormia direito há exatos dois anos desde a que a peste da Karin entrara na minha vida, contabilizei em pensamento.
Falando nisso, como Karin fazia para não ter olheiras se passava tantas noites fora de casa?
— Ah, então, é isso. Você é pai solteiro? — Retirando-me de minhas reflexões, a segunda mulher dos comentários inapropriados sobre o corpo de sua futura colega, indagou.
Façamos, agora, uma pausa para analisar o universo masculino, caro leitor, prometo ser breve em minha divagação.
Acontece que, diferente das mulheres, nós – homens – não conseguimos lidar muito bem com certas situações e há uma situação, em específico, que simplesmente se torna impossível de aturar depois de um tempo. E, para completar, a minha paciência referente a essa situação já estava no limite do humanamente possível.
Afinal, seis meses sem sexo é para enlouquecer qualquer um. Isso mesmo, colega, eu estava seis meses sem nada. Seis meses sem tocar num peitinho sequer.
Seis. Fucking meses. Sem. Peitinhos.
A última vez que tinha saído com alguém fora no ano novo e não é que não tenham surgido oportunidades depois disso. Surgiram umas até...
Houve a questionadora:
— Mas para onde essa relação está indo? Sexo muda tudo e não quero transar sem ter a certeza de que você vai me ligar no dia seguinte.
Para onde estávamos indo? Para cama, óbvio. E, porra, era o primeiro encontro. Quem define a relação no primeiro encontro?
Não aconteceu. Nem tive chance de apalpar seus peitos mesmo que de leve.
Houve a arrependida:
— Eu não posso! Não posso!
— Por quê?
— Meu marido... Não consigo parar de pensar nele.
—Mas você disse que ele te trai.
— Mesmo assim...não dá! Não sou capaz de fazer o mesmo.
Ainda tive que consolá-la o resto da noite. Peitinhos? Não, nem pensar.
E houve a dorminhoca:
— Então, você e a Sakura foram da mesma turma?
— Na verdade, não. Eu entrei na residência um ano antes.
— Entendo.
E olha que o clima pré-sexo estava ótimo, dei uma enrolada só para fazê-la se sentir mais solta, mas na hora que eu ia ser feliz...
— Você é tão... tão...
Ela dormiu.
Justamente quando minhas carícias subiam por seu corpo. Dá para acreditar? Estava prestes a executar uma das minhas melhores performances.
— Eu vou dormir só um pouquinho e depois a gente... Foram 36 horas seguidas no plantão, mas estou bem, só preciso dormir um pouquinho.
Maldita Sakura e suas amigas médicas. E, o pior é que antes de perceber que tinha dormido, minhas mãos quase tinham chegado nos peitinhos tão desejados. Quer dizer, no caso dela, eram peitões.
Que desperdício de foda!
Diante dessa triste realidade, era compreensível a minha hesitação ao responder aquelas mulheres, principalmente pelo modo como me olhavam. Alguma coisa me dizia que precisava dizer o que queriam ouvir, não só por elas, mas por mim também. Dizer o que queriam ouvir era uma questão de humanidade:
— Sim, eu sou pai solteiro. Minha mulher faleceu e... — pausei a voz, fingindo um choro contido — e tem sido muito difícil desde então.
— Eu sinto muito. — Compadecera-se a primeira mulher.
Sei que nesse momento você deve estar se perguntando como ser pai solteiro me tiraria do limbo no qual estava isolado em relação ao sexo oposto. Pois bem. A verdade é que mulheres adoram histórias tristes, comoventes, de aspecto hollywoodiano e são loucas por pais solteiros. Elas acham atraente um homem cuidar sozinho de uma criança, principalmente se for um bebê. E nem adianta dizer que não é verdade, porque você sabe que estou certo.
Portanto, ciente disso não tenho vergonha de admitir que me aproveitei mesmo da situação para envolvê-las na minha história ou, como sua futura colega chamou horas depois, na minha rede de mentiras.
Sim, sim. Sei que você deve me considerar um canalha a essa altura do campeonato, caro leitor, e também sei que nesse instante, caso seja mulher, está lendo essas linhas com muita revolta e dizendo que tudo o que afirmei sobre vocês, mulheres, é mentira e que sou um machista e bláh, bláh, bláh.
Mas, por favor, antes de pensar em abandonar esta leitura instrutiva, lembrem-se de que estas linhas são extremamente necessárias para a sua sobrevivência.
— Como foi isso? Como ela veio a falecer? — perguntara a terceira, levando um gole de café à boca.
— Ela era...
Em poucos minutos quando me dei conta, havia criado uma história trágica. Cheguei a inventar que minha esposa falecida era mulçumana e que a conheci numa viagem ao Afeganistão e, como éramos de culturas completamente diferentes, encontramos vários empecilhos para vivenciar nosso amor e que ela acabara sendo executada pelo regime Talibã por ter ser se apaixonado por um estrangeiro.
Eu sei que você deve considerar essa minha história altamente viajante, mas não iria me expor ao ridículo de inventar uma trágica história de acidente de carro até porque todos os filmes e livros já exploraram muito os acidentes de carro. Eu precisava inovar um pouco, colocar mais drama e lágrimas. Nada melhor do que do um romance proibido para amolecer o coração feminino.
— Nossa, você é tão... — Nem preciso dizer que a minha teoria foi comprovada não é mesmo?
(Mais uma vez peço que, caso seja mulher, não se revolte com a verdade. No fundo, você sabe que vocês mulheres são assim mesmo. Admita).
O fato da terceira mulher, contendo as lágrimas, não conseguir achar um adjetivo que me enquadrasse demonstrou que já tinha alcançado o meu objetivo. As outras duas me olhavam também com profunda admiração, principalmente depois de ter contado como fiz para ficar com o fruto do nosso amor proibido: Shikadai.
Aquilo tudo me animou de cara, lógico, até porque a terceira mulher era a mais gostosa presente ali. Os cabelos negros na altura do ombro eram levemente encaracolados e os olhos de um castanho claro eram repletos de certa docilidade com a qual não estava acostumado.
E o busto?
Incríveis.
A blusa de mãe comportada me dava a ideia de que eram medianos e que provavelmente deveriam caber perfeitamente na palma da minha mão.
— Me dói ainda falar sobre isso — embarguei falsamente a voz, tentando tirar meu olhar malicioso dos seios dela, afinal, precisava ser o mais discreto o possível. — A minha única alegria é olhar para este rostinho todas as manhãs e ver Malala toda nele.
(Malala... de onde tirei esse nome?)
— Realmente, ele não parece muito com você.
— Isso porque ele é a cara dela — justifiquei com firmeza.
— Oi, está tudo bem aqui? — Foi aí que no meio da minha atuação, ressurgiu Karin cheia de brindes e usando um chapéu imbecil de um dos personagens do desenho de que tanto gostava.
Assim, interrompendo a minha encenação, a Uzumaki demonstrou estar confusa com a presença de todas aquelas mulheres a minha volta com cara de choro.
— Suigetsu, o que está...
— Estávamos só conversando sobre a vida, crianças... — cortei-a de súbito antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo. — Então, temos que ir agora, mas te ligo para marcarmos alguma coisa — disse, levantando-me e cumprimentando a portadora do café.
Tinha que sair dali rapidamente para evitar ser descoberto.
— Minha amiga e eu temos que ir.
— Amiga? Mas ela não era sua irmã? — indagou com olhar confuso a primeira mulher.
Foram tantas mentiras inventadas ao longo da conversa que nem lembrava mais sobre o que tinha mentido.
— Irmã? — Ao ver as sobrancelhas crispadas da ruiva, entrei em pânico.
— Amiga, irmã... dá no mesmo. Ela tem me ajudado tanto que nem sei como chamá-la — desconversei já colocando Shikadai no carrinho.
— Suigetsu... — Pronto. O tom de voz é tudo quando se trata de Karin e o modo como pronunciara meu nome, pela segunda vez, demonstrou que percebera algo no ar.
Aqui reside a quarta lição deste manual:
Nunca minta ou esconda nada de Uzumaki Karin. Ela sempre descobre. Sempre. E isso vale para tudo. Tudo mesmo. Se algum dia pensar em mentir, afirmando que não comeu o chocolate dela ou seu precioso okonomiyaki, volte duas casas e desista enquanto ainda tem chance.
Não sei dizer se minto mal ou se ela possui alguma habilidade sensorial para mentiras. O fato é que, por mais que odiasse admitir, a inconveniente prima de Naruto e eu desenvolvemos muita intimidade com o passar do tempo. Talvez por isso conseguisse detectar tão bem toda vez que eu estava mentindo ou escondendo alguma coisa.
Só sei que, diante daquele tom de voz, entrei em desespero e fui a puxando pelo braço sem dar chance para que pudesse interrogar minhas futuras transas.
Afinal, tinha dado muito trabalho conseguir todos aqueles telefones com o falso pretexto de que gostaria de encontrá-las mais vezes para discutirmos coisas referentes aos nossos filhos (Que filhos?) e para participar do grupo de apoio à mães divorciadas e solteiras.
Imagina quantas mamães traçaria sendo o único homem presente? Ficava animado só em pensar. Os Nara iam ter me emprestar Shikadai mais vezes. Ele era muito melhor do que o pulguento cachorro do Kiba para conseguir mulher.
— Vocês vão para o metrô? — Foi aí novamente que meu mundo se desfez.
Brincadeira. Aquilo não poderia estar acontecendo! Sem que pudesse esperar, a mulher que me oferecera café perguntara com um sorriso discreto.
— Sim — respondeu Karin prontamente.
— Seiji e Kaya, vamos aproveitar e ir também. Já está na hora! — Gelei assim que a ouvi gritar os filhos e constatei que, de fato, ela iria conosco até o metrô.
— Então, conte-me mais sobre o que você e meu irmão tanto conversaram.
Olhei de esguelha para sua futura colega – em modo estático – e concluí que estava lindamente fodido.
...
— Eu fiquei simplesmente perplexa com todas as dificuldades pelas quais o Suigetsu passou. — Já a bordo do metrô e sentadas lado a lado, Naomi (a gentil mulher do café) conversava alegremente com Karin sobre tudo o que eu havia dito.
Tudo.
— Realmente, a história do Suigetsu deixa qualquer um sem chão. — Com uma expressão falsamente solidária estampada na face, Karin escutava atentamente os elogios que Naomi direcionava a mim e me olhava vez ou outra de soslaio, provavelmente, abismada com a minha imensa criatividade.
Eu, por outro lado, não conseguia expressar nem mesmo um falso sorriso, pois a tensão instalada a cada estação só aumentava. Uma das piores coisas em lidar com a Uzumaki era nunca saber como reagiria em determinadas ocasiões.
Movido por um sentimento de culpa e certo receio, então, preferi me distrair ao lado dos filhos da morena, Kaya e Seiji, que aparentavam ter respectivamente uns seis e quatro anos, do que participar daquela conversa.
— Suigetsu, você não me contou como foi exatamente o dia em que você e Malala se conheceram. — Em meio a mais um falso sorriso, Karin tocara em meu braço chamando-me com a intenção de que também interagisse com elas.
— É... Foi um dia lindo e... — hesitei por um instante para dar atenção a Shikadai que babava no carrinho a meu lado, segurando o ursinho de pelúcia que ganhara de brinde da tia encrenqueira.
— Ele é um pai tão atencioso, não? — Naomi, por sua vez, continuava encantada com o carinho que eu dava ao garoto. Mal sabia que tudo aquilo era apenas para evitar o olhar invasivo da mulher imprevisível a seu lado.
— Pois é. Tão atencioso! — concordou, modulando a voz com escárnio. — Incrível que ainda existam homens como Suigetsu. Você não acha, Naomi?
— Incrível mesmo.
— Com essa dedicação ao filho e a esposa morta — disse, frisando a última palavra com certa agressividade. — Tão diferente dos homens que nos envolvemem em suas redes de mentiras.
Pronto. Estava acabado. O sarcasmo era tão denso que podia senti-lo fluir por todos os poros da minha pele.
— Tão diferente dos homens que se negam a conhecer sua família.
Conforme a ira aumentava, Karin ia enumerando uma série de fatores que possivelmente fizeram parte de suas relações anteriores.
— Tão diferente dos homens que usam o nome de uma ativista reconhecida mundialmente em suas conquistas infames.
(Hum... Malala, claro, a menina que ganhou o Nobel. Porra, com tanto nome no mundo. Por que fui escolher justo esse?)
Eu – aquela altura – já estava encolhido, assustado e coagido com suas acusações que aos poucos foram ficando cada vez mais altas até se transformarem em gritos de reprovação.
— Tão diferente dos homens que não ligam no dia seguinte. Tão diferente dos homens que dizem estar interessados em um relacionamento sério, mas que, na verdade, só querem uma transa fácil.
— Mamãe, o que é transa?
Em meio a confusão que se instalara, mais uma vez, eu tinha os olhos de todas as pessoas ao redor voltados para mim e para a louca que berrava incansavelmente. Sem dúvida, aquilo não se comparava ao ocorrido no mercado, somando-se a esse cenário caótico, as perguntas insistentes da pequena Kaya pioravam ainda mais a situação.
— Mamãe, o que é transa? O que é transa?
A garotinha parecia remix de alguma música muito ruim.
— Tão diferente dos homens que chegam ao ponto de usar o filho dos próprios amigos, inventar uma paternidade e uma esposa MORTA com a intenção de levar para cama a primeira idiota que aparece.
— Eu posso explicar... — O tapa, desferido no meu rosto, fora mais rápido que a minha tentativa de explicação e sem que pudesse ao menos me desculpar, Naomi levantava-se apressadamente, arrastando os filhos vagão afora.
— Não acredito que você teve a coragem de fazer uma coisa dessas! — Os tapas e ofensas de Karin, contudo, prosseguiram incessantes e logo me afastaram de Shikadai que permanecia alheio a tudo dentro do carrinho, dando atenção apenas ao seu novo brinquedo.
“Próxima estação Oshiage, desembarque pelo lado direito”.
Quando finalmente chegamos a nossa estação que, por sinal, era a última, Karin parara de me bater um segundo para se levantar.
— Tudo bem! Eu posso ter exagerado um pouco, mas você está exagerando muito mais. — Cansado de receber agressão em cima de agressão, segurei seus braços. — Não fiz por mal. Quando percebi, as palavras foram saindo da minha boca.
“Senhores passageiros, esse trem não realizará mais viagens. O desembarque é obrigatório”.
— Como pode? Como pode ser cínico assim? — disse, desferindo outro golpe enquanto as pessoas a nossa volta desembarcavam e estranhamente não se envolviam na confusão, indo de encontro as suas vidas normais. Por que nunca se intrometem quando devem? Eu realmente precisava de um pouco de apoio para escapar da ira daquela criatura.
Assim, quando dei por mim, era agredido em um vagão vazio por uma louca que não sabia se controlar e que aos poucos me empurrara para fora do metrô com a sutileza de um elefante.
— Tudo bem! Eu menti, eu errei. Mas por que essa irritação toda? Eu sou solteiro! Sol-tei-ro. — silabei de maneira explicativa. — Não estou entendendo esse seu acesso de fúria!
— Meu acesso de fúria é pelo Shikadai, pela Temari e pelo Shikamaru que não vão gostar de saber que você usou o filho deles dessa maneira tão desprezível e cretina.
— Eles não vão gostar ou você é que não gostou?
“Portas fechando”.
Sabe aquele momento da vida em que você manda uma mensagem para alguém e minutos depois se martiriza pensando no porquê de ter enviado tal mensagem? Pois, então, foi exatamente assim que me senti após ter feito aquela pergunta.
“Portas fechando”.
Meus olhos prenderam-se nos de Karin de uma maneira estranha e involuntariamente recaíram sobre os lábios entreabertos que, perdidos, pareciam tentar formular uma frase. Eu realmente ansiei por sua resposta?
“Portas fechando”.
Entretanto, foi ao som do último aviso e do último alarme emitido pelo sistema inteligente do metrô que nos demos conta de uma coisa...
— Shikadai! — berramos praticamente ao mesmo tempo.
Impossível descrever em palavras o desespero que se abatera sobre nós naquele momento. Ao recordar a imagem do pequeno Nara, mordendo e babando tranquilamente o ursinho que ganhara, dentro de um metrô vazio e com as portas fechadas, sinto-me um completo idiota. Afinal, dessa vez, meus conflitos com Karin atingiram um nível inimaginável.
— Shikadai! — Apesar de meus gritos e de minhas batidas recorrentes na porta enquanto corria na tentativa de alcançá-lo, o metrô prosseguia adentrando o túnel. — Shikadai!
— Suigetsu, o que... o que a gente fez?
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