Manu e Rodrigo - A Vida Segue
1 “Não havia mais divisão nenhuma”
Já está escuro em Porto Alegre. Cansada, Júlia dá um beijo na mãe e se prepara para subir as escadas em direção ao quarto. Manu pede que a pequena escove direitinho os dentes antes de se deitar na cama. Ela lhe dá um beijo gostoso e acompanha os passos da menina, que praticamente se arrasta até o piso superior. Depois de se certificar que a filha entrou no banheiro, Manu vai até a cozinha para terminar de arrumar a louça do jantar. Há uma dezena de copos pela pia. Sobre a mesa, uma travessa com um pedaço de lasanha, o prato preferido de Júlia. A campainha, no entanto, interrompe o trabalho da chef.
Manu: Ué, quem será a essa hora?
Sem fazer ideia de quem seja, Manu se dirige até a porta. E a empresária tem uma surpresa.
Rodrigo: Oi, Manu.
Manu: Oi.
Rodrigo: Desculpe a hora... Te atrapalho?
Manu: Não, estava terminando de arrumar a louça do jantar.
Rodrigo: Posso entrar?
Manu: Pode, mas a Júlia já foi dormir. Ela estava muito cansada, tadinha.
Com um sorriso no rosto, Rodrigo vai em direção ao sofá, onde se aconchega.
Rodrigo: Na verdade, não vim falar com a Júlia. Queria conversar com você. Será que você tem um minuto?
Manu: Sim, só me deixa terminar de guardar as coisas da mesa.
Rodrigo: Claro! Quer que eu te ajude a guardar?
Manu: Não, já estou terminando. Tem pouca coisa. Obrigada.
Manu sorri para Rodrigo e volta para a cozinha. Da sala, ele observa a ex-mulher guardar as travessas, copos, pratos... De uma certa forma, aquele tempinho serve para Rodrigo repassar na cabeça todo o texto que deseja falar para Manu. Há meses que ele ensaia ter aquela conversa com ela, mas nunca teve coragem. Ou, talvez, nunca teve oportunidade.
Manu: Quer comer alguma coisa, Rodrigo? Tem lasanha...
Rodrigo: (interrompe) E quando que não tem lasanha, né? A Júlia voltaria a ser internada no hospital se você não preparasse uma. (risos)
Manu solta uma gargalhada gostosa.
Manu: Pronto. Desculpe te fazer esperar, é que não queria deixar essa cozinha assim. Depois aparece uma baratona e a Júlia te liga no meio da madrugada, que nem daquela vez, lembra? Como se eu não fosse capaz de matá-la...
Rodrigo: Mas não é mesmo. Isso é uma tarefa para um homem como eu. (risos)
Manu: Ah, para com isso. (risos)
Rodrigo: Vocês só lembram de mim quando aparecem essas baratonas. (risos)
Manu ri da brincadeira de Rodrigo.
Manu: Mas então, o que você queria falar? É alguma coisa da Júlia, da cirurgia dela, da recuperação?
Rodrigo: Também. Queria saber como que ela está reagindo aos remédios, às restrições neste período de recuperação.
Manu: Ela tem estado mais cansadinha do que o normal, mas o dr. Daniel disse que não deveríamos nos preocupar, porque era um sintoma natural. Mas ela está bem, está bem mais disposta, brinca o dia inteiro com as bonecas. Tiro um tempinho para brincar com ela enquanto as amiguinhas não podem vir aqui. Ela já me pediu para chamar a Juliana, mas acho que é melhor ficar sozinha nestes primeiros dias. Não quero que ela fique correndo pela casa.
Rodrigo: É melhor mesmo. Ela já repousou no hospital, mas precisa ficar quietinha mais um pouquinho. Quando ela estiver melhorzinha, podemos levá-la para o parquinho. Ou, de repente, fazer uma viagem com ela.
Manu: É uma boa ideia. Você pode ir com ela para o Parque do Beto Carrero. Ela sempre quis conhecer lá.
Rodrigo: É...
Rodrigo se frustra com a resposta de Manu, que finge não perceber o convite que acaba de receber.
Rodrigo: Foi muito difícil tudo o que a Júlia passou nesses últimos dias, pra você também. Acho que eu vivi os dias mais angustiantes da minha vida, mais até do que quando a Ana entrou em coma. Eu ficava ali naquela recepção à espera de notícias de vocês. E elas demoravam uma eternidade a chegar. Mas ao mesmo tempo que queria saber novidades sobre vocês, tinha medo de escutar... Você me entende? Quando o seu fígado apresentou um problema, eu tive vontade de entrar naquela sala de cirurgia para ficar ao seu lado...
Manu: (interrompe) Agradeço a sua preocupação, Rodrigo, mas é melhor a gente só olhar para frente a partir de agora. O que importa é que a Júlia e eu estamos bem.
No fundo, Manu sabia onde Rodrigo queria chegar.
Rodrigo: Deixa eu falar... Eu quis tanto ter esta conversa com você. Acho que este é o melhor momento.
Manu: Tudo bem, me desculpe.
Rodrigo: Dizem que é nos momentos de dificuldade que a gente aprende a dar valor às coisas, não é? Pois ali, sozinho naquele sofá, passou um filme pela minha cabeça enquanto vocês estavam naquela sala de cirurgia. Durante as horas mais difíceis da minha vida, em que as duas mulheres que eu mais amo estavam entregues aos cirurgiões, em meio a essa impotência de não poder fazer nada, eu consegui perceber que não havia mais divisão nenhuma. Demorou muito para eu entender isso, eu magoei quem jamais deveria, mas tudo foi importante para entender o que eu havia vivido e o que eu ainda estava vivendo, que na verdade eu queria viver para sempre. Eu sei que não foi certo o que eu fiz com você, mas acho que já paguei um preço alto demais pela minha dúvida, incerteza, insegurança. Enquanto você seguiu sua vida, construiu novas pontes, eu segui preso a um passado que não existia mais. Minha vida estacionou, perdi o que eu mais amava, que era a sua companhia e a da Júlia. Deixei de ser aquele Rodrigo que você me ajudou a ser, o homem responsável, o pai presente, para resgatar uma paixão de adolescência. Mas todo o processo foi importante para eu entender quem era, o que queria, quem eu queria. Foi como atravessar um rio, deixar na outra margem um passado que agora nada mais era do que uma história. E não pense você que eu não sofri. Sofri demais. E sofria todas as vezes que precisava deixar vocês duas aqui, quando via você e a Júlia organizarem programas juntas. Me sentia cada vez mais fora da vida de vocês. E sofria muito quando te via com o Gabriel. De fora, dava a impressão que ele te fazia muito bem. Isso me doía, mas eu sabia que não tinha o direito de tentar nada com você. Como te escrevi uma vez, você era uma mulher tão incrível que seria justo ter um homem pela metade. E eu não queria ser mais desonesto do que já havia sido.
Um pouco assustada, Júlia acorda e dá um grito do quarto chamando por Manu, interrompendo a conversa dos dois.
Manu: A Júlia... Eu vou lá ver como que ela está. Já está tarde...
Rodrigo: É, eu já vou. Só quero dar um beijo nela antes de ir embora. Posso?
Manu: Claro!
Rodrigo: Depois a gente continua a conversa...
Manu sobe a escada na frente, Rodrigo vai logo depois. Quando chegam ao quarto da filha, Manu e Rodrigo ficam em lados opostos da cama. Ela coloca a mão na testa da pequena, para checar se é febre, enquanto ele dá um beijo no rostinho dela. Cumprido o papel de pai, Rodrigo vai até o canto onde está Manu e lhe dá um longo beijo no rosto antes de descer as escadas e ir embora. Manu acompanha a saída do ex-marido, vê que Júlia voltou a dormir e vai para seu quarto.
Pensativa, ela tira as almofadas da cama. Depois, a colcha. Como faz todas as noites, deita no canto direito da cama, o mesmo que ocupava quando era casada. Inquieta, Manu se vira para o lado esquerdo, onde Rodrigo dormia, e, entre doces lembranças do ex-marido, repassa a conversa que acabaram de ter na sala. Ainda que se fizesse de forte, Manu sabia que as palavras do arquiteto tinham mexido com ela. E de uma forma que há muito não sentia.
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