Manto Negro
9 Capítulo IX
— Acho que vou entrar nessa luta — Comentei enquanto olhava pela janela do meu quarto
Era uma vista um tanto tediosa, já se passou quase um mês desde que cheguei, e eu não conseguia me sentir aceitada pelo meu próprio povo. Vlad me pressionava para eu usar as habilidades de alguma forma, e os peculiares me olhavam torto, como se eu fosse um espião.
— Ah? Você? é tão magra que se levar um chute pode partir no meio — Retrucou
Não era totalmente verdade, eu continua magra, mas tinha ganhado peso.
— Eu ganhei 2 quilos desde que cheguei — Comentei incrédula
— Só se for no cabelo, porque pra mim você continua a mesma — Falou — E outra, não quero espancar minha amiga de quarto, gosto de você
— Encantador, mas já tomei minha decisão —
— A escolha é sua, tem que procurar a Blue e colocar seu nome — Informou
Sai do quarto enquanto ainda tinha coragem, passei pelo salão procurando a Blue, a encontrei conversando com outros peculiares.
— Blue? posso falar com você? — Chamei
Ela dispensou os rapazes com um sorriso gentil e se dirigiu a mim.
— Sobre o que seria? —
— O torneio de luta, quero participar — Fui direta
Ela ficou surpresa ao ouvir minha resposta, porém não anotou meu nome.
— Acredito que ninguém te contou isso mas... Precisamos saber o seu poder antes de deixar você lutar, por questão de segurança — Informou
— Ah claro, sem problemas. Meu poder é de controlar a noite — Respondi
Pra mim, quando se referiam a "saber o poder" era apenas uma expressão verbal, mas então ela falou.
— Não basta apenas falar, os mais antigos precisam ver e analisar o seu poder — Explicou
— Como assim "analisar"? não vou matar ninguém, só quero aprender a bater —
— Não disse isso, mas é uma questão de segurança. Não sabemos o que você pode fazer se ficar com raiva, ou estressada — Falou — Nesses torneios, muitos competidores fazem provocações, jogam sujo... Só queremos saber até que ponto sua habilidade chega — Acrescentou
— Entendo... Bom, tenho que pensar nisso... — Respondi
Me retirei com um aceno e um sorriso tímido, acabei esbarrando com Vlad no meio do corredor.
— O que esta fazendo? — Perguntou sorrindo
— Ah... nada de mais, fui falar com Blue sobre o torneio, queria participar —
Abriu um sorriso de surpresa, mostrando que por de baixo da barba espessa, existia um garoto sorridente.
— Mas mudei de ideia, porque não quero usar minha habilidade —
Sua feição mudou de um segundo para o outro, ele ficou mais serio.
— Eu sei que deve ser difícil, mas é uma regra que todos seguem, não existe exceções —
— Sim, to sabendo, Blue falou que é para a segurança de todos. Assim que, para segurança de todos, seria melhor eu ficar apenas observando — Respondi rigidamente
— Por que você precisa ser assim? é só uma demonstração —
— Você não entende, não sou como você, que pode escolher quem queimar e quando, a minha tem um efeito global, todos são atingidos — proferi severamente — Tem crianças aqui Vladimir, crianças!
Nesse momento senti meus olhos arderem, eu os fechei e esfreguei com calma, tentando repor o pouco de paciência que me restava com aquele homem. Isso acontecia raramente, como um alerta de que meu poder queria participar da discussão.
— Eu entendo, e admiro que tenha noção disso, muitos não teriam — Falou
Vlad pousou aquelas enormes mãos negras sobre meu ombro, em uma tentativa de me acalmar, e funcionou.
— Não é algo que eu possa simplesmente ativar e pronto -
Sentamos no corredor, ele estava do meu lado, exalando um calor reconfortante.
— Todos começaram assim, se hoje eu posso controlar o meu poder, é porque no passado já cometi erros horríveis —
— Como o que? —
— Já incendiei uma escola, porque alguém roubou meu lanche —
Acabei soltando uma pequena risada, passou pela minha cabeça uma imagem engraçada no Vlad sem lanche e furioso.
— Vai dizer que gritou "cade minha comida" enquanto cuspia fogo? — Perguntei rindo
— Sim, eu era uma criança explosiva. Por sorte ninguém saiu ferido — Respondeu rindo
Fizemos um longo silencio depois das risadas.
— Vou pensar no assunto — Falei
Eu me levantei, e fiquei feliz em ter esbarrado com ele. Pelo visto notou minha gratidão, e em um corredor vazio, sobre o calor do seu corpo, Vlad fez sua primeira tentativa de me beijar, não o impedi, pois fiquei sem reação, foi algo repentino. Fora quente, como o restante do seu corpo, porém rígido, e mesmo assim retribui e não sabia o porque.
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