O corredor cheirava a desinfetante barato e café velho.

As paredes eram de um branco cansado. A iluminação, fria e impessoal. Portas idênticas alinhadas dos dois lados, como se ninguém ali tivesse nome. Gente andava devagar, arrastando os pés. Alguns eram guiados por enfermeiros. Outros apenas vagavam, olhos perdidos no nada. Um ou outro ria alto, do nada. A maioria parecia feita de névoa, como se só o corpo tivesse sido internado.

Era como se cada um transmitisse numa frequência diferente — e ninguém conseguisse sintonizar com ninguém.

A recepcionista chamou meu nome sem levantar os olhos da tela. Me estendeu uma prancheta.

— Assina aqui.

Peguei a caneta. Fiquei encarando o papel por um instante. Parte de mim, a mais barulhenta, ainda queria desistir. Mas assinei. Como se o rabisco da minha assinatura selasse um pacto que eu ainda não entendia.

Dois enfermeiros passaram por mim, segurando um homem pelo braço. Ele balançava as mãos como se nadasse no ar, murmurando algo que só ele ouvia. Mais ao fundo, um grupo ouvia uma mulher com voz doce demais comandar uma respiração guiada. Soava como uma professora do maternal tentando manter a ordem.

— Vamos respirar juntos agora… Inspira… Expira…

Meu quarto ficava no segundo andar. O corredor era uma cópia exata do primeiro, só que mais silencioso. Passei por uma porta entreaberta e vi uma mulher deitada na cama, os olhos abertos, encarando o teto como se esperasse alguma coisa que não vinha. Não piscava.

“Parabéns, JP. Você conseguiu. Finalmente se trancou num manicômio.”

Ou talvez eu tenha dito isso em voz alta. Não sei mais diferenciar.

Encontrei meu quarto. Tudo branco. Uma cama de ferro com um cobertor e uma toalha dobrados sobre ela. Uma mesinha com um copo de metal. Uma cadeira. A janela era pequena, com grades. E o sol mal entrava.

A enfermeira me entregou o uniforme: moletom azul escuro, dobrado com uma precisão militar.

— Pode se trocar. Depois deixo suas coisas na recepção. É por segurança, mas pode pedir de volta se precisar de algo.

Em segundos, ela saiu com tudo: minhas roupas, meu celular, minha identidade, como se estivesse me despindo do mundo. Do lado de fora, o jardim parecia bonito demais pro lugar. Árvores altas, um banco de cimento, pássaros voando livres enquanto a gente aqui... bom, nem a janela abria.

Eu me perguntava se tinha feito a escolha certa.

Então ouvi passos rápidos no corredor. Um tropeço. E logo depois, a porta escancarou com o som de algo que não deveria estar ali.

— Oi! — disse uma voz, suave, mas estranhamente entusiasmada.

Virei o rosto devagar. Esperava ver uma enfermeira, talvez. Mas não.

Era uma paciente.

Pequena, magra, enfiada num moletom igual ao meu — só que grande demais pra ela. Os cabelos castanhos estavam presos de qualquer jeito, mas mechas azuis escapavam por dentro como um segredo mal guardado. Ela segurava um livro apertado contra o peito e sorria como se tivesse acabado de descobrir uma sala secreta.

Respondi com um "oi" baixo e me virei de novo pra janela. Vim pra cá pra ficar sozinho. Menos de um minuto depois, já tinham invadido meu quarto. Que segurança era essa?

— Eu sou a Maya! — disse, entrando como se a porta aberta fosse um convite. — Uau, que vista! Te deram um dos melhores quartos. O meu dá pra uma parede cheia de mofo. Juro. É quase poético.

Senti ela se aproximar. Dei uma olhada rápida por cima do ombro. Estava muito perto. O suficiente pra eu sentir o calor da respiração dela nas minhas costas.

Dei um passo pro lado pra me afastar — mas a cama estava ali.

E tropecei.

Me apoiei com uma das mãos na cama, tentando recuperar o equilíbrio. Maya arregalou os olhos, levou a mão à boca num gesto dramático — e, como se fosse parte de um espetáculo desastrosamente cronometrado, o livro que ela carregava despencou da mão dela direto no meu pé.

Aquilo não era um livro. Era um tijolo de capa dura.

A dor veio como uma onda quente. Soltei um grunhido, um som entre um gemido e um palavrão engolido. Me sentei na cama, apertando o pé com força. Um roxo já começava a se formar bem no peito dele, latejando como se zombasse de mim.

— Me desculpa! Eu... ai meu Deus, eu só queria te dar boas-vindas! — disse ela, abaixando-se para pegar o livro assassino, os olhos já brilhando, ameaçando transbordar.

Olhei pra cima. Ela parecia prestes a chorar. E, droga, eu odeio ver gente chorando. Mexe comigo de um jeito ruim, como se eu fosse o responsável por todo sofrimento do mundo.

— Tudo bem… — murmurei, querendo qualquer coisa, menos consolar uma estranha no meu primeiro dia num lugar desses.

Mas então percebi que algo estava errado. Ela estava ficando vermelha. Não de choro — de contenção. Franzi a testa.

Foi aí que ela explodiu numa gargalhada.

Um riso alto, desajeitado, como se tivesse engasgado com a própria culpa e cuspido aquilo tudo de volta em forma de risada.

Fiquei paralisado por um instante. O sorriso dela era... perturbador. Não de um jeito ameaçador, mas desconcertante. Como se ela soubesse de alguma piada que o mundo ainda não entendeu. Como se aquilo — o constrangimento, a dor, a vergonha — fosse exatamente o tipo de caos onde ela se sentia confortável.

— Me desculpa... — falou ainda rindo, tentando se recompor. — Acho melhor eu ir.

E foi. Saiu correndo até a porta e a fechou atrás de si com um baque.

Fiquei olhando pra madeira da porta por alguns segundos. Louca. Essa era a palavra. Absolutamente fora da casinha. Me levantei, ainda mancando, e olhei pra cadeira no canto do quarto. Talvez fosse uma boa ideia travar a porta com ela antes de dormir.

Estava quase me convencendo disso quando a porta se abriu de novo.

Devagar.

Ela colocou apenas a cabeça pra dentro, como um fantasma inconveniente.

— Eu ainda não sei o seu nome... — disse, com os olhos curiosos.

— JP.

— JP… — repetiu, quase num sussurro. — Gostei. Te vejo por aí, Jotinha.

E então fechou a porta. Desta vez, com delicadeza.

Fiquei ali, encarando a porta.

"Jotinha?" Sério?

Definitivamente, isso aqui vai ser mais difícil do que eu imaginei.


Na hora do almoço, um dos enfermeiros apareceu na porta do meu quarto com um aceno de cabeça seco, como se eu fosse mais um nome da lista a ser tickado. Me levantei sem dizer nada. Já entendi que, aqui dentro, ninguém pergunta se você quer ir. Só dizem que é hora.

O refeitório era amplo, mas não exatamente acolhedor. Tudo soava prático demais, funcional demais. Paredes claras, mesas de fórmica alinhadas como soldados em formação, cadeiras fixas no chão. Algumas pessoas conversavam baixinho, outras encaravam o nada com a colher parada no ar. Um rádio antigo tocava alguma música instrumental genérica, só pra preencher o silêncio com algo que não fossem nossos próprios pensamentos.

O cheiro da comida me surpreendeu. Esperava algo mais parecido com gororoba de quartel, mas era... normal. Caseiro, até. Arroz, feijão, frango grelhado, legumes, salada e uma jarra de água gelada. Me lembrei de que isso aqui era uma clínica, não uma prisão — embora, com tanta rotina, grades e regras, às vezes eu começasse a me confundir.

Peguei minha bandeja, agradeci automaticamente (ninguém respondeu) e fui procurar o canto mais vazio. Encontrei uma mesa ocupada por dois senhores que comiam em silêncio absoluto, como se mastigar fosse um ritual sagrado. Me sentei sem ser notado — o que, naquele momento, era tudo o que eu queria.

Enquanto observava os enfermeiros passando entre as mesas distribuindo copinhos de remédio com a mesma delicadeza de quem serve sobremesa, comecei a comer. A comida não era ruim. Isso me deu até um fiapo de esperança. Talvez eu conseguisse passar por essa experiência com alguma dignidade.

Mas, claro, durou pouco.

Notei uma sombra parando ao meu lado. A colher congelou no ar, a meio caminho da boca. Virei os olhos devagar, e encontrei um homem em pé, me encarando.

Ele estava me olhando com uma expressão que eu conhecia bem. Aquela cara de quem está tentando lembrar de onde me conhece. A clássica “cara de reconhecimento”. Já vi essa expressão em fila de supermercado, em elevador, no meio da rua. E confesso — por um segundo, a parte treinada do meu cérebro entrou no piloto automático.

Sorri.

— Sim, sou eu. O JP. — falei, dando de ombros e voltando a encarar o prato. Como se aquilo fosse um pôster autografado.

Silêncio.

Olhei de novo. Ele franziu a testa, confuso, e deu uma olhada ao redor.

— Desculpa, mas... eu te conheço?

Pisquei.

— Não conhece?

— Acho que não. Só queria dizer que você tá no meu lugar. Eu gosto de sentar aqui perto do Pedro, porque ele me dá as gelatinas dele. — Disse, já pousando a bandeja com naturalidade de quem senta ali todo dia.

Pedro, o senhor ao meu lado, ergueu os dois polegares no ar, animado, como se estivesse celebrando um tratado de paz internacional.

— Ah... claro. Desculpa. — Falei, soltando um riso sem graça enquanto me levantava. Foi automático, mecânico. Como se meu corpo estivesse tentando sair da situação antes mesmo da minha cabeça.

Me afastei da mesa, olhando ao redor à procura de outro lugar. Notei a bandeja das sobremesas sendo reabastecida com gelatinas vermelhas — brilhantes, vibrantes, quase ridiculamente alegres.

“Ótimo. Nem gelatina eu tenho direito nesse lugar."


— JOTINHAAAAA!

A voz cortou o refeitório como uma faca em filme de terror, mas com o tom de uma comédia pastelão. Vinda do outro lado da sala.

Maya estava sentada em uma das mesas centrais, balançando os braços no ar como se estivesse sinalizando para um avião aterrissar. Tinha um sorriso que ocupava metade do rosto e o cabelo preso de um jeito novo — com uma caneta espetada no meio do coque improvisado. A bandeja dela estava cheia, com pelo menos três potinhos de gelatina empilhados como troféus.

Virei o rosto devagar, como se não tivesse visto. Comecei a fingir uma análise profunda do ambiente, do tipo: "Hmm, será que aquela mesa perto da parede está disponível? Talvez aquele canto lá no fundo..."

Não estava. Nada estava. As outras mesas estavam cheias de grupos já formados, pessoas que pareciam ter suas rotinas e seus lugares fixos — como aquele cara da gelatina. Tentei resistir. Dei uma volta inteira no refeitório com a bandeja na mão, fingindo estar escolhendo um lugar por puro capricho.

Mas a verdade era simples.

Ou eu me sentava com Maya. Ou eu comia em pé.

Suspirei fundo. Olhei pro chão. Fui.

Maya abriu espaço na mesa com a empolgação de quem recebe um velho amigo no próprio casamento.

— Eu sabia que você viria! Eu sou praticamente uma vidente emocional. E, cá entre nós, você tem cara de quem gosta de gelatina vermelha. — Disse empurrando um potinho em minha direção.

— Eu não gosto de gelatina. — murmurei, colocando a bandeja na mesa.

— Eu vi como você olhou para a bandeja cheia e depois para a sua vazia — respondeu com um sorrisinho cúmplice. — Não me engana.

Sentei sem responder. Comecei a comer, esperando que o silêncio fizesse ela entender o recado.

Claro que não entendeu.

— Você é muito calado Jotinha.

— Não me chame assim. -falei rispidamente.

— Tudo bem, desculpe, tenho dificuldade em ver limites.

— Percebi.- falei de forma mais fria do que planejava. Ela virou o rosto e ficou um tempo encarando o prato antes de terminar a refeição em silêncio.

O silêncio entre nós ficou pesado, diferente do resto do refeitório, onde garfos batiam em pratos e vozes se misturavam num ruído constante. Aqui, parecia que o tempo tinha parado.

Maya empurrava o arroz com o garfo, como se estivesse desenhando no prato. Pela primeira vez desde que a conheci — há, o quê, meia hora? — ela parecia pequena. Calada. Como se eu tivesse puxado o tapete da energia dela com uma única frase.

Quis dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas não sou bom com isso. Nunca fui.

— Não foi por mal — murmurei, ainda olhando pro prato. — Eu só não estou bem ultimamente...

Ela olhou de lado, com um meio sorriso. Não era o de antes. Era mais contido. Um pouco triste, até.

— Tudo bem. Eu falo demais. A gente se equilibra. — disse, dando de ombros, mas sem o mesmo entusiasmo.

Ficamos assim até um enfermeiro bater palmas, chamando o grupo para as atividades da tarde.

Maya se levantou primeiro.

— Vem, Jota-sem-apelido. — disse baixinho, com um brilho de sarcasmo leve nos olhos. — Ou vai fingir que não me ouviu de novo?

Não respondi. “JP é literalmente um apelido, mas tudo bem, quem sou eu pra questionar a lógica de uma pessoa que tem mechas azuis no cabelo?” pensei, abafando um sorriso.

Mas fui atrás.

Talvez por curiosidade.

Talvez porque, mesmo sem admitir, estar ao lado dela era menos pior do que estar sozinho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.