Manual da Bruxa Iniciante

2 A longa estrada de terra


“Há algumas regras que você precisa seguir:


I. Você precisa estar com este livro ao seu alcance até passar de nível, pois pode ser primordial para sua sobrevivência.
II. Cada vez que for ler, terá de acender uma chama virgem.
III. Siga à risca cada regra que aparecer e não terá problemas.
IV. Nenhum humano comum tem permissão para ler este livro, que agora te pertence. Se isso acontecer, você será punida. Humanos são traiçoeiros, então leia em segredo.


É sério, você realmente precisa seguir estas.

Ok, agora a parte da introdução.
Você está recebendo este livro para manter equilibrada a população de bruxas nessa região. Sim, você é uma bruxa. Basicamente, toda mulher é. Apenas precisam receber o chamado, e este é o seu. Ou quase isso.

Algo sério aconteceu e uma poderosa bruxa foi morta. A mais próxima na lista de espera do chamado era você , e eu fui selecionado para ser o seu tutor, digamos assim. Então você precisa ser bem treinada.

Não podemos nos conhecer pessoalmente ainda, e por isso precisarei passar à você meus ensinamentos por escrito.
Você deve ter reparado que eu uso pronomes masculinos e sim, sou um homem. Um bruxo. Isso existe. É mais complicado e demoramos mais para dominar tudo, mas é possível se houver uma bruxa na nossa linhagem sanguínea. E um dia, quando você estiver velha e pelancuda, precisará escrever um guia para seu próprio pupilo também.

Bom, me perdoe a informalidade mas ninguém se importa com isso. Vamos para a parte interessante e que vai fazer você realmente acreditar em mim.

Siga as instruções.
I. Olhe bem para a chama que está usando para ler isto, até sentir a conexão.
II. Entoe em voz clara por vinte vezes rapidamente: Bu Ra So Um Ito
III. Não tenha medo, toque a chama. Verá a mágica acontecer. “

Ainda duvidando de tudo aquilo, mas com a curiosidade soltando faíscas em sua mente, Mary Ann releu mais uma vez a parte das instruções e fechou os olhos, tomando coragem.
Abriu e encarou diretamente a chama, o olhar fixo e sem mesmo piscar. Observou com calma e admiração os suaves movimentos da pequena flama que saía do isqueiro.


Inspirou e expirou profundamente.
Todo o restante do quarto pareceu ficar cada vez mais escuro e distante, enquanto a única coisa que sua mente se focava era aquele fogo que lhe permitia ler o estranho manuscrito.
— Bu ra so... – Começou timidamente e pigarreou para limpar a garganta e dar mais força à voz. – Bu ra so um ito bu ra so um ito bu ra so um ito...


Continuou como ordenado pelas instruções entoando cada vez mais rápido e firme, e quando chegou à última repetição estendeu o dedo indicador e tocou a chama.


— Ai, merda! – Puxou o dedo rapidamente ao se queimar. Aquilo daria uma bela duma bolha.
Deu um murro no livro e largou o isqueiro, que se apagou.
Enfiou o dedo queimado na boca, os olhos lacrimejando pela dor.
— Livro idiota filho duma leitoa suada... – Resmungou.
— Filha, tá tudo bem aí? – O pai gritou do andar de baixo provavelmente por ter ouvido aquilo tudo.
— Sim, chutei a quina da mesinha mas já passou...
Ela respondeu e respirou fundo.
Continuou com a mão ferida na boca e usou a outra para mudar de página e voltar a acender o isqueiro.


“Há! Não acredito que você ainda está lendo isso. Se queimou não foi? Como você é ingênua. Vai precisar melhorar isso agora que é uma bruxa. O bom disso é que agora vemos que você confia em mim. Vá para fora, procure grama e posicione este livro aberto no chão. Um guardião lhe entregará algo importante.”

— Idiota, idiota, idiota... – Mary Ann guardaria rancor daquele livro para o resto da vida.
Apagou o isqueiro e meteu o livro debaixo do braço. Saiu do quarto e desceu as escadas trotando rapidamente.
Foi até a porta e a destrancou.
— Está indo aonde? – Seu pai que assistia televisão virou-se e a olhou.
— Aqui na frente, no jardim.
— Por quê? Está tarde. Sabe que não pode sair. Tranque a porta.
— Pai, eu só vou aqui na frente. – A jovem protestou.
— Ann. Não importa. Tranque e vá para o quarto.
Ele respondeu sem o tom carinhoso de sempre e ela soube que era sério.
Há um mês aquela porta estava sempre trancada, e havia um rígido toque de recolher.
Mary Ann não quis continuar com aquilo. O livro era estupidez ao seu ver, de qualquer jeito. Voltou para o quarto e se ajeitou para dormir. Deitou na cama e a última coisa que fez antes de estender o braço para alcançar o interruptor na parede e apagar a luz foi jogar o livro para baixo da cama.


— Bom dia, bela adormecida.
Mary esfregou os olhos, sonolenta, e os abriu devagar.
— Já vou, espera... – Bocejou e se levantou preguiçosamente.
Caminhou até a janela e abriu as cortinas para seu visitante sem se preocupar com a aparência de ter acabado de levantar.
— Olá. – Diego sorriu para ela através do vidro.
— Oi... – Ela sorriu de volta e abriu a janela. – Achei que tivesse te matado.
Ele riu.
— É difícil me matar. E você tem uns arbustos bem confortáveis ali embaixo.
Ele pegou a mão dela e beijou a fina pele de seu dorso.
— Mary Ann, a primeira coisa que faço no meu dia é vir olhar para teu rosto.
— Ah, para com isso. – Ela sentiu o rubor nas bochechas e foi até a cômoda pegar algumas roupas. – Pronto, já viu, agora xispa que eu tenho que me arrumar e ir para o colégio.
Diego fez uma breve reverência para a jovem.
— Te vejo mais tarde, Mary Ann. – Ele pulou para o telhado mais baixo e segurou na calha para descer até o chão. Acenou para ela e seguiu andando para a rua.

Ainda com o sorriso no rosto, a morena separou roupas limpas e foi ao banheiro se aprontar. Era sempre pontual com isso, e agora acordar ficava cada vez mais prazeroso desde que eliminara o despertador de sua vida e o substituíra por um rapaz bonito.


A bolha no dedo incomodava, mas não atrapalhou na hora de arrumar a cama. Tirou o livro de baixo do travesseiro e o levou com o celular para a cozinha, onde os guardou na bolsa.
— Bom dia. – Seu pai já tomava café quando ela se juntou à ele. – Desculpe por ontem, mas você sabe...
— É... – Ela respondeu, preparando uma tigela de cereais. – Acho que vou esperar você me levar para o colégio hoje.
— Tudo bem, também acho melhor.
Ela comeu depressa e foi para fora com o livro.


Do outro lado da rua aquele gato preto do dia anterior estava no mesmo lugar, a encarando.
— Eu heim... – Ela encarou o bichano de volta e desceu as escadinhas da varanda até a grama. Olhou ao redor.
Aquela rua era sempre vazia, mas mesmo assim não queria parecer louca.

Abriu o livro com suas páginas em branco e o posicionou na grama úmida.
— Vamos lá, guardião. – Ela murmurou e tamborilou os dedos na alça da bolsa, nervosa.
Ninguém por perto.
Mary aguardou mais um tempo, mas logo se cansou. Abaixou-se para pegar o livro e quase caiu para trás quando viu o sapo repousando sobre suas páginas.


Fez uma expressão de nojo, que tornou-se ainda pior quando o anfíbio a olhou e vomitou um pequeno objeto reluzente no livro.


Num misto de espanto e asco, a jovem puxou as mãos de volta para si e o animal fugiu com o movimento abrupto.
— O que está fazendo? – Perguntou seu pai enquanto fechava a porta.
— Deixei cair. – Ela rapidamente pegou o livro , o fechou com o objeto e enfiou na bolsa. – Vamos.

Já na escola, no intervalo, Mary se sentou em uma mesa afastada e abriu novamente o livro. Só então pôde ver que o objeto era uma pequena e rústica chave. Ficou com certo nojo de tocá-la, e então fechou novamente após a observar por alguns instantes.
— Oi, você não respondeu minhas mensagens sobre o trabalho de artes. – Sua amiga Natasha sentou-se à mesa.
— Ah, já está quase pronto.
— Melhor estar pronto à tempo, ou não te dou o convite para aquela festa no final de semana. – Bem, elas não eram tão amigas assim.


Era mais como um sistema de parceria que durava cinco anos. Natasha tinha suas tarefas feitas e Mary Ann ganhava popularidade. Uma troca justa, considerando que nenhuma das duas coisas era uma dificuldade para quem respectivamente a oferecia como moeda.
— Que livro feio é esse? – Natasha apontou para o Manual e pegou uma maçã em sua mochila.
— Ah, é bobeira, um caderno de ilustrações.
— Nossa, que patético.
— É.
Mary revirou os olhos e guardou seu livro.
— Ontem fui dar uma saída de noite e meu pai totalmente surtou.
— Nossa, ele ainda remói isso, não é? – Apesar de não se gostarem muito, estavam presentes na vida uma da outra e sabiam de tudo o que acontecia.
— Mas é recente...
— Sim, mas é melhor vocês se mudarem de lá do que ficarem enfurnados naquela casa. Eu não conseguiria dormir sabendo o que aconteceu...
— É.
Mary cortou a conversa.
— Bem, a gente tá dispensado da próxima aula de qualquer jeito, a professora mandou avisar na sala que não vai conseguir vir. Então já vou indo.
— Não esquece o trabalho.
Natasha acenou enquanto Mary Ann pegava suas coisas e ia embora.


O caminho era longo entre o colégio e sua casa, e passava por praticamente a cidade inteira. Mas havia uma estrada de terra que cortava diretamente da rua do colégio por uma propriedade rural até o bairro onde morava. Quando estava à pé, a garota preferia o atalho.
O céu estava nublado e com aparência de que choveria mais tarde, mas fora isso estava um clima agradável. Era pouco antes do meio dia e Ann aproveitava cada segundo de natureza que lhe era permitido.


Um pássaro vermelho pousou ao seu lado, na cerca que contornava a estrada, e começou a limpar as penas. Como a estrada era vazia, Mary não se importou de parar ali mesmo para tirar uma foto dele com seu celular. Enquanto tentava focar a ave com a câmera, ouviu um zumbido ao longe.

De primeiro não deu muita importância, mas o barulho foi ficando cada vez mais alto, e espantou o pássaro.
Aquilo era um motor de moto.
Já ouvira aquele barulho antes.
Olhou para trás na estrada e viu aquela moto se aproximando. A mesma de antes, no trânsito. Já estava perto demais para que ela pudesse correr, e não havia mais ninguém por perto caso ela tentasse gritar por ajuda.

O motoqueiro parou a moto à poucos metros e desceu. Foi caminhando com a maior calma do mundo até a menina.
Rapidamente, Ann lançou seu celular na direção daquele homem que vestia couro, e correu para onde estava o pássaro, tentando passar por baixo da cerca.
— Não é o celular que eu quero.


A voz do homem a arrepiou por inteiro. Ele agarrou seu braço com força e a puxou de volta para a estrada.
Caída no chão, Mary Ann engoliu em seco e olhou para cima, para vê-lo.
Ele abaixou-se e tirou o lenço do rosto.


Seu cabelo preto era bagunçado e chegava quase aos ombros. O dorso do nariz era um pouco torto, o que não parecia natural, mas a boca era tão perfeitamente desenhada, com um piercing, e fazia um belo conjunto com a barba bem feita. Ele nem parecia tão velho assim, o moreno devia ter pouco mais de vinte anos.


Mary o olhava quase sem respirar, paralisada.
Então ele a agarrou pelo pescoço, e mostrou ser terrivelmente forte. Tinha um sorriso sádico.


O motoqueiro virou o rosto dela de um lado para o outro como se estivesse a examinando. Mary Ann sentiu a gota de suor escorrer em sua testa e as lágrimas escaparem de seus olhos enquanto sufocava na mão daquele homem.


— Deixa a menina! – Um velho pulou a cerca brandindo um pedaço de pau. O motoqueiro largou Ann e se afastou.
— Ora, eu só estava brincando com ela, velhote.


Mary o reconheceu. Já o vira capinando por ali outras vezes, então ele provavelmente devia ser o caseiro da propriedade ou algo do tipo.
— Sai daqui! É propriedade privada!


O caseiro entrou na frente de Mary Ann e continuou a espantar o motoqueiro, que ergueu as mãos em rendição.
Mas o sorriso sádico ainda estava lá, e aquilo atormentaria a menina até em seus sonhos naquela noite.


Ao se recompor, a jovem agarrou sua bolsa e correu o mais rápido que suas pernas conseguiam.
Não permitiu-se olhar para trás até tomar uma boa distância. Ofegante, parou de correr, e quando percebeu que não ouvia novamente o motor da moto do homem indo embora, arriscou olhar.


Viu o velho que a protegera caído no meio da estrada, diante da moto, e nenhum sinal do motoqueiro.


Novamente as lágrimas. Desesperada, Mary voltou a correr, sabendo que o homem que a queria morta estava por ali. Provavelmente no mato alto ao redor da estrada, e talvez mais perto do que ela pudesse imaginar.

Notas finais
(Agradeço imensamente o retorno que estou tendo em tão pouco tempo que postei, que bom que vocês gostaram aaa)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.