O celular não parava de vibrar na mesa de cabeceira, e o som constante das notificações me arrancou do sono profundo. Primeiro veio aquele incômodo zumbido, quase como uma insinuação que me puxava de volta à realidade. Quando a vibração ficou mais forte, foi como um alarme. Com um grunhido, estiquei o braço para pegar o celular, quase sem abrir os olhos, com raiva de ser acordado.

Era mais uma avalanche de notificações. A tela iluminada mostrava uma série notificações do Instagram e WhatsApp. Cada número, cada alerta era uma exigência silenciosa. Era o tipo de barulho digital que ninguém precisa, mas que, ao mesmo tempo, parece que todo mundo quer me empurrar goela abaixo.

Soltei um suspiro pesado e, sem pensar, toquei no botão de silenciar. O que me incomodava não era a falta de reconhecimento, mas o peso que ele trazia. A pressão de estar constantemente sendo visto, de ser sempre o "comediante feliz", o cara que todos adoram, o cara que sempre tem algo engraçado para dizer.

Levantei da cama com o corpo ainda pesando, sentindo o cansaço se arrastando como uma sombra, e fui direto para o banheiro. A água fria foi um choque bom, me acordando um pouco mais, mas a sensação de cansaço continuava, grudada na minha pele. Voltei para o quarto, fui até a máquina de café e coloquei uma cápsula de capuccino, tentando criar um pequeno ritual de normalidade. O café, pelo menos, me dava alguma sensação de controle. Eu olhava para o celular de novo, já de volta à cama, e o vi explodir em mais notificações.

Fiquei ali, rolando as mensagens, como quem tenta se afogar em um mar de palavras gentis. Todos dizendo a mesma coisa: “Incrível o show de ontem!”, “Você arrasou no Maraca!”, “Melhor show da minha vida!”. Eu sorria de leve, sabendo que realmente foi um show bom. Mas, mesmo assim, tudo parecia tão distante. A energia do palco, o calor do público, a sensação de estar sendo aplaudido, tudo aquilo que, no momento, me dava vida, se dissipava rapidamente, como se tivesse ocorrido há anos, não há algumas horas atrás.

Eu sempre amei o palco, essa é a verdade. Quando estou lá, em cima, a energia da galera me impulsiona de uma maneira única. O som das gargalhadas, os aplausos, a sensação de que, por alguns momentos, o mundo inteiro está focado em você... É algo quase mágico. Mas, depois, quando tudo acaba, o silêncio vem como uma invasão. E esse silêncio pesa. Ele me engole. Como se, depois de tudo, eu ainda fosse o mesmo cara perdido, sem saber muito bem quem sou.


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As luzes eram fortes. Não como as do palco, que me aqueciam por dentro. Essas eram frias, brancas, perfeitas demais. O estúdio do Fantástico parecia um aquário moderno — tudo de vidro, de metal, de silêncio. Gente demais andando rápido, com fones de ouvido e pranchetas nas mãos. Tudo cronometrado. Tudo bonito demais.

Eu me sentia deslocado ali.

Gabi estava ao meu lado, sempre em modo produtora. Verificava detalhes com a produção, mexia no meu microfone, sorria nervosa. Me lançou um olhar rápido, tentando avaliar como eu estava. Sorri pra ela. Aquele sorriso de sempre. O automático. O profissional.


— Vamos entrar ao vivo em 3… 2…


A vinheta do programa ecoou pelo estúdio.

Era hora do show. De novo.

A repórter era simpática, experiente. Seu tom era leve, alegre, empolgado. Começou com as perguntas de sempre:


— JP, foram mais de 40 cidades, milhões de pessoas assistindo, vídeos viralizando sem parar… Você imaginava esse sucesso todo?


Sorri.


— Olha, se eu disser que não imaginava, eu minto… mas também não esperava tanto. É surreal. Fazer piada no Maracanã… — dei uma risada ensaiada — é coisa de maluco, né?


Risos no estúdio. O público amava um JP espontâneo. E eu sabia entregar isso.

Ela continuou:


— E agora, depois desse sucesso estrondoso, o que vem pela frente? Já tem nova turnê? Novo projeto? As pessoas querem mais, JP!


Mais. Sempre mais.


— Tô… tô pensando com calma. Foi uma maratona, né? Agora é hora de respirar um pouco.


Uma pausa seguida de um grande sorriso.


— E a gente não pode deixar de falar dos seus parceiros lá do começo. O trio JP, Miguel e Pedro marcou uma geração.


Gabi congelou.


Do lado das câmeras, ela se virou pra produção, em choque. Aquilo não estava no roteiro. Ela tentou chamar a atenção do operador, fez sinal cortando com a mão, sussurrou um “corta, corta, corta” pro ponto da repórter.

Mas ninguém ouviu.


— O Brasil sente falta deles. De vocês juntos. Sente saudade dessa fase?


A cadeira pareceu endurecer sob mim. O microfone colado ao meu peito pesava como chumbo. A garganta secou. E a repórter, sem saber, continuou sorrindo:


— Os vídeos pro YouTube, com as dublagens hilárias do Pedro, as imitações do Miguel… as músicas que vocês faziam juntos…


Silêncio.


Gabi já estava se aproximando do set, tentando interferir sem causar um escândalo. Tarde demais.

Baixei os olhos. Mordi os lábios. Por um instante, tentei encontrar uma saída engraçada. Uma frase leve. Mas não deu.

A voz saiu baixa. Quebrada.


— Miguel e Pedro… não foram só meus amigos. Eles eram minha base. Meus irmãos de palco e… da vida.


A câmera fechou no meu rosto. Os olhos já estavam marejados.


— Quando eles morreram… eu achei que nunca mais ia subir num palco. Subi porque era o que a gente fazia juntos. Era o que eles amavam. E talvez, de algum jeito, eu achei que continuar… podia manter eles vivos em mim.


A repórter hesitou, mas insistiu:


— O acidente foi terrível. Não deve ter sido fácil ser o único a sair dele...


Silêncio.


— Mas depois disso seu sucesso alavancou.


Silêncio.


— Você acha que um dia… pode rolar uma homenagem? Um projeto que traga essa memória de volta?


As luzes do estúdio começaram a doer nos meus olhos. A repórter ainda falava, mas as palavras dela já não chegavam completas até mim. Era como se o som estivesse sendo filtrado por água. Um zumbido começou a crescer no fundo da minha cabeça, fino e insistente. As vozes viraram ruído branco.

Meus dedos começaram a formigar.

Minha respiração acelerou, mas o ar parecia não entrar. Era como puxar vento por um canudo. Me concentrei em manter o rosto estável, o sorriso — ou qualquer traço de normalidade — mas meu peito estava apertado, como se alguém tivesse colocado um peso em cima dele.

A câmera estava em mim. Eu sabia disso. Sentia o foco, a lente apontada, o país inteiro olhando.

Fiz força para manter o olhar fixo, para não entregar o que estava acontecendo. Mas meus olhos começaram a arder, não de choro — de esforço. O mundo ao redor começou a embaçar, como se tudo estivesse se desfocando, desfazendo.

Minha mão foi até o colarinho. O microfone saiu com dificuldade. Eu o arranquei.

Gabi correu até mim, a tempo de me ver levantar da cadeira com o rosto pálido.


— JP, calma… — ela sussurrou, tentando segurar meu braço.


Mas eu já estava andando, tropeçando entre cabos, fugindo das luzes, das câmeras, das perguntas.

As vozes no estúdio viraram zumbido. Tudo em volta parecia distorcido, distante. Como se eu estivesse mergulhado embaixo d’água.

A mão de Gabi tentou me puxar de volta.


— JP? Olha pra mim! Respira!


Mas já era tarde.

A última coisa que vi foi o chão chegando rápido demais.

E então, escureceu.