Manto Negro

16 Capítulo XVI


Dormi grande parte do dia, ou pelo menos tentei, a cada 20 minutos acordava por conta da dor. Hazel evitava conversar, mas averiguava se eu estava bem, sempre que podia.

— Tenho que ir comprar algumas coisas, volto em alguns minutos — Disse

Sempre vaguei pela cidade a noite, mas de dia aparentava ser outro lugar, eu podia ouvir o barulho de carro e pessoas conversando. Por alguns momentos, senti saudades da minha liberdade, de poder andar sem que todos me acusassem de assassinato.

Estava cansada de ficar o tempo todo deitada repousando, queria tomar uma ducha e tirar o sangue seco que fazia partes do meu cabelo virar um dread. Estava determinada a levantar, mas assim que fiz força para erguer meu corpo da cama, senti um pontada de dor, parei por alguns segundos e forcei novamente, conseguindo ficar de pé. O segredo para não sentir tanta dor, era manter o corpo ereto, caminhei devagar até o banheiro, era escuro como restante da casa. Me molhar foi fácil, o difícil é esfregar o corpo, cada movimento era uma luta diferente, cada centímetro percorrido parecia eterno e angustiante, até que por fim terminei.

Limpa e com o cabelo decente, sai do banho, procurei um espelho mas logo depois me perguntei "porque Hazel teria um espelho"?

Ouvi a porta se abrindo, e sabia que só podia ser a Hazel.

— Tomou banho? — Perguntou incrédula

— Sim, foi necessário —

— E por que não esperou eu voltar? Podia ter ajudado —

— Não sou uma criança, Hazel. Tenho 20 anos, sei me cuidar — Rebati

— Tanto faz, trouxe comida pra você —

Eu realmente precisava de ajuda pra colocar a roupa, ainda mais porque estavam no chão, e não tinha como agachar.

— Preciso de ajuda pra colocar a roupa —

— Achei que você fosse uma mulher adulta de 20 anos —

— Vai ficar caçoando ou vai me ajudar?! -

Com um sorriso travesso estampado no rosto, veio me ajudar, tateou pelo chão a procura da roupa, me ajudou com o blusão cinza, faltava o short. Ela aparentemente, tirava proveito da situação, porque roçava os dedos sobre minha perna enquanto levantava o short por mim.

— Esta nervosa?Posso ouvir seu batimento — Sussurrou

Estava tão perto, que podia sentir seu aroma.

— Relaxa, não sou como o Vlad — Continuou

Se afastou tão rápido, que fiquei decepcionada.

— Qual sua relação com ele? — Perguntei tentando disfarçar meu nervosismo

— Somos praticamente irmãos de crianção, nos conhecemos desde criança — Respondeu

— Ele sempre é assim como as garotas novatas? — Perguntei quando lembrei do que ouvi na caminhonete

— Só quando gosta, é bem sensível e romântico —

— E você é? — perguntei apreciando sua pequena risada

— Quem não é, quando gosta de alguém? — Rebateu

— Não consigo te imaginar sendo romântica, muito menos gostando de alguém, seu rosto quase não tem expressão e--

Poderia dizer que foi um beijo indesejado? Quer dizer, éramos duas garotas, eu devia no minimo me sentir mal, certo? No entanto, enquanto tentava debater com meus pensamentos, retribui seu beijo em uma intensidade ainda maior.

Entre esse e o ultimo, eu escolheria esse, o calor que me transmitia não reconfortante, e sim excitante, não queria abraça-la no final, não queria um final, mas senti Hazel se afastando.

— Agora você pode imaginar — Disse por fim

Não soube o que dizer, agora mesmo ficou impossível de respirar.

— Não vou repetir o beijo —

Definitivamente, essa não era a Hazel que saiu de casa pra comprar comida, não era a Hazel ignorante, fria que todos da Casa temem e tentam derrotar. Recordei de Leona, no dia em que se declarou no quarto, dizendo que gostava dela, e naquele momento, me senti horrível.

Acabei balbuciando qualquer palavra, e comecei a agir no automático, as horas foram passando e eu ainda tentava entender o que acabara de acontecer.

— Daqui a pouco eles estão aqui — Falou enquanto ouviu o relógio dizer "23:30"

— Eu deveria ficar deitada, acho que se o Vlad me ver em pé, vai começar a reclamar — Falei

— Tem razão, ele consegue ser bem chato quando se trata da segurança de mutantes —

— Ele sempre foi assim tão protetor? — Perguntei

— Não, antes do exército, ele só se importava com duas pessoas, eu e ele. Mas depois de 4 anos servindo... Voltou outra pessoa —

— Parece que para todos, existe um momento na vida que te muda, certo? -

Talvez minha pergunta tenha sido um tanto suspeita pra ela.

— Você sabe, certo? sobre as mortes que ocorreram a quase 4 anos atrás? — Ela enfim tocou no assunto

— Sei, porque ouvi os boatos, mas não significa que eu acredite neles —

Queria ouvir a versão da assassina, saber o motivo, o que ela sentiu antes e depois do ato. Não quero tirar minhas própria conclusões baseadas em um trecho que vi na mente de Erza, ou nos boatos, porque isso faz com que Hazel se torne um monstro.

Antes que ela pudesse explicar, ouvi a porta batendo, era Vlad e Horus, prontos para mais uma sessão.

— Acho que isso vai ser conversa pra outra hora — disse por fim