Manu e Rodrigo - A Vida Segue

6 “Janta comigo esta noite?”


Notas iniciais
No capítulo anterior, Manu e Ana tiveram uma conversa definitiva sobre os difíceis últimos meses que viveram. E tudo isso vai impactar no desenrolar dos próximos acontecimento.


Parece questão de tempo para que Ana e Manu voltem a ser aquelas irmãs confidentes do passado. E quem toma a iniciativa é a caçula das Fonseca, que abre o coração e divide as dificuldades vividas nos últimos meses.

Ana: Desculpe voltar de novo nesta história, Manu, mas acho que precisávamos colocar tudo às claras para poder seguir adiante.
Manu: Tudo bem, Ana, acho que agora tudo está resolvido. Vamos pensar na viagem para Gramado?
Ana: E o Rodrigo?
Manu: O que tem o Rodrigo?
Ana: Vocês já conversaram?
Manu: Ele veio algumas vezes aqui para pegar a Júlia para passear, jantou outro dia com a gente, pois ela pediu. Você conhece a Júlia, né?
Ana: Sei bem como ela é. Mas você pretende conversar melhor com ele?


Manu nem tem tempo de responder. E ela agradece por isso. Diante do berro de Júlia, que acabara o banho, as duas irmãs disputam corrida para dar assistência à pequena. Entre uma risada e outra, Ana chega a tropeçar na escada, mas nada de grave lhe acontece. A queda só serviu mesmo para reviverem os bons tempos, recheados de aventuras entre as duas, e para a chef ultrapassar a irmã mais nova a caminho do quarto. Em total sintonia, Ana seca a filha enquanto Manu arruma as malas.


Manu: Me liguem quando vocês chegarem lá, está bem?
Júlia: Ah, mamãe, eu queria que você fosse com a gente. Não dá mesmo?
Ana: Ah, deste jeito eu vou ficar com ciúmes, Ju. Você não quer ir comigo?
Júlia: Eu queria vocês duas lá comigo.
Manu: Ju, mas nós já conversamos sobre isso. Assim que der, nos finais de semana, a mamãe vai para Gramado ficar com vocês, tá? Vai passar rápido.
Ana: É, Ju, vai passar rápido. E você sabia que a mãe Manu tem medo de ir nos brinquedos lá do parque? Quando a gente era do seu tamanho, ela sempre ficava me esperando, segurando as bolsas... Melhor ela ficar aqui mesmo, assim a gente pode passear em todos os parques de Gramado. Não é mais legal?
Manu: A mãe Ana tem razão, Ju. A mamãe ia ser uma companhia chata para vocês. Mas, oh, aproveitem todos esses dias sem mim, porque sábado eu apareço lá, tá?
Júlia: Está bom, mamãe. Então até sábado. Você cuida das minhas bonecas? A Bianca está dodói.
Manu: Claro, minha filhotinha. O que você não pede que eu não faça?
Júlia: Então posso levar um pedaço de lasanha para a casa da bisa?
Manu: Mas, filha, lá na casa da bisa vai ter tanta coisa gostosa.
Ana: É, Ju, não precisa levar a lasanha. A gente come lá com a bisa. A bisa vai ficar triste se você não comer o que ela fez.
Júlia: Mas eu quero. Ninguém faz uma lasanha como a minha mãe, que é a melhor cozinheira do mundo.
Ana: Oh, meu Deus, mas esta sua mãe Manu faz tudo tão gostoso, né, Ju? Eu também acho, sabia? Bom, então pega lá a lasanha e vamos, porque senão fica muito tarde. Aproveita e dá um beijo bem gostoso na mãe Manu. Manu, eu te ligo quando a gente chegar lá, tá? Não se preocupe.


Já meio saudosa de Júlia, de quem se despedira há pouco, a chef vai até a geladeira, pega um pote de doce de leite e sobe para seu quarto. Ela se ajeita entre as tantas almofadas que decoram a cama. O pensamento, no entanto, está bem longe, precisamente na conversa que teve com Ana mais cedo. As palavras da irmã mais nova parecem fazer eco nos ouvidos de Manu, que repassa palavra por palavra deitada na ponta da cama. Isso até o celular tocar. É Rodrigo, e Manu parece não se sentir encorajada a atender. Toca uma, duas, três vezes. Quando resolve dizer “alô”, a linha cai.


Manu: Ué, mensagem do Rodrigo.
Rodrigo: Oi, Manu, desculpe te ligar a essa hora. Como você não atendeu, resolvi te escrever. A Júlia já foi para Gramado?

Manu pensa em retornar a ligação, mas prefere seguir o diálogo por mensagem mesmo.

Manu: Oi, Rodrigo, desculpe, estava no banho, por isso não te atendi. Sim, elas saíram quase agora daqui de casa.
Rodrigo: Ah, legal, estava preocupado. E vocês compraram muitas roupas no brechó da Nanda?
Manu: Sim, deu tudo certo.
Rodrigo: Bom, vou te deixar descansar então. Você me manda uma mensagem quando elas chegarem a Gramado?
Manu: Tá, mando.
Rodrigo: Ah, amanhã vou dar uma passadinha aí cedo, pode ser? Queria falar sobre umas coisas do buffet.
Manu: Não dá para ser por telefone?
Rodrigo: Não, é melhor pessoalmente.
Manu: Tudo bem então.

Após se despedirem, Manu resolve ligar para Dona Iná, que aguarda Ana e Júlia com ansiedade. Para recepcionar as novas hóspedes, a vó fez um delicioso bolo de laranja, o preferido da neta, e um de chocolate, que a pequena sempre lambe os beiços quando o come.


Manu: Ai, vó, já vi que a Ju vai só comer aí na casa da senhora.
Iná: Mas, filha, ela está em fase de crescimento, precisa comer mesmo.
Manu: Mas não essas coisas, né, vó? Ela já come bastante aqui. Até precisava levá-la ao médico para fazer um pequeno regime.
Iná: Deixa disso, Manu, a Júlia é uma criança. Deixa ela experimentar os prazeres da vida, meu anjo. Quando ela chegar a sua idade, aí sim ela vai precisar se preocupar com essa sociedade que só endeusa as mulheres magras.
Manu: Vó, mas não foi para falar sobre a dieta da Júlia que eu liguei para a senhora. Foi para conversar sobre o Rodrigo.
Iná: O que aconteceu, minha filha?
Manu: Ai, vó, o Rodrigo anda me cercando desde que eu saí do hospital. Quando a Júlia estava aqui, ele sempre aparecia com a desculpa de vê-la, levá-la ao parque. Eu sei que ele sempre foi um pai muito presente, mas sempre senti uma segunda intenção dele, sabe?
Iná: Sei, minha filha.
Manu: Ele ligou quase agora, mas eu preferi não atendê-lo. Aí ele mandou algumas mensagens para saber da Júlia. Eu já cortei, acho que ele percebeu e aí disse que vai passar amanhã cedo aqui. Sei lá, me assusta um pouco essa reaproximação. Não sei se estou pronta, preparada, se é o melhor caminho.
Iná: Eu acompanhei de perto toda a história de vocês, minha filha. Lembra quando conversamos , e eu te disse que ele era o parceiro da sua vida? Anos se passaram, vocês viveram muitas coisas desde então, mas eu volto a afirmar que ele é o parceiro da sua vida, Manu, apesar de às vezes parecer que não. E sabe o que eu acho? Que tudo isso que aconteceu foi muito importante para vocês. Não sei se há uma escala para se medir o amor, mas só quem passa por tantas provações pode ter certeza de alguma coisa. Nós já conversamos muito sobre o Rodrigo, desde quando a Ana estava desacordada, e você sabe muito bem o que eu acho.
Manu: Eu sei, vó, mas eu tenho medo de me machucar de novo, sabe? De repente, ele está passando por um momento mais frágil e acha que eu sou a solução dos problemas. Não sei. E eu acabei de me separar do Gabriel, não sei se é o momento de recomeçar nada. Ainda tem a Júlia, que precisa de todos os cuidados por conta da recuperação.
Iná: Manu, não coloque a Júlia no meio disso. Você sabe que isso é apenas uma desculpa para você mesma. Ouça essa sua avó, ouça o seu coração. Pare de ser tão racional, de ver problema em tudo. Viva, só isso, sem pensar nas consequência. Ninguém entra em uma relação já pensando no fim. Ninguém coloca um escudo com medo de se machucar. Quem não vive, quem não arrisca e quem não dá uma segunda chance nunca vai estar completo. Hoje, você é uma nova Manu. E o Rodrigo, tenha a certeza, que é outro Rodrigo também. Talvez um Rodrigo que você nem conheça.

A conversa é tão longa que dá tempo de Ana e Júlia chegarem a Gramado. Manu aproveita a ligação para conversar com a filha, que já está cansada, só pensando em comer o bolo de chocolate da bisa antes de ir dormir. Ana conta que foi tudo bem durante a viagem e se despede de Manu. Antes de também se recolher, a empresária avisa a Rodrigo, por mensagem no celular, que as duas já chegaram.


A chef custa a conseguir dormir. Se já não bastassem as palavras da irmã, agora são as de Iná que invadem seus pensamentos. No fundo, ela sabe que a avó tem razão. O medo, no entanto, parece pesar mais para a jovem tomar uma decisão.


Rodrigo: Oi, Manu, te acordei? Desculpe. Te liguei só para avisar que já estou perto da sua casa.
Manu: Oi, Rodrigo. Tá.

Ansiosa para saber o que vai escutar, Manu aproveita para lavar o rosto. O pijama, no entanto, não dá tempo de tirar. A campainha toca, e a chef se sente como uma menina que vai receber pela primeira vez o namorado em casa. No caminho do quarto até a sala, ela passa todo o roteiro que gostaria de viver naquela manhã ao lado de Rodrigo. Porém, nas atitudes, demonstra uma Manu que parece intransponível.

Rodrigo:
Oi, Manu, desculpe vir aqui tão cedo.
Manu: Oi. Não tem problema. Entra. O que você queria falar?
Rodrigo: Ah, queria saber da Júlia.
Manu: Na verdade, não tenho mais novidades, só aquilo que contei mesmo. Você poderia ter me ligado, não precisava ter vindo aqui, Rodrigo. Era mais fácil para você.
Rodrigo: Eu não me importo. Na verdade, não vim aqui para falar da Júlia, mas sim de nós.
Manu: Acho que não temos muito o que conversar, Rodrigo.
Rodrigo: Não é o que eu sinto, o que eu venho sentindo desde a doença da nossa filha.
Manu: Desculpe, Rodrigo, estou com um pouco de pressa. Tenho que chegar cedo ao buffet.
Rodrigo: Você e o Gabriel não estão mais juntos?
Manu: Quê?
Rodrigo: Você e o Gabriel se separaram? Outro dia a Júlia comentou sobre isso enquanto jantávamos. Você não tem mais ninguém?
Manu: Tenho a Júlia, e é isso o que me basta.
Rodrigo: Você sabe o que eu quis dizer, Manu. Mas, pela sua resposta, eu já entendi.
Manu: Bom, Rodrigo, eu preciso me arrumar para ir para o buffet.
Rodrigo: Não tem problema, eu te espero aqui enquanto você se troca.
Manu: Não precisa, Rodrigo, você vai se atrasar para seus compromissos.
Rodrigo: Mas eu faço questão. Meu único compromisso é com você neste momento. Você não vai sair daqui sozinha hoje. Vou te levar no meu carro. Preciso conversar com você.

Diante da insistência, Manu se dá por vencida e ri de toda a situação. Naqueles minutos, parece estar de volta aquela Manu doce, a que somente Júlia teve acesso nos últimos meses. Enquanto observa a ex-mulher escalar degrau por degrau, o arquiteto tem vontade de acompanhá-la, mas acha melhor ir passo a passo, sem antecipar etapas. Primeiro, sabe que é preciso reconquistar a confiança de Manu. Cheia de desejo, a empresária tem vontade de convidar o ex-marido para subir. Estão apenas os dois ali, naquela casa que conhecem tão bem. Por que não? Seria ousadia demais para quem sequer sabe se coloca ou tira o time de campo. Em meio ao clima, ela escolhe a roupa que se sente mais fatal. Já Rodrigo, em uma ansiedade sem fim, tenta fazer o tempo correr mais depressa analisando a decoração da sala. Percebe que suas fotos seguem intactas pela sala, fato que lhe chama a atenção. A concentração só é quebrada quando Manu coloca os pés nos primeiros degraus da escada. Encantado, o pai de Júlia não esconde o sorriso.


Rodrigo: Posso te fazer uma pergunta?
Manu: Posso não querer responder?
Rodrigo: Por que você não tirou as minhas fotos daqui quando nos separamos?
Manu: É.... Vou só tomar uma água e já vamos, está bem?

Rodrigo acha graça da resposta de Manu e prefere não insistir. No fundo, ele fica feliz em ver que segue como parte da família. O retrato, pensa ele, é uma prova de que a barreira que havia entre eles não existe mais. Talvez, nunca tenha existido, tenha sido uma cortina de pano, pronta para ser colocada de lado quando o turbilhão passasse.


Já no carro, antes que Rodrigo tomasse a direção da conversa, Manu toma à frente e fala de amenidades, sempre com Júlia no meio. Ela diz que pretende trocar a filha de colégio, talvez para onde Ana dá aulas de tênis. Rodrigo quer saber por que, e Manu explica que seria bom para a menina estar mais perto de Ana, conviver mais com ela. Além disso, se trata de uma das escolas mais tradicionais de Porto Alegre. O empresário aprova a ideia e diz que, quando a ex-tenista voltar de Gramado, eles podem falar melhor sobre isso.

Manu: Rodrigo, me deixa aqui na esquina. Vou passar ali na padaria para comer alguma coisa.
Rodrigo: Eu vou com você então.
Manu: Não precisa, Rodrigo, você vai se atrasar. Aliás, o que você queria conversar comigo?
Rodrigo: Ah, era sobre uns fornecedores do buffet. Mas depois passo com mais tempo para falarmos sobre isso.
Manu: Tá bom, obrigada pela carona.
Rodrigo: Manu, espera, não era nada disso que eu queria falar. O que eu queria mesmo é... Janta comigo esta noite?

Notas finais
Imersa nas dúvidas sobre a retomada da relação com Rodrigo, Manu desabafa com Nanda sobre as investidas do ex-marido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.