Mantendo o equilíbrio
2 Capítulo 1
Todos estavam me aplaudindo e gritando, cerca de 50 mil pessoas, que foram ali para me ver, para rir do meu show. Meu último show da minha turnê pelo Brasil, no Maracanã. Eu nunca imaginei que ia fazer um show no Maracanã, né? Tipo, onde o Brasil já ganhou Copa do Mundo, e eu lá, fazendo piada pra 50 mil pessoas. Sério, é uma parada muito surreal! Eu olhava pra aquela galera toda e pensava: "Eu sou só um cara que conta piada, não sou o Michael Jackson!" Mas foi uma energia absurda, parecia que o Rio inteiro tinha saído de casa só pra me ver.
Cada gargalhada que vinha de lá, parecia que o estádio ia desabar! Era como se a vibração do público fosse capaz de mover as estruturas do Maracanã, e eu só estava ali, tentando acompanhar, tentando não deixar a ansiedade tomar conta de mim.
Aquela sensação de nervosismo misturado com gratidão era algo que eu nunca havia experimentado. O palco era gigantesco, o som, a luz, tudo perfeito, mas o que realmente me tocava era o calor daquelas pessoas, a entrega de cada uma delas. Eu via rostos sorrindo, outros chorando de rir. Mas o que me marcou de verdade foram os olhares: todos ali estavam presentes de verdade, não era só mais um show, era algo único, e eu era parte daquilo.
-JP! — ouvi uma voz feminina gritando meu nome pelo ponto no ouvido. Eu, que já estava perdido em meio à adrenalina do momento, de repente me lembrei onde eu estava: ainda no palco. Respirei fundo, agradeci mentalmente a todos e dei um sorriso pro público, acenando como se nada estivesse acontecendo, mas por dentro eu sentia o mundo inteiro girando em torno daquele instante.
-Você arrasou, JP, parabéns!!- Gabi me disse, vindo na minha direção com aquele sorriso contagiante. Ela me deu um abraço apertado. Gabi era minha produtora, a mulher que fazia tudo acontecer de forma organizada, que estava sempre nos bastidores, garantindo que nada saísse do controle. -Temos que comemorar! Todos da equipe estão realizados com essa turnê. Finalizamos com chave de ouro! – ela disse, dando pulinhos de alegria, e eu podia ver o brilho nos olhos dela. Era impossível não sentir o quanto ela estava feliz por ter feito parte de todo aquele processo.
Os outros membros da equipe começaram a se aproximar, me parabenizando, me elogiando. Eles sabiam o quanto eu tinha me dedicado pra chegar até ali, e naquele momento, as palavras de apoio e os abraços eram mais do que merecidos. Foi realmente uma noite incrível. O tipo de noite que você quer guardar na memória pra sempre. E amanhã, com certeza, serei notícia em todos os lugares por causa disso.
Mas antes de qualquer coisa, eu queria aproveitar aquele instante. O Maracanã estava começando a se esvaziar aos poucos, e eu me vi ali, parado atras das cortinas, espiando aquele espaço imenso, tentando absorver tudo o que tinha acontecido.
-Vamos lá, JP, hora de ir embora!- Gabi me puxou, e eu os acompanhei até a van que nos esperava.
A van estava cheia de vozes eufóricas, risadas soltas, gente abrindo cerveja antes mesmo de sentar direito. Gabi entrou por último, já puxando o celular pra resolver alguma coisa, enquanto gritava:
— JP, você foi insano hoje! Insano!
Sentei no canto, perto da janela, onde dava pra ver o reflexo da cidade passando. As luzes do Rio ainda estavam ali, pulsando, como se o show não tivesse acabado de verdade. Mas dentro de mim, o barulho já tinha diminuído faz tempo.
— Cara, aquele momento da piada do avião… nossa! — um dos técnicos falou, virando pra mim — Eu chorei de rir, juro.
Eu sorri, acenei com a cabeça, agradeci. Era automático. O sorriso que eles esperavam. O JP que eles conheciam.
Gabi me cutucou com o cotovelo.
— está quieto demais, hein. Tá tudo bem?
Assenti de novo. Outro sorriso. O de "estou só cansado”, o mais convincente do repertório.
— Só estou tentando guardar esse momento, sabe? Foi foda.
E foi. Mas não era só isso.
O resto do caminho foi um borrão de vozes e luzes. A van cortando a cidade enquanto minha cabeça se perdia em outra frequência.
O hotel era de luxo, daqueles que tem tapete grosso no corredor e cheiro de limpeza demais, quase sufocante. O tipo de lugar onde tudo é bonito, mas nada tem alma.
Gabi me deu um tchau rápido na recepção, já resolvendo alguma coisa no celular, e desapareceu no elevador. O resto da equipe foi sumindo um por um, carregando caixas, mochilas, instrumentos. A euforia parecia ter ficado dentro da van. Eles iam comemorar no bar do próprio hotel mais tarde, mas eu disse que preferia ir pro quarto dormi.
No quarto, eu fechei a porta devagar, como se tivesse medo de acordar alguém. Tirei o tênis e larguei ele num canto. Joguei o celular na cama. A tela acendeu com dezenas de notificações: mensagens, tags, reels, stories com a hashtag #JPNoMaraca. Gente rindo, gritando, elogiando. Um mar de aplausos digitais.
Mas eu não toquei em nenhuma. Só fiquei olhando.
Andei até a varanda. O Rio brilhava lá embaixo, e pela primeira vez naquela noite, eu não era o centro de nada. Só mais um cara olhando a praia, tentando entender onde é que tudo isso me levou.
Me apoiei na mureta, puxei o celular e, por impulso, abri a galeria. Comecei a passar pelas fotos antigas, aquelas que ninguém mais vê. Eu e meu pai num boteco, rindo. Eu o Miguel e o Pedro, meus parceiros de palco, antes deles desistirem de tudo.
A garganta apertou. Respirei fundo.
Um som de notificação pipocou. WhatsApp.
“Oi, JP. Me liga quando puder.”
Era da minha mãe. Fazia semanas que eu não respondia.
Engraçado como uma frase tão curta pode parecer tão pesada.
Não respondi. Só travei a tela do celular e deixei ele de lado, como se o gesto me afastasse da realidade. Caminhei até o frigobar, peguei uma garrafinha de água. Bebi metade num gole só, como se fosse capaz de afogar o nó na garganta.
O espelho do quarto me encarava. Não o de corpo inteiro, bonitão, do lado do armário. O pequeno, em cima da bancada, redondo, com luz de LED em volta. Parecia aqueles de camarim.
Fiquei ali, parado, olhando o reflexo.
Quem é você quando ninguém está rindo?
Fechei os olhos. E, pela primeira vez naquela noite, o silêncio virou memória.
FLASHBACK –
O carro estava virado de lado. Vidros estilhaçados. A sirene soava longe, e o cheiro de gasolina era sufocante. Eu sentia o gosto de sangue na boca, mas o pior era o som… ou a falta dele.
— “Miguel?” — minha voz saiu fraca. Tossi algumas vezes.
— “Pedro?”
Nada.
O mundo tinha parado ali. E eu segui.
FIM DO FLASHBACK
Voltei pro presente com o coração batendo mais rápido. Encostei na parede, respirei fundo várias vezes. Eu odiava quando isso acontecia — quando minha cabeça me arrastava de volta praquela noite. Era como cair de novo naquele carro, toda vez.
Aquela foi a primeira vez que eu me senti culpado por estar vivo. E talvez a culpa nunca tenha saído dali.
Sentei na beira da cama, com a toalha no rosto. Não chorei. Não mais. Só fiquei ali. Parado.
A galera acha que o palco é difícil. Mas o difícil mesmo é o depois. O silêncio. A ausência de luz. O momento em que ninguém está te olhando.
E era exatamente onde eu estava.
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