Manual de Sedução Ii - do You Love Me?
24 Capítulo 24 - Inabalável Amor!
Notas iniciais
Enquanto os dois agentes tornavam aos beijos carinhosos e toques apaixonados, ao redor do iate o sangue, dos corpos de um conhecido mafioso italiano e seus capangas, tingia de vermelho as águas cristalinas do mar, servindo de alimento aos vários tubarões brancos que rodeavam a embarcação.
Mais tarde, Radamanthys e Kanon ateariam fogo à luxuosa barcaça e a abandonariam em chamas no alto-mar, voltando para a costa com a lancha que utilizaram para chegar até ela.
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Milo recebeu alta duas semanas depois da conversa que teve com Minos, quando ficou sabendo de todo o ocorrido. Em função de sua saúde, não pôde comparecer ao velório do amigo Shaka. Mas não era isso que o estava chateando no momento. Desde que tudo ocorreu, Camus ainda não fora visitá-lo para conversarem.
Sabia que ele já estava a par de todos os acontecimentos, desde os mais lamentáveis. Esperava que, depois de saber seus motivos, o ruivo aparecesse para conversar. Mas Camus simplesmente sumiu! Nem mesmo Marin, sua amiga mais chegada, sabia do paradeiro do francês. E isso, não podia negar, o decepcionara.
– Não fique assim, Milo. – Ana disse ao perceber o ar frustrado e triste de Milo.
– Eu queria tanto falar com ele... – Suspirou amargo.
– Sim, mas tente entender que para ele toda essa situação é muito difícil...
– E para mim não?! – Perguntou indignado. – Estou cansando de correr atrás dele... Só eu querendo entendimento... Só eu lutando para ficarmos juntos!
– Não foi fácil para ninguém... Mas ele ficou sabendo tudo de uma única vez! Temos sorte por Camus não ter pirado! Pensa nisso... Vocês dois precisam de tempo para assimilar tudo o que aconteceu. Acho que ele quis sair para pensar, sei lá, espairecer, colocar a cabeça em ordem. Tomar coragem para a conversa difícil que terão, sabe que não será fácil... E também tem todas as coisas que vocês já viveram, tudo o que ele fez e falou. E tem o fato de você ainda estar aqui, Milo, essa conversa entre vocês... Eu aconselho que se prepare, assim como acho que ele está se preparando.
– Eu sei disso Ana. Sei muito bem. Eu também tenho medo do que pode sair dessa conversa, mas... –Suspirou frustrado.– Você está certa! Precisamos de um tempo... – Ele disse, vencido.
– Mas então, o que pensa em fazer? Agora que você está livre desse carma, o que vai fazer no seu primeiro dia de liberdade?– Milo a fitou por um instante, pensativo.
– Sabe que eu não sei... Eu vivi tanto tempo com medo daquele homem, meio sobressaltado, sem saber se podia me aproximar do Camus, sem saber o que fazer com esse sentimento e sem me sentir seguro para estar com ele; sem saber se Shion estava por perto ou não... Que agora que ele se foi... Eu nem consigo acreditar direito!
– Pois comece a se acostumar, pois essa é a sua nova realidade. Agora você está totalmente livre! Até mesmo para dar umas tapas na bundinha daquele ruivo gostoso! –Eles riram.
– E você? O que pensa em fazer, Ana? — Desconversou.
– Trabalhar! O que venho fazendo desde que você deixou o escritório na mão, aliás. A menos que meu querido chefinho resolva me dar umas férias... –Milo estreitou os olhos, mas acabou com um sorriso.
– Pois bem, está concedida as suas merecidas férias! – Ana vibrou fazendo Milo rir. – E o que pretende fazer delas...?
– Curioso...! – Riu. – Acho que vou viajar, conhecer gente nova. Essas coisas...
– Nada de namorado? Não é possível que logo a minha secretária fique pra titia! Não, isso é uma blasfêmia contra o consultório de Milo Seferis!– Gracejou.
– Você sabe que esses compromissos sérios não são para mim, gosto muito da minha liberdade, sabe?!
– Ah sei...
– Mas, se te interessa saber, acho que antes de ir para as minhas merecidas férias, talvez eu passe na casa do delegado Shura... – Disse vagamente. Assim que viu a expressão divertida fingindo espanto de Milo, Ana caiu na gargalhada.
– O que...? Não vai me dizer que você e o delegado Shura...? Vocês estão...?
– Calma Milo! Não é nada disso que você está pensando! Só vamos ter assim... Algumas horas de divertimento sem compromisso. Somente. Amo muito os homens para me prender a um só!– Disse para o divertimento de Milo.
– Só você mesmo Ana...! Bom, o que mais posso dizer a não ser: Divirta-se!
– Obrigada!– Eles riram e logo depois entrou Aioria.– Bom, vou aproveitar que chegou e ir. Preciso preparar a minha viagem e aproveitar as minhas merecidas férias. – Ela riu.
– Vai viajar de férias? Que maravilha!– O leonino comentou sorridente.
– Eu sou um bom chefe, viu?! –Milo comentou, levando-os aos risos.
– É o melhor chefe de todos! –Ana riu e beijou-lhe a face. – Se cuida... –Despediram-se. Assim que se viram sozinhos, Milo não se aguentou e perguntou sobre Camus.
– Teve alguma notícia do Camus? A Marin falou alguma coisa? –Perguntou um pouco preocupado.
– Não, ele sumiu e não notícias desde então. – Ao notar a expressão triste do loiro, o leonino se enfezou. — Quer saber, Milo!? Você tem que parar de correr atrás desse cara! Depois que ele soube de tudo que você fez, se não vier rastejando aos seus pés pedindo perdão por tudo o que passou, simplesmente não o merece e nem o ama! Você tem que se dar mais valor, Milo! Deixe-o provar que te ama e correr um pouco atrás de você! –Aioria indignou-se.
– Não se preocupe Aioria, eu não vou correr atrás dele, até porque eu não sei onde ele está... –Murmurou chateado. O leonino, ao notar a tristeza do amigo, arrependeu-se do modo como falara de Camus.
– Olha Milo, não falei aquilo para te chatear. Se olharmos por outro lado, o Camus me parece um cara sensato, acho que no mínimo ele vai aparecer, nem que seja só para te pedir desculpas. –Disse tentando confortar o amigo.
– Obrigado, sei que ele é sensato.– Ele agradeceu num sorriso forçado, tentando sem sucesso não passar a angústia que sentia. Aioria, sentindo-se fracassado na tentativa de confortar o amigo, tentou novamente.
– Eu tenho lá minhas desconfianças desse cara, mas uma coisa é verdade: Ele gosta de você. Quando você sofreu esse atentado, nossa! Achei que ele fosse morrer junto. Ele ficou acabado, triste, chorando pelos cantos, nem parecia ele mesmo! Não saiu daqui por nada até os médicos dizerem que você não corria mais riscos. Então, acho que ele tem o jeito torto dele, meio frio, mas ele gosta de você. Não vai deixar as coisas assim... – Tentou novamente.
– Mas... você tinha dito que ele não me merecia e nem me amava. –Balbuciou. Os segundos em silêncio sentenciaram a tristeza que não abandonava o loiro. Aioria piscou os olhos e suspirou vencido, sentando na cama.
– Ok! Eu sou péssimo para isso, confesso... – Riram baixo. – Mas o que quero dizer é que... Eu não tenho certeza que ele te ama, às vezes parece que sim e às vezes não, mas acho que mesmo que ele te ame, você só tem um jeito de descobrir: Deixando que ele venha até você. Milo, você já fez tudo por ele, quase perdeu sua vida para salvá-lo. Está na hora dele retribuir um pouco isso, não acha?
– Acho... –Sorriu de lado.– Obrigado Aioria, você é um grande amigo!– Disse, abraçando-o.
– Não mais que você! – Aioria disse. – Bom, eu preciso te falar uma coisa muito séria. –Comentou num sorriso safado. Milo sorriu.
– Diga.
– Você, melhor do que ninguém, sabe o quanto eu sou apaixonado pela Marin. E se não fosse por você nós nunca estaríamos juntos hoje...– Milo concordou gestualmente.
– Que isso, Aioria. Além de ser o meu trabalho, é um imenso prazer ajudar as pessoas que se amam a ficarem juntas. – Sorriu.
– Eu sei, e você tem muito talento para juntar casais. Faz esse trabalho com perfeição. E fico muito feliz de termos ultrapassado essa relação de cliente. Hoje me considero seu amigo de verdade.
– Um dos melhores. Pode ter certeza! –Milo comentou estendendo a mão para o amigo. – Mas porque está me dizendo isso agora, Aioria? –Riram.
– O que quero dizer é que, em função disso tudo, eu andei pensando e cheguei à conclusão de que você é, sem duvida, a pessoa certa para ser padrinho do meu casamento...– Milo arregalou olhos e sorriso.
– O que? Não vai me dizer que... Vocês vão se casar!!! Que maravilha! Quando vai ser?? –Perguntou animado.
– Calma. Eu ainda não falei com ela... –Comentou aos risos.– Estou pensando em fazer o pedido assim que toda essa história se acalmar. –Mordeu o lábio inferior.– O que você acha?
– Eu acho uma excelente ideia, Aioria! Tudo bem que vocês namoram há pouco tempo, mas se amam e é isso o que importa. – Aconselhou.
– Então... Você aceita ser meu padrinho de casamento? – Perguntou sorrindo. Milo o encarou e, num suspiro de felicidade, confirmou:
– É claro que eu aceito. Ficarei muito feliz em ser seu padrinho.
– Ótimo, que bom... Agora só falta a noiva aceitar! –Comentou levando-os aos risos.
– É, meu amigo, essa é a parte mais difícil! –Milo comentou aos risos.
– Espero não estar atrapalhando... –Marin comentou ao entrar o ver os amigos rindo.
– Imagina Marin, você não atrapalha. Entre. –Milo convidou.Ela não se fez de rogada e aproximou-se de Aioria, dando um rápido beijo.
– Já estou sabendo que o médico vai te dar alta hoje... -A ruiva comentou.
– Não vejo a hora... – O loiro disse um pouco mais feliz.
– Bom, Milo, você tem uma visita.
– Camus? – O sorriso alargou-se ainda mais, esperançoso.
– Não, não. Ainda não tenho notícias dele. –Ela disse. O sorriso de Milo morreu, mas tentou evitar que percebessem sua frustração.– Quem está aí é o Saga.
– Saga...? –Perguntou, estranhando. Não que não fossem amigos, mas esse tempo todo o geminiano não fora falar com ele.– Bom, pede para ele entrar. – Marin foi até o corredor, chamando-o.
– Acho muito estranho ele vir. Teve duas semanas para isso e nada. E olha que foi o irmão dele quem tentou te matar, não é? – Aioria comentou. Milo concordou gestualmente, mas nada disse. Esperou até que ele entrasse no quarto junto de Marin. O silêncio constrangedor do geminiano ficou muito claro para todos. Ciente de que Kanon era o responsável pelo estado de Milo, Saga não conseguia esconder seu constrangimento.
– Oi Saga. – O escorpião iniciou, induzindo-o a falar.
– Oi Milo. Eu vim saber como você está. – Disse tentando manter uma postura mais casual.
– Estou bem, obrigado. Vou ter alta ainda hoje.
– Que bom... – Sorriu discreto. Novamente o silêncio tomou conta do geminiano. Este parecia pensar e precisar suas próprias palavras. – Eu precisava falar com você, em particular. – Pediu olhando-o fixamente.
– Ah... claro. – Confirmou olhando para o casal de amigos, num pedido mudo para que saíssem.
– Bom, vamos esperar lá fora então. – Aioria disse já se levantando. Olhou para Saga e o cumprimentou educadamente, mas distante, e depois saiu com Marin. Só depois que eles os deixaram, é que Saga começou.
– Acho que devo desculpas por tudo o que aconteceu. – Começou sem rodeios, aproximando-se da cama. – Mas eu queria que soubesse que não sabia mesmo o que o meu irmão pretendia fazer. Quando soube já era tarde demais, ele já havia feito aquilo. Mesmo assim, queria pedir desculpas, até mesmo por meu irmão.
– Tudo bem, Saga. Eu já soube o que aconteceu a ele e, de certa forma, acho que ele já pagou pelo caminho que escolheu. – Milo comentou.
– Sim, infelizmente.
– Foi uma surpresa para mim quando soube que foi seu irmão quem atirou em mim, eu nem sabia que tinha um irmão.
– Na verdade, eu só o conheci há um ano. E não posso dizer que não sabia das coisas erradas que ele fazia, desde que nos conhecemos soube que ele era um assassino, mas nunca imaginei que Shion o contrataria para te matar. Aquele monstro! Ele sabia que Kanon era meu irmão e o contratou para te matar. Depois o matou e plantou provas contra mim. Ele foi muito estrategista, era um monstro!
– Eu já fiquei sabendo dessa história.
– Para minha sorte, ele foi desmascarado. Se não fosse isso estaria até agora mofando na cadeia! Mas o meu silêncio me custou uma ficha criminal. Desculpe-me por não ter evitado. – Saga desviou o olhar.
– O importante é que tudo se resolveu da melhor forma possível. Estou bem e vivo. Só lamento mesmo pelo Shaka. – O semblante do geminiano se fechou ainda mais.
– Ainda não posso acreditar que Shaka morreu... – Comentou amargurado. Milo lembrou-se do comentário de Minos e, mordendo o lábio inferior, resolveu perguntar:
– Vocês eram muito amigos? – Sondou. O geminiano confirmou gestualmente. – Eu não sabia, nunca tinha visto vocês juntos no colégio...
– Na verdade, nossa amizade nasceu depois, na festa beneficente que o Senhor Minos deu.
– Ah, entendi...
– Ele era um homem incrível, eu já sabia, sentia pela... energia dele, que ele era diferente, não sei explicar isso.
– É eu sei, ele tinha uma energia diferente mesmo. Um ar meio sobrenatural...
– É... acho que no fundo ele era mesmo quem Shion dizia que ele era. Apesar dele próprio não acreditar nisso, era especial, sensível... – Quanto mais Saga falava, mais Milo entendia o porquê Minos disse que pensava que eles fossem mais que amigos.
– Você está falando de um jeito, tão encantado quanto Camus era quando estudávamos juntos... – Sorriu de lado.
– Hoje eu entendo perfeitamente o encanto que Camus sentiu naquela época.
– Saga, é impressão minha ou vocês dois... – Não era preciso concluir.
– Não, não tivemos um caso. Pelo menos não fisicamente falando. Acho que ele se imbuiu verdadeiramente dessa pureza, essa castidade em prol de seu povo, que nos impediu de viver esse sentimento que nos unia, diferente de tudo o que já senti.
– É uma pena que não tenham vivido isso, quanto mais ouço mais lamento toda essa coisa de profecia, escolhido... – Saga ficou em silêncio por um instante.
– Eu acho que fui escolhido por um santo, no fundo ele era tão apaixonado quanto Shion por aquilo que dizia ser seu destino, apesar de verdadeiramente desejar o bem, ao contrário do pai. Mas eu realmente não queria falar sobre isso, ainda dói.
– Tudo bem, desculpe. É só que... Fiquei sabendo que foi você quem plantou a dúvida nele sobre Shion e que isso fez muita diferença, e eu queria agradecer por fazer o que eu mesmo pretendia fazer naquela festa, mas não consegui.
– Eu sei... Eu também não entendo direito. Mas quando se trata do Shaka, não dá para entender, só sentir. Na verdade, não plantei dúvida alguma, ele já sabia de tudo, sempre soube.
– Como? Está dizendo que ele sabia? Então... – Milo franziu o cenho.
– Milo, o Shaka vai ser pra sempre uma incógnita. Mas não creia que ele tenha alguma parte nessa loucura. Acontece que ele era muito sensitivo, e sentia as reais intenções de Shion...
Flash Back (capítulo 7)
Ao chegar perto da porta, pôde sentir com as mãos o calor que vinha das velas e a energia tão peculiar de Shaka. O local parecia inundado de benção, recheado de uma paz tão pura que parecia se isolar no meio do mundo, um pequeno portal celestial dentro de sua casa. Sorriu e inspirou aquele ar calmamente antes de finalmente abrir a porta. A visão do local era de impressionar e mesmo Shion, acostumado a ver o filho meditando, nunca se acostumava a uma visão tão deslumbrante.
As incontáveis velas pareciam rodear Shaka de tantas que trepidavam perto de si, iluminando-o, aquecendo-o e, quem sabe, alimentando-o para que resistisse a tanto esforço. O loiro estava sentado no tapete em posição de lótus, de costas para a porta e de frente para a imagem de Buddaah, e pareceu não perceber a presença do pai. O calor que emanava das inúmeras velas aquecia absurdamente o ambiente, forçando Shion a manter a porta aberta para o ar quente sair. Contemplou o filho, maravilhado. Ele estava com um sári simples, de cor salmão e alguns detalhes em dourado. Os longos fios loiros caiam sob suas costas, perfeitamente alinhados, penteados, intocáveis, brilhantes pelo reflexo do fogo, como se fios de ouro fossem, bem como a pele branca, iluminada, dava um ar ainda mais sobrenatural ao loiro. Aquela visão parecia uma pintura caríssima de tão perfeita.
O pai então, percebendo que o filho sequer movimentou-se, resolveu sair e deixá-lo terminar a sua meditação. Saiu devagar olhando para aquela obra de arte por uma última vez e finalmente fechou a porta atrás de si. Assim que a porta foi fechada, Shaka então lentamente abriu os olhos, mas não se moveu. Olhou para as chamas e, uma a uma, elas se foram se apagando, restando apenas algumas acesas bem a sua frente. O local, antes muito iluminado, foi migrando para uma sombria escuridão com um pequeno ponto de luz e calor no centro. Shaka olhou para as velas enfraquecidas, mas resistindo. Olhou para a imagem de Budah e sentiu uma angústia muito forte apertar seu peito, que se exteriorizou na forma de uma lágrima solitária a molhar seu rosto.
Fim do Flash Back
–Ele sentia sim, como uma tempestade que se aproximava, as reais intenções do pai, a sua energia obscura, que lhe trazia escuridão, confusão, medo. Mas, como ele mesmo disse várias vezes, Shion era seu pai, e o amava muito. Ele tinha a esperança de conseguir mudá-lo com sua luz. Acreditava que se fosse mesmo o escolhido, que conseguiria acabar com essa sombra que pairava nele.
– Essa esperança custou muito caro. O meu sofrimento, do Camus, sua própria vida. –Milo comentou amargo.
– Eu sei, infelizmente ele não conseguiu seu intento. –Suspirou pesaroso.– Bom, mas como você mesmo disse, o importante é que vocês estão bem. Seu sacrifício, de certa forma, valeu à pena. –Disse num tom frio que não enganou Milo, mas o escorpião optou por encerrar aquele doloroso assunto.
– Sim, isso é o que importa. –Sorriu fechado.– Saga, você que é amigo do Camus, você sabe como ele está? –Perguntou na esperança de que ele soubesse do paradeiro do ruivo.
– Conversamos longamente depois que saí da cadeia, mas depois disso eu não o vi mais.
– Então você também não sabe onde ele está?– Saga negou com a cabeça.– Eu estou começando a ficar preocupado. Eu não queria que ele soubesse dessa forma, agora ele sumiu e Deus sabe o que está se passando na cabeça dele!
– Ele estava muito mal, péssimo. O Shion contou tudo o que você passou de uma forma muito cruel. –Saga comentou, condoído.
– Desgraçado! Ainda bem que já está no inferno mesmo! – Vociferou. – Mas quando o viu pela última vez?
– Foi antes do velório do Shaka, ainda na delegacia. Ele estava estranho, resolveu não ir ao velório, pois tinha passado a noite no hospital, e estava ainda meio dopado, disse que estava bem, o que eu não acreditei. Eu o chamei para conversar e, você sabe como ele é, segura tudo para ele, não se abre, mas ele disse que já estava sabendo de tudo e que estava muito arrependido de não ter acreditado em você.
– Eu estranhei dele não ter vindo falar comigo.
– Acho que ele virá sim, só que você ainda estava debilitado e ele também não estava bem, ele estava muito perturbado, abalado, acredito que por isso ainda não veio. Ele deve ter saído para assimilar tudo, mas vai te procurar, tenho certeza.
– A Ana me falou a mesma coisa...
– Olha, Milo, para falar a verdade, nós nunca fomos amigos de verdade. O Camus sempre esteve no nosso meio, e tenho que confessar que eu sempre achei que você era uma péssima companhia para ele. O seu jeito, as suas atitudes, sempre me parecera que você só queria diversão. E eu sempre gostei do Camus, o quis para mim, apesar de saber que ele sempre te amou. Eu tinha esperança que um dia ele te esqueceria e poderíamos ficar juntos, mas isso nunca aconteceu. Sei que ele não te tratou nada bem, eu mesmo o aconselhei a se afastar de você, mas tenta entender... Toda a situação, era impossível não pensar que você era responsável por tudo.
– Eu sei Saga, não precisa se justificar e nem justificar as atitudes do Camus. Eu sei de tudo isso, todas as minhas atitudes faziam-no crer que eu era mesmo um cafajeste.
– Eu só estou te falando isso para você tentar entendê-lo e não julgá-lo. Acho que ele não suportaria mais esse julgamento. Estou certo de que ele está se culpando muito.
– Eu imagino... Mas não se preocupe, eu o amo demais para ser eu mesmo motivo de dor para ele. –Milo disse, condoído pelo sofrimento do ruivo.
Nesse instante, o médico chegou com sua alta. Depois de todas as recomendações, a bronca pela tentativa de fuga frustrada e a constatação do seu rápido restabelecimento, Milo finalmente recebeu sua tão esperada alta. Ele ainda estava em recuperação, mas já conseguia ficar de pé e andar normalmente. As dores já o haviam abandonado e as únicas restrições foram quanto às atividades físicas. Seu tão adorado surfe teria que ficar para depois.
Mas já estava feliz por deixar o hospital. Marin, sabendo da viagem de Anapanter, convidou o amigo para que passasse alguns dias em sua casa, enquanto ainda estivesse em recuperação, convite que foi prontamente aceito. Saga decidiu que já era hora de partir, deixando-o com os amigos.
– Para onde você vai, Saga? – Milo perguntou.
– Vou para casa, agora que você está se recuperando bem, está com seus amigos, acho que já posso ir. Mas não se esqueça do que te falei.
– Não vou esquecer, obrigado. Se quiser, aparece. Eu realmente acho que seria legal um reencontro com a galera da escola.– Comentou educadamente.
– Está certo, vamos combinar sim. – Despediu-se com um aperto de mão e seguiu seu caminho.
Depois de ajustados todos os procedimentos necessários, Milo finalmente saiu daquele hospital acompanhado de seus amigos. P ara ele, era mais do que isso, era um passo para uma nova vida, deixando para trás todo o passado que tanto o atormentou. Assim que pisou na calçada do hospital, respirou fundo e sorriu. Até o oxigênio parecia-lhe mais limpo e revigorante.
– Bem vindo de volta, amigo. – Aioria murmurou. Finalmente estava voltando para sua vida, mas desta vez completamente livre. Com sorriso de alívio nos lábios, seguiram em direção ao carro do leonino, mas estancaram o passo ao ouvir uma voz conhecida:
– Milo! –Eles se viraram para encarar o homem que chamava pelo escorpião.Não precisavam olhar em seus olhos para perceber o quão tenso ele estava. Ansioso, o loiro virou-se para encarar os olhos inexpressivos e abatidos de Camus.
– Oi... – Forçou-se a dizer algo. – Oi Camus... –Não conseguiu dizer mais do que isso.Estava nervoso pela presença dele, pelo olhar dele sobre si, pela conversa que teriam, pela expectativa de um futuro entre eles. Por tudo! Tanto que acabou sem saber como falar. Esperou duas semanas para encontrá-lo, e agora não sabia como agir diante do ruivo.
A sua tensão só não era maior que a de Camus e percebeu isso, o que ajudou a acalmá-lo um pouco. O olhar inexpressivo não escondia para Milo o constrangimento e tensão que corroíam a alma do ruivo que, completamente sem jeito, também calou-se por um tempo. Eles tinham tanto a se falar, tanto para expor, tantas palavras a serem ditas, mas naquele momento nenhuma delas ousou aparecer, imperando o silêncio.
Em meio a isso, Aioria e Marin se olharam sem jeito. Percebiam o clima tenso que se instaurou e não sabiam como revertê-lo, se deviam ficar, sair, ou tirar Milo dali, já que este precisava evitar emoções fortes.
– Camus! Que bom que apareceu!– Marin tentou uma conversa para tirá-los do torpor do reencontro. Franziu o cenho quando viu o ruivo baixar o olhar. Nunca tinha visto Camus tomar tal atitude resignada.
– Desculpem-me... Eu saí da cidade. Precisava pensar, colocar a cabeça em ordem e... tentar digerir tudo o que aconteceu. – A voz enfraquecida de Camus causou aperto ao coração de Milo. Eles se olharam novamente e o loiro ficou procurando o homem que tão bem conhecia, mas não encontrou. – Que bom que já recebeu alta. Eu esperava voltar a tempo de te ver... – Sorriu triste.
– Acabei de receber alta... – Disse, sem graça. – Que bom que veio... –Sorriu forçado mais uma vez.
– E como você está?
– Estou bem... não posso abusar, pegar peso, essas coisas, mas estou bem.
– Que ótimo. –Mais alguns segundos em silêncio. – E vai para sua casa?
– Eu vou para a casa da Marin passar esses dias até me recuperar completamente.
– Eu o convidei, não é bom deixá-lo sozinho em casa nesse momento. –Marin complementou.
– Que bom. Bom ter amigos. – Murmurou o ruivo.
– É... Bom Camus, eu já vou indo, então... – Disse, mas não era o que queria dizer. – Você pode vir me ver, esses dias... – Sugeriu sem graça.
– Ah... Tudo bem. – Comentou, porém não queria esperar mais, esperou tanto por essa conversa, por um bom momento e essa angustia já o estava enlouquecendo. – Milo! – Chamou novamente ao vê-lo dar as costas.
– Sim? –Camus respirou fundo.
– Eu queria... conversar com você agora. Se não for atrapalhar...
– Agora?! –Milo perguntou surpreso com a estranha precipitação do ruivo.
– É... você disse que já está bem... Eu preciso, a gente precisa conversar. Eu estava esperando um bom momento, mas eu acho que esse bom momento não vai aparecer nunca... – O loiro o fitou por um instante antes de decidir.
– Eu acho que não é uma boa ideia, ele tem que evitar emoções fortes... – Aioria comentou. Camus nada disse, apenas ficou encarando o loiro, esperando uma resposta.
– Tudo bem Camus, eu vou com você.– O loiro se virou para os amigos e se despediu, depois de se certificarem que ele estava mesmo bem para aquela conversa. Assim que Aioria e Marin saíram, Milo acompanhou Camus até seu carro. Eles entraram e sentaram, mas ao invés de dar a partida, o ruivo simplesmente ficou parado encarando o volante. Os segundos passaram torturantes, com as palavras que teimavam em não sair.
– Cheguei a pensar que não viria me ver... – Milo comentou, após um tempo. Camus respondeu, ainda mirando fixamente o volante.
– Eu não deixaria de vir... – Respondeu num tom de voz melancólico. O loiro suspirou.
– Foi o que me disseram, mas... Sei lá, né. Você sumiu e sequer deixou notícia! -Viu o ruivo fechar bem os olhos e depois abri-los para encará-lo.
– Não quis causar essa impressão. Eu precisava desse tempo, desculpe se não avisei nada. Mas eu precisava... – A voz de Camus estava mais enrouquecida que o normal.
– Tudo bem, não tem problema. -Eles ficaram em silêncio novamente.
– Você já sabe o que aconteceu? Com Shion e Shaka? – Camus perguntou, finalmente.
– Já...– Milo suspirou pesaroso.
– Shaka morreu para me salvar do tiro que Shion disparou contra mim. Ele quis me matar, de verdade. –Murmurou ainda aturdido.
– Não foi a primeira vez que ele quis isso... – Milo desviou o olhar para a janela, lembrando-se do passado. Camus olhou para o loiro, mostrando-se ainda incrédulo.
– Porque você não me contou? Naquela época, porque você não o denunciou? Essa história é tão... é tão... Eu não tenho nem palavras! Tudo teria sido tão diferente... – Não concluiu, pois Milo o cortou sentindo-se incomodado pelas palavras.
– O que teria sido diferente? Você teria acreditado em mim? Você nunca acreditou nas minhas palavras. Não ia ser diferente. – Disse e desviou o olhar para a janela novamente. Camus suspirou e fez o mesmo. Sabia que ele estava certo e isso doía muito. Saber que se tivesse confiado nele, tudo teria sido diferente.
– Você devia tê-lo denunciado à polícia, à qualquer coisa! A situação não poderia ter chegado a esse ponto... – Camus balbuciou ainda horrorizado com tudo o que Shion tinha feito. Milo o encarou indignado ao ouvir a cobrança do ruivo.
– O que?! Escuta aqui Camus, as coisas não foram tão simples assim, ok?! Não era apenas um bandido qualquer ameaçando adolescentes! A merda foi séria demais! Você quase foi assassinado! Eu quase fui assassinado! Fui violentado, espancado e humilhado! Estava lidando com um louco psicopata capaz de qualquer coisa e fiz tudo que estava ao meu alcance para impedir aquele maluco de fazer mais vítimas, mais tragédias, então não vem com essa merda de querer me cobrar atitudes! Dizer o que eu tinha ou não que fazer! Você não tem esse direito! Não passou pelo que eu passei! – Explodiu. Camus sobressaltou-se com a repentina explosão do loiro.
– Só estou dizendo que você não podia ficar calado por tanto tempo. Que não falasse pra mim, mas falasse pra alguém! Ele poderia ter te matado! – Argumentou, indignando o loiro.
– Eu não acredito no que eu estou ouvindo! Depois de tudo o que eu passei durante todos esses anos, você ainda vir julgar meus atos e decisões... Você não sabe, não faz a mínima ideia do que eu senti e vivi pra querer me dizer alguma coisa! – Irritou-se, ameaçando sair do carro, mas foi impedido pelo ruivo.
– Espere! Não vá, por favor! Desculpe-me, eu não quis... Não foi essa a minha intenção. Não estou te cobrando nada... – Desculpou-se com medo que ele se fosse, olhando fundo em seus olhos. Milo bufou e cruzou os braços, mantendo-se no lugar após fechar a porta do carro. – Só estava dizendo que você não podia ter encarado isso sozinho. Tinha que ter dividido com alguém. – Tentou amenizar as próprias palavras, soltando-o ao perceber que ele decidira ficar.Semobter resposta, Camus cerrou os olhos novamente e voltou seu olhar para o lado de fora, em silêncio. – Você não tem ideia de como me arrependo de não ter te escutado... –Disse com a voz enfraquecida. O loiro descruzou os braços e meneou a cabeça, sentia-se indignado, mas ao mesmo tempo compreendia as razões do ruivo.
– Eu tive medo...– Milo murmurou, constrangido, atraindo a atenção de Camus novamente.
– Medo...?
– É, Camus! Eu fiquei com medo dele, das ameaças dele! Eu só tinha 17 anos! Era uma criança praticamente e tive medo. Fiquei assustado quando soube que ele tinha tentado te matar, assustado quando te vi no hospital e quando ele me confessou tudo. Tive medo das coisas que ele poderia fazer. Medo que ele tentasse te matar novamente, como fez naquele aquele atropelamento. Foi por isso que não te contei nada na época, foi por medo! –Desabafou para um ruivo que o ouvia atentamente.
– E depois? Porque não me contou depois?
– Porque você não acreditava em mim! Porque eu temi que ele fizesse alguma coisa com você se eu contasse! Ele me ameaçou por muito tempo! Porque eu tive medo da sua reação! Ah por favor, Camus! Você não vai ficar me cobrando isso agora, vai?! –Irritou-se novamente.
– Não, não. Desculpe... não quis te irritar.
– Como não quer que eu me irrite?! Que tipo de cobrança é essa? Você se esqueceu de tudo o que me falou? Todas as acusações que me fez? Esqueceu-se de que até ontem eu era o canalha aproveitador? Você acha mesmo que teria acreditado nessa história se eu contasse? Você acreditaria no aproveitadorzinho pervertido que te dopou e se aproveitou de você? – Perguntou agressivamente para Camus, que apenas engoliu em seco e nada respondeu. Milo riu debochado. – Não, claro que não! Shion armou direitinho para que isso acontecesse e tua maldita insegurança colaborou totalmente para o êxito dos planos dele! – Murmurou para si mesmo, voltando o olhar para a janela, sem notar a expressão cada vez mais pálida de Camus.
– Você tem razão, eu não teria acreditado... – Confirmou, mesmo que isso o rasgasse por dentro. Milo voltou seu olhar magoado novamente para o ruivo.
– E ainda tem a cara de pau de me cobrar porque não te contei! – Afirmou ainda mais irritado.
– Não é uma cobrança...– Disse fazendo o loiro desviar o olhar novamente, triste.Camus voltou a mirar o volante, mas não dirigiu.
– Tente entender Milo... Sei que devia ter acreditado em você, mas... Tudo, todos os fatos mostravam que você tinha feito. Como eu poderia imaginar...? – Perguntou com lágrimas nos olhos. – Eu sempre quis estar enganado, mas você nunca sequer tentou justificar. Eu...
– Não me justifiquei porque não iria adiantar... Você acreditou logo de cara que eu fiz porque eu era um canalha pervertido! – Calou-se, controlando-se para não chorar. — Você achou mesmo que eu poderia fazer aquilo por simples maldade?!– Perguntou triste.
– Mas você era um pervertido Milo! Você se deitava e flertava com qualquer pessoa que aparecesse! Você usava as pessoas para o seu prazer e depois jogava fora! Esse era você! – Gritou, expondo uma de suas maiores dores. – E você acha que nunca me fez mal com essas coisas? Essas suas atitudes me matavam por dentro! – Desabafou aos prantos.
– Mas eu nunca embebedei, muito menos droguei ninguém para levar para a cama, Camus! – Gritou – Muito menos o faria contigo, eu te amava, merda! Sempre te amei!
– Eu sei! Perdão! Eu devia ter parado pra te ouvir quando você quis me contar, eu devia ter parado para ouvir quando tentou dizer, devia ter percebido que você jamais me faria algo como aquilo, mas eu não fiz. Simplesmente preferi acreditar que você não passava de um cafajeste! Devia ter ouvido meu coração, mesmo com suas atitudes questionáveis... Devia ter ao menos ter te cobrado uma explicação! Mas não conseguia, foi impossível ir contra fatos tão claros e eu estava morto de vergonha! Eu não pude! Ah, como eu quis que esse dia chegasse, que eu descobrisse que você era inocente, mas agora... – Desabafou, confuso. A verdade era tão cruel que não lhe aliviava o coração, pelo contrário. A verdade o afligia ainda mais.
Eles ficaram se olhando, num misto de raiva e decepção um com o outro, e com eles mesmos. Como deixaram as coisas chegarem nesse ponto? Um suspiro de cansaço saiu da boca do loiro, até que ele recostasse novamente no banco e ali ficou por uns minutos, pensativo.
– Eu estou cansado, Camus. Não quero brigar com você... Chega! Não aguento mais! — A voz de Milo saiu fraca e entristecida.
– Eu também não quero brigar com você, Milo...– Confessou, rendendo-se.
– Olha... Eu entendo, tá bom? Eu sempre te entendi, você tinha razões distorcidas pelas mentiras de Shion. E eu também vacilei algumas vezes. Nenhum de nós dois tivemos culpa de nada... – Disse, tentando racionalizar. A menção repetitiva menção a Shion acabou por fazer com que ecoasse na cabeça do ruivo as duras palavras que ouviu, das coisas terríveis que ele fizera com Milo e isso lhe embrulhava o estômago e faziam arder os seus olhos. – Não vamos perder tempo querendo achar culpado, responsáveis, pois o único responsável mesmo já está morto. – Milo sentenciou.– Ok, eu entendo que os fatos conduziam a isso, mesmo. Talvez tivesse sido diferente se você não tivesse acreditado tão rápido nisso... – Emendou, imerso em lembranças. – Ou talvez estivéssemos mortos agora. – Camus o olhou, confuso. – Ele era um psicopata assassino, Camus. Ainda não entendeu?! Eu tentei desmascará-lo, mas eu mesmo sabia, no fundo, eu sabia que eu estava assinando o meu próprio atestado de óbito! Mesmo que eu conseguisse, ele nos perseguiria até o inferno se fosse preciso! Ele era obcecado por essa vingança e não iria descansar enquanto estivéssemos bem, ou vivos. Então, não pense que faria diferença você saber antes... Talvez tivesse assinado nossa sentença de morte se você não se convencesse. – Concluiu.
– E mesmo assim você continuou? – Camus assustou-se. Se Milo não tivesse sobrevivido, certamente não suportaria tamanha dor. Milo pensou por uns instantes antes de responder:
– Não tinha outra opção. Era isso ou você estaria nas mãos dele para sempre. Eu até pensei em desistir, naquele dia da Mundus, quando brigamos, lembra? – Camus confirmou gestualmente. – Naquele dia, decidi que não mais te procuraria. Não poderia arriscar a sua vida...
Flash Back – Dia da briga na Mundus (capítulo 17 – 1° Temporada)
– Eu não posso fazer nada. Eu não farei nada.
– Mas Milo..
– Não dá Aioria! Não depois de tudo o que eu passei para protegê-lo! Não dá pra de repente jogar tudo para o alto e expor o Camus desse jeito! Não dá! Acabou! Acabou!
Fim do Flash Back
–Eu fiquei apavorado quando vi que o Shion estava de volta, e ainda por cima como seu sócio. Mas é claro, ele jamais deixou de estar por perto. Aquele filho da mãe estava na sua cola, certificando-se de que você continuava a sofrer, continuava longe de mim, certificando-se de fazê-lo crer naqueles absurdos, alimentando essa vingança naquela cabeça doentia!
– E porque mudou de ideia? – Camus perguntou, atraindo a atenção do loiro.
– Porque eu percebi que ele ainda o ameaçava. Ele nunca o deixou em paz, como dissera que faria. Ele estava lá, pronto para ameaçá-lo, agredi-lo, matá-lo. Ele estava alimentando o veneno que incutiu em você. Eu sabia que você só estaria seguro enquanto o seu sofrimento alimentasse aquela vingança. A verdade é que você ainda estava em perigo, com aquele homem por perto. E eu não podia deixar que isso acontecesse, não podia deixar que ele continuasse te cercando daquela forma. Então, eu não tive escolha a não ser tentar pará-lo. – Quanto mais Camus ouvia, mais sentia seu coração sangrar. Como pôde não perceber o amor que Milo sentia? Como não percebera nada? Como pôde fazê-lo sofrer tanto? Seus olhos marejaram ante aos próprios pensamentos.
– Você se arriscou demais por mim, eu não merecia tanto... – Concluiu, não conseguindo evitar algumas lágrimas.
– Fiz por amor... Eu disse que só estava protegendo-o. – Disse, mas sua intenção era tão somente que ele entendesse que todas as suas atitudes, mesmo as erradas, tinham o único objetivo de protegê-lo.
–Eu não mereço tudo o que fez por mim... – Murmurou com os olhos fechados, sentindo-se enojado. – Eu não percebi a sinceridade dos seus sentimentos e não só isso. Eu... eu o feri! Fiz o mesmo que ele... Eu fui um monstro! Eu não mereço você! – Murmurou não conseguindo mais segurar algumas lágrimas que marcavam seu rosto. O loiro suspirou pesaroso.
–Camus, todos nós sofremos muito. Fomos presos nessa armadilha e saímos muito machucados. Mas não se culpe, nem fique remoendo as coisas que você fez ou que deveria ter feito, porque não adianta. Nem temos como saber se teria feito diferença! O importante é que agora estamos livres! E Deus do céu, eu quero muito isso! Eu quero mesmo viver essa liberdade, não vou deixar que as maldades daquele maluco me impeçam de ser feliz! E você devia fazer o mesmo! E quanto ao que aconteceu na sua casa... Foi uma violência, é verdade, mas eu também fui conivente e deixei que acontecesse. Você já pediu desculpas por aquilo e eu já o perdoei... – Milo desabafou, querendo livrar-se daquela história de uma vez. Camus o olhou tentando controlar as lágrimas.
– Sim, eu sei. Sou eu que ainda não consegui me perdoar. Eu me sinto... sujo. Eu... eu não consigo me perdoar pelo que te fiz! E não sei se um dia eu vou conseguir me livrar dessa culpa que me angustia...
– Você se deixou levar pelo sofrimento. Não se culpe por isso, por favor, Shion fez tudo direitinho, aproveitou-se de nossas maiores fraquezas e as explorou contra nós, para nos fazer sofrer. Ele era inteligente, um monstro, mas muito inteligente.
– Nada justifica Milo. Por mais que você fosse um cafajeste, eu não tinha o direito de violentá-lo... – Milo suspirou, cansado, frustrado.
– Olha, porque você não deixa isso para trás? Eu já deixei... Vamos passar uma borracha em cima disso? Shion está morto! Eu sei que não devia ficar feliz com isso, mas eu fico, porque sei que só assim podemos viver o que sentimos! Para de ficar se remoendo e vamos esquecer tudo que passamos. –Camus meneou a cabeça.
– Eu quero esquecer, mas eu não consigo parar de sentir, de pensar nas coisas que você passou, nas coisas que fiz a você! Deus do céu! Achei que fosse enlouquecer nessas últimas semanas! –Exausto, debruçou-se sobre o volante.
– Camus... – Milo balbuciou.
– Eu ainda não consigo acreditar no que aconteceu. – O ruivodisse com a voz embargada, mergulhado na própria dor. – Tudo por causa da noite em que eu e Shaka... eu... eu não acredito que uma bobagem como aquela foi causar tudo isso!– Milo engoliu em seco. O envolvimento de Camus com Shaka sempre o perturbou.
– Não escolhemos com quem vamos nos envolver...– Desviou o olhar, meio perdido.Camus limpou as lágrimas, aturdido com o que ouvira.
– Não... eu nunca me envolvi com ele. O que aconteceu foi um momento de fraqueza. – Pegou suavemente o rosto de Milo, para poder mirar em seus olhos. – Nós estávamos bebendo, a primeira vez que resolvi beber e eu desabafei o meu amor...
– Eu não quero saber desses detalhes, Camus! – Desviou o olhar enojado da história.
– Desabafei o meu amor por você... – Disse atraindo novamente a atenção do loiro. – E também a minha tristeza por você agir daquele modo displicente. Eu estava arrasado porque o vi com outro, eu queria arrancar o que eu sentia de dentro de mim. E ai, eu não sei direito como foi, mas ele se declarou e eu...– Suspirou. – Eu não estava no meu juízo perfeito.
– Está querendo dizer que a culpa foi minha? – O loiro perguntou em um misto de indignação e cautela.
– Não! Claro que não! Eu só estou dizendo que se eu não tivesse cometido esse erro, se eu não tivesse feito aquilo, nada disso teria acontecido.– Milo o fitou por alguns segundos.
– Você não tinha como saber...
– Não sabia... Mas nem por isso deixou de ser meu erro. –Milo suspirou resignado.
– Errou sim, mas eu também errei. Todos nós erramos, mas nenhum desses erros justifica ou nos coloca como culpados ou responsáveis de alguma forma com o que aconteceu. Como eu já disse e repito: O único culpado de tudo isso é o Shion e aquele filho da mãe já está morto e enterrado. Acabou! Acabou tudo isso! –Camus o fitou por um tempo, em silêncio, assimilando o que lhe era dito. Eles mergulharam no silêncio novamente, o ruivo tentava com todas as suas forças conter a culpa e o remorso que corroia seu coração, enquanto Milo, visivelmente cansado, tentava acabar com aquela história. É claro, era compreensível, se ele mesmo quase enlouqueceu com duas semanas sabendo dessa história, imaginava a situação de Milo, que vivera tudo na carne e passara aquele tempo todo guardando consigo aquele segredo. O pensamento o afligiu ainda mais, mas conteve-se pelo loiro. Não queria estender ainda mais o sofrimento do loiro.
– Porque não esquecemos isso?Pra que ficarmos nos martirizando agora, depois de conseguirmos nos livrar de tudo?! Eu quero esquecer, quero viver a minha vida, a nossa vida, e deixar tudo isso para trás! Faz isso por mim? Eu quero tanto esquecer tudo o que passamos... –Milo insistiu, cansado de toda aquela história. O ruivo o encarou por alguns segundos e respirou fundo.
– Tudo bem. – O ruivo respondeu.Eles ficaram em silêncio por um tempo. Era perceptível para o loiro o esforço de Camus para superar aquele sentimento que se apoderava do seu coração.
– Sei que é difícil esquecer, mas vamos pelo menos tentar? Vamos esquecer tudo, o que passou, passou. Não importa o passado, só daqui pra frente! Agora só me importa o futuro, o nosso futuro. – Milo pediu num meio sorriso. Camus o fitou por um instante e tentou, por ele, um sorriso. Seus olhos correram até as mãos do loiro e, num impulso, as pegou suavemente, beijando-as demoradamente. Milo ficou encarando aquele ato, surpreso, sentindo o beijo e entendendo-o como um pedido de perdão. Sentiu as próprias mãos serem molhadas por algumas lágrimas do ruivo ao mesmo tempo em que uma dor aguda perfurava-lhe o peito. Abriu a boca para falar, mas o ruivo ergueu os olhos cheios de dor, para mirar os seus.
– Eu posso te levar num lugar especial? –Pediu num sorriso que cortava sua dor.
– Onde? – Perguntou estranhando aquela pergunta.
– Surpresa, mas tenho certeza que você vai gostar. – Milo o fitou por alguns segundos e depois sorriu. Ainda podia-se ver dor estampada em seu rosto, em seu meio sorriso, num esforço para parecer bem. É claro que eles levariam algum tempo para se recuperarem de todo aquele sofrimento, mas ainda assim o loiro ficou satisfeito. O ruivo estava esforçando-se para superar a angústia de se sentir parte e responsável daquela tragédia, e Milo queria ajudá-lo nisso, pois só assim eles poderiam viver uma vida normal novamente.
– Pode! Me leva com você. – Sussurrou, entregando-se novamente ao homem que sempre amou. A frase ecoou nos ouvidos do ruivo e aqueceu seu coração. Não conseguia entender esse amor tão incondicional que lhe era dedicado, ele não era merecedor de tanto. Mas também sentia que devia algo a Milo. Devia entregar o seu coração a ele, apesar de já estar em pedaços há muito tempo. E foi pensando nisso que seguiu com seu carro.
Eles seguiram a viagem toda em silêncio. As palavras ainda eram necessárias, ainda tinham muito para conversar, mas também precisavam de um tempo. Ainda precisavam assimilar aos poucos tudo o que aconteceu. Não seria fácil, mas agora tinha certeza, poderia enfrentar essa situação com ele.
No meio da viagem, Camus parou e pediu para que Milo vedasse os olhos. Era realmente uma surpresa e não queria que o loiro soubesse para onde iriam. Com alguma insistência, conseguiu convencê-lo a colocar uma venda nos olhos, para impedir que visse o caminho. Milo achou aquilo curioso, mas deixou-se levar. Já estava ficando ansioso para saber onde Camus o estava levando. Só sabia que era um lugar bem distante, pois ele já estava a um bom tempo dirigindo.
Seus sentidos aguçaram quando se viu impossibilitado de ver qualquer coisa. No completo escuro, ele focava sua atenção e sua percepção na viagem e no condutor ao seu lado. Somente nesse instante percebeu a respiração alterada de Camus. Era algo quase imperceptível se não fosse essa atenção extra, provocada pela perda da visão. Ele estava tenso, dava para perceber muito bem. Milo suspirou resignado e se recostou no banco. Aquela tensão iria acompanhá-los ainda por algum tempo, pelo menos enquanto o fantasma de Shion ainda pairasse por suas cabeças.
Milo estava quase dormindo quando o carro parou. Iria perguntar se tinham chegado, mas o ruivo foi rápido ao sair do veículo. Sem saber o que fazer, esperou até sentir a porta ao seu lado abrir e as mãos dele segurarem seu braço.
– Já posso tirar isso? – Perguntou a respeito o pano que lhe impedia de ver o caminho enquanto saía do carro.
– Não, ainda não. –Camus respondeu e o guiou para dentro de algum lugar. Quando teve de subir escadas, percebeu que estava dentro de uma casa.
– Estamos na casa de quem? –Perguntou curioso.
– Você logo vai saber... – Respondeu não evitando um riso baixo. – Cuidado com esta parte. Suba! –Milo sentiu que entrava num lugar apertado, como se estivesse entrando numa janela.
– Olha, seja lá pra onde está me levando, não esqueça que estou recém-operado, heim! – Brincou com a relativa dificuldade de passar no local indicado. Camus riu.
– Não se preocupe, eu cuido de você. – A frase murmurada tão perto fez o loiro se arrepiar. Quando finalmente conseguiu ficar de pé e percebeu estar numa superfície inclinada, com o vento batendo em seu rosto e balançando seu cabelo, sentiu seu coração disparar. – Aqui é o lugar mais seguro que conheço. –Camus disse antes de retirar a venda.– É só você não sair rolando...– Brincoue sentiu seu coração aquecer com o brilho que surgiu nos belos olhos do escorpião.
– Eu não acredito...– Milo estava tão emocionado que sentiu os olhos marejarem. Estavam no telhado de sua antiga casa, lugar onde junto de Camus passava noites e noites observando as estrelas quando ainda eram muito jovens, antes de todo aquele pesadelo acontecer, quando eles eram apenas eles, sem dor, sem mágoas e sem medos, sem Shion para atormentá-los.
– Calma, senta aqui. Você não pode se emocionar. – O loiro riu meio debochado e com a ajuda do ruivo, sentou.
– Depois disso, impossível não me emocionar... – Disse sem tirar seus olhos da paisagem, nem o sorriso bobo do rosto. Tudo continuava o mesmo, exatamente como se lembrava. – Incrível, está tudo exatamente igual ao que era antes... – Comentou, maravilhado, enquanto inspirava o ar profundamente. – Tem cheiro de infância... – Suspirou.
– Que bom que gostou da surpresa. – O ruivo comentou, sem tirar os olhos da reação dele.
– Eu não gostei... – Disse e finalmente voltou seus olhos para ele. – Eu adorei! Obrigado por me trazer aqui, Camus. – Agradeceu, acariciando-lhe de leve o braço antes de voltar a olhar a paisagem. Camus sorriu, satisfeito com as reações dele, principalmente com aquele brilho no olhar que tanto amava.
– Eu que agradeço de ter vindo, confesso que temi que você não aceitasse vir comigo... – Foi sincero. Milo o olhou de lado, estranhando a forma tão aberta com que ele lhe falava. Sabia o que ele queria dizer, entendia o medo dele, por isso preferiu apenas sorrir. Camus então mirou para onde o loiro olhava e, percebendo algo diferente, comentou:
– Sabe... Para mim essa vista me parece diferente.– O loiro o olhou um tanto incrédulo.
– Como assim? Está tudo exatamente igual! As casas, as árvores, a praça! Estão no mesmo lugar, tudo como era quando morávamos aqui! –Camus deu de ombros e, sorrindo, respondeu:
– Sim, está. Mas eu estou vendo um algo mais. Eu não sei explicar exatamente o que é, mas eu vejo algo diferente. Algo além dos telhados das casas, da copa das árvores... Eu não sei, mas está lá. –Divagou.Teve certeza que não conseguiu fazer-se entender, pois percebeu o olhar confuso de Milo sobre si. Sem jeito e um pouco corado, emendou: — Devem ser meus olhos... – Disse sem graça.O loiro o fitou por um instante, analisando.
– Deve ser, ouvi dizer que a paisagem muda de acordo com o observador...
– Pode ser isso, então. –Milo riu.
– Devo ser o mesmo pirralho de antes, então, pois não estou vendo absolutamente nada de diferente! –Fez graça, arrancando risos de Camus.
– Você manteve a juventude do seu espírito, Milo, isso é indiscutível. – Gargalharam.
– É um jeito bonito de me chamar de infantil. Mas não posso negar, você tem razão. –Disse, curtindo aqueles segundos preciosos e tão raros de cumplicidade que ressurgia entre eles depois de tanto tempo e que o lugar ajudou a formar. Não soube se Camus fez propositadamente ou não, mas o fato é que aquela tensão de antes tinha amenizado e muito. É claro que ainda percebia muita tristeza em seu jeito de falar, até o seu sorriso era sôfrego.
– Sabe o que eu andei lendo esses dias? – Camus perguntou tirando-o de seus pensamentos.
– O que?
– Seu livro, Manual de Sedução. –Milo franziu o cenho sorrindo.
– Sério? Nossa! Pensei que odiasse meu livro... –Provocou.
– Eu não odiava o seu livro, odiava o que ele representava para mim. Não sabia verdadeiramente do que se tratava, Milo, tinha ideias pré-concebidas. E infelizmente a visão que eu tinha de seu trabalho não era das melhores, pois eu não entendia. Mas quando comecei a duvidar da concepção que tinha sobre isso, resolvi que precisava ler para enfim tirar uma conclusão acertada sobre o conteúdo.
– E o que você achou dele?
– É muito bom. Tem uma passagem que eu gostei bastante, me identifiquei. –Camus mirou o horizonte, flexionando as pernas e apoiando os braços.
– Qual? –Perguntou curioso.
– Tem um capítulo, acho que é um dos últimos, que você expõe sobre o amor...
– Sei...
– Então, tem um trecho onde você diz que, não importa o que façamos, não importa o quanto nos esforçamos, um dia, inevitavelmente, vamos acabar magoando as pessoas que amamos. E não importa o quanto tentemos mudar, fazer diferente, esse dia chegará e não tem como evitar. E o pior é que nem sempre dá para amenizar a dor, o sofrimento, a culpa. Que vamos nos sentir os mais miseráveis do mundo, por fazer sofrer a quem amamos, e os mais impotentes, por não conseguir impedir ou consertar. E que a única opção que nos resta é aceitar. Aceitar o quanto somos falíveis, o quanto somos incapazes de impedir a nós mesmos de magoar quem amamos, e o tanto que fizemos, fazemos e ainda faremos sofrer. De nossa parte só nos resta aceitação e o perdão e isso é o que nos torna seres humanos, é isso que nos define a personalidade, a humanidade dentro de nós. Nossa felicidade depende da nossa capacidade de aceitar a nossa capacidade de fazer sofrer a quem amamos e lutarmos contra isso. Isso é verdade, mas é incrivelmente perturbador... –Disse e depois voltou a olhar para os belos olhos do loiro. – Eu me identifiquei muito com esse trecho, porque eu sei o quanto o fiz sofrer injustamente, o quanto o machuquei... – Cerrou os olhos bem forte, com os olhos vermelhos e marejados, a dor dilacerando o peito. – Eu o machuquei física e emocionalmente e isso me parece imperdoável, apesar de saber que só me resta aceitar o que fiz e me perdoar ou vou acabar enlouquecendo! Mas é perturbador ter que aceitar e perdoar. É tão... difícil!– Calou-se quando sentiu os dedos de Milo em seus lábios, mas sua dor impedia que olhasse em seus olhos.
– Eu sei que é, mas você vai superar... – O loiro respondeu, seguro.
– Como? O que eu faço com essa dor que não me abandona? — O ruivo perguntou, já não suportando mais. Milo o fitou, condoído. Desejava tanto arrancar essa dor dele, mas não podia.
– Calma, meu amor.– Sentindo-se sufocado por tanta dor, o ruivo debulhou-se em lágrimas. Milo esperou que ele chorasse tudo o que tinha para chorar e depois sussurrou:– Simplesmente não pense mais nisso... Vamos enterrar toda essa história para sempre, e viver nossa vida daqui para frente? Vamos fazer isso, Camus? – Pediu, tentando encará-lo nos olhos. O ruivo desviou o olhar e se afastou. Milo sorriu compreensivo. Sabia que ele precisaria de tempo para assimilar tudo aquilo. Então o loiro acariciou a face pálida do ruivo. – Deixe o tempo passar, essa dor vai diminuir.
– Eu tenho a sensação que nunca vou conseguir me perdoar.– O loiro não respondeu nada, apenas se deitou no telhado. Camus se deitou ao seu lado.
– Você merece alguém melhor do que eu... – Comentou tristemente, mas Milo não permitiu que continuasse se depreciando.
– Mas eu quero você, porque é você quem eu amo... – Respondeu e logo depois desviou o assunto. — O céu pelo menos está igual, não? – Riu.
– Está sim. – Respondeu sem muita animação. – Como é que vai ser isso, Milo? – Perguntou ao voltar seus olhos para o escorpião. O loiro, confuso, o encarou. — Como vai ser esse futuro? –Tocou-lhe a face com os dedos.– Eu mal posso olhá-lo sem sentir dor... Sem me sentir culpado, sem sentir meu coração dilacerando. Que futuro teremos depois de tantas feridas profundas em nossa alma? –Perguntou temeroso. O loiro o olhou, pensando um pouco, e depois respondeu:
– Eu não sei, Camus. Mas nunca vamos saber se não tentarmos... –O ruivo olhou em seus olhos, sem compreender aquele amor que os unia até mesmo depois de tanto sofrimento. – Camus, você me ama? – O loiro perguntou inesperadamente.
– É claro que amo... Eu te amo muito! – Respondeu firme.
– Então, não se preocupe, porque eu também te amo muito. E se não podemos construir nosso futuro sob as bases da nossa história, podemos construir com base no nosso amor, que é muito mais forte do que tudo que nos aconteceu. –Disse com um sorriso de alívio nos lábios. O ruivo nada disse, mas também sorriu. Camus ainda sentia queimar em seu coração a dor que o consome cada dia mais, mas a fé e a esperança de Milo o acalmaram, apesar de a insegurança ainda consumir cada célula de seu corpo.
O loiro percebeu que Camus ainda não acreditava naquilo, não tinha a mesma fé em seu amor, mas não importava. Tudo para ele estava tão recente, a dor ainda estava tão latente que compreendia seu temor do futuro. Mas desejava que naquele momento, só por algum momento, aquele lugar trouxesse mais que uma reconciliação, por isso resolveu brincar com o ruivo, ameaçando rolar novamente pelo telhado. Ao perceber a intenção do outro, Camus se assustou e se apressou em segurá-lo no lugar, fazendo-o rir.
– Está louco Milo? Você acabou de sair do hospital! – Ralhou mais preocupado do que bravo. O movimento rápido e brusco acabou deixando-os muito próximos, com o ruivo sobre o corpo do loiro que ria sem parar.
– Ah você acreditou mesmo que eu rolaria telhado abaixo! – Ria da expressão sôfrega do outro.
– Não teve graça! – Comentou, respirando aliviado.
– Teve sim...– Disse ainda segurando-se firme no braço do outro.O loiro correu o olhar pelo braço forte que o segurava e sorriu, voltando a mirar nos olhos de seu amado.
– Camus? – Chamou baixinho e carinhoso, fazendo-o encarar em seus olhos. –Eu amo você e vou amar pra sempre. – Declarou-se, sem desviar seu olhar. Camus, meio surpreso com a declaração inesperada, demorou poucos segundos para esboçar uma reação.
– Eu também te amo... – Enfim respondeu, acariciando o belo rosto do amado. Não demorou muito para o loiro colar seus lábios ao dele, numa leve carícia. Um beijo suave, lento e apaixonado, com as línguas experimentando um novo, mas conhecido sabor, o sabor do amor livre, um amor ferido e marcado, porém intenso e cheio de vida.
Milo sorriu discretamente e voltou a admirar o céu. Não estava chateado pelas palavras do ruivo, pois sabia que ele ainda estava sob efeito de toda a verdade. Mas o tempo traria calmaria para o seus corações e quando esse momento chegasse, estaria pronto para acolhê-lo em seus braços, de onde ele nunca deveria ter saído.
Fim da segunda temporada.
Notas finais
Manual de Sedução por... Camus Verseau!
Esse último capítulo foi betado pela Minos de Griffon, e apesar dela merecer todos os elogios do mundo, dessa vez vou elogiar os muitos leitores que me acompanham até hoje e que fizeram parte da fanfic. Felizmente são muitos e não quero acabar esquecendo de alguém, por isso não mencionarei nomes.Mas saibam que a fanfic foi construída tendo por base as ideias e a sempre contagiante opinião de vocês. A presença de Minos, Dohko, Shaka, o lemon açucarado, foram várias as cenas que contribuíram para a fanfic terminar desta forma que vieram por vocês. Por isso, só tenho a agradecer!
Muito obrigada e até a terceira temporada!
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