Notas iniciais
A festa do pijama que você respeita! Enjoy!

— É verdade que você ainda não está... hã... inalável?

Depois dessa, Flávia gargalha alto enquanto tento tomar o celular dela para falar com o Vinícius. Ambas ouvimos Iara gargalhar junto no viva-voz. Ela, aliás, acrescenta, ainda muito risonha:

— Acho que a palavra é “respirável”. Vini, sério, afasta mais um pouquinho. E sai do meio da corrente de vento.

— Isso é bullying!

Nem preciso dizer que as duas riram de se acabar de novo. Bem, mamãe também. Na sala, estamos aproveitando um pouco da preguiça de domingo – e mimos da padaria que mamãe trouxe – enquanto esperamos Lucas chegar com o jornal falando sobre o evento. E, ok, admito, tento imaginar novamente a cena do Vini tropeçando e caindo num montinho de esterco. Não há nada que cure um mico que o mico do outro.

Daí se ouve um Vini ao fundo:

— Sorte tua que eu não tô podendo andar atrás de ti.

Seria essa a primeira picuinha magnânima dos irmãos Muniz – e ao vivo? Ok que o nome do meio do Vini é Menezes, mas batizei, tá batizado. Apenas sabia que Iara tinha uma nobre alma pentelha só esperando para desabrochar. Aqui já não é mais influência minha não!

Eu acho, né.

Além de selar de vez a fraternidade deles, conseguimos um dia a mais para ficar. Mamãe nunca ficou tão feliz por alguém se quebrar. Bem, foi uma torção, Vini tropeçou de mau jeito. Não inchou, nem precisou enfaixar, porém, ele não consegue firmar o pé direito ainda e acharam melhor dar pelo menos um tempo fazendo o mínimo possível. Com o pé pra cima de preferência. Por isso o Vini tá de castigo sem poder correr atrás da irmã, e sem poder viajar – pelo menos até amanhã – pra que a posição no carro esteja mais favorável pra ele, independente do que a Iara alega (que é ele ficar mais respirável).

Tadinho do meu Vini. Além de estar mancando, ainda não se livrou por todo do perfume agradável – e olha que ele tomou um banho de quase duas horas! Filipe diz que isso é mais boato que verdade verdadeira. O fato de não ter se livrado do mau cheiro, não o banho. Com esses dois carinhosamente se engalfinhando, imagino que o sogrão esteja mais calmo em relação ao que conversamos sobre Iara e esta viagem. Ela tem superado bem as expectativas.

Acho que todo mundo tem superado as expectativas, na verdade – eu inclusa. Ok, menos pela parte do meu celular, que pifou em uma hora... decisiva. Mas eu caí na real, valeu? E Flávia me enrolou a noite toda com esse babado do Vini. Isso que é prova! Só quando a gente tava voltando pra casa que ela contou que Iara pediu pra adiar a volta por um dia, explicando o que aconteceu. Mesmo sem me encontrar de pronto pra ver isso, Flá concordou na hora. Logo depois, o Vini ligou dizendo que não era pra avisar Djane, que iria se preocupar com tão pouco. Coisas de mãe.

Falando em mãe, a minha tá felicíssima por ter conseguido um tempo pra sua festa do pijama, hoje à noite. Ela não me deixa ajudar em nada, nem mesmo lavar uma louça. Do jeito que ela e vovó andam nos mimando, voltamos eu e a Flávia rolando. Mas nada arrependidas.

Olhando em volta, para meus avós procurando na tv o canal que fez cobertura do evento, mamãe retirando as bandejas de café da manhã da sala, Flá ainda ligada nos 220 volts. Suspiro. Viver o momento é o que há.

Antes que eu possa alcançar o celular da minha amiga pra colocar mais lenha da fogueira dos Muniz (sou dessas sim), a campainha toca e mamãe atende. Lucas chega triunfante com jornais na mão e pulo do sofá pra conferir as notícias em primeira mão. Acho que Flá concorda com a ideia de uma coisa de cada vez e a seu tempo, pois logo está ao meu lado, megacuriosa, sem o celular. De fato, temos bastante tempo para aporrinhar nossos amigos, mas muito pouco nesta estada.

De fato, neste momento, não tem o quê pra me dividir.

~;~

— Quem é você e o que fez com a minha mãe?

Estou cho-ca-da. Além de admirada com a minha mãe craque no jogo, estou chocada com ela ROUBANDO no uno. Quem foi esse cidadão que ensinou ela a roubar? Olho pro Lucas, desconfiada.

— Ei, não tenho nada a ver com isso. Mostrei as regras do jogo e só!

Mamãe, risonha, retruca:

— Vocês já ouviram falar de uma coisinha chamada INTERNET?

Ela estava era doidinha pra nos mostrar seus novos dotes de esperteza, por isso insistiu tanto numa noite do pijama. Que era pra ser só das garotas, mas daí, quem iria deixar Lucas e vovô de canto numa jogatina épica dessas? Pra deixar as coisas mais interessantes, mudamos várias regras e colocamos diversas prendas. Já perdi as contas de vovô caindo nas palavras proibidas e comprar carta. Toda hora alguém vira o jogo e cai um monte na minha mão. A Flá, coitada, não pode nem mais rir, senão se mija inteira, tá lotada de virar copos de água. Vovó também anda geniosa. Lucas acho que é o único que tá mais equilibrado, não pagou prenda, mas também não tá em má situação.

— A gente tem que se adaptar, né? Ah! Mostrei pra vocês meu iPad? Lindão! Já estou planejando umas mudanças com o centro pedagógico das meninas.

Além de trabalhar na livraria com meu pai, mamãe também desenvolve projetos com escolas. Acho lindo demais como ela se envolve nesse trabalho, como dá um up nas coisas à sua maneira. Também recebi um puxão de orelha dela – esse foi mais metafórico – por não ter lido ainda os livros que levei comigo desde o carnaval. Não tinha como explicar o quão difícil tem sido esse ano que eu mal tenho estudado. Ainda não tô nesse bom estado pra falar que provavelmente vou precisar de um dinheirinho extra pra cobrir as matérias que vou levar bomba. Dessa vez não vai ter salvação pra mim mesmo.

— Eu vi! Acho s-super bacana, dona Helena.

Minha amiga tá tão apertada, que já mal consegue falar. Mas também não se entrega. Talvez porque esteja mais na frente.

— Isso me lembra de te perguntar: conseguiu aquele estágio?

— Aquele da esco-la? Ainda não me deram resposta. Andei procurando uns, m-mas esse seria tão bacana, porque fica perto d-de casa e da... facul.

— Perto é pouco, mãe, fica praticamente na rua dela. Essa aí não sabe o que é um ônibus há décadas!

— Ei, eu peguei um na semana passada, v-viu!

— Não foi na hora de pique, não vale. Rá!

Consegui dar um banho de cartas na minha melhor amiga. Tô conversando, mas tô de olho. O bom de ter muitas cartas em minha mão é que ainda posso jogar muitas bombas. Estratégia, a gente vê por aqui.

Pelo menos agora ela pede licença e corre pro banheiro.

— O que acha de fazer umas aulas de direção, filha?

Estou tão alucinada rindo da situação que nem percebo direito as intenções de minha mãe quando fala isso sobre aulas. Só consigo pensar nas bombas das minhas notas, mesmo que já não surte sobre isso.

— Pra falar a verdade, anda bem apertado, mãe. Eu sei que devia ter feito antes e fui deixando, mas agora...

— Se a questão é dinheiro, não tem problema...

— Não, mãe, é o tempo mesmo.

— ... porque já estamos pensando na sua formatura.

— Oi? Formatura?

— Ah, seu pai queria fazer surpresa, mas se você não fizer as aulas antes, como vai saber dirigir o carro?

— EU VOU GANHAR UM CARRO? Por quê?

— Ora, por que, Milena? Porque você merece, filha!

— Mas um carro, mãe, é muito.

— Por isso já estamos pensando a respeito. Pra dar tempo de tudo.

Fico parada por um momento, de tão surpresa que estou.

— É sua vez, Milena.

E vovô só não ganha mais carta por falar uma “expressão proibida” porque estão ainda na minha mão. Não sei o que é, não é que eu não ache que mereço o presente, é só que essa minha resistência é tão natural pra mim. Orgulho. Ganhar minhas coisas sozinha. Percebo que é mais um daqueles momentos decisivos pra mudar – pra melhor – neste caminho que escolhi. São meros segundos olhando para minhas várias cartas, perdida nas estratégias, perdida em mim, até que jogo uma qualquer sem me importar.

Vovó pergunta algo pra mamãe, que ri e puxa conversa com Lucas e eu... Bem, ainda digerindo o momento que acabara de passar, eu vejo o jogo rolando, mas já não estou acompanhando as jogadas. Não demora muito que Flávia retorna à mesa, a tempo de mandar uma carta sem pensar muito, mamãe me acotovela. Acho que ela percebeu o porquê de eu estar fora do ar.

— Depois você pensa sobre isso, querida.

— Quê que eu perdi?

Flávia olha pra mim além de suas cartas, tentando esconder o jogo e entender qual era da chamada de atenção de minha mãe. Jogo mais uma vez.

— Só... coisas. Pra depois.

Pois é, coisas. Acho que algumas coisas a gente perde pra ganhar outras.

~;~

— E eles são o quê? Vampiros?

— Acho que não, mãe.

Após toda uma jogatina maluca (mas tão a nossa cara), mamãe não quis encerrar a noite sem um filminho. Eu que não ia dispensar mais essa oportunidade de aconchego – ainda mais com pipoca e chocolate quente. Como Lucas (que ganhou no uno!) não podia mais ficar, e vovô e vovó se retiraram para o quarto, ficou apenas eu, mamãe e Flávia. Fuçamos um pouco da Tv a cabo até achar um filminho interessante, que estava começando. Por algum erro da programação, não dava pra saber o nome do filme ou a sinopse, e embarcamos assim mesmo, pra descobrir o que era aquela história. A única coisa que sabíamos – eu e Flá – era que o longa não era recente, porque a atriz, conhecida por nós da série Gilmore Girls, estava bem novinha. Poderíamos ter dado uma googlada— ela, pelo menos, já que eu ainda estava sem celular – e preferimos o mistério. Só sei que desde o começo pareceu fofo.

E tinha algo de sobrenatural nele.

— É, eles estão no sol e... Oh, eles são...

Sentia falta das conjecturas de minha mãe a cada minuto. Ela é certamente o tipo de pessoa que reage a cada descoberta. Esse seu coração genuíno me lembra muito o Murilo. Eu geralmente já saquei o paranauê todo de longe, mas não estrago as coisas pra ela. Bem, pro Murilo talvez. Faz tempo também que não jogo um spoiler pra ele.

— Ao parece eles são, mãe.

— Essa água!

— Uma fonte da juventude!

Flávia também endossa a descoberta. Assim que entra na propaganda, termino minha xícara assistindo minha amiga e mamãe discutirem sobre o que fariam se tivessem acesso a uma fonte tal qual do filme.

— Ah, não sei se eu iria querer ser imortal... Parar assim, no tempo. E se eu tivesse parado antes de ter meus filhos?

— E se a senhora tivesse parado depois de tê-los? Poderia, não sei, vê-los crescer e ter a certeza de que não iria... bem, morrer. E viver um felizes para sempre.

— Mas aí eu ganharia outros medos. Medo de ser descoberta, medo de... sei lá. Teria que ficar me mudando de tempos em tempos. Ficaria um pelo outro, e acho que perderia mais do que ganharia. Não me parece vida isso.

— Concordo com você, mãe. Acho que ser jovem pra sempre pode ser só um grande desejo de não perder algumas boas coisas da vida, mas a gente tem que mudar, né? Crescer, digo. Fazer a vida acontecer, não congelar simplesmente.

— Ah, mas um problema e outro a gente pode contornar, como na vida real. Como dona Helena falou, ficaria um pelo outro. E é uma escolha. Acho que eu gostaria de me reinventar de tempos em tempos pra conhecer mais da vida, das pessoas.

Já pouco mais de meia-noite, entra mais uma propaganda em um ponto angustiante do filme, que mamãe estava em lágrimas sem nada concreto sobre o destino da personagem, daí que eu falo que ainda não era o fim do filme pra chorar daquele jeito, e a Flá... ela solta informações.

— Ah, Lena, e tu ainda chora vendo Titanic! E tu já assistiu milhões de vezes.

— Ah, bonita, e tu chora com A Era do Gelo!

A gente tá rindo, mas por dentro já estou jurando meu melhor amigo de morte. Mamãe ri junto, aparando umas lagriminhas que estão enchendo seus olhos. Por um momento penso que pode ser só de emoção de estarmos juntas por tão pouco tempo, no entanto, prefiro acreditar que é do filme. Suaviza mais minha saudade, mesmo ainda estando aqui.

Levanto com a bacia de pipoca pra buscar o restante, pra próxima parte do filme, que imagino ser o final. Antes de mais nada, não deixo de declarar:

- Cara, o Gui é mais fofoqueiro que a Gossip Girl!

— Góssipe o quê?

Anos de Tv a cabo e mamãe ainda não explorou os canais de séries. Vai entender! Ela me pede dicas e quase nunca assiste. Tô há anos tentando fazê-la assistir ao menos Gilmore Girls, que é uma série familiar.

— Explica pra ela, Flá, que eu vou ali rapidão. O Gui que me espere!

Aproveito também pra levar as xícaras sujas pra pia. Avisto vovó vindo do corredor, indo para a cozinha. Nos encaminhamos juntas e ela me pede água. Coloco primeiro as xícaras na pia no ponto pra não dar formiga e então pego água da geladeira pra vovó, que retira um copo da dispensa e se encosta na bancada da pia, pensativa.

— Com o movimento desses dias, esqueci de perguntar. Você vai ficar esses dias todos em casa? Sozinha?

Já imaginando o que ela está pensando, respondo:

— Não, vó, vou ficar na casa da Flá. Um porque é mais próximo da facul e ajuda no caso das caronas; dois porque a irmã dela vai se mudar essa semana pro apartamento próprio e a Flá quer companhia; e três, que eu sei que a senhora pensou, mas não, quero dar privacidade pra Djane.

E pra mim também. Bem que a sogrinha ainda reforçou seu convite. Negativo, já turistei demais na casa dela.

— Faz bem, querida. Mesmo te apoiando neste relacionamento, não é bom viver assim... Com o namorado. Bom senso sempre.

— Pode confiar, eu tô... reavaliando algumas coisas.

— Que tipo de coisas?

Vovó me espia sorridente enquanto bebe sua água de golinho em golinho.

— Coisas como... sair no jornal. Com citações!

Aí sim que mamãe vai emoldurar a matéria.

— E por que não? Não gostar de aparecer muito é normal, mas uma vez e outra na vida... Faz bem.

— Ah, a senhora é mais diva.

— Também me costumei a não me valorizar assim, querida. E cá estou eu, em vários jornais falando do meu trabalho. Eu só vim a aprender isso um pouquinho tarde.

— Por isso subiu no palco e leu um texto?

— Por isso e dentre outras... coisas.

Ela toma mais uns goles pequenos de sua água, risonha.

— Mas voltando ao caso de você ficar fora de casa...

Compartilhando seu riso enquanto derramo o restante da pipoca para a bacia, digo a ela:

— Vai ficar tudo bem, vó.

Mas por um momento, ela parece preocupada. De verdade. Não compreendo.

— Vai?!

— Por que não ficaria?

— Você pode me contar, querida. Melhor, eu já sei.

Ao vê-la assim, baixando os olhos para seu copo, fico tão sem ação que nem sei bem o que dizer. Os pensamentos correm desembestados tentando entender como, o que poderia ter...?

— O que q-quer dizer?

Ela suspira.

— Eu sei que tem algo que vocês não estão contando.

— Vocês quem, vó?

De repente, alarmada, sinto minha mão suar. Assunto perigoso!

Tento ao meu máximo não transparecer.

Vocês. Sobre a Denise. Eu sei que ela fez alguma coisa pra vocês, só não sei exatamente o quê. Eu sei que meu neto foi pra lá pra consertar algo e esse algo não foi o seu tio. E sei que seu pai e seu avô sabem o que é.

Um arrepio perpassa pelos meus braços como se eu tivesse com muito frio. Mesmo de camisa de mangas, posso sentir todos os meus pelinhos eriçados pelo que me diz. Eu, claro, fico toda sem maneiras.

— Vó...

Ela suspira novamente, desta vez mais condescendente.

— Eu sei por que vocês também não me contaram. Meu coração.

— Ai, vó...

Não consigo dizer mais nada. Apenas sinto que não devo negar. Aperto os lábios inquieta. Muito calma, ela acrescenta.

— Não tem problema, eu entendo a postura de vocês.

Solto o ar que nem percebi estar segurando e respondo de imediato, como se fosse possível convencê-la assim tão rápido. E acho que convence mesmo.

— Estamos resolvendo.

— Espero mesmo que ela não consiga nenhum recurso e permaneça presa.

E assim simplesmente minha avó toma seu último gole, coloca o copo no lugar, e percebo que ela não quer falar do assunto propriamente, mas também não quer que eu fique com isso na cabeça. Recebo seu afago e beijo na testa. É bom e ruim a sensação. Ela sabe. De alguma forma. E está confiante. Esperançosa.

Ainda lenta, assisto vovó seguir seu caminho de volta para o quarto. Mais uma vez fico fora do ar pelo que parece séculos, daí ouço Flá e mamãe me chamarem. Termino de ajeitar as coisas na cozinha meio atrapalhada e sigo para a sala, já nem ligando sobre o Titanic, A Era do Gelo ou a fonte da juventude.

A gente escolhe um caminho e não quer dizer que ele é fácil.

Mas, como nos filmes, eventualmente vai ficar tudo bem.

De alguma forma, sei que vai.

Notas finais
Sem spoiler, pq COMBO DE NOVO!