Manual de como não ser bem-sucedido
7 Capítulo 7: A Arte de Subestimar a Comida Vencida
Eu me considero um aventureiro gastronômico. Enquanto algumas pessoas preferem jogar comida fora só porque passou três dias da validade, eu sigo a filosofia de que a data no rótulo é mais uma sugestão do que uma regra. Afinal, se fosse tão perigoso, estaria escrito em letras garrafais "SE VOCÊ COMER, VAI MORRER", não estaria?
Foi exatamente esse pensamento que me levou a confiar plenamente que aquele iogurte, vencido há um mês, ainda estava bom. "Se não abriu sozinho, ainda dá", pensei, dando uma boa chacoalhada para misturar os ingredientes separados. O primeiro gole foi estranho, mas eu me convenci de que era só minha mente pregando peças. O segundo gole já começou a gerar um leve arrependimento. O terceiro… bem, o terceiro foi o convite oficial para a intoxicação alimentar.
A Arte de Subestimar a Comida Vencida
Essa não foi a primeira vez. E, conhecendo meu histórico, definitivamente não seria a última. Eu já havia passado por isso com um frango de procedência duvidosa. Era uma noite chuvosa, eu estava morrendo de fome, e abrir o aplicativo de delivery parecia um esforço excessivo. Foi então que vi o frango na geladeira. Ele tinha uma coloração um pouco... diferente. Mas, como todo bom cientista da sobrevivência alimentar, eu tinha um método infalível para testar a segurança da comida:
Cheiro: Ok, meio forte, mas nada que um tempero extra não consertasse.Textura: Escorregadio demais? Talvez seja só o tempero natural do próprio frango.Prazo de validade: Oficialmente vencido há cinco dias, mas quem sou eu para discutir com um pedaço de frango sobre sua vida útil?A fome falou mais alto, e eu fui em frente. Preparei, fritei, joguei um molho por cima e, por alguns instantes, me senti um gênio por economizar comida. Duas horas depois, estava abraçado ao vaso sanitário, refletindo sobre todas as minhas escolhas de vida.
O Processo de Autoengano
O grande problema de sempre errar na análise do prazo de validade é que você desenvolve um ciclo vicioso de negação e arrependimento. Primeiro, você se convence de que a comida está boa. Depois, quando o primeiro sinal de dor de estômago aparece, você tenta se acalmar:
— Isso é só impressão minha. Com certeza não foi aquele queijo que tinha mais mofo do que queijo.
A dor aumenta.
— Tá bom, talvez o cheiro do leite não devesse ter me lembrado um campo de enxofre, mas é tarde para voltar atrás.
Quando você percebe que está mais tempo no banheiro do que em qualquer outro cômodo da casa, surge a epifania:
— Ok, hospital de novo.
E é nesse momento que você aceita seu destino.
Felipe Pizzaiolo e Sua Filosofia Gastronômica
E falando em decisões questionáveis, Felipe Pizzaiolo leva o conceito de improvisação culinária a um nível surreal. Uma vez, ele achou que seria muito prudente lavar um presunto esquecido na geladeira com detergente. “Detergente é só um tipo de limpeza, não é?” pensou ele. E foi mais longe: esquentou o presunto na chapa e, por fim, deu uma passadinha no micro-ondas. A genialidade disso? Bem, ele não morreu – mas, depois disso, sabe-se o quanto de detergente ele deve ter cagado. Felipe é um dos maiores estudiosos da arte da sobrevivência alimentar sem respeitar qualquer regra de segurança.
O Check-in no Hospital
— Boa noite, Alex — disse a enfermeira, olhando para mim com a expressão de quem já sabe que estou lá pelo mesmo motivo de sempre.
— Oi, Marta. Como tá a família?
— Melhor que você, pelo visto. O que foi dessa vez?
Eu suspiro. É humilhante precisar repetir essa história tantas vezes.
— Olha, o iogurte venceu tem um tempinho…
— Quanto tempo?
— Um mês.
— E você achou que ainda tava bom?
— Bom é um conceito relativo, Marta.
Ela revira os olhos e me guia para a sala onde vão colocar o soro na minha veia. Soro, aliás, que eu já considero meu coquetel de boas-vindas ao hospital.
Enquanto o líquido escorre lentamente pelo tubo, eu fecho os olhos e faço a clássica promessa: "Nunca mais vou comer nada vencido."
E, claro, assim que eu melhorar, vou ignorar completamente essa promessa. Afinal, qual é o risco de comer comida estragada quando a adrenalina de saber que estou fazendo merda é tão mais empolgante
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