Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
191 Capítulo 86
Notas iniciais
É bem raro eu aparecer na casa do seu Júlio dia de sábado, pois é geralmente o meu dia de descanso ou de arrumar algo em casa ou algo da faculdade. É um dia mais livre. Apesar de o domingo ser na mesma linha, a dinâmica da casa dele é completamente diferente no dia anterior. Também porque tanto o Filipe quanto a Iara trabalham até o meio-dia de sábado, então chegar por essas horas é encontrar o ninho vazio.
Mas me surpreendo de ver o vô Júlio no jardim, acompanhando o jardineiro em algum procedimento nos arbustos. Acho que estão fazendo a poda. Pra mim, significa que seu Júlio está se dispondo aos planos que mencionou na roda do Natal, sobre o que gostaria de fazer esse ano – cuidar das flores e dos frutos da casa, literal e não literal. Quem sabe já não começou a leitura daquele livro que lhe presenteei, de introdução à jardinagem?
O fato é que ele está dando passos nessa direção.
O Murilo também está... para não mais ser uma fera. Mamãe também tem nos dado espaço e colinhos, muitos colinhos respeitosos, sem mais essa de só puxar nossas orelhas. Em conformidade, papai está menos relapso e está tomando conta das muitas funções que minha mãe assumiu por anos.
A Iara, caramba, vai voltar a estudar. Em breve, vamos fazer a matrícula juntas. Ela para entrar na instituição, eu para encerrar o último período da faculdade. Já Djane, a professora ainda tá tendo dificuldade de largar o osso de lá, vide a confusão de hoje, porém, sinto que ela está mais consciente. E o Vini, meu Vini está muito mais envolvido com a família – continua batendo o ciúme lá e cá, porém, enfrentando essas sensações.
Meu maior orgulho – que falei lá na roda de confissões de Natal – foi de ter sequestrado Djane quando estava trabalhando demais. Ou seja, um objetivo que foi cumprido diante de uma grande necessidade. Mas não teve algo a ver diretamente comigo, penso. Foi mais algo reativo, alinhado com minha personalidade traquina de intervenção, que foi requisitada pelo Renato. Na época, ele se viu sem muita saída com Djane sendo aquela teimosa. Precisava de uma cabeça que arquitetasse um plano, organizasse a gangue e colocasse tudo em ação, bem articulado, coisa que ele não poderia sozinho e nem teria influência pra isso. No final das contas, eu só ajudei o cara.
Tenho orgulho de oferecer ajuda a quem precisa de um pouco de Milena na vida.
E quando sou eu que preciso de um pouco de Milena na vida? Tenho eu ofertado a mesma ajuda, com a mesma disposição? Não. E isso tá cada vez mais evidente.
O que mais não me orgulho de ter feito esse ano... é de não ter sido justa comigo.
É, eu realmente não me dou tanto crédito pelas coisas. E guardo demais por tempo demais. Chego ao ponto de não confiar em mim mesma, sendo que sou tão confiável para os outros. Como pode um ser humano ser assim?
O meu objetivo de virada era poder ir para a terapia. Fui na terapia e em pouco tempo já estava achando que iria dar errado, que não ia funcionar, que tem coisa errada demais dentro de mim. Fui na terapia e fui mais pelo Murilo do que por mim, apesar de ter me afirmado antes de ir que dessa vez seria por mim.
Mas fazer um acompanhamento desses não é exatamente um sonho, né? É um objetivo e é pra mim, porém, não é um sonho para se sonhar. Ou se é, esse já foi. Quer dizer, já fui lá e ainda tô descobrindo o que é esse lá, o que tem lá pra mim. E acho que não querer mais trovões ou não surtar com eles deva ser um sonho, embora também sejam metas e muito a longo prazo. Até porque não se elimina o problema, né. Esse não é um problema que dê pra se eliminar assim, só por querer. Ainda vou ter que aprender a lidar com ele. E acho que não quero que isso seja meu sonho pessoal – no caso, a ideia de consertar um traço ruim de mim.
Se bem que o sonho pessoal do Murilo é não ser mais uma fera. Acho. Não sei de fato se é um sonho; sei que é um objetivo. Acho que ele ainda não me falou qual é o sonho dele, o atual dele. Ter uma relação incrível comigo, isso já podemos riscar da lista dele. Ter uma relação incrível com a Aline também. Ter falado com nossos pais, abrir o coração com sinceridade, também. De fato, meu irmãozão já fez muita coisa.
Mas... O que eu fiz? O que eutô fazendo? Pelo que tô fazendo?
E o principal: por quem estou fazendo?
— Milena, não se mexe.
Paro no mesmo instante no caminho de cimento. Dava uma volta sozinha pelo pátio da casa enquanto o Vinícius atendia uma ligação, afastado.
— Tem... Tem um bicho em mim?
A face do seu Júlio se abre num pequeno sorriso para não se entregar todo.
— Só uma borboleta.
Dou um gritinho e ele move a mão com luva por cima de mim, o que indica que o inseto estava no meu cabelo.
— Pronto, liberada.
Olho pra cima, ofegante, e vejo a bonita, toda rosadinha, sair voando para longe. Seu Júlio ri e segue caminho para o outro lado do jardim, atravessando o pátio. Mas logo sinto outra presença e essa ousa me provocar também.
— É só uma borboleta, amor.
Resmungo porque sim.
— Isso porque não foi contigo.
Ainda tenho a foto dele segurando um cabo de vassoura, checando o teto, por conta também de uma borboleta que adentrou a cozinha durante os preparos para a ceia de Natal. Foto do seu avô e agora acervo pessoal nosso. Mas digo isso pro namorado? Não. Porque bondosa sou.
— Demorei muito? Deu tempo de planejar minha surpresa de aniversário?
Ele encasquetou com essa porque no carro mamãe comentou do aniversário do Murilo, que sempre foi o primeiro na nossa casa, e Djane disse que o Vini é quem iniciava na dela.
E aí o namorado quis saber do plano pra esse ano, mas teve que atender uma ligação. Provavelmente da mesma pessoa que ligou ainda pouco. Algo do trabalho que ele conseguiu driblar essa manhã – e nem foi por conta de mim dessa vez, mas sim de sua mãe que desde cedo quis sair de carro. E eu pensando que aquele auê todo na minha porta tinha acontecido já pelo meio da manhã. Na real, ele segurava Djane em casa e precisou sair com ela pra ver se fazia a mulher sossegar. Não sei nem como meu Vini conseguiu a proeza de parar na minha casa sem que ela lhe arrancasse a cabeça.
Eu, que não sou nada boba (mentira, sou muito), mando uma tirada na lata.
— E quem disse que já não tenho tudo planejado?
O modo como ele paralisa de repente e abre a boca em “o”, surpreso, diz que meu Vini não tava preparado para essa resposta.
— Não tenho, tá, mas ver essa tua cara de chocado valeu muito a pena. E dessa vez não vai ter climões ou drama. Aliás, tudo bem pra ti se o Sávio ir?
Lanço essa questão mais pra dispersar o assunto do que outra coisa. Isso porque a fadinha me pediu no outro dia pra ela ser a anfitriã e a organizadora. Foi lá na rodoviária, quando fomos nos despedir do Silveira. O assunto acabou surgindo porque o Filipe comentou da data como próxima, já deixando o convite ao amigo. Daí, antes de sairmos do ponto, a Iara me puxou de canto pra tratar disso. Disse que já tinha uma ideia pra discutir, mas que detalharia em outro momento. Só quis mesmo saber se eu teria algo em mente e se ela poderia assumir a festa toda. E não, eu não tinha nada em mente e achei até bem bom que estivesse disposta a tomar de conta disso.
Até porque eu fui a pessoa que esqueceu do Natal e do dia de virada. Ou seja, não andava com a cabeça no lugar faz um tempo. Não quer dizer que eu iria deliberadamente esquecer do níver do Vinícius – isso nunca. Data de namoro ou de níver do primeiro beijo é passável, mas aniversário, data de nascimento, não.
De qualquer maneira, tem sido muita coisa pra eu sequer parar pra considerar uma festa, menos ainda preparar uma. Ainda nem tinha pensado sobre isso. Se não fosse essa sua proposta, acho que deixaria a cargo de Djane. E com elas, sei que posso contar. E tá na vez delas de aprontarem e eu só seguir o plano, vez que já abri um precedente interessante. Além de poder dividir esse compromisso e me tirar uma tarefa das mãos, isso aumenta as chances de o Vini ter uma verdadeira surpresa.
Mas é claro, óbvio, evidente, incontestável que, mesmo estando bem avariada, não iria revelar nada a ele. Tenho amor à vida, é isso. A Iarinha iria virar aquela pimenta raivosa se eu soltasse um A. Então só averiguar em que pé estão as expectativas dele sobre esse aniversário é uma ótima saída. Posso ser uma fonte e tanto quando quero.
Afrontoso, Vinícius me belisca o queixo.
— Me admira tu perguntar, porque da última tu só levou o cara.
— O cara tinha uma bomba pra encher balão e o Murilo disse que tu não valia lá essas coisas pra ele gastar o pulmão dele.
Eu também sei criar intrigas quando quero. Intrigas da oposição.
Mas o namorado resolve ser um lindo de pastar sobre elas, sendo sincero de verdade sobre o lance da presença do Sávio. Bem sereno até. E não apenas me belisca o queixo de novo, como também deixa um carinho ali.
— Tudo bem. Eu entendi que ele não está entre nós.
Eu, por outro lado, germino mais intrigas – sendo que há um minutinho disse que não teria climões ou drama. De alguma maneira, sinto-me mais eu, mais livre e mais em paz de falar essas coisas. Falar de coisas simples, não de todo banais, estando presente ao momento, sem ficar outra vez presa a pensamentos ou ressentimentos sobre os desafios que me pegaram nos últimos dias. É um descanso mesmo. Um descansinho atirado.
— Nós eu e tu, ou nós... tu e o Murilo?
Vinícius finge pensar e dá uma resposta à altura, muito convicta.
— Os dois.
— Que bom, porque a Iara iria te matar.
Ele ri gostosamente e eu quero morar nessa sua risada solta. O que me faz lembrar de fato de como foi quando viu sua surpresa de aniversário, com todo aquele esquema maluco. Até mesmo demos um jeito de esconder os carros de quem foi, uma doidice só. Uma doidice insana e detalhista, mas gostosinha de aprontar.
Acabo divagando nessa.
— Nossa, vai fazer um ano.
— Que tu conheceu ele?
É a minha vez de beliscar ele, bem no seu ombro.
— Não, que tu me fez perder Djane dançando We Found Love.
O seu sorriso dessa vez é contido, porém, nada arrependido.
— Tinha minhas esperanças de tu ter esquecido essa.
— Nem com o novo apelido dela eu esqueço.
Nem que uma vaca tossisse essa música inteira, eu poderia dizer. Mas o Vini, muito do sabido, puxa outro assunto com uma observação:
— Tá usando a tornozeleira.
Inevitavelmente, olho para baixo, para os meus pés e os tornozelos. Sei que ele tá falando da joia, quase apontando para ela. O enfeite em questão está no pé bom, vez que o outro segue com o item ortopédico.
— Presentes são para serem usados, lembra? Tô, inclusive, só presentes hoje.
Para cada peça, vou apontando ou movimentando.
— Brincos de Djane, pulseira e cordão teus, o cordão do Murilo, o vestido de mamãe... Esse não foi recente, mas foi ela. E, claro, a tornozeleira douradinha dos sogrinhos.
Meu Vini levanta uma sobrancelha ao ouvir o termo “sogrinhos”.
— O quê? Achou que eu não ia usar?
A cara que ele faz diz exatamente isso, apesar de querer disfarçar.
— Por que eu não usaria?
— Porque tu é tu. Não aceita mimos fácil.
Faço bico e entrecerro os olhos pra esse malandro. Ele quer mesmo provocar todo mundo hoje, Brasil? Cruzo os braços e me apoio num pé, tal qual Djane mais cedo.
— Bem, foi presente do teu pai. E do teu avô.
— Deles tu recebe, né? Entendi o jogo.
Eu quem entendo a jogada – que nada sábia é.
— Eu só não tive como recusar. Apesar de ter um relacionamento com eles, os dois não me conhecem nesse ponto. Mas já avisei que não vai ter uma próxima dessas. Tu bem lembra do caso de Djane ano passado com aquele notebook, né?
— Um cara não pode simplesmente formar um plano pra namorada usar os presentes dele? Os outros presentes que ele já comprou e tem que se dobrar todo pra fazer ela usar?
Eu não sei dizer exatamente se ele tá brincando ou não, Brasil. Assim, me aquieto um segundo olhando-o direto nos olhos pra ver se há alguma pegadinha. Vez que ele ri, suavizo acreditando que não. Mas ralho de qualquer jeito. E ralho de certo jeito.
— Nem ouse, Vinícius Garra... O-li-vei-ra.
— Uia, sou um Oliveira agora?
Faço um bico de marra, porém solto os braços do corpo, desfazendo minha pose.
— Com esse espírito sacana, sim.
Mas ele continua a brincar comigo, o safado.
— Agora só falta me adicionar naquele grupo.
— Vou pensar no caso.
Falo com certo desdém e retomo o passo de antes, duma caminhada aleatória que fazia antes de ele voltar. Não é exatamente um exercício físico, no entanto, tava me ajudando a pensar e a andar. Quer dizer, normalizar o passo. Tenho sentido bem mais firmeza no pé e, por incrível que pareça, por conta do tênis. Achei que ele iria apertar ou incomodar, mas não, pelo contrário. O fato de ele ser fechado e acolchoado, cobrindo e dando suporte às pisadas, tem permitido passadas mais confiantes. Mais normais.
De companhia, Vinícius me segura a mão como um gesto de carinho e de “o namorado sendo o namorado”, quem gosta de se manter por perto e com algum grau de enlace. Meu coração já tem um nível especial de conforto para corresponder a ele e dessa vez não é diferente. Assim, além das nossas mãos juntas, colo mais nele em busca de mais contato.
Vinícius, por outro lado, mostra-se um tanto distante, em pensamentos.
Provoco porque sim.
— Tá arquitetando planos pra sua namorada?
Ver como seu semblante fica distante de repente não me parece algo legal.
— Não por exato.
Será que ele não tava brincando com o lance dos presentes? Será que dei um passa fora nele sem querer? Ai, Deus.
— Você não tem mesmo outros presentes agora... Ou tem?
— Não tenho.
O fato de vir uma direta dessa em tom vago e nada jocoso me faz observá-lo mais ainda. Paro e puxo sua mão para que também pause. Estamos agora perto do portão da casa, bem distante de tudo e todos.
— Algum problema?
— É só um pensamento que me veio de repente... Que agora não sei se devo te perguntar, ou se falo com a Iara, ou se... com o...
Cabisbaixo, ele fica assim reticente, meio alheio ao mundo. Meio alheio até de nossa bolha.
— Pergunta primeiro.
Do jeito que ele se mostra inseguro sobre essa tal pergunta, eu até fico preocupada. E acho que minha cara é o que convence ele a falar.
— É só pra saber se... Se eu ainda deixo o Sávio desconfortável. Se eu fizesse parte do grupo, sabe, o grupo do chat, Os Oliveiras, se isso... se isso iria... sabe?
Enterneço de pronto com essa sua incerteza, mas principalmente por isso agora ser uma preocupação válida dele – e não só por conta da Iara. É claro, não faz muito tempo assim que eles se acertaram, ou melhor, que o Vini aceitou a presença do Sávio dentre as relações que compartilha, fosse comigo, Iara, e até mesmo sua mãe. E olha que ele sentiu ciúmes em todas. Ele afastou o Sávio inúmeras vezes. Ele gritou, esperneou e já quase saiu na mão também. E agora eles são cunhados.
O Sávio até veio pro Natal. E o Vini deu um aperto de mão rápido nele antes da virada de ano. Agora meu Vini tem se colocado aberto ao cara, justo o cara que roubou um beijo de sua namorada e ganhou o coração de sua irmã. Mas também o cara que defendeu as duas com unhas e dentes, inclusive de um esquema fenomenal na nossa faculdade. O cara que ganhou o respeito das duas. Ganhou até o respeito do Murilo! E testemunhou a favor do Murilo.
E durante essas confusões todas, o Vinícius não demonstrou lá tanta simpatia pelo Sávio por muito tempo. Na minha última fuga, por exemplo, quando dei um perdido no Murilo e fui parar na praia com o Sávio, o Vini sentiu aquela “pontada”. Acabou atingindo naquele pontinho seu que ativa seus receios e paranoias. Não que eu fosse ter algo com o Sávio, não. Era o fato de eu ter “escolhido” o Sávio e não ele, que estava completamente disposto pra mim, para segurar aquela barra que foi a descoberta da invasão ao meu cérebro. Foi um nó confuso de desembaraçar na época.
E agora ele demonstra não apenas atenção ao Sávio, como uma preocupação direta sobre ele. Sobre os sentimentos do Sávio. E isso é enorme. É algo louvável. E que me leva implacavelmente a um papo nosso recente.
- É que não me parece grande coisa.
- Não quer dizer que não seja grande coisa.
Ele falou pra mim e agora tenho essa oportunidade de devolver para ele. Contribuir com esse pensamento hesitante seu.
Mas, primeiro, tenho que responder sua questão.
— Eu não saberia dizer... Acho mais provável a Iara saber. Vale perguntar essa pra ela.
Já ia acrescentar sobre essa sua consideração, de ter pensado no outro e de se atentar ao outro, não a mim ou a sua irmã, e sim ao que o Sávio sente, quando de repente a porta da rua abre e uma cabeça surge ao nosso lado.
— O que tem eu?
O salto que meu coração e meus pés dão é bem maior do que a coincidência surpresa de hoje de manhã com o Murilo.
— Caramba, I, da onde tu saiu, sua coisa? Como que...? Eu tenho coração, sabia? Que tá aqui... acelerado!
Fico toda armada, em defesa, pronta pra dar um golpe maluco nela e sair correndo se precisar. No que dá pra sair correndo, no caso. Que seria eu me esconder atrás do Vinícius.
A cabeça da pimentinha só me observa cautelosa, não acreditando tanto assim no meu espanto.
— Esse é o teu jeito de disfarçar que falou meu nome?
Suspiro, ainda com a mão ao coração.
— Não, não é. Eu me assustei de verdade. Como assim tu chegou do nada? Sem fazer barulho, nem nada?
O corpo dela enfim se materializa para nós, demonstrando seu lookinho de funcionária, toda arrumada no terninho, sapatos formais e uma bolsa ao estilo mochila nos ombros. Mal entra e dá uma abraço rápido no irmão. Mas o ar de cansaço permanece, desses que faz seu físico se prostar um pouco, quase a se arrastar.
— Tive que deixar a moto na oficina e papai me deu carona. Me deixou aqui na porta porque ele precisou ir numa loja de peças antes que feche, volta logo. Mas agora desembuchem: do que tavam falando?
O Vini até abre a boca, mas como não sai nada de lá, ele olha pra mim. Sendo que era ele quem devia tá me salvando nessa conversa.
Mas dou uma colher de chá pro bendito.
— É só algo que ele quer conversar depois.
A Iara faz uma carinha engraçada, com seu desconfiômetro ligado, checando a mim e ao seu irmão.
— Hmmmm. E podem me adiantar o assunto?
Outra vez respondo, já que seu irmãozinho ficou todo sem jeito.
— Só um espírito sacana querendo aprontar.
Dessa vez ela se desarma, toda fofinha, toda fadinha.
— E não é esse o melhor?
Rio, porque ela tem razão.
— Pior que sim. Mas depois vocês conversam.
Mas a Iara... a Iara é uma digna Oliveira.
Ela bate no ombro do Vinícius em tom de despedida, de quem iria andar e atravessar o pátio até em casa. Só que no processo, ela também é sacana comigo.
— Pode deixar, irmãozinho, comigo tu tá seguro.
Eu também não deixo barato!
— I, tu tem que ficar do meu lado.
— Eu posso jogar nos dois lados, sem problema nenhum.
Bufo, porque parece alguém que conheço – eu e eu disse exatamente isso pro irmão dela horas atrás. O que até me desfaz todinha e me desarmo. E quem passa a nos olhar estranho é o Vinícius.
— Hmmmm. Suspeitei desde o princípio.
Atiço porque sim. Ele que inventou de irritar meio mundo hoje, então ele que arque com as consequências. Me viro, vigilante de sua postura.
— Suspeitou de quê, Chapolin?
— Que era um jogo.
— Não é. Masssss... Às vezes, pode parecer. A Iara me ama que eu sei.
Até coloco um braço apoiado no ombro dela. Porém, na dúvida sobre o que agora faço, ela mesmo se afasta.
— Tem hora que vocês dois me deixam confusa, sabiam?
— Esse que é o grande lance, I. Esse é o grande lance.
— Tá, vou pro meu banho. Depois quero meus detalhes.
Assistimos ela prosseguir pelo pátio e volto a me unir ao Vini.
— Já disse que amo tua irmã, não disse? Porque amo.
Falo eu tão na simplicidade, no amor e na paz no coração, e o namorado vem com uma malandragem, colocando um braço por cima do meu ombro, pra poder me puxar a si. Ao colocar sua boca próxima do meu ouvido, sussurra:
— Se for maior do que o tamanho do universo, aí vamos ter um problema.
Tá, me enrosco nele, mas também não deixo barato.
— Nem começa, Vinícius Menezes Garra, nem co-me-ça.
~;~
Uma das coisas boas da temporada de chuvas é o clima gostosinho de preguiça e aqueles cochilinhos bem aleatórios que derrubam a gente do nada. Eu estava só a preguicite, mas os outros estavam derrubados. Até mamãe se permitiu ser levada para o universo das piscadelas e mergulhos repentinos, assim nem mexi com ela. Seu Júlio, como de praxe, foi para o quarto assim que os olhos pesaram, mesmo que o papo estivesse bom. Filipe foi não muito depois também, ficando só eu, mamãe, a Iara e o Vinícius, vez que Djane estava numa reunião com Fabiano no escritório. Prometido e cumprido. Se o Vinícius chiou, isso não chegou aos ouvidos da mãe porque eu não deixei.
Seus resmungos logo cessaram diante do sono que o arrebatou junto. Estava friozinho e confortável, de modo que ele tombou pro meu lado e eu o envolvi num cafuné que o mantinha ali, mesmo que ainda de papo, baixinho, com a Iara. Ela que resistia e acho que nem era por me fazer companhia.
Em algum tempo, só ficamos assistindo e comentando o filme na televisão. Passava um de drama sobre um rapaz sendo acolhido pela Sandra Bullock. Algo que envolvia futebol americano. Não pegamos o começo, então tinha coisas que só especulávamos mesmo.
Mas então minha mãe tombou pro lado da Iara e aí rimos.
— Isso não te lembra nada não, I?
— Eu não vou tirar foto da tia Helena, nem vem. Do Vini, até posso pensar no caso.
— Nem teria como, se os celulares ficaram lá na estante. A minha bolsa também tá lá do outro lado.
— Ainda bem. Não tô doida de fazer meleca de creme na tia Helena. Tenho amor à vida, sabe?
Às vezes a I é tão parecida comigo que fico na dúvida de falar isso pra ela. Dessa vez, no entanto, falo.
— Só hoje tu já falou duas frases minhas.
— Faço tuas as minhas palavras, e as minhas palavras estão livres para serem tuas.
— Acho que tá na hora de tu também puxar um ronco, I.
— E eu lá ronco?
— Não sei, ainda não te observei dormir. Encosta aí pra eu ver. Tu tá cansada que eu sei. Não se preocupa de me deixar acordada, eu dormi pra um caramba hoje.
— Nem, eu tenho que guardar esse sono pra de noite, senão meu ritmo...
Iara se detém de repente.
— Tem hora que esqueço que meu ritmo de vida vai mudar. Não vou precisar acordar tão cedo agora.
— Então tá permissível dormir agora de tarde? É sábado, poxa.
Ela até faz um bocão de bocejo, o que até me afeta, pois bocejo também.
— Prefiro não bagunçar meu sono agora. Isso significa que é melhor eu sair desse sofá, senão vou tombar é certo aqui.
— É só um cochilo, I.
A fadinha ajusta mamãe de lado e se apruma para se levantar. Em complemento, ela bate de leve ao rosto, pra se manter esperta. Aliás, é esperta de tocar num tópico que muito me interessa.
— Eu tenho que organizar umas coisas, só isso. Mas tu pode me acompanhar. Além disso, tenho que fazer a reportagem completa do show da virada, né? Tô te devendo essa.
Eu, por outro lado, sou a zelosa da questão.
— Seu sono em primeiro lugar.
E a ruivinha apela, muito sábia de onde ou como me apertar.
— Uma boa amiga me ajudaria a não dormir.
— Tá bom.
Faço o mesmo que ela, ajusto o Vinícius de lado, que abraça uma almofada e se encolhe todo ao canto do sofá. Mas quando levanto, vou atrás do meu celular pra poder tirar uma foto dele assim, tão sossegado. A Iara fica do lado, de mãos na cintura.
— Não te preocupa, não vou tirar foto da minha mãe. Isso aqui é só acervo pessoal. Também não é recurso pra barganha. Te juro.
— Sei.
De qualquer jeito, embromo, enquanto ela procura o próprio celular.
— Tu é fotógrafa, não é? E gosta de eternizar momentos simples, não é? Esse é um desses momentos.
Fuçando as mensagens do próprio celular, Iara responde baixo por sobre o ombro:
— Precisa do consentimento das pessoas, sabia?
— Acredite, pego o consentimento desse aqui em dois segundos.
Iara então se vira pra mim:
— Mas não vale sob ameaça ou coisa do tipo.
— Eu não disse como eu pegaria. Eu só disse que pegaria. Que ele autorizaria.
— Sei. Vou pensar no teu caso, se falo ou não isso pro meu irmãozinho.
Eu poderia dizer que ela anda muito ameaçadora pro meu gosto. Mas o que falo, ao passo que vamos pro corredor, é:
— Agora foram três falas minhas. Já pode pedir música.
— Hmmmmm. Acho que aquela da Pink, de levantar as taças, pra afastar meu sono de vez. A Dani cantou essa depois da meia-noite. Ela postou a lista de músicas, tu viu?
— Onde isso?
— Acho que na página da banda mesmo... Se bem que essa música fala de um ladrão de calcinhas e eu prefiro me abster da lembrança do Murilo remexendo na minha gaveta.
Paro na porta do quarto do Filipe mais por força da doidice que ela fala.
— Quê?
— É, eu fui ver a letra dia desses... depois desse papo de Djane FunHouse. Pro caso de ela querer saber o conteúdo e não ter umas referências doidas. Afinal, a Pink, né? Ela tem umas músicas meio maluquetes.
A Iara prossegue e entra no quarto de boas, mas quando eu caminho e me vejo na soleira da porta dela, estanco. Dessa vez por conta daquele sonho esquisito que tive no outro dia que me deixou biruta das ideias e me fez parar num consultório de terapia. Meu braço todo envergado e as veias pressionadas também tiveram a ver com isso, mas principalmente por eu ter perdido a noção de realidade. Isso meio que me faz suar frio de repente, como se fosse viver aquele sonho perturbador de novo.
Sendo que é somente o quarto da Iara, normalzinho. Ela inclusive liga a luz, vez que a tarde está bem nublada, o que deixou o espaço mais escuro. Encaro o cômodo a minha frente e fico tentada de pedir a ela para que mudemos de rota, como ir para o quarto de hóspedes, mas acho que eu teria que explicar coisas demais.
Consigo puxar o ar de volta quando Djane vira o corredor com Fabiano, saindo do escritório. O diretor me cumprimenta com um aceno rápido, o que devolvo, em reflexo ao modo que se coloca a mim. Acho que tô tão dura que poderia bater continência pra ele e ainda bem que não faço.
— Milena.
— Fabiano.
Ele passa por mim, porém Djane fica. Eu disfarço, olhando o homem seguir para a sala, bem despreocupado. A professora tem o mesmo semblante dele. Aponto isso pra ajudar a dispersar minha cara.
— Então vocês resolveram o que tinham pra resolver.
— Sim e ainda bem que sim. Não sabe o quanto isso me aliviou, Milena.
Ela coloca a mão sobre meu ombro, mais relaxada.
— Obrigada mesmo pela força de mais cedo. O Vinícius... Não sei o que deu na cabeça do meu filho hoje.
— Não sabe de verdade?
— Eu deveria?!
— Bom, não foi a senhora mesma... que queria que o Vinícius fosse mais... cuidadoso? Digo, em relação à senhora.
Djane dá um suspiro, abrandando sua postura.
— É uma verdade isso. Agora ele mora comigo, me trata bem, cuida de mim, me mima e tudo mais. Um verdadeiro sonho. Consegui meu sonho e estou sendo cabeça dura de aceitar, não é?
— Não sei se cabeça dura de aceitar, mas com certeza teve seus motivos hoje e motivos fortes para bater o pé pra ele. Ainda mais que ele não ligou certos pontos.
— E tu ligou, não foi? Imaginei que sim.
Mais suavizada, também solto a tensão do meu corpo.
— É, não foi muito difícil perceber. Mas isso pro Vini passa batido fácil. Ele se liga... em outras coisas.
Djane cerra os olhos captando um pouco dessas reticências, embora mostre que não sabe por exato do que se trata. Logo emenda sua pergunta:
— Quer me dizer alguma coisa, Milena?
Nada além de que seu filho teve uma crise de ciúmes quando a senhora tava dando MUITA atenção à opinião dos seus alunos, mas logo aquietou assim que eu contei sobre seus receios. Digo isso à sogrinha? Não. Preservo o Vinícius de novo.
— Nada além de “agora a senhora está vivendo o sonho”. E ainda tem o Renato.
Djane bate na própria perna, estarrecida com esse e outro fato:
— E o Vinícius nem implica mais com o Renato! Nossa. Quando foi que as coisas mudaram que eu nem senti?
Rio dessa sua percepção, mais branda de a conversa ter trilhado por esses lados.
— Sentiu sim, porque vibrou em todas. Mas entendo o que a senhora quer dizer. A vida correu.
Ela assente, piscando, a cabeça um pouco longe de repente.
— De fato, a vida correu. Acho que me vi presa naquela... bola de neve gigante... e por tanto tempo... que agora que as coisas já estão bem definidas, eu nem acredito.
— Bem sei como é.
Djane me entrega seu bom sorriso e me faz um carinho aos cabelos.
— Bom, vou deixar o Fabiano lá na porta. Depois quero conversar com você... sobre os tais pontos que ligou. Coisas pra muito depois. De preferência, na sua casa.
Por garantia, pergunto:
— Coisas da faculdade?
Os olhos dela correm um pouco averiguando a própria resposta na ponta da língua.
— Também.
— Tá bom então.
Assisto ela se afastar com o Fabiano que até demoro a me tocar do que aconteceu. Que pude me demorar do lado de fora sem chamar atenção de ninguém sobre a sensação esquisita do quarto.
— Mi?
— O-oi.
— Não vai entrar?
— Ah, sim... É, eu vou.
É só uma sensação e nem toda sensação é uma verdade, né?
Além disso, nesse plano de realidade o Vinícius existe.
E isso significa muito.
~;~
O frio ter intensificado agora no período da noite é quase um recado para manter o fone por perto. Assim, ao terminar de colocar o pijama, já coloco o fone pequeno plugado no meu celular e o fone grandão eu engancho no braço, conectado ao mp4 ao bolso da calça. Isso já parece tão normal e comum que, quando chego à cozinha, onde meu mano pega as tigelinhas para o sorvete, ele acena com um sinal de positivo pra mim.
— Mamãe também vai querer?
— Tá com papai no telefone e acho que não vai sair tão cedo da ligação. Quando saí do quarto, eles estavam falando algo sobre uma confusão no jornal, ou algo da cidade que saiu no jornal. Não peguei a história.
— Hmmmm. Depois ela solta pra gente. Agora solta tu como foi lá, na casa do seu Júlio. Se sentiu melhor?
Murilo empurra o pote de sorvete pro meu lado, pra eu poder me servir.
— Senti que arejei a cabeça e as coisas fluíram melhor. Com o tênis então, acho que até tô tendo mais segurança pra andar. E consegui aproveitar o lugar e as pessoas sem ficar checando o céu de hora em hora.
Coloco só um pouco de sorvete, pois não tô lá tão a fim. Mas é uma tradição nossa, então cumpro o prometido, nem que seja só mesmo para acompanhá-lo. Assim, logo repasso o pote para ele, deslizando pela mesa da cozinha.
— Eu até fiquei de te falar... Vão lançar um aplicativo, ainda esse mês, que tem uns dados mais precisos de previsão meteorológica. Tô esperando ele faz um tempo e anunciaram faz meses, mas não queria te dar a notícia sem ter uma confirmação ou data. Me parece bem promissor. Vai ser bom contar com ele no celular a qualquer hora. E é nacional, então vai ter uma ótima cobertura pra diversos lugares.
— Ele vai poder ditar os locais da cidade?
Diria que esse era um sonho antigo, mas não é lá um sonho válido de ter. Tá mais pra esperança? Só que acho que a tecnologia não chegou a esse ponto. Confirmo isso pelo modo com que Murilo meneia a cabeça, tentando suavizar uma resposta difícil.
— Não sei dizer por exato, mas isso também é uma grande variável, como tu já sabe. Sempre trabalhamos com probabilidades, então a única certeza que tenho mesmo é que ele vai determinar, com mais chances de acerto, a questão das horas. No caso, o percurso de chuva durante as horas do dia e isso vai estar aberto a qualquer cidadão, de fácil acesso.
Não é o que eu gostaria, no entanto, é melhor do que os recursos do momento.
— Me parece bom.
Falo sem muita empolgação, o que ele nota, claro.
— Se eu pudesse te dar essas informações, sabe que eu daria. Nem que fossem informações secretas do Estado.
— Eu sei. Mesmo.
— Só queria te dar um motivo a mais pra rir hoje. Ser feliz hoje.
Parece algo que o Vinícius diria. É capaz de ele ter vazado isso pro meu irmão. O que não é exatamente uma coisa ruim, mas às vezes é estranho como eles trocam informações. Não é algo que vou me deter por agora, claro.
— Valeu. E pra sua conta, fui feliz hoje. Tive meus desafios, mas fui feliz.
— Ah, é? E feliz como?
Rio sem muita vontade, mas rio ao mencionar certo caso.
— A Iara ainda lembra do caso da gaveta de calcinhas.
Num rompante, Murilo quase devolve o pedação de sorvete que pôs na boca. Ele se atrapalha todo e fecha a mão ao rosto para aguentar o cérebro congelando. Dura uns poucos segundos e sei que para ele é um eternidade gelada.
Quando enfim ele consegue falar, faz uma promessa:
— Uma hora eu pego o seu Júlio de cheio! Aquele velhinho que me espere!
Quero ver como ele vai pegar? Claro. Massss duvido muito que aconteça.
Não digo isso ao meu irmão, só aproveito o gancho dele sobre esse vô adotivo e sobre como ele também contribuiu para um dia mais leve, como o dia correu.
— Ah, ele tava fazendo a poda no jardim mais cedo, antes do almoço. Parecia até bem empolgado. Achei fofo e curioso ao mesmo tempo. Não muito depois a Iara chegou. Ela tava um pouco detonada, mas tava com a cabeça de Oliveira no lugar.
Murilo levanta as sobrancelhas ao ouvir minha referência e faz a pergunta certa:
— O que ela aprontou?
— Só quase me matou do coração... Surgiu do nada no pátio. Aliás, essa fadinha me contou em secreto que o níver do Vini vai ser todo arquitetado por ela. É segredo de Estado e só tô contando pra ti.
Com a colher lambida, meu mano bate uma continência na testa.
— Anotado.
— Ela já tem mais ou menos uma ideia, apesar de não ter me detalhado nada de cara. Mas deu altos detalhes da festa da virada. E já tem previsão pra sair o vídeo de melhores momentos da festa. Estamos torcendo muito pra ter o seu Júlio dançando Macarena com o Silveira.
Murilo falta se engasgar com o sorvete de flocos ao rir destrambelhadamente. É preciso até que cubra a boca de novo, embora dessa vez não sofra por um congelamento do cérebro. Mas é gostoso de ouvir essa sua risada besta.
— Tá me dizendo... que essas imagens... existem?
— Tô te dizendo que essas imagens estão para sair. Pelo que entendi, vai ter um vídeo de melhores momentos e vai ter o vídeo integral do palco. Esse do show em si vai ser quebrado em umas três ou quatro partes porque foi bem longo. O que faz sentido, né, porque eles começaram lá pelas 22h e encerraram às 2h da manhã. Ou seja... foram quatro horas de músicas contínuas. Muita coisa mesmo.
— Caramba, um showzaço! Pensei que iriam parar não muito depois de meia-noite. Até estranhei quando o Vini disse que, quando Djane ligou pro Filipe, no caso do carro, e isso lá depois de 1h da manhã, tava todo mundo na pizzaria.
Já raspando as últimas colheres do meu sorvete, sinto que é uma boa conversar sobre essas interações todas. Tipo, tem uma coisa que tô aqui guardando, que não sei se quero dividir com o Murilo, e ao mesmo tempo quero experimentar só levar a coisa toda, como que preparando terreno para esse tópico ruim, mas de uma maneira não ansiosa. Então, sim, me demoro em falar sobre esse dia e os papos que rolaram.
— É, foi até bem tarde. Também porque teve mais de uma banda. A I disse que rolou um problema em cima da hora com alguém do Mp3co e tiveram que chamar uma banda amiga do CK pra dar suporte. Depois vou perguntar pra Dani o que houve, mas acho que não foi nada assim preocupante. Pode ter sido pelo temporal também.
O que se sabe é que aquela noite teve muitos problemas em vários pontos da cidade por conta de chuva. Nesse ponto, nem eu, nem o Murilo estica assunto. Ele, no entanto, puxa de novo a questão das filmagens. Se por pura curiosidade ou se por pura vontade de desviar do cenário da virada, tanto faz.
— E o que mais temos de imagens?
Dessa vez, deixo que um sorrisinho me ganhe o rosto. Nessa parte só posso contar com a imaginação e os detalhes que a I liberou em sua reportagem.
— Filipe cantou mesmo Fly Away From Here, do Aerosmith. Quase subiu no palco e ficou ombro com ombro com o Sávio nessa. Isso porque os dois já tinham pirado junto quando tocou It’s My Life do Bon Jovi.
— Tem como não pirar quando essa toca?
Não tem mesmo, porque ela levanta até zumbi. É quase um golpe de energético e altas emoções. Não tem como ficar parado com essa. E teria sido lindo ter assistido e pirado junto lá. Pontuo outro babado pra não me deter a isso.
— Tocou Everybody dos Backstreet Boys e o Bruno se lançou no salão nessa hora.
— Tocou algo do N’sync?
Viro a cabeça de lado por essa pergunta em específico e essa empolgação nada típica do Murilo em relação ao grupo. A criatura também não tinha esquecido de sua pequena disputa com o outro, o nsynquer que se criou na nossa casa. Tem hora que até eu não acredito que aquilo se deu na nossa sala. Eu vivi aquela realidade e não acredito até agora.
— Tenho impressão de que não teve do N’sync. Teve Avril, Blink, Pitty, U2... Teve One Republic também. E CPM 22.
Vou elencando conforme me lembro da lista.
— Teve Nickelback?
— Acho que não... Deixa eu ver aqui.
Cato o celular da cadeira do lado, onde deixei afastado, e busco a página da banda pra mostrar a lista da virada. Entrego o aparelho assim que acho.
— Caramba, teve aquela do Red Hot. Snow.
— Teve até da Pink. Só não Fun House.
Murilo leva a mão a testa, enquanto continua a ler a relação de músicas.
— Imagina a coincidência!
Seria muito épico se a Dani e a banda tivessem tocado Fun House. Mas a apresentação continua sendo extraordinária pelo que é e pelo que se propôs a fazer. Não é todo restaurante que abre espaço para bandas e menos ainda que dá espaço para os clientes pedirem músicas, não desse jeito.
— Ah, e quando tocou Locked Out Of Heaven, o Bruno ficou doido atrás do Sávio pra fazer ele dançar. Porque, nas palavras dele, “só falta o Sávio pra dançar essa”. Só que isso foi depois que ele tinha saído com o Filipe... pro resgate.
Inevitavelmente recaio na parte trágica, também porque é impossível de ignorar, já que as histórias se cruzam e se entrelaçam. Faz parte da linha temporal, né. Uma menção, no entanto, basta. Não preciso me alongar e o Murilo se concentra na parte principal do que conto. Aliás, lança até proposta, animado demais com isso.
— A gente pega ele uma hora dessas. Quem sabe se não no níver do Vinícius.
— Essa é uma imagem que vou querer.
— O Sávio dançando?
Movo o dedo indicador ao ar dando a entender outro rolê.
— Vocês dançando essa em específico. Do jeito que dançaram naquela festa.
— Ali foi coisa única da vida. Mas podemos aprontar outras com essa música.
— Isso é. Então aprontem. Vou estar com a câmera a postos.
Murilo entrecerra os olhos, genioso.
— O que a vovó falou sobre gravar as coisas, hein?
Gargalho sem acreditar que estaria gargalhando sobre isso.
— Não faz neeeeem cinco minutos que tu tava doidinho pela gravação do Seu Júlio dançando Macarena.
O cínico me aponta sua colher, risonho.
— Touché. Mas aquele velhinho é um picareta. Inventou isso de acervo pessoal e na hora abriu pra todo mundo na roda de Natal. Ele que me espere com essas imagens.
— Do jeito que ele é, é capaz de ele mesmo colocar pra todo mundo assistir num domingo desses. Seu Júlio não é bem um senhorzinho de ficar com vergonha das coisas não. É matreiro todo.
Mas Murilo quer saber é de vingança, conforme move sua colher ao ar.
— Ainda pego ele, escreve o que te digo.
— Tá, seu chato. Eu não vou ter nada a ver com isso, mas se render imagens, quero minhas cópias.
— Interesseira.
Bato o cabelo ao ombro, vaidosa.
— Uma digna Oliveira. E falando em Oliveiras... O Vini tá bem mais aberto ao Sávio. Já notou?
Encerrando seu sorvete, ele junta minha tigela com a dele no centro da mesa.
— Tenho visto ultimamente. Ficou bem mais claro no Natal, o que achei super válido. E tem o Renato. Né que o cara se superou mesmo? Fico feliz por ele.
Meu Vini merece isso – o elogio e essa felicidade.
E não mereço eu também? Apoio os braços na mesa com essa observação mental, sobre ser merecedora de elogios e de reconhecimento. Mas, por enquanto, me detenho ao que conversamos.
— É, eu tava comentando isso com Djane também... No caso, do Renato. Porque hoje de manhã, quando eles vieram nos buscar, rolou um cenão do caramba aqui na porta de casa. Tavam os dois num pé de guerra. Tu precisava ver, Mu! Tava até engraçado.
— Foi por conta do Renato? Não entendi.
— Nem, foi porque Djane quis sair hoje pra faculdade e ela ia dirigir, só que o Vinícius a interceptou a tempo. Escondeu a chave dela e tudo. E Djane tava muito puta com ele. Sério. Muito puta mesmo. Chegou a dizer que não tava “amando ele” ali.
Murilo abafa uma risada.
— E o Vinícius?
— Tava um pimpão só, aquele descarado! Ria a danar e ficava provocando onça com vara curta. Queria barrar ela com um atestado. Tu acredita?
Meu mano ri, porém, com cuidado, pontua um detalhe – logo o detalhe da questão do Vini. Digo “com cuidado” porque de geral já tivemos nossos embates sobre isso e ele dessa vez apresenta sua opinião de forma mais caridosa, sem imposição.
— Mas que ela devia estar e se manter de repouso, isso é.
— Não tô dizendo que ele tava errado nisso, tô dizendo que ele tava fazendo do jeito mais doido possível, deixando Djane enervada de verdade. E tu sabe como ela fica bruta quando mexe com as coisas de trabalho.
Ô se sabe! As orelhas dele quase foram arrancadas, fritadas e tostadas quando sequestramos ela.
— É até engraçado como ela fica revoltada... Mas não era mais fácil ligar lá pro serviço dela, pra ver se tinha alguma coisa séria pra resolver? Porque ela não ficaria assim por qualquer coisa.
— Foi e-xa-ta-men-te o que eu disse pro Vinícius. E fiz um acordo melhor, pra Djane poder sossegar e não trucidar o próprio filho, o que de fato aliviou as coisas. Ela combinou com o diretor pra se encontrarem lá na casa do Seu Júlio e conversarem. Até topei com eles quando terminaram a reunião. E Djane disse que depois vai me contar... umas... coisas.
— Tu acha que é da...?
— Sim, da investigação. Se envolve a faculdade e é algo urgente assim, pra fazer ela sair do repouso daquele jeito e esfumaçar loucamente com o impedimento do Vini, eu tenho quase certeza. Mas vou esperar ela me procurar. Eu que não vou me envolver mais do que já estou envolvida.
Nesse ponto, Murilo suspira.
— Faz bem. O quanto puder ficar longe de confusão esse ano, fique.
— Acho que é um objetivo pra coleção... Mas não é exatamente um sonho. Ainda não sei qual é meu sonho, Mu.
Ele levanta para levar nossos utensílios para a pia, mas se detém à mesa para me tranquilizar nessa.
— Não esquenta não, que isso uma hora apenas vai surgir pra ti. Assim, sem mais, nem menos, quando tu menos esperar. Só é importante estar atenta, pra não deixar passar. Pra ter um motivo, algo propulsor. Tu vai encontrar teu sonho.
É realmente muito bom ter alguém para nos dizer coisas assim. Tirar o peso das expectativas e nos dar esperança. Será que o Murilo é agora o que fui para as outras pessoas? Tenho orgulho de oferecer ajuda a quem precisa de um pouco de Milena na vida. Um pouco de Milena para a Milena ou apenas um pouco de Murilo?
Importa, Milena?
— Posso perguntar qual é o teu? Se não um sonho, um objetivo.
Com as louças à mão, meu irmão vira para a pia. Assim, levanto para o seguir e me recostar à bancada. Enquanto começa a ensaboar os itens, ele fica pensativo por uns instantes, mexendo a cabeça de um lado para o outro.
— Te digo dois objetivos: aquela palestra no meu antigo curso e conseguir dar conta do meu setor no momento.
Me surpreendo, e não sei se um pouco desapontada também, por serem objetivos profissionais e não exatamente pessoais, embora os dois envolvam aspectos particulares.
Mas não posso exigir dele assim, e ainda mais de supetão. Ele tem o tempo dele.
— Sobre o sonho...
Me sobressalto só por ele começar, procurando as palavras.
— Tenho algo antigo que gostaria de fazer. Algo que nunca achei ser possível. Estou me permitindo considerar isso.
Com um comichão de curiosidade-mor na barriga, ouso estender a questão.
— Do que se trata?
Murilo ri para si mesmo, enxaguando uma das tigelas.
— Essa eu sei que ninguém sabe. É sobre uma coisa que aconteceu na escola. Eu tinha, sei lá, uns 7 ou 8 anos. Não lembro por exato se tu já era nascida nessa época.
— E marcou assim?
— Sim. Como criança, eu nem podia fazer essa tal coisa... é uma ação generosa, mas que precisa de alguns cuidados. Enfim. Eu não sei como fazer essa coisa, se é que farei isso em algum tempo. Mas gostaria de realizar, sabe? Nem tô exatamente comprometido, só...
— Considerando.
— Isso. Pode ser que aconteça, pode ser que não aconteça. Não vou me exigir. E nos dois casos, vou estar tranquilo. Que seria legal poder fazer, isso seria. Mas... não vai definir minha vida. É só uma coisa que às vezes penso.
— Que bonito, Mu.
Convencido, ele desliga a torneira e se vira pra mim, me dando um toque com o braço no meu.
— É claro que sou bonito... E agora é a tua vez.
Fico desnorteada por um momento.
— De falar um sonho?!
— De enxugar a louça, mana. Viu só? É preciso estar atenta ao que acontece ao redor.
Apesar do alívio, reviro os olhos por sua piadinha. Mas também rio dela. Como são só duas tigelas e duas colheres, o serviço é bem rapidinho e logo vamos para o sofá, para poder terminar a noite com um papo mais ameno. Murilo zapeia algo na televisão, de volume baixo, quando mamãe de repente passa andando ligeiro do corredor para a cozinha. O negócio é o que ela diz no processo:
— Vocês não estão me vendo. Porque eu não tô aqui.
Isso significa que ela não quer interromper o nosso momento, embora esteja quebrando a nossa bolha. Significa também que ela quer nos deixar sozinhos e não mais arrancar informações da gente.
Mas acho que o Murilo entende de outra maneira e lança a ela aumentando a voz:
— É tão forte assim o tal babado?
Ouvimos barulhos de garrafa e de copo de vidro. Pelo jeito, ela bebia água.
— Digno de pipoca. Mas tá tarde e já escovei os dentes.
Confiro uma mensagem rápida no celular, a Dani no grupo atualizando que o vídeo de melhores momentos do show de virada já estava renderizando no Youtube e que até amanhã de manhã já estaria disponível. Ia responder, mas do nada, entre a minha cabeça e a do Murilo, surge mamãe para nos beijar as laterais do rosto. Implicamos só de gracinha mesmo.
— Ain, mãe.
— É que mamãe ama vocês.
Mal diz essa, agitada e amorosa, ela sai novamente em disparada para o quarto. Do que consigo ver do ângulo em que estou sentada, bem na parte do meio do sofá grande, dona Helena entrou no quarto de hóspedes.
Isso me faz lembrar que ela tem transitado bastante entre os espaços, embora se mantenha bastante no meu. O Murilo, por outro lado, desde que voltou a trabalhar, também voltou para o seu quarto.
Diz mamãe que foi ela que o encaminhou para nos dar algum senso de normalidade, que, apesar de eles estarem de prontidão pra me ajudar com os trovões, ela entendia que ficar perto demais poderia me sufocar e assim fez o Murilo ficar no quarto dele. Até porque ele também precisa de espaço para as atividades dele. E se houvesse algo pela madrugada, a minha porta estaria aberta para alguma intervenção.
Nisso mamãe estava certa. Inclusive me remeteu a conversas minhas com meu irmão sobre ele confiar que eu estava bem para seguir com a vida, de que não precisava ficar me checando de hora em hora, nem ficar me vigiando, nem surtado a qualquer movimento, hiper alerta. Era um ato de segurança também, de otimismo até. Confiar no melhor e só agir diante de uma real necessidade. Deixa as coisas mais leves e naturais.
Mas que foi estranho não o ver nos últimos dias no colchonete do meu quarto, isso foi. Não que eu estivesse insegura ou algo assim. Foi na verdade mais uma confirmação de que as coisas temporárias estão acabando, mesmo que o colchonete continue lá no chão e mamãe permaneça dormindo comigo. Logo isso tudo vai encontrar seu lugar de volta. As pessoas e as coisas vão retornar aos seus lugares.
E de certa forma, já tem muita coisa assim encaminhada. Por exemplo, mamãe agora sabe um bocado de coisas que nunca pensei em compartilhar com ela. Sabe sobre a Denise, sobre a Flávia, sobre... o Murilo. As piores e as melhores partes do Murilo. Que não bem o avisei.
No primeiro dia de ano, que tive que barganhar uma saída de casa, usar de todos os meus argumentos para convencer meu irmão de permitir e me levar na casa da Flávia, meio que contei que dividi muita história com mamãe, e que algumas dessas histórias envolviam ele e a Denise. Só que eu tava tão alucinada com a questão do e-mail e de ir ver a Flávia que não deu pra eu me deter às partes sensíveis daquele papo.
Vendo meu irmão distraído com uma propaganda qualquer na televisão, decido tocar nesse ponto. Ele não vira de imediato pra mim e isso até que me parece bom. Porque tenho uma confissão a fazer. E faço, encarando ele mexer os pés sobre a mesinha da sala.
— Mu.
— Oi.
— Tenho que te pedir desculpa por uma coisa.
Isso faz com que ele pare de movimentar os pés e se ajeite ao sofá, para se sentar com mais postura. Em contrapartida, abraço a almofada que deixei ao colo, mantendo algo nas minhas mãos. Torno a falar.
— Fora as mil coisas pelas quais sou grata, tem uma ainda para eu pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Eu te expus pra mamãe. Sobre a Denise e o que aconteceu com a gente ao longo desses anos, de como a nossa relação se deteriorou, como brigamos e discutimos feio. Desculpa por isso. Foi meio que no embalo de um grande desabafo.
Murilo balança a mão ao ar, dispersando esse ponto pesado.
— Nah, tudo bem. Tu fez o certo. Além disso, eu mesmo já tinha explodido com ela. Explodi e tu explodiu. Falamos coisas e colocamos pra fora, e era justo aquilo que nos fazia mal. Então é um bom sinal. É uma boa coisa.
Assinto, porque naquela hora de atirar os jatos foi essa a impressão que ficou. Em complemento, revelo um pouco do que mamãe me contou, como foi sua reação. De geral, costumamos nos concentrarmos só na gente, no que sentimos, e não na opinião direta dela, sendo que também é algo bem válido.
— No final das contas, ela só queria entender pra poder nos acolher... Acolher nos pontos certos, sabe? Então acho que agora é mesmo a parte boa, com todos os colinhos que temos direito.
Nesse ponto, Murilo inspira profundamente. No que solta, vai deslizando o corpo pelo sofá outra vez e apoia os pés na mesinha de novo.
— É verdade. Sempre pareceu um alto preço de pagar, mas agora... Só nos fortificou. E nos resgatou. Da gente mesmo.
Ele me olha de lado e acrescenta:
— Pode ficar tranquila com isso, não tem problema mesmo.
— E por que às vezes parece que é tu que não tá tranquilo?
Meu mano comprime a boca, pensativo.
— Ainda tô absorvendo tudo, sabe? Me desgarrando de ideias erradas.
— Pensamentos estapafúrdios?
Ele balança a cabeça, tomando isso pra si.
— Algo assim... Teve até uma vez ano passado que tu me disse “não se alimenta traumas, cuida-se deles”. Então tô cuidando, né? Daí fico me dizendo que tá tudo bem e que estamos nos encaminhando para ficar melhor ainda, tal qual a nossa mãe falou. Tô nessa de encontrar meu caminho de descanso com isso.
Antes que o assunto morra, arrisco um último passo.
— Que dia tu vai ver a Tatiana?
Murilo conserta o nome dela com uma risadinha de sopro.
— Katiana. Só segunda.
— Então não teve essa semana.
Ele coça a cabeça, meio sem graça, voltando-se para o controle da televisão e as imagens de lá. Permaneço puxando a fitinha da almofada como quem não quer nada, mas muito atenta aos seus movimentos.
— Ela teve o recesso, né. E merecido. Uma folga das minhas confusões todas.
No silêncio que fica, ele mesmo preenche com uma esperança, acompanhado de um bom sorriso:
— Mas acho que ela vai ficar feliz pelo que conquistamos.
Pisco os olhos diante dessa afirmação. Porque me parece inesperado mesmo.
— Sério?
Detendo-se à televisão, meu mano divaga um pouco, como que se vendo à distância e podendo descrever o que vê.
— É, outra coisa legal da terapia é que quando a gente consegue atravessar uma situação difícil, e faz de maneira respeitosa, realinhando nossa cabeça e tudo mais... Fica uma sensação de “preciso contar isso pra minha terapeuta”. Sensação de orgulho mesmo, sabe? Nem tudo na terapia se trata das partes ruins da nossa vida. Temos umas vitórias assim também.
Outra vez neste dia, ele dá um toque em mim com seu braço no meu. Meio que acordo para encarar seu bom humor de falar dessas coisas todas.
— E nos dias que não tem, nos sobra aquela resiliência, de manter aqueles micropassos bons na direção da próxima vitória. Um passo de cada vez.
Dá pra fazer uma série de coisas pequenas no nosso dia e isso ir acumulando. Isso foi o que ele disse essa manhã, enquanto estávamos em suspenso da vida comum. Eu estava, no caso, e meu mano tirou um tempo dos seus afazeres pra me acompanhar nessa. Numa quietude destoante dele, me confessou coisas também, sobre seus medos e receios e como continua firme, na cara e na coragem. O importante é fazer, por mais idiota e minúsculo que possa parecer. Faz uma baita diferença.
— Escuta, mana... Não precisa me falar sobre as tuas conversas com a Cristina. Quando te falei que tenho perguntas, não era sobre isso exatamente. São mais sobre como andam teus pensamentos, tuas ideias... Como perguntei sobre o dia de hoje. É mais sobre ver como tu tem colocado as perspectivas. E pergunto por curiosidade genuína, porque eu também passei por isso e fiquei calado por muito tempo. Tipo, é uma coisa nova, diferente, e esse começo pode ser bem bagunçado. De alguma maneira, penso que posso ser o guia que precisei, porque me via tão envolto de dúvidas, sem ter pra quem perguntar.
— E tu tem sido mesmo meu guia, uma referência sobre o que acontece em terapia.
— É, as pessoas de geral não gostam de falar sobre o que acontece ali dentro. Ou se falam, não costumam dar tantos detalhes e isso fica bem vago. Pra tu ver, todos os caras lá departamento foram pro aconselhamento e quase nunca abrem o bico sobre isso. Até hoje muitos não falam que isso é terapia. Eu mesmo demorei um século pra falar essa palavra. Um século pra falar isso pra mim e mais um século pra falar pra outras pessoas.
Isso ficou nítido quando Murilo abriu o caso pra mim numa madrugada há um tempinho atrás. Como meu sono e senso de memória bagunçou um pouco das informações, tem coisas que ainda me reaparecem devagar, também conforme temos conversado em horas mais amenas, como essa. Mas o fato mais impressionante de todos, que me ficou marcado, é que eu não tinha noção que ele tava em tratamento e que isso era de longa data já. Ele se fechou dessa e de inúmeras maneiras.
— Eu sei que ando falando muito de terapia nos últimos tempos, mas muito disso é um reflexo de antes eu não falar nada. É tipo um exercício pra mim, pra naturalizar mais o processo. Ter menos vergonha disso até.
Murilo toca num ponto crucial, a vergonha que vem, mesmo que uma vergonha injusta, porque na verdade isso de se colocar em tratamento é um ato de muita coragem. Falar sobre isso é outro ato de coragem, como bem pontua.
— Pode até parecer bem de boas quando falo, mas às vezes sou só eu repensando sobre algo e experimentando falar sobre esse algo em voz alta. Não mais só no pensamento, sabe? Me sobrepor sobre as sensações e ideias confusas.
Ele para de mexer no controle da televisão, porém não solta o dispositivo. Com um suspiro longo, volta a si e se volta para mim, mais autocentrado.
— Enfim... Não tô dizendo pra não ligar muito quando eu falo de terapia... Também tô em processo. E tu agora tá nesse começo do processo... Então só continua indo, tá? Não é um termo.
Eu assinto, demonstrando que tô entendendo e acompanhando bem o que diz.
— Eu sei que não é um termo. Tu não me obrigaria a ir, mesmo que isso fosse pra me ajudar.
— É, não te obrigaria mesmo. E nem quero te ter na mão assim, sabe? Meio que me deu um negócio esquisito de ter que te colocar limites, os termos, e ao mesmo tempo ter que respeitar os teus limites.
Meu mano passa a mão no alto da barriga, sobre a camisa do pijama, demonstrando a sensação ruim que lhe tomou.
— Tá que foi útil em dadas situações, mas acho preferível a gente mesmo discutir as possibilidades das coisas. Então...
Vez que parece um pouco enjoado com isso, com essa coisa ruim lhe remexendo, eu já ia tirar dele quando Murilo faz um ato inédito. Ele se move em direção da mesinha de centro, se estica todo para alcançar um caderninho de anotações que fica por ali, arranca uma folhinha em branco e retorna à sua posição para então me entregar essa página simbólica.
— Toma aqui os quinhentos passes que tu me deu. Tá, quatrocentos e noventa e oito.
Fico olhando ele me estender o tal papel e só pego porque ele põe direto na minha mão. Pisco, meio desorientada, de ver isso... ele me entregando de volta, eu ter o passe em branco (e físico) de volta. Extremamente simbólico.
Entreolho a ele e esse papel, estupefata.
— Acho que essa foi a coisa mais linda que tu já me fez na vida, Mu.
Ele ri, meio descrente – não sei se do que falei ou do que ele mesmo fez.
— Mais do que todos os meus “amo você”?
Encaro-o, de repente muito segura.
— Quinhentas vezes mais! Tipo, amor é um ato livre. A gente ama e manifesta esse amor de várias formas... Mas dificilmente dessa forma aqui.
Balanço a folhinha ao ar.
— São... quatrocentos e noventa e oito atos, tíquetes de controle, que tu tá recusando. E tá recusando porque tá me respeitando. E tá se respeitando também. Nem eu sei o que fazer com isso aqui na mão.
Mais espirituoso, meu mano pega a folhinha só pra dobrar e rasgar em pedacinhos que caem no pouco espaço de sofá entre nós. Assisto isso com um prazer e alívio enorme, que também não sei quantificar. Mas sei exatamente o que dizer agora.
— Essa é uma vitória pra adicionar lá na conversa com a Katiana, né?
O brilho nos olhos e rosto da minha criatura preferida ditam isso.
— Pode deixar que já adicionei na loooonga lista de coisas que tenho pra contar. Até porque se alinha bem com algo que ela me disse na sessão antes do Natal.
— O que ela disse?
— Que superproteção é um amor que adoeceu. Ele fica preso nas dores, tentando compensar muito, fazendo demais e tirando do outro o lugar de força. Só tudo o que eu tava fazendo e tava demorando a largar. Mas quando tu me deu esses... passes... passes em branco... ficou evidente demais. Por isso tava me deixando mais maluco, a ponto de ter mal-estar físico. Porque eu não quero isso na minha mão. Não quero mais isso na minha cabeça. Já deu isso. Então além de eu me livrar disso, tô te devolvendo teu lugar de força.
Bato na superfície do sofá só pra poder catar todos os pedacinhos brancos e jogar em cima da mesinha. Ao terminar, e ainda ver o sorriso imenso e contido da criatura, faço o que faço de melhor quando estamos abertos assim um para o outro: abraço esse grande ursão. Inclusive, já mal posso esperar para ver ele planando leve na segunda-feira à noite.
Não dizemos mais nada e o instante até dura pouco, pois percebo que, no final das contas, ele tava era procurando a página da banda pelo controle da televisão no aplicativo do Youtube. Um dos últimos vídeos postados era justo aquele que a Dani gravou ao atender um pedido meu, de uma música que muito insisti porque vi que tava na lista dos portfólios da banda e porque é uma das músicas que tava nas tracks daquela fita de Viviane. Era para ser um presente dedicado ao Vinícius.
Em tese, era para eu ter gravado o ensaio junto com a Dani, naquele dia que passei a tarde com ela e a banda, que nos debruçamos pelas músicas da Avril, mas aí eu tive que sair mais cedo e ela ficou de fazer uma versão solo. Mas o vídeo em si demorou bastante para ser postado. Saiu num daqueles dias que eu tava quebrada da descoberta da invasão e o Murilo, sempre o Murilo, tava me injetando ânimo e conversas aleatórias e distribuindo uns tudo bem de vez em quando.
Acho até que foi no dia que ele tava me falando sobre pensar num sonho ou objetivo, porque sei que teve uma notificação específica da Dani me enviando o link e eu lembro de estar na cozinha com meu irmão. Contudo, como eu tava bem avariada naqueles dias, e por todos os dias desde então, esse link e vídeo meio que se perdeu.
— Caramba, ainda não vi esse de Sorry Seems To Be. Clica nele.
— Pelo título, soa bem triste. Desculpa parece ser... a palavra mais difícil. É isso?
— Sim. Um cover do Elton John que pedi. É uma das músicas... da tia Viviane.
A boca do Murilo abre em “O”, perplexo e maravilhado ao mesmo tempo.
— E agora na voz da Dani? O Vini já viu isso?!
— Não sei ao certo, porque nossas vidas estavam uma bagunça quando saiu... Bem no fim das aulas, o que parece ter sido há três vidas atrás.
— E agora chegou o momento.
— Ao que parece, sim. Chegou o momento de conferir essa homenagem.
Meu mano passa o braço por meu ombro e aperta play.
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