Meus olhos abriram devagar. Tudo doía.

O teto era branco demais. Quase agressivo. E pela primeira vez em muito tempo, não tinha ninguém pedindo uma selfie.

O som ambiente era de máquina apitando, passos calmos de enfermeiras, e um bip constante que me lembrava que, sim, eu ainda estava vivo.

Gabi estava ali, sentada numa poltrona ao lado da cama. A cabeça caída, o celular no colo, a expressão exausta.

Quando percebeu que eu estava acordado, ela se endireitou num susto.


— Caralho, JP… você me deu um susto do cacete — ela sussurrou, os olhos marejados, mas tentando manter o tom leve. — Você desmaiou no meio do estúdio. Acharam que era ataque cardíaco. Eu quase infartei no seu lugar.


Tentei sorrir, mas só consegui fechar os olhos de novo. Suspirei.

Ela assentiu. Silêncio por alguns segundos. Depois, a voz dela ficou mais suave.


— Sua mãe ligou. Umas… quinze vezes. Ela ficou desesperada quando viu a matéria no G1. Queria vir pra cá.


Meu estômago virou. Eu sabia que tava enrolando ela há semanas. Prometendo que ia visitar, que ia ligar, que ia dar notícias. Mas sempre aparecia algo “mais urgente”. Como se existisse algo mais urgente que uma mãe.


— Liga pra ela, JP. Por favor. — Gabi me entregou o celular dela. — Ela precisa ouvir tua voz.


Respirei fundo. Peguei o aparelho. O nome dela já estava ali na tela.


“Mãe ❤️”


Toquei para ligar. A ligação chamou duas vezes antes de ser atendida.


— Meu filho?! — a voz dela veio tremida, mas viva. Carregada de alívio.


— Mãe… tô bem. Tô aqui.


— Tô aqui onde, menino?! Cê me deixa doida! — a raiva vinha misturada com choro. — Vi tua cara pálida no jornal, quase desmaiei junto! Que negócio é esse de cair no meio da Globo?


— Foi só um susto. Já tô melhor. De verdade.


Ela respirou fundo do outro lado da linha. O silêncio veio denso. Depois, falou num tom que eu reconheci de longe — aquele que ela só usava quando o coração dela tava mais apertado que o meu.


— Essa noite eu sonhei com teu pai. Ele tava calado, sentado na beira da cama. Olhou pra mim e disse: “Nosso menino tá cansado.”


Fechei os olhos. A voz dela ecoava no peito.


— Mãe…


— Ele tava com uma cara… de preocupação. Como se já soubesse. Como se tivesse esperando você voltar.


Demorei pra responder. As palavras dela tinham o poder de abrir gavetas trancadas dentro de mim.


— Cê quer que eu vá te ver, né?


— Quero que venha ficar uns dias aqui. Sem fã, sem câmera, sem essa correria. Só você. Só a gente.


Fiquei em silêncio por um tempo. Olhei pela janela do quarto branco. O céu lá fora tava nublado, mas calmo.


— Tá bom, mãe. Eu vou.


A pausa dela foi longa. Quando respondeu, a voz já vinha embargada:


— Obrigada, meu filho. Você não sabe o bem que isso me faz.


Ela não precisava dizer mais nada.

Desliguei. Devolvi o celular pra Gabi, que me olhava com um sorriso tímido.


— Vai ser bom pra você — ela disse.


Talvez ela estivesse certa.


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O voo foi rápido.

A cidadezinha parecia menor do que eu lembrava. Ou talvez fosse eu que tivesse crescido demais por dentro — de um jeito torto. Goiás me recebia com o mesmo sol de sempre, seco, amarelado, e ruas de paralelepípedo onde todo mundo ainda sabia o nome do outro.

Desci do carro de aplicativo um quarteirão antes. Não queria chegar direto. Não ainda.

No fim da rua, ali onde a calçada sempre rachava com a raiz da figueira, vi o bar do meu pai.

Verde desbotado. As mesas de madeira, o mesmo cheiro de cigarro velho misturado com feijão da panela do dia. Os ventiladores nas paredes ainda faziam mais barulho que vento.

Meus pés entraram antes de eu pensar.

Sentei num canto, perto da janela, onde ele costumava sentar comigo. Na época, eu tomava guaraná. Ele, cerveja.


— Uma gelada — pedi, sem olhar pra moça que me atendeu.


Quando chegou, encostei os lábios na garrafa e fechei os olhos. O gosto era o mesmo de quando eu ainda achava que isso aqui era uma solução.

Mas não resolvia nada.

A garrafa virou duas, três, quatro...

O bar foi enchendo de vozes, mas eu fui ficando cada vez mais vazio.


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A porta de casa se abriu devagar. A luz da sala estava acesa. A televisão ligada, mas sem som. Minha mãe estava sentada na poltrona, costurando alguma coisa que nem prestei atenção. Quando me viu, ergueu os olhos um sorriso de orelha a orelha apareceu. E ai ela sentiu. O cheiro. O andar torto. A voz embargada que mal saía. Suspirou e o sorriso foi desparecendo..


— Filho ... sussurrou enquanto se levantava. Ela me abraçou forte e depois se fastou com as mãsoo ainda nos meus braços me analisando.


— Você bebeu.


Fiquei parado, sem conseguir responder.


— Venha! sente se um pouco.


— não mãe, acho que prefiro tomar um banho e deitar.


— esperei tanto por você meu amor, fique um pouco comigo aqui na sala.


— amanhã mãe, hoje eu só quero sumir um pouco. — falei deixando as bolsas no chão e indo para a cozinha, abrindo a geladeira e pegando mais uma garrafa de cerveja.


— Não acho bom você beber mais filho.


— Por favor mãe, não venha me julgar agora!


— Julgar? Meu filho, eu quero te ajudar não julgar.


Viro a garrafa de uma vez e jogo no lixo.

Ela me encara perplexa e suspira.


— E Sabe o que é pior mãe? — ela disse, com a voz baixa, firme — Você sabia que eu ia fazer isso. Sabia que eu ia olhar praquele bar e entrar. Como sempre fiz.


Me apoiei no batente da porta. Tentei sorrir. Mas não havia força.


— Você lembra o que o álcool fez com você? — ela aumenta o tom de voz. — Com eles?


Aquilo foi um soco no estômago. Não de raiva. De verdade.


— Eu sinto falta deles todos os dias. — Ela se aproximou. — Mas ver você se perdendo… me faz sentir falta de você também. E você ainda tá vivo, Jeremias.


Aquela frase me desmontou.

Minhas pernas falharam. Sentei no chão da sala, com as costas encostadas na parede. As mãos no rosto.


E chorei. Sem disfarce. Sem esconder.


— Eu não sei mais quem eu sou, mãe.


Ela se ajoelhou ao meu lado. Puxou meu rosto com as duas mãos, com aquele toque que só mãe tem — que é firmeza e colo ao mesmo tempo.


— Então tá na hora de descobrir.


Fiquei em silêncio, afogado nas lágrimas.

Ela me abraçou. Ficamos assim por um tempo que não dá pra contar.

Depois, ela disse, bem baixinho no meu ouvido:


— Você precisa de ajuda, meu amor. E eu tô aqui. Mas você precisa se ajudar também.


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A manhã seguinte veio com gosto de ressaca e remorso.

O sol invadia as cortinas finas da casa da minha mãe, e por um momento eu achei que ainda estava no passado. No tempo em que tudo era mais simples.

Levantei devagar. O cheiro de café preenchia o corredor. Ela estava na cozinha, cantarolando baixinho alguma música antiga. Não precisei dizer nada — ela me olhou e sorriu com o tipo de compreensão que só existe entre quem já viu a dor de perto.

Depois do café, fui até o quarto e sentei na beirada da cama.

Peguei o celular. O coração batia como se já soubesse o que eu precisava fazer. O nome da Gabi piscava na agenda.

Toquei para ligar. Ela atendeu no segundo toque.


— JP? Tá tudo bem?


Minha voz saiu baixa. Firme.


— Na verdade não! Procura um lugar pra mim. Uma clínica. Uma que não tenha paparazzis ou alguém que me conheça. — Dei uma pausa, engoli seco. — Não dá mais. Eu não consigo sozinho.


Do outro lado, silêncio. Depois, um suspiro aliviado.


— Tá. Eu vou cuidar de tudo.



O carro seguia pela estrada de terra batida. Árvores altas dos dois lados. O silêncio dentro do veículo era cortado apenas pelo som dos pneus no cascalho. A mochila no banco ao lado. Minhas mãos entrelaçadas no colo.

O portão surgiu à frente — grande, de ferro branco, com um letreiro simples:


“Instituto Horizonte.”


O carro parou.

O portão começou a se abrir devagar, rangendo como se também estivesse cansado.

Respirei fundo, ainda dava tempo de desistir dessa ideia, será que isso realmente iria me ajudar?

O vento bateu no meu rosto. Não era a liberdade ainda. Mas talvez fosse o começo.