Notas iniciais
Estava pensando sobre esse ponto da história nos últimos dias e percebi que nunca coloquei nenhum alerta de gatilho. Acho que na minha cabeça, apesar de retratar questões de ansiedade, pânico ou fobias, levava os temas de maneira mais leve e explicada dentro da rotina. Ainda assim, SE VOCÊ TEM DIFICULDADE com algum dessas temas ou por como estão desenvolvidos, sinta-se livre para pular alguns trechos (quem sabe capítulos?). Prometo que, embora sejam períodos importantes para a trama e para as histórias de vida da turma (Milena e Murilo, principalmente), essas partes vão passar rápido ◕‿◕ E ESPERO que as histórias deles te ajudem de alguma maneira - como sempre ajudam na minha ♥ HOJE É DIA DE COLOCAR A MILENA NUM POTINHO E PROTEGER ❤ Boa leitura!

— Bom dia, amorzinhos. Bora acordar?

A voz melodiosa de mamãe nos chama de algum lugar. Meu corpo pesa, assim como meus olhos, que pouco abrem e não sei dizer bem em que universo estou. Tava com a impressão de ter deitado na minha cama, mas na casa dos meus pais. Como vim parar no interior? Eu vim de ônibus ou de carro? Eu vim com quem? E por que dormi tão tarde?

Sei que dormi tarde pela carga pesada que sinto no corpo. De algum jeito, no entanto, parecia que havia deitado faz pouco tempo. Por mim, voltaria a fechar os olhos. Estava um papo bom sobre... o que era mesmo que o Murilo tava dizendo?

Mamãe está mexendo na cama. Não sei o que faz, só sinto sua presença.

Então viemos os dois para a casa dos nossos pais? Como foi isso?

Quando foi isso?

Um Murilo igualmente desnorteado se remexe ao meu lado. Grunhe até.

Podia grunhir do quarto dele.

— Que horas são?

— Uma e meia da tarde.

Reluto para manter pelo menos um olho aberto. Meu mano, por outro lado, salta na cama, o que faz a estrutura toda tremer.

O que ele fazia no meu quarto, oras?

— O ALMOÇO!

Com a calma mais zen do mundo, mamãe responde:

— Tá na mesa, querido.

Entre piscadelas, entrevejo o Murilo sentado mais pro lado na cama. Acho que está com a mão ao peito. Ou barriga. Ou cabeça. Me encolho mais sob o lençol, pois hoje parece mais friozinho. Alguém pode virar o ventilador pro outro lado?

— A-a-a senhora foi... andando... comprar?

O fato de ele gaguejar e se complicar todo me faz repensar manter a cabeça fora do casulo. Ainda tô tentando entender o que está acontecendo. Enquanto isso, mamãe abre a janela. Ou tenta, né, vez que parece estar emperrada e ela faz barulhos de quem força a coisa toda para puxar. Entrevejo o Murilo de pé, próximo dela.

Mas desde quando a janela é pra esse lado?

Na casa dos nossos pais, ela fica mais pra trás. Não é?

— Mãe?

— Na verdade, uma “fadinha” veio entregar.

— C-como assim?

Logo que a luz do dia vem na minha cara, mamãe se coloca frente a ela. Aperto os olhos pela claridade repentina ao ambiente bem escuro e o Murilo... sei lá. Ainda balbucia alguma coisa.

Bem desorientada, tento processar o que mamãe faz de um lado pro outro no quarto. Ou o que diz. Que horas que ela disse que era mesmo?

Acho que ela tá com um copo de suco na mão. Vermelho é de quê? Tomate? Suco de tomate deve ser esquisito.

Indo para o lado do Murilo, mamãe afaga seu menino agitado.

Por que ele tá agitado mesmo?

— A Iara me ligou pra perguntar se era de beringela ou beterraba que eu não gostava, e aproveitei pra avisar que não iríamos para o almoço hoje. Disse a ela que era por conta do tempo fechado e que... Cuidado para não se engasgar desse jeito, Murilo!

Murilo se desculpa e se desculpa demais, naquele seu modo embaralhado quando fica nervoso ou assustado de repente. Isso me faz querer alcançá-lo, porém, meu corpo está custoso demais. Como se meus braços e pernas fossem feitos de tijolos.

Ou é o Murilo em cima de mim?

Não, não é, e ainda assim quero ajudar a criatura. Consegue me ouvir, Murilo? Consegue tomar um fôlego? Pra chutar a Denise na penitenciária.

Quer dizer, de preferência, não chutar. Sorrir genialmente talvez. Dar uma respostinha sagaz e aí sair andando no maior estilo. E entregar o caderninho no final pro moço da portaria. Aquele de bigode engraçado.

— Enfim, daí ela quis saber se tínhamos onde almoçar, o que faríamos pro almoço, e eu disse que ainda ia ver. Talvez comprar um frango desossado e fazer um pouco de arroz, não sabia ao certo. Daí... Sabe o que ela me disse?

Enquanto ainda estou lutando para manter os olhos abertos, o rosto de mamãe se sobrepõe ao teto acima de mim e ela me dá dois toques à testa, como que testando meu nível de consciência. Acho que estou acordada. Mas também acho que estou sonhando. Porque o rosto de mamãe some das minhas vistas.

— Disse que vinha entregar, que não havia outra opção e que eu não poderia dizer não. Acreditam nessa menina? Ai, ai. Essa Iara é meio doidinha, né?

Diz pra Iara que amo ela! É doidinha e é das minhas! Muito parceira ela.

Já disse que amo ela? Porque amo.

— Mas muito gentil. E sim, tive que aceitar os termos dela. Quando deu meio-dia, essa garota já tava aqui na porta. E deixou beijinhos para os dois. Depois disse que vai ligar.

Acho bom. Quer dizer que dona Iara está num dia muito bom.

Mas, pera, ela também tá na cidade?

De repente fica um silêncio que não compreendo e então um bater de palmas alto demais e perto demais para meu gosto.

— Enquanto isso, bora, bora levantar. Os dois. Pelo menos pra me darem bom dia. Fiz suco de acerola pra ativar a vitamina de vocês. Precisa de ajuda, filha?

Tem tanta coisa inerte e ao mesmo dançando na minha cabeça que não sei dizer. Só pisco pro teto. O dia está diferente. Tá nublado, sim, tá meio friozinho, sim, mas também está...

— Valeu, mãe.

Pelo movimento na cama, acho que mamãe se sentou. Pelo que entrevejo, está mimando seu menino. Tem mesmo que mimar ele, que merece tanto. Ele enfim deu tchau pra Denise e tá mais leve. Tá até na terapia! Tatiana ou Ka... Algo assim. Num prédio comercial. Que tem sofá e baús.

Ouço um beijo estalado, desses que dona Helena adora dar na bochecha da criatura, e inspiro um bom suspiro. É um bom jeito de começar o dia.

— Sobre a madrugada... Olha, não precisam me contar nada se não quiserem, tá bom? Nadinha mesmo.

O que houve de madrugada?

— Agora só quero ficar juntinho. Se me deixarem.

— Tem toda a permissão do mundo, mãe.

Por que não deixaria, ué?

— Obrigada, querido. Eu, aliás, já estava indo almoçar. Vim beliscar vocês pra me fazerem companhia, se acharem que dá. E também porque precisam se alimentar, nem que seja só uns golinhos de suco. Estou falando com você, Milena. Tá me ouvindo?

— Comigo?

— Tá sentindo alguma dor, filha? Tá com uma carinha... e uma voz distante.

— Meu corpo tá pesado.

Ao passo que sinto que deixou seu posto do lado do Murilo, ela dá a volta na cama para me dar alguma assistência. Sei que sim, pois logo mamãe está fazendo um carinho no meu rosto e seu perfume suave faz cócegas no meu nariz. Não é o shampoo de picolé de leite condensado, embora por alguma razão eu espere sentir.

— Tenta beber só dois golinhos de suco? Por mim, sua mãezinha querida? Consegue me ouvir? Consegue repetir o que acabei de falar?

— Tentar... alguma coisa.

Abro um bocão de bocejo logo em seguida.

— Deixa comigo, mãe.

Murilo soa de um lado diferente do de ainda pouco. Bom, eu podia jurar que ele tava ali pelo lado de... Como que ele se teletransportou tão rápido?

— Ela consegue, eu sei que sim. Vem, Milena.

— Oi?

Mamãe me segura na mão e no braço e faz força para que eu sente no colchão. Dou uma bambada até estar realmente sentada.

— Viu só? Minha menina dá conta. Agora precisa só de uns golinhos. Aqui.

Um copo gelado surge em minhas mãos de modo embaçado e olho o conteúdo por alguns segundos. Encosto o nariz para saber do que se trata. Acerola. Parece bom.

— Melhor lavar o rosto, querido.

— Eu?!

Afasto o copo de mim, perdida.

— Seu irmão. Ainda tá com bigode de acerola.

Rio besta, junto de mamãe, mesmo sem ter visto.

— Golinhos, Milena. Um, dois e três. Vamos, vamos!

Bebo e me refresco em mais de três goladas. Bebo até sobrar só aquela espuminha no final. Pareceu tão pouco.

Ouço as palminhas de mamãe, conforme ela pergunta:

— Quer mais?

— Se tiver, aceito.

— Volto num segundo!

O líquido, a claridade, o colchão, de alguma forma, as coisas ao redor fazem com que eu volte a mim aos poucos. Suspiro por me sentir uma zona por completo. Nem tanto cansada, mas um tanto perdida sim.

— Como tá se sentindo?

— Não sei dizer. Tô com bigode de acerola?

Viro a cabeça de lado pro Murilo.

— Tu acabou de lamber.

— E foi, foi?

E rio besta de novo. Me pergunto se é assim que ficam as pessoas bêbadas.

— Às vezes sim.

Eita. Acho que falei alto.

— Falou. Mas não se preocupe, mana.

Ele me afaga os cabelos, carinhoso.

— Com a acerola... ou... sobre estar... meio bêbada?

Abro o bocão para um novo bocejo e coço os olhos lacrimejantes. Será que encontro meu colírio? Mas se eu tô na casa dos meus pais, meu colírio ficou debaixo do meu travesseiro em casa. Provavelmente. Ou estaria na bolsa?

— Com qualquer coisa. Vamos dar conta. Você dá conta.

— O suco chegou!

~;~

Eu sei que chorar não é uma coisa ruim, mas enquanto libero mais umas lágrimas a fio, não suporto a sensação de me sentir um nada perante essa droga de situação. Respiro o dia frio pela boca, ainda de vias congestionadas e encaro a parede com os leves feixes de luz, porque alguém deixou a lâmpada do terraço ligada. Não sei se agradeço por isso ou não.

Mas provavelmente assim ficou porque a chuva aumentou de repente. De novo. Ou esqueceram da luz depois que a sessão de trovões começou e me tomou com uma criança perdida. Vieram aos poucos, baixinho, de modo que o fone de ouvido gigante bloqueou bastante por muito tempo, ao ponto de eu achar estar conseguindo atravessar a situação e até fazer alguma piada. Tava surpreendida mesmo.

Até que a coisa toda mudou de uma hora pra outra. Na real, de um segundo para o outro. Furou-se a bolha de bloqueio do fone de ouvido, porque vacilei de idiota que sou. Porque, ao ouvir a troada ao fundo, já me desestabilizei e ainda por cima pisei no raio do fio do fone, que foi puxado para baixo e ouvi em toda a glória o trovão que prosseguiu. E aí... a coisa não ficou nada bonita.

Porque às vezes a gente não cumpre o que se comprometeu a fazer. Às vezes, é um pouco demais ser racional. Às vezes não nos sobra muita racionalidade quando tudo balança dentro de nós. Às vezes, só nos sobra o próprio casulo, a própria proteção, o próprio surto. E o choro.

E tantas perguntas dilacerantes.

Sério, por que o universo me odeia tanto? O que eu fiz de tão errado? O que fiz de tão ruim para ser assim punida? Como que isso consegue ficar ainda pior? Porque não tem outra explicação ser assim massacrada. Logo eu que faço tanta coisa boa aqui. Sou gentil com as pessoas. Ajudo. Defendo. Me esforço de verdade e faço de um tudo para...

Não entendo como num minuto tudo está bem e de repente não está mais. Como estava rindo e depois... não. Como tudo vira de cabeça pra baixo de um jeito tão absurdo.

Bato as costas continuamente e de modo raivoso na beirada de minha cama em um novo surto, porque quero respostas nem que seja no modo birra de ser. Mas ao sentir a dor nas costas, sou obrigada a parar. Mas continuo a sentir raiva. De mim. De novamente estar aqui nessa situação deplorável, apenas desejando que essa merda de ano acabe e comece a porra desse outro, para eu poder resolver essa vida estragada minha. Pra dar cabo desses pânicos todos.

Porque é isso, né, esse é o objetivo para levar na tal da terapia. E que parece que nunca chego lá agora que quero fazer. Porque essa droga de trovão mal trégua me dá.

Ainda me comprimo toda, nos olhos, na boca, no estômago, como quem espreme um limão, obtendo toda a gota possível de desespero. Porque caí de novo. Me esquivei de novo. Me escondi de novo. Até de fones de ouvido, esse grandalhão mesmo, tentei abafar o arroubo do mundo. Ele, infelizmente, também se mostrou falho e limitado.

Nunca sei o que é pior, se a ansiedade de um pânico ou o pânico em si, vez que são tão parecidos. Nos dois, fico sem ação, sufocando. Nos dois, eu choro. Mas é no pânico que o chão fica inseguro. E nos dois, fico sem vida e todo o meu corpo falha.

Como é possível falhar assim com um barulho tão... natural?

Abraço outra vez meu travesseiro ao colo, meio fora do ar.

Queria não ter que repelir as pessoas, menos ainda me colocar nessa condição de precisar me manter afastada. Queria saber aceitar melhor o apoio e suas múltiplas maneiras de se manifestar. Carinho, mãos unidas, palavras de força, incentivos de que tudo isso vai passar, que não é pra sempre, que posso suportar. Mas na hora da loucura, nada faz sentido.

E mesmo depois de toda a cena da vez, a mais ridícula e torturante, esse desassossego permanece comigo. No escuro do meu quarto, pedi para ficar sozinha. Eles já tinham visto o bastante de mim por um dia todo. Não queria sentir vergonha, mas sinto. Não queria sentir medo, mas sinto. Não queria sentir culpa, e sinto, e sinto tudo ao mesmo tempo.

Daria tudo nesse momento para alguém me chamar pra resolver qualquer problema só pra não encarar o meu. Porque, ao que parece, conforme mamãe e Murilo me disseram, foi assim que funcionei por muito tempo. De alguma forma, isso me ajudou a fazer vista grossa sobre minhas crises. E foi assim que achei estar superando-as.

Ledo engano.

Mas neste momento, gostaria de me enganar um pouquinho que seja. Posso?

Por favor?

Não teria alguém... precisando... de mim... agora? Pra me tirar dessa situação. Desse buraco. Não teria ninguém... sendo simples ou complexo... para eu simplesmente correr daqui? Debaixo de chuva. Debaixo de todo o meu torpor e ódio por essa droga de fobia. Só para eu entrar em ação. E agir como se nada estivesse acontecendo.

Não poderia o Murilo mesmo queimar o braço? A mão? Ou, sei lá, só tropeçar. E se machucar. E eu poder correr pra ajudar. Esquecer de mim e pensar no outro. Como o Vini. O Vini em suas crises.

Vale até uma emergência de salão, como foi com Djane.

Vale qualquer coisa, considero, enquanto outra lágrima faz seu caminho moroso.

Que me perdoem o meu irmão e namorado por desejar que se machuquem, para eu poder não me sentir essa droguinha incapaz, na existência de merda que é ter uma fobia tão idiota com essa.

Toc, toc. Posso entrar?

Diante da minha mais nova loucura, sequer me movo. Não quero que a I pense que perdi os parafusos de vez. Mamãe viu meu show ao vivo e não consegui a encarar desde então. Já com Iara, sinto-me observada pelo curto tempo que ela mantém a porta do mundo lá fora entreaberta, com toda a claridade da casa iluminando parcialmente meu espaço e eu ao chão, encostada na cama. Aperto o travesseiro ao colo e nem quero respirar, pra não denunciar os dois lados do nariz entupidos.

Infelizmente, num ato falho, fungo e me denuncio.

Iara fecha a porta e, em silêncio, senta-se do meu lado. Lembro do treinamento que ouvi do Murilo, de como tentava lidar e conduzir mamãe diante do meu insano acesso, de como ela deveria se comportar comigo no período pós-crise. Tão humilhante. Meus olhos se preenchem de instantâneo só de pensar que ele fez o mesmo com a Iara. Sei que fez porque ele também já fez com o Vinícius outras vezes. Mas agora a I tá aqui. E tá observando tudo, tá maquinando tudo, tá imaginando tudo.

Quando ela se recosta em mim, deitando a cabeça ao meu ombro, as águas, que tanto me enchiam, transbordam. Só umas a mais para a conta que já perdi.

— Essa música é tão bonita, né? Tão...

Avril Lavigne – I’m With You

Música. Tá tocando uma música. Repetidamente. Foi algo que deixei no celular depois de tirar o Murilo e mamãe do meu quarto. Depois que a chuva baixou e os trovões pararam. Depois de toda uma extenuação degradante. Deixei a mesma canção que vinha ouvindo desde ontem por seu ritmo terno e confortável. Tão lenta e amena que já não a percebia mais.

— Aconchegante. Para as dores e para...

Ao passo que fungo novamente, Iara levanta a cabeça de meu ombro para poder se virar pra mim. Mantenho as vistas baixas, aos meus pés e pernas estiradas ao chão, às vezes para a parede tão próxima, só seguindo um dos feixes de luz branca. Sinto que Iara mexe em meus cabelos e então passa a mão em meu rosto molhado. Para quebrar a linha de lágrimas.

— Você é tão forte, Mi.

E por que não me sinto assim? Só engulo a seco.

— Sei que não parece agora, mas é uma grande verdade. E quão grande é! Porque, contra tudo o que pensa e o que sente sobre tudo isso, de que não aguentaria isso, aqui estás. Você conseguiu, Lena! Aqui está e aqui estou. I’m with you.

Eu tô aqui. E, ao mesmo tempo, não estou não.

E isso me comprime de um jeito que solto meu peso sobre o travesseiro novamente. Me desmancho sobre ele nos meus braços mesmo.

— Acha que consegue beber uma água?

Balanço a cabeça minimamente, em negação.

— Suco? Tem chá também. Só mesmo pra se hidratar. Colocar algo de vida aí dentro.

Por mais sede que sinta, não quero nada. Não quero nem ser eu. Não quero estar no meu lugar. Não quero esperar a próxima. Não quero nem me dignar a viver uma próxima maratona de trovões. Não quero nada disso na minha vida. Não quero sequer essa vida estragada e ferrada. Toda ferrada.

Outra vez, só balanço a cabeça em negação, mesmo que não haja luz o suficiente para ela captar meu gesto. Acho que meu silêncio traduz isso.

— Tudo bem, não precisa ser agora. Pode ser mais tarde.

Eu sei que ela tá tentando, tá todo mundo tentando e tá todo mundo treinado com meu modo de... corresponder. O cansaço, dessa vez, vence minha vergonha e indignação e busco em Iara um abrigo de mim mesma. Deito eu minha cabeça no ombro dela. Me deixo ser envolvida e embalada.

A I não hesita, diferente de como o Murilo ficou depois. Talvez com medo de mim. Será que foi ele quem a chamou? Ou foi... o Vini? Será que o Vinícius tá lá fora também? Eu pedi tanto pra ele não vir. Será se é por isso que está com medo de aparecer? Com medo de como vou encará-lo, se vou encará-lo, depois de todo esse show master, em que eu gritei com todas as minhas forças com todo mundo?

Ou será que ele está cuidando da minha mãe? Será que o Murilo não tá dando conta dela? Será que tá todo mundo assustado comigo?

Mas a I... ela tá serena. Se o treinamento do Murilo pós-crise deu certo, talvez não esteja tão mal. Mas acho difícil mamãe processar isso tão bem quanto eles dois, principalmente depois de como foi essa primeira aparição dos trovões e de como não conseguiu me ajudar, sequer me acessar.

Será que a I tá sabendo disso tudo?

Será que o Murilo ou mesmo mamãe contou isso?

A chuva lá fora aumenta o volume de repente e eu me encolho toda, embora deva caçar o fone de ouvido para me proteger. Mas meu corpo tá mole e tenso ao mesmo tempo, de maneira que não consigo alcançar nada. Até entendo como esse barulho no telhado pode ser relaxante para muitas pessoas, mas elas podem entender o que é temer o que vem com a chuva?

— It’s a daaaamn cooold niiiight, tryin’ to figure oooout thiiis liiife...

Iara canta baixinho para mim, que me sinto novamente uma pequena criança machucada que não tem pra onde fugir, mas que quer se manter quieta aqui. Escondida aqui. Recolhida aqui.

E como diz o verso seguinte, ela pega minha mão e mantém um carinho bom, de quem quer limpar todas as desgraças de um vida num só toque de presença e amor.

Won't you... take me by the hand, take me somewhere new... I don't know who you aaaare, but I... I’m with you... I'm with you.

Por que tinha que ser eu a estragada? Tinha que ser eu?

Isn't anyone tryin' to fiiind me? Won't somebody come take me hoooome?

Por que tinha que ser tudo insano comigo? Tudo muito?

— M-mamãe deve estar... assustada.

É a primeira coisa que digo e soo arrastada e fatigada, além de chorosa. A minha boca, então, parece o deserto do Saara de tamanho ressecamento, de tanto que respiro apenas por ela. Porque é assim que o torpor me deixa. Sem vida. Sem reação. Comprimida e de vias entupidas. Confusa.

— Ela entende.

Eu não entendo. Como ela... pode entender?

— Ela só entende. E te ama. E sabe que uma crise não representa você.

Mas uma crise – e essa última em específico – mostra muito de uma pessoa.

— Foi horrível, I.

— Eu sei que sim, também fiquei assustada. Quer dizer, eu tava na cozinha lá de casa quebrando uns ovos quando... enfim, eu só pensei em você quando ouvi. Quis de alguma forma estar aqui. E vim.

Passo o braço no nariz, de qualquer jeito, mas então recebo um pedaço de papel higiênico nas mãos. Ela veio não só treinada, como preparada. Me demoro uns segundinhos pensando sobre isso antes de pegar o papel e assoar o nariz.

— Não é nada bonito de se ver, I. O Murilo inclusive... Ele precisou tirar mamãe de perto, tirar ela do quarto. Acho que ele não conseguiu dar conta de nós d-duas... Não sei nem... se ele pôde dar conta de si mesmo.

Lamento-me sem me importar, apenas despejando o que me pesa ao peito. De que isso tava além de todo mundo e que foi ainda mais pesado do que achei que seria. Que o que achei estar melhorando na verdade foi apenas uma ilusão. E o furação Milena passou arrasando geral, sobrando só o pó destroçado de mim, uma massa pesada e ressecada pelas próprias lágrimas, quase sem respirar, quase sem...

Com um carinho em meu braço, Iara segue serena, como se não fosse uma conjunção alucinante. Diferente de mim, ela parece estar focada.

Bem, ela não sofreu um atentado umas horinhas atrás.

— Ele fez o que conseguiu fazer. Isso porque qualquer um fica sem ação nessas horas. Não se consegue pensar muito bem ou ter a certeza de que vai ter a reação certa. Eu mesma já fiz inúmeras besteiras nesse sentido. Já... sumi. Já corri o mais longe que pude. Mas esse sentimento nos segue por onde a gente for.

“Não dá para fugir de quem a gente é”, disse a terapeuta do Murilo.

Ou seja, não deu pra dar no pé de quem eu sou com essa droga de fobia.

Fui mais uma vez engolida por esse grande furor incompreensível.

— Entende, Mi? É preciso reconhecer que algumas coisas estão fora do nosso controle. Cada um de vocês reagiu da maneira que conseguiu naquela hora, em certas circunstâncias de muita coragem. Não quer dizer que vai ser assim todas as vezes. Não tem sido assim todas as vezes. São muitas variáveis. São situações que...

Iara mesmo se pausa e toma um fôlego.

— Talvez soe como se eu estivesse falando grego, mas você fez muito, Lena. Isso é uma certeza. Assim como o Murilo e a tia Helena. Vocês fizeram algo que não é fácil de fazer. Não-é-fá-cil. Não é mesmo.

Ela me segura a mão de novo e por mais que agora pareça afetada, segue confiante.

— E uma coisa tão mais extraordinária, que é bem possível de não estar vendo, e tô aqui pra te apontar, é que temos pessoas para nos resgatar. Pessoas que podem até não saber exatamente o que estão fazendo ou como fazer, mas que vem ao nosso resgate. De toda essa sensação de insanidade que nos acomete... Você já me resgatou. Vocês já me resgataram e inúmeras vezes. E vou te resgatar quantas vezes for preciso. Porque tem como voltar. Temos para quem voltar.

Outra lágrima desce e eu ainda reluto.

— Eu q-quero voltar. Eu tô em casa, mas tô com esse sentimento de querer voltar pra casa. Faz sentido?

Por incrível que pareça, nessa hora repete um trecho da Avril Lavigne que diz “Não tem ninguém tentando me achar? Não vem alguém aqui para me levar pra casa?”.

— Faz, faz sim. E bem entendo essa sensação. O desejo de voltar à normalidade. Ou ao menos apagar o ocorrido ou o problema.

— S-sim.

— Você vai voltar, Mi. Em toda sua espontaneidade e alegria de viver. Você sempre volta.

Resmungo outra vez, culpada, horrorizada e contrita outra vez.

— Eu também sempre volto a esse mesmo lugar. E estrago o dia de todo mundo. E agora vão ser mais dias e mais pessoas. Tô estragando o final de ano de...

Iara me repassa outro pedaço de papel e passa outro por meu rosto, nada abalada e muito da resoluta.

— Mi, posso te dizer com todas as letras que não estragou não e olha que nessa matéria eu tenho propriedade para falar. E essa festa de amanhã, de virada de ano, não te preocupa, porque a gente pode fazer em qualquer tempo do ano. Nem que seja só eu e você. E tu sabe que o Murilo e o meu irmãozinho vão se infiltrar. Muita gente vai querer participar. Porque você vai tá lá, oras. E pra mim, dane-se o mundo e as programações dele. Eu tenho outras pretensões de vida. Uma delas é ficar do seu lado.

Quero muito agradecer por isso e isso ser meu mundo e esperança, mas no momento, só consigo conceber a ideia de vergonha, de me esconder e, se possível, sumir.

— Eu não quero que me vejam nesse estado. Nem eu consigo ficar às claras no meu próprio quarto. Eu sei que permiti que mamãe ficasse para ver, mas agora... Não dá. Não consigo imaginar o que será da virada. Só quero que passe logo. Que os trovões desapareçam. Que eu desapareça de vez.

— Tu sabe que eu te caço, não sabe?

Por um segundo, quero poder rir disso. Mas não consigo.

— I...

— Você tá falando comigo, não tá?

— Tô. Acho. Por quê?

Pisco, um pouco desorientada.

— Porque é tudo o que precisa fazer agora.

— E depois?

— Acho que beber água. Ou suco. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Trouxe brigadeiro de panela. E os bolinhos de tapioca daquela padaria que tu gosta. Tem até caldo pro jantar. Para quando você conseguir comer.

Reconheço mais um item do treinamento do Murilo. Não queria ter ouvido aquela conversa dele com mamãe, mas ouvi. Assim que saíram do quarto, com mamãe resistindo para voltar, o Murilo teve que barrá-la e falar como é essa fase e como se comportar. Ouvi porque precisei abrir um pouco da minha porta, que o trinco havia emperrado e assim não fechava completamente.

— Não pode sufocar desse jeito, mãe.

— E desde quando eu tô sufocando? A minha filha tá em choq... O que você quer que eu faça, Murilo? Seja indiferente?

— Não é isso, tá? Precisa dar o espaço dela. Porque ela se fecha. Muito. E insistir, do jeito que a senhora estava fazendo, dá muito errado. Não quero que a senhora acabe tentando demais e se embole ainda mais.

— Do jeito que você vem fazendo, você diz?

Estavam discutindo e às vezes aumentando a voz.

— Sim, do jeito tosco que eu venho fazendo. Olha, estamos do mesmo lado. Os dois. Mas tem algumas coisas sobre como a Milena fica que a senhora precisa saber. E o que podemos fazer a respeito.

— Murilo, isso não tá certo.

— Só me ouve, tá? Precisa dar um espaço. Não ficar observando demais, nem falando demais. E quando tiver a oportunidade de dizer algo, que seja a coisa mais aleatória possível. De coisas ao redor ou... sei lá. Com calma. Ou pausadamente. E falar coisas positivas. Porque ela fica desorientada e revivendo a situação e se sentindo...

Fechei a porta porque era algo a mais e demais pra minha cabeça já ferrada. Que sei que deveria agradecer, mas só me faz sentir pior. Assim coloco logo isso na roda.

— O treinamento do Murilo, né?

— Que treinamento?

— Pra saber lidar comigo.

Iara faz que se espanta.

Tem um treinamento?!

— Só não mente pra mim, I.

Ela suspira, um pouco quieta.

— Não tô mesmo, Lena. Até onde sei, o Murilo tava no banho quando cheguei. Como ele não atendeu o celular, eu liguei pra tia Helena e ela que me deixou entrar. Ainda nem vi o Murilo. E, pra falar a verdade, nem sabia se ele ia me deixar passar. Porque sei que ele já barrou o Vinícius algumas vezes no passado. E eu só... vim. Tentei a sorte.

— Mesmo?

— Mesmo. E só tô fazendo o que você prometeu fazer por mim. E eu pra você. Lembra? Na semana passada, eu quem tava me escondendo. Quarto fechado, Evanescence no meu celular e o vinho quase voltando... E você ficou comigo. Me falou sobre sermos incríveis, amáveis, importantes e completamente capazes de fazer o nosso destino. Você fala pra mim e eu falo pra você.

Puxo mais um pedaço de papel do rolo que ela me passa. Porque, de repente, meu nariz se enche todo, assim como meus olhos. Iara apenas continua, discorrendo sua verdade, de maneira branda e afável, do jeito que ela é por natureza.

— E aí que rendeu mais do que Evanescence, rendeu uma foto épica nossa. Mas, pra mim, de verdade, foi saber que tenho com quem contar. Com quem voltar e para quem voltar. Nada do que tô fazendo aqui é por obrigação ou treinamento, Lena. É pelo simples amor e carinho que tenho por você. Quero ser seu aconchego, se me deixar. E tô realmente feliz que você me deixou entrar. Tipo, muito. Porque sei que... Bem, alguém me disse uma vez que você não era de conversar após uma crise. Não lembro agora quem foi e tanto faz. Porque você tá falando. Isso é diferente. Tá diferente. Eu não sabia o que ia encontrar, eu só vim.

De fato, isso é diferente. Assim como a vontade que me dá de me jogar nela, algo que nem penso duas vezes e sou bem recebida. Choro sem amarras e gasto o que ainda tenho de água no corpo. Só a solto mesmo por precisar de mais papel.

— Olha, Lena, se o Murilo faz isso... um treinamento e tal... Ele não faz por mal.

— Eu sei. Fico mal, na verdade, por isso ser necessário. Uma sensação de...

— Estragar o dia dele?

— Também. Estragar a cabeça dele. Atrapalhar a vida dele. Tudo por algo que eu não tenho como parar.

— Uma sensação bem insensata, né?

É complicado lidar com essas sensações. Crenças até.

Barreiras e autodefesas.

— E um pouco bizarra, acho, porque a sintonia de vocês é incrível! Não é como se ele fosse se cansar de você ou desistir de você. Muito pelo contrário. Ele quer melhorar isso pra você. Pros dois, na real. Não é à toa que ele não sossegue. Só que isso não é uma coisa ruim. É um esforço por algo bom.

Pode ganhar relações ainda melhores.

E pra isso... Você precisa lutar contra essas ideias, Vini, ver que são estapafúrdias.

É assim que minha mensagem volta pra mim? Pauso por um segundo ao escuro.

Ou é como a I revolve, de ter alguém para nos falar coisas assim?

— Acho que algumas pessoas precisam aprender, e até treinar, como acolher a outra, e outras pessoas fazem de uma maneira bastante natural. E não tem problema, sabe? Um pode ajudar o outro. Aprender junto. Eu aprendi com você. Aprendi até a usar as cólicas ao meu favor. Parece a coisa mais idiota, mas antes a minha cabeça era bem limitada. E ainda ganhei uma amiga no processo! Uma parceira de vida. Parceiraça!

— Obrigada por me dizer todas essas coisas, I. Obrigada de verdade.

— Eu continuo dizendo pra você e você pra mim, é o nosso trato.

Por um momentinho mais, ficamos em silêncio. A minha cabeça agora maquina contra a corrente e a torrente de pensamentos trágicos. De faltas, erros, descontroles, desesperos. Culpas, vergonhas e medos. Incapacidades.

“A vergonha faz a gente esconder coisas até da gente mesmo”, o Murilo disse.

A vergonha nos move para direções erradas.

Sei que é culpa e sei que também tenho que lutar contra essa sensação. Porque não necessariamente é uma verdade. Assumir... Para se libertar dela.

Seria essa a chave da questão?

Só cansada de sentir culpa também. E sentir culpa por as pessoas se sentirem culpadas por mim. De como isso afeta o Murilo e... tantas pessoas mais. Por eu ter uma fobia. Por eu ser assim. Quero mudar essa sensação. E falar, enfim, sobre todas essas coisas que guardei aqui por muito tempo. Ter a orientação certa.

Diferentemente dos desenhos, de quando alguém tem uma ideia e uma lâmpada se acende, alguém desliga a luminária do terraço e assim ficamos as duas no verdadeiro breu. O que não é ruim, porque até consigo pensar melhor. Ponderar mais um pouco. Ver e entender onde está a coisa estapafúrdia da minha cabeça. Não é minha cabeça e não é o Murilo. É um problema que tá em mim, mas não é em mim como pessoa. Tipo, não sou eu, assim como não é de minha vontade ou algo que eu produzi.

Como um fôlego que preenche tudo por dentro, as coisas vão preenchendo seus sentidos, expandindo e clareando devagar.

Iara então interrompe, bem distante da guerra na minha cabeça.

— Você não tinha um abajur?

Isso me traz mais pra realidade. Ao mesmo tempo, é aleatório e... é, ajuda. Me faz focar em outra coisa e me faz falar sobre outra coisa.

— Ele parou de funcionar tem um tempo. Vinha me guiando só pelo celular... e pelo relógio digital na mesinha.

— Esse relógio não segura muito as pontas, né. Se importa se eu ligar minha lanterna? Quer dizer, eu posso?

— Vai lá.

Quando ela ajusta seu celular e ativa a função de lanterna, Iara aparece de repente toda iluminada, de baixo para cima, como uma grande resposta. E com uma grande careta besta. A língua está de lado e para cima, que, junto aos olhos, mostra um baita esforço de conseguir alcançar algo acima da própria boca. Quase sinto o impulso de sorrir.

— Não tô fazendo isso pra você rir não, tá. Tô só demonstrando a cara que o Fred fez hoje pra mim. Ele tava comendo um pouco de mamão nessa hora.

O Fred está entre nós. Suspiro, me deixando levar pelo tópico.

— Ele é bem chique. Porque mamão pode ser uma fruta cara.

— Ah, é a parte que a gente não come, então, na verdade, é um bom aproveitamento. Tô ajudando a natureza e mimando um camaleão.

Aproveito o novo silêncio que surge par"a tomar uns novos segundinhos pra respirar e me localizar em todo esse surto.

— I?

— Oi?

— Te amo.

— Do tamanho do universo?

Ela pergunta do jeito mais inocente possível e seu apoio consegue ser maior ainda. Sinto-me verdadeiramente agraciada por isso, mas, seguindo a linha de pensamento dessa frase clássica que transcendeu pelas famílias, o que respondo, ainda toda emotiva, é:

— Um t-tantã-ão... a-assssim.

Iara me abraça. Aos meus fungados e respiração alterada, ela me envolve com um afago. Logo complementa:

— Também te amo, Lena. Um tantão imensurável assim.

— Jura q-que... sim?

Iara me solta para poder afirmar sem meandros.

— Não só juro, como te provo. Vou ficar aqui até alguém me chutar fora.

Sei que brinca e sei que fala sério. Faço o mesmo, no máximo de ânimo que posso dispor ao momento.

— Vai passar a noite?

— Se preciso.

Toda retraída, ainda seguro na mão o pedaço de papel usado e todo o sentimento de culpa por alugar as pessoas, principalmente numa data tão especial.

— Mas, I... É o penúltimo dia do ano. Amanhã já vai ter a virada. Com festividades e tudo mais. É melhor que fique com sua família. Até porque esperou tanto tempo pra isso.

— Vou só fazer uma pergunta, Milena: você conseguiria ir pra uma festa se soubesse que eu estaria trancada no meu quarto não querendo ver o mundo?

Me mantenho cabisbaixa, olhando o papel em mãos.

— I... Fique com sua família.

— E eu vou, Lena. Mas não tendo que te deixar pra trás. É isso que eu tava falando ainda pouco. Pro mundo lá fora pode ser uma grande coisa, mas, na real, é só mais um dia. A gente pode reaver essas comemorações em qualquer tempo. Não tive eu uma semana inteirinha de aniversário? E olha que o Sol, que é o que movimenta todas essas festas, não tá nem aí pros humanos e suas ideias. Deve é rir de todas essas invenções. Ao mesmo tempo, podemos inventar qualquer coisa. Liberdade, é isso que tô dizendo. Temos essa liberdade. De tempo e espaço.

Quero lutar contra a sensação e ao mesmo tempo não quero tirar isso dela.

— I... Não quero atrapalhar.

— Ué, mas é isso que tô te dizendo. Não vai atrapalhar nada. Se não me engana, tem um país que comemora a virada de ano em outra data. Acho que é a China? Pois então, podemos entrar junto com os chineses. Ou não. Pode ser só os Milenares. Ou os Oliveiras. Do jeito que for mais sustentável... e confortável... pra você.

Fico sem ter o que dizer depois dessa. Antes que articule qualquer desvio mais, Iara me pega pela mão. O breu segue nos cercando e sua lanterna fica entre nós, a iluminar apenas o rosto de uma para a outra. O leal e benevolente dela, e o resistente e rígido meu.

— Acima de tudo, Mi, temos união. E das boas. E o que eu quero de verdade verdadeira não é nada de comemoração ou coisa do tipo. Quero o mais simples e bobo dos desejos. Quero... quero estar com minha melhor amiga. Se ela tiver ok de me receber. Tipo, sem pressão total. Com sorvete, pipoca, ou... só água. Danem-se as convenções. Não preciso estar de branco, nem de vestido de festa, nem de maquiagem elaborada. Quero sorrisos soltos. E não estando num hospital, ou naquela casa maldita onde passei a vida, tá super de boas pra mim.

— Posso pensar no caso?

— Com certeza. E só pra você saber, meu plano B é ficar de pijama jogando damas com o vovô Júlio, bem em paz. E sem vinho, claro. Já o lance da pizzaria, eu ia só porque você iria. Os outros Oliveiras podem seguir sem a gente, porque, né, uma hora a gente volta e curte uma festa só nossa.

— Obrigada, I.

— Disponha. Posso, aliás, trocar a música que tá tocando? Pensei aqui numa da Avril que é calminha também. Do mesmo álbum até e com um nome sugestivo que é só de coincidência mesmo. Tomorrow. Lembra dessa?

— Sei qual é. Acho que tenho no celular.

Entrego o aparelho e deixo – dessa vez, deixo – ela me levar para esse mundo sem pesos e sem pressão, agora com novos acordes.

Notas finais
Trechinhos do próximo? " — Pode lembrar de muita coisa a partir desse serzinho fofo aqui. — “Fofo” não é uma palavra muito forte para um [SÓ NO PRÓXIMO]?" e "— Mas, como te disse, ele foi logo atendido, o hospital é perto, e ele levou umas injeções. — Umas... injeções? Plural?" e "— Isso é loucura, Murilo! Pu-ra loucura. Levanto, desvairada dessa proposta insana. Porque é uma maluquice. Doideira. Impossível. Ele tá levando isso de tentar demais a um novo nível de... delírio." O que nos espera? CONFIRA JÁ!