Manual de como não ser bem-sucedido

10 Capítulo 10: Como Escrever Mal o Seu Livro de Sucesso


A primeira coisa que você precisa fazer para escrever um livro de sucesso de forma desastrosa é confundir o leitor desde o início. Comece forte: coloque um título na capa e outro completamente diferente na contracapa. Assim, quem pegar seu livro já começa a leitura com uma crise existencial, se perguntando qual é o nome verdadeiro da obra e, consequentemente, se deveria confiar no que está por vir. Depois, capriche na sinopse. Nada de explicações claras ou diretas; o ideal é que ela não diga absolutamente nada sobre a história. Algo como “Este livro mudará sua vida” ou “Nem tudo é o que parece” são frases perfeitas para criar a ilusão de profundidade sem realmente informar nada. Se puder, insira uma citação que não faz o menor sentido fora de contexto. Tipo: "O céu nem sempre é azul." Isso é filosófico? É uma dica da trama? Ninguém sabe, e é exatamente assim que tem que ser.

Agora, vamos falar dos personagens. O segredo para uma boa história mal escrita é introduzir figuras marcantes apenas para abandoná-las sem explicação. Apresente alguém com um passado trágico, um objetivo de vida fascinante e, então, simplesmente nunca mais mencione essa pessoa no resto do livro. O leitor se envolve, torce pelo personagem e, então… Ele desaparece. Nunca mais é mencionado. O livro segue como se ele nunca tivesse existido. Nenhuma explicação, nenhum encerramento. O mistério de seu paradeiro viverá para sempre na mente do leitor, e não há nada mais satisfatório do que frustração sem resposta.

Agora, uma dica que vai acelerar (ou travar completamente) seu processo criativo: escreva a última página antes de todo o resto. Imprima, enquadre na parede e passe semanas admirando o final brilhante que você ainda não sabe como alcançar. Isso adiciona um toque de desespero à sua procrastinação e aumenta a chance de que, no pânico do prazo, você escreva qualquer coisa para chegar até lá.

Ah, sim! Escrever mal. Se quiser adicionar um toque de dramaticidade ao desastre, sempre cogite matar um personagem. Escreva sua morte com detalhes trágicos e dolorosos, chore enquanto descreve a cena, já se imaginando sendo comparado a George R.R. Martin. Escreva uma cena trágica, emocionante, devastadora. Chore enquanto descreve cada detalhe do sofrimento dele. Depois, releia e pense: "Mas eu gosto dele... não posso fazer isso." Então, delete tudo e faça um final menos depressivo. Mas depois de um tempo, bate aquela sensação de que seu livro não está profundo o suficiente.

Grandes autores matam personagens, certo? Então aperte o foda-se e reescreva o final com a cena mais dramática possível. Todos morrem. Plot twist. Chocante. Inovador. O leitor nunca vai se recuperar... Mas como não é um grande autor, você mata e revive cinco vezes, até que no fim ele volte como um clone com amnésia e ninguém mais entenda nada. Quer dizer, se deu certo com The Vampire Diaries, por que não daria certo aqui? Primeiro, seu personagem morre de forma trágica. Depois, alguém o ressuscita com um feitiço. Aí ele vira vampiro, mas logo arrumam um jeito de fazê-lo humano de novo. Aí ele morre de novo. Mas calma, porque sempre existe um colar, um anel, uma magia ancestral ou um feitiço esquecido no fundo de um grimório que pode trazê-lo de volta. Até que, no final, nem você lembra mais se ele está vivo, morto ou apenas cansado de ser arrastado de um plano existencial para outro sem descanso."

Ou então bate o peso na consciência. Como a J.K. Rowling, você decide que seu personagem sobreviveu... só para depois matar outro aleatoriamente sem nenhuma razão aparente. Aliás, se você quiser realmente canalizar a essência da Rowling, pode esperar anos depois do lançamento e então soltar revelações completamente aleatórias sobre os personagens nas redes sociais. Quem diria que o vilão era, na verdade, um vegano que praticava meditação transcendental?

Mas se é fã de uma distopia temos Suzanna Collins, que inventouuma distopia que, na verdade, é só uma metáfora sobre como todos nós estamos viciados em um bom show de TV enquanto o mundo vai de mal a pior. Ah, Suzanne, a única coisa que falta em sua série é um programa de votação popular para escolher quem sobrevive no final. Agora, se você quiser dar um toque de Veronica Roth, lembre-se de que é sempre uma boa ideia construir uma heroína forte e independente ao longo de três livros, só para matá-la de um jeito que não faz o menor sentido e deixar todo mundo revoltado. O importante é garantir que seus leitores nunca mais confiem em você.

Mas se sua vibe for mais Stephen King, pode simplesmente criar o melhor vilão da história da literatura e, quando chegar o momento do clímax, resolvê-lo da forma mais anticlimática possível. Afinal, quem precisa de um final bem amarrado quando se tem uma tartaruga cósmica ou uma entidade maligna derrotada com a força da amizade?

Mas não pare por aí. Todo escritor de verdade sabe que a ambientação é fundamental. Afinal, Tolkien gastava páginas e páginas descrevendo uma única árvore, então por que você não pode? Pegue uma cena simples, como um personagem entrando em uma floresta, e descreva cada folha, cada tronco, cada pedra no caminho, até o leitor se perguntar se por acaso o livro virou um guia ilustrado de botânica. Mas lembre-se: essa floresta não terá a menor importância na história. O personagem vai atravessá-la em dois parágrafos e nunca mais falar sobre ela.

Talvez sua vibe seja mais sobre um drama... Ah, John Green... O mestre das tragédias adolescentes disfarçadas de romances profundos. O cara que consegue pegar um câncer, um drama existencial e um pouco de filosofia barata e transformar isso em algo que te faz sentir a necessidade de pegar uma caixa de lenços e, claro, um copo de chá. A profundidade dos seus livros? Bem, é tipo um poodle tentando ser um pastor alemão – só que mais sentimental e com mais referências literárias. "A Culpa é das Estrelas", onde dois adolescentes morrem de forma tão poética que se você não chorar, provavelmente não tem alma. Ele escreveu um livro onde os personagens conversam sobre a vida e a morte enquanto jogam o tipo de conversa que você teria em uma cafeteria depois de descobrir que a internet está cheia de citações mais filosóficas do que qualquer coisa que ele escreveu. Mas hey, se você precisa de uma desculpa para soltar uns lamentos enquanto finge que sua vida é tão dramaticamente importante quanto as de seus personagens... John Green é o cara.

Ah, Stephenie Meyer, você realmente conseguiu fazer um vampiro mais brilhante que qualquer estrela do universo — mas, sinceramente, até o meu nome brilha mais que o Edward Cullen. Pelo menos ele não é um espelho ambulante de clichês, né? A saga Crepúsculo é basicamente a receita de como transformar um triângulo amoroso sem graça em um fenômeno mundial. Bella Swan é a personificação da passividade, e Edward… bem, Edward é só um vampiro que brilha. Gênio, né? Ele é como se fosse uma fada da Disney com complexos existenciais, tentando convencer todo mundo de que, não, ele não é o "príncipe encantado", mas sim o "anti-herói incompreendido". E, ah, claro, o grande dilema da história é: “Fico com o vampiro que brilha ou com o lobisomem com autoestima e um cabelo melhor

Aliás, você já parou para pensar na história da sua história? Porque, veja bem, um verdadeiro autor cria todo um universo antes mesmo de escrever a primeira linha. Então, antes de começar a trama, invente toda a geopolítica, o funcionamento do sistema econômico, a relação entre as dinastias que governaram esse mundo nos últimos cinco mil anos e as nuances da religião predominante. Passe meses desenvolvendo tudo isso, até esquecer completamente qual era a história que você queria contar.

Sobre o que a gente estava falando mesmo?

No final das contas, qual é o segredo para vender um livro? Simples: xingar todos os grandes autores, fazer piada de seus fandoms e esperar que eles se sintam tocados e resolvam comprar seu livro só para provar que têm bom gosto. "Ah, você adora Harry Potter? Legal. Mas, sério, não tem nada mais fascinante do que um livro onde a história não precisa de uma varinha mágica para ser interessante!"

E para o pessoal do Crepúsculo, então? "Você realmente acha que a maior emoção de uma saga vampírica é alguém brilhar ao sol? Eu tenho personagens que têm mais camadas do que a sua coleção de glitter!" E quando a turma de Jogos Vorazes começar a se sentir ofendida, você lança um "Sim, eu sei que você estava esperando que eu matasse um personagem, mas me recuso a seguir essa fórmula previsível. Vou matar todos no final — não só os principais, mas também a sua esperança.

Ah, sim, no final, esse livro vai fazer um sucesso absurdo. Vai ser aclamado, elogiado, virar referência, e finalmente você poderá descansar, certo? Errado. Porque, ironicamente, agora todo mundo vai esperar ansiosamente pelo próximo livro, e você terá que repetir o desastre de novo. Parabéns! Você estragou sua própria paz de espírito com maestria.