Notas iniciais
Penúuuuuuuuuuuuultimo.
Mas calma, que tem coisa boa e... eis mais momento família :) Não sei quem mais quer chamar atenção, dona Helena e Murilo são de um páreo duro, sem falar de Vinícius e a sogrinha muito amiguinhos. Coração de Milena aguenta esses três?

Tem tbm um flashback muuuuuuito amor sobre o pai (adotivo) do Vinícius.
Enjoy.

Já tinha ignorado umas ligações, que tocaram, tocaram e tocaram até cair, e então sinto alguém perturbando meu sono novamente. Tão distante ouço meu nome, que se aproxima cada vez que o escuto, até que me irrompem do inconsciente ao consciente. Encontro um rosto que delineou o meu, minha mãe de cara emburrada, deitada ao meu lado na minha cama.

– Bora, Milena, acorda.

– Mãe? Quê? Que foi?

– Hoje é sábado.

Isso deveria significar alguma coisa? Minha mente caça alguma informação dessas num espaço de 5 segundos e retoma sem respostas. Não exteriorizo, ela poderia ficar mais zangada. Conheço a mãe que tenho... Dramáaaaatica.

– E...?

– E vocês vão embora amanhã!

– Então acorda o Murilo.

O que quer que ela queira dizer, ela pode ir atrás dele e me deixar dormir. Me viro, puxo o lençol de volta. Não adianta, porque mamãe trata de desfazer tudo.

– Ele tá acordado, filha. Só falta você. Queria sair pra passear com vocês, tirei o dia de folga, mas com esse seu sono todo já perdemos a manhã praticamente. Bora, levanta, tá na hora. Até seu namorado tá de pé.

Ela me convence a abrir os olhos.

Mentira, ela praticamente me expulsa da cama. Tem momentos na vida que ela sabe ser bem bruta e essa é uma dessas horas. Arranca o lençol que me cobria por inteiro, joga meu travesseiro pra outra cama e se arma decidida em seus braços cruzados ao pé de minha cama, esperando uma reação minha. Eu? Dou um gritinho estridente pelo frio que me acometeu. Apesar de não usar o ar-condicionado num frio extremo, os dias têm sido meio gelados por si só, sem falar do tempo nublado quase o tempo todo. Umas chuvas hora e outra caíam, mas trovões mesmo, graças que não mais. Mamãe se mostra sem pena alguma de meu choque térmico, encolher-me parece nada pra ela.

– Eu não vou sair daqui, Milena.

– Mãe! Isso é... isso é...

– Isso é destrate seu para com sua adorável mãe.

Não tão adorável no momento. Quem seria eu se dissesse isso? Capaz dela jogar água em mim, eu não duvido.

– Tá, já acordei. Satisfeita?

– Não. Você. Café da manhã. Em 10 minutos no máximo. Quero usufruir de meus três filhos enquanto posso.

E sai, deixando uma Milena de sobrancelhas em pé. Três filhos?

Só se for o Vini... Mas ela não estava, tipo, com certa raiva dele? Vinícius mesmo percebeu um comportamento diferente dela, comentou num outro dia. Não era bem raiva que ela tinha dele, era só a mostra certeira de que eu não era mais uma bebezinha como mamãe costumava crer. Se eu soubesse que não ser mais virgem significaria toda essa mudança, talvez já teria feito pra provar quem era? Não, provavelmente não, isso não é bem uma coisa pra se deixar manipular por justificativas. Seria idiota se o fizesse.

Mas o que foi que perdi de lá pra cá? No dia que mamãe surtou ao saber, ela nem se dignava a mencionar o nome de Vinícius, agora voltou a considerá-lo como filho? É certeza, alguma coisa eu perdi.

~;~

Na tela LCD da sala de casa vejo nos bonequinhos de um jogo de corrida. Quando saí apresentável de meu quarto para tomar o café da manhã, encontrei os três (mamãe, Murilo e Vinícius) gritando e pulando para a Tv, de onde saíam fios que ligavam seus controles de videogame. Parei atrás deles só pra observar a cena, que não era bem inusitada se tratando de mamãe no quadro, porque outras vezes ela já jogou com a gente, eu é que não sabia que dava de três jogadores por vez. Foi então que prestei atenção à tela, ao jogo, que, fragmentada em três cenas, nos dava acesso à câmera de cada um na pista. Mamãe estava ao meio, Murilo a sua direita e Vini, à esquerda.

Como todo período de chuva, as pragas aumentam nos metros quadrados de uma casa. Uma delas parecia azucrinar Murilo, que se remexia mais que os outros e isso provocou seu descontrole na jornada do jogo, o que levou ele a bater no carrinho de mamãe. Ela gritou para ele “sair pra lá, senão ele sabia muito bem o que levaria”. E levou, um pequeno tabefe na testa por ter feito os dois pararem, o que levou o boneco de Vinícius a parar também, talvez para não se aproveitar da situação e vencer a corrida.

Nisso, meu namorado aproveita, rodeia o sofá para me encontrar e me dar seu beijo de bom dia, porém, com um pigarreio de sua sogra e cunhado juntos, ainda de costas, ele apenas ri e toma uma mão minha para levar aos lábios, sem perder o contato visual. Depois me puxa para a cozinha onde o café-da-manhã me esperava. Da sala só se ouve o grito de minha mãe:

– Perdeu, playboy. Tô falando é de ti mesmo, Vinícius.

Ele dá de ombros, não lhe importava o jogo tanto assim. Já eu, tive que retrucar:

– Às vezes me pergunto quem é minha mãe.

– Às vezes me pergunto quem é a minha. Mas minha pergunta do dia é, café, ma lady? Quero que tenha energia pra derrotar todos na sala.

Gentil, puxou uma cadeira para que eu pudesse sentar. Deixou a garrafa térmica para que eu me servisse e sentou na cadeira do lado. O riso não saía de seu rosto, satisfeito.

Oui, ma joli garçom*. Até você quer ser derrotado?

* “Claro, meu garoto bonito”.

– Já entreguei os pontos, desde que abri os olhos naquela noite, dois meses atrás.

Nessa manhã fazia dois meses integrais que acordara no hospital após meses de coma. Para ele não haviam passado mais que horas desde o acidente, deixando suas aflições bem frescas, muito bem memorizadas para explodir quando sua mãe me arrancou do quarto. Foi naquele momento que tudo começou.

– Pra quem sofreu um terrível acidente e bateu a cabeça seriamente nele, você lembra bem de datas.

– Tenho grandes razões pra isso.

Sorver o líquido quente e sorrir é um perigo, constato, ao sentir queimar minha língua e céu da boca. Assim deixo o assunto de lado e puxo outro, curiosa dessa vez:

– Não sabia que podia jogar três por vez na corrida.

Se mamãe foi na casa de Lucas pedir o pluggin de um player de videogame emprestado? Ela foi, acredite. Ninguém além de Vini ficou surpreso, o que o fez gostar mais ainda da dona Helena, sua sogra.

Foi só falar sogra, que a minha ligou. Melhor dizendo, retornou a ligar. As chamadas perdidas eram dela e de Flávia. Vini queria que eu deixasse a mãe dele na mão e fosse jogar. Negativo.

– E por gostar da sua que eu vou atender. Tu tá andando de mais com a minha.

– Com medo de ela me contar histórias suas de criança?

– Histórias eu mesma conto, medo tenho é das fotos que ela vai mostrar. Se já não mostrou. Mostrou?

– Hum. Pergunta interessante.

Uma expressão perspicaz toma seu rosto, pensando longe. Levanto para pegar o celular na cômoda que deixei e volto para tirar-lhe a presunção e suspense. Como quem não quer nada, faço dos seus planos os meus antes de finalmente atender a ligação:

– É, né? Vou consultar Djane pra saber das suas também... Oi, sogrinha, bom dia! Feliz dia do belo adormecido. Ou devo dizer belo acordado? Só acordado, melhor. Ele tem andado muito com Murilo, tem aprendido a se achar também.

Da sala se ouve outro grito, de meu irmão dessa vez:

– HEY, EU OUVI ESSA!

~;~

Com o celular numa mão para mantê-lo no ouvido, com a outra aponto para minha mãe, para que fique no quiosque tomando sua vitamina. Apesar de um dia bem coberto pelas nuvens, o frio da manhã se dispersava para dar lugar a um começo de calor. Depois de uma caminhada pelo parque arbóreo relativamente perto de casa, mamãe insistiu que todos experimentássemos uma batida gelada numa bancada que abrira um tempo atrás.

Parecia ser muito boa, pois o que mais tinha era gente pelas mesas e bancos da praça consumindo tal bebida. Só eu não tive a oportunidade de tomar porque meu celular vibrou e, querendo falar com minha amiga, preferi me levantar da mesa. Flávia já havia me ligado outras vezes, me ligou logo depois que falei com Djane, mas como mamãe me exigiu atenção, só disse a ela que tinha coisas boas para contar antes de desligar e deixar aquele comichão de curiosidade nela, justamente o tipo de atitude que ela odeia quando faço.

Por isso me mandou mensagem, pra saber se eu já podia falar. Gostava de brincar com essa teimosia de curiosidade dela, mas já não queria torturar tanto. Quando levantei dizendo que ia ao banheiro, mamãe se ergueu junto dizendo que iria me acompanhar. Negativo, disse a ela. Queria me seguir pra onde fosse, me respondeu, não queria perder um minuto. Muito obrigado pela parte que me toca, retrucou Murilo.

– Mãe, eu volto. Eu conheço aqui e não vou me perder. Olha, vou deixar minha bolsa. Quer garantia maior?

Falei brincando como se fosse realmente por isso. Contrariada, sentou-se novamente em sua cadeira e Vini deu um jeito de distrai-la. Saí antes de ouvir que papo ele puxou com ela, achei que fosse melhor não descobrir.

Cheguei perto dos banheiros, porém, não entrei. Fiquei foi num banquinho lá de onde ninguém me veria. Liguei para Flávia, que prontamente me atendeu.

– Finalmente! Pensei que você não mais me torturasse. Voltou com essa brincadeira, foi?

– E nem tô. Mas posso voltar, a qualquer momento.

– Engraçadinha. Agora quero saber tudo. Ai de ti se disser que só conta quando chegar aqui, Milena Lins!

– Mas eu volto amanhã, não seria tanta espera.

– Ah, e pra me fazer falar desembestada sobre o Gui você não esperou, né? Praticamente arrancou de mim. Me senti violada. Posso te denunciar, sabia? Crime com ameaça gravada.

– Uma pena que não conheço advogados... Sabia que nem toda prova criminal pode ser considerada dentro de um julgamento?

– Para de enrolar e começa a contar.

E conto. Mesmo tentando resumir, ela me instiga a falar mais, o que me faz me sentir mais plena de falar abertamente sobre o assunto com ela. Não é Vinícius que fala com Murilo? E não são as mulheres que falam tudo umas para as outras? Tenho direito, oras! Só consegui arrancar a história dela com Gui porque impliquei de que se ela não contasse, eu não relataria como tinha sido o jantar oficial que teve com minha família, apresentando Vinícius como meu namorado.

Só uma coisa retruquei basicamente quando ela me soltou sua história: não era a toa que ela adorava estudar em grupo, pois foi assim que olhares, percepções e outras coisas mais aconteceram com Gui. Quando ele ficou pra final numa de nossas últimas provas, foi estranho ela recusar ajudá-lo, chateada pela história dos pais dele não a aceitarem. Apesar de ainda não terem aceitado de fato, ele agora a assumiu, disse que se não aprovam, problema o deles, porque não ia deixar uma boa pessoa como Flávia passar por puro capricho dos pais.

Nesse momento me passou pela cabeça a história que Vini havia me contado sobre Becca, de quando começou toda a farsa sobre eles começarem a namorar. O pai a empurrava para um sujeito que ela não queria. Vini só se encontrou num momento de uma das discussões e ela o declarou como namorado, sem mais nem menos, sem mesmo pedir o consentimento dele, por força da situação. Só então combinaram o tal plano de fingir.

Com Gui era mais ou menos assim, só que ele costumava se sujeitar mais à família. Horrível de se pensar, mas seus pais queriam que ele ficasse com alguém com fins interesseiros mesmo. Flávia pode não ser da elite, mas vem de uma das melhores famílias que conheço, sem falar no próprio caráter e ternura que tem. Becca enfrentou o pai na tal ocasião de festa onde Vini estava, enquanto Gui, ele encarou os pais e aceitou seus sentimentos, não porque Flávia estava ali por acaso, mas porque ela significava muito para ele. Tem como não ser fofo isso?

Infelizmente os detalhes sobre a reconciliação deles na temporada que ficaram pela minha cidade, isso eu ainda não consegui arrancar. Ela que me espere, porque já tenho moeda de troca pra ouvir essa história! Mas muita calma nessa hora, não quero fazer muito alarde antes do tempo, é melhor guardar para o gran finale. Assim conto a ela sobre toda a surpresa de Vini, a parte planejada, furada e improvisada. Para mim, dizer cada momento era revivê-lo um pouco, era motivo pra sorrir facilmente. Tudo estava bem fresquinho na minha mente, então pude falar mais boba que o normal.

– E o que foi a surpresa final?

Parece que ela estava quicando do outro lado.

– Ele planejava sim me levar para a praia no fim das contas. Como o cinema furou, ele não quis se adiantar, até porque estava muito cedo. Depois daquela conversa sincera que eu tive com ele, logo após o incidente do vaso, de como poderíamos levar nosso relacionamento, tanta coisa mudou, Flá! Ele me faz querer ser mais comunicativa e participante, não só ouvinte, um papel que costumei desempenhar. Agora conversamos tanto que não conversar com ele por qualquer coisa me parece estranho. E nem precisa ser uma coisa séria. Por que você me deixou ficar tão longe dele?

– EU? É sério que tô levando essa culpa? Ele faz merda e eu que saio manchada?

Risco o chão com o pé rindo de sua indignação. Se tivesse esperado para ter estado em casa ou na dela, a essa hora eu já tinha levado uma boa travisseirada na cara.

– Eu sei, eu sei. Quis dizer que você sempre o defendia, mas poderia ter defendido mais, me convencido melhor.

– Epa, quem tem isso aí de persuasão é ele, não eu. Não me venha com essa história, não.

– Tô brincando, boba.

– E então? Ficaram na praia mesmo?

– É, descemos para a areia, chegamos perto do mar, fomos para umas pedras.

– Ah, o amor, o luar...

– Estava nublado. Mas deu pra ver a lua. Estava sinistramente linda.

Estava mesmo. Um amarelado meio branco de contraste a pesadas nuvens. Não eram tão escuras, só muitas mesmo querendo encobrir o traço de lua crescente que queria atenção. O vento era intenso e a força das ondas era forte, batiam nas pedras onde estávamos sentados e respingavam em nós. Mas frio não havia, não com ele.

– Dá pra suspirar do mesmo jeito. Motivo ou companhia é que não falta.

– Mesmo se estivéssemos presos numa solitária, o branco das paredes almofadadas seria meu luar, porque depois do que ele me disse, nada mais me tiraria daquele momento.

– O-que-ele-disse-O-que-ele-disse-O-que-ele-disse?

– Primeiro me contou sobre seu pai. O que morreu, não o que bati.

– Grandes referências as suas.

– Acredite, eu sei... Ele me disse que umas coisas da vida dele e... sobre uma conversa que teve com meu avô. Lembra daquela implicância? Vovô foi pedir desculpas por fingir que estava “defendendo minha honra”, quando na verdade ele só tinha medo de aceitar que eu ficaria longe. E comentaram sobre a noite da apresentação oficial, sobre quando Vini disse que me amava. Ele então falou para vovô que era verdade, apesar de recente e de tudo que passamos, o que ele sente é... é forte. Para qualquer um aparenta ser apenas um “primeiro estágio”, como descreveu, e foi aí que me disse, que não importava se fosse uma primeira fase, ele quer desenvolver isso. Que não tem pressa. E adivinha?

– Own. O quê?

– Papai tanto ouviu quanto entrou na conversa. Foi na quinta, no dia depois da minha crise da madrugada. Me retirei para dormir mais cedo porque tinha muito sono perdido, então nem tinha como eu ver isso.

– Que babado!

– E num é! Eu já tinha morrido quando ouvi naquele jantar ele dizendo pra toda minha família que me amava e agora... isso. Que coração aguenta, me diz?

– O seu, pelo jeito.

Não, o meu parecia que iria sair pela boca pra quicar nas pedras. Sinto-o novamente querendo fazer isso quando fecho os olhos e... estou lá, Vinícius de cabeça deitada no meu colo enquanto brinco com seus fios que começavam a crescer. Ainda curtos não balançavam tanto, não bem como os meus cabelos, que tive que prender, e ele começou a tentar puxar o amarrador.

– Ficar na sua casa, conhecer sua família... me trouxe memórias de meu pai. Minha mãe também, claro, mas ele em especial. Por essas épocas sinto muita falta dele. Antes ficava semanas pensando no presente que gostaria de ganhar dele. Hoje posso pagar o que quer que seja, mas não tem aquela coisa de “meu pai é que vai me dar”, de que ele vai estar lá para isso. O presente era só um objeto, ele era a presença.

Ouvia bem o que dizia, só ficava tentando abaixar sua mão que tornava a tentar puxar o amarrador de meu cabelo. Dizia que gostava da minha versão descabelada. Pode isso? Não, não pode.

– Se você puxar meu amarrador mais uma vez, eu vou lá pra reclamar com ele.

– Então vou puxar, porque ele disse que gostou de você.

– Quê?

– Acho que acabei pensando demais no meu pai que... sonhei com ele. Eu chegava em casa, sentava no sofá... Na mesa vi que alguns de seus pertences estavam lá, coisas de seu trabalho. Acreditei que estava ali, mesmo depois de muito tempo, então fui por todos os cantos da casa, procurá-lo. Ninguém estava lá...

– E então?

– Fiz o que fazia todas vezes que senti que precisava pensar nele... subi para o telhado. Peguei a escada, e antes chegar lá, vi que estava sentado onde eu costumava sentar. Feliz como nunca fui sentar próximo dele, que me abraçou de lado. Sério, Lena... a essa hora, pra mim podia, sei lá, fazer nada, e eu permaneceria com a mesma felicidade.

Virado pra mim eu testemunhava a emoção que estampava sua face, o sorriso aberto, os olhos concordantes, as sobrancelhas divertidas. Nunca perdi ninguém tão próximo para saber bem como é essa sensação, se é mesmo alguma felicidade, ou apenas saudade. Sorrio minimamente sem interromper seu relato.

– Aí ele disse “conheço esse sorriso”, como ele costumava fazer quando eu fazia algo bom e sorria discretamente. Respondi que era por ele estar ali, o que ele desdenhou, afirmou que era algo mais e pediu para contar. E contei... sobre você.

– Vini...

Se ele queria me emocionar, estava conseguindo!

Nem consigo imaginar o que pode ter dito ao pai.

– Foi breve. Num minuto estávamos no telhado, noutro, na casa de meu avô perto da piscina. Sabe como os sonhos são estranhos. E então estava no quarto de meu avô, sozinho.

– Djane já me falou algumas vezes dele. Gostaria de tê-lo conhecido.

– Gostaria de ter apresentado vocês.

Sua mão fez carinho por meu rosto, o contato visual é firme. Apesar de ser uma noite um tanto escura, posso ver seus olhos e através deles, suas intenções. Sei que tudo é bem confidencial, que não é para qualquer pessoa que ele fala isso. Além de mostrar que confia em mim, sinto que quer demonstrar que posso confiar nele, como tantas outras vezes ele proferiu.

É o que mais quero, mas não é simples assim para mim. Muita coisa ainda me é recente, além de que esse costume de guardar as coisas é difícil deixar depois de tudo. O que oculto não é bem tipo de coisa que se fala simplesmente também. Juro que tentei... só vi que não valia a pena. E ainda não vale.

Além do mais, não é só isso. Vinícius sabe demais, fato muito consciente meu. Sei que sabe, ao contrário do que ele pensa. Lidar com isso é algo que queria descobrir, porque nem mesmo abordar sei como. Tanto ele quanto meu irmão.

– Alô? Lena? Tá me ouvindo? Alô?

– Oi!

Fácil ficar na nossa bolha e esquecer o mundo assim. Ao levantar, vi minha mãe na minha direção me procurando. Mostro que estou ao telefone, mandando-a de volta.

– Me distrai com mamãe. Descobriu minha escapada.

– Ah, sim, ela não quer te largar hoje. Entendo. Tá liberada então.

– Beijo, Flávia.

– Te vejo segunda então.

– É, tenho um babado que preciso contar. Tchau.

– O quê? Outro? Milen...

Desligo na cara dela de mal. Adorava jogar uma bandeira e sair correndo. Desligo o aparelho também, sabia que iria retornar. Não poderia contar, de qualquer forma, porque ainda não aconteceu... só tenho as prévias reações dos dois homens de minha vida. Tenho que primeiro viajar de volta com Iara no carro para saber e então passar o relatório completo.

Retomo o caminho para a mesa, para a alegria de minha mãe, que faz aquela cara de “até que enfim”.

– E esse sorrisinho, hein, filha?

Uma música tocava na barraca de jornal ao lado e é por ela que respondo. Sabia que não era a versão original, mas dava para o gasto. Sento na cadeira e toco o ombro de Vinícius que sorri ainda mais, ele gosta de me ver cantar.

Trilha citada: Glee Cast – You And I (01:40)

http://www.youtube.com/watch?v=AqsqP7rlyG8

Something, something about my cool Nebraska guy…

Já o próximo verso direciono para minha mãe, encantada em me ver cantar, que também pouco vê.

Yeah, something about, baby, you and I.

Rimos todos sem por que exato. A música continua rolando, ao que parecia guiar para o final. Mamãe me beija o rosto enquanto lhe digo o que significava os trechos que citei. E então solta a bomba:

– Ainda bem que Vinícius me contou sobre a noite que você subiu no karaokê da festa de Flávia. Se dependesse de você, nunca saberia.

– O quê? Que ultraje, mãe! Eu disse sim!

– Mas não os detalhes!

Fuzilo Vinícius, que joga as mãos pra cima pra tirar o seu da reta. Murilo, na sua, se divertia, pois naquela cara não lhe faltavam covinhas da polêmica que mamãe abria. Só porque não era com ele. Estapeio de leve o ombro de Vinícius, que nem liga.

– Pra ela você diz, né? Quando é comigo, tenho que arrancar de Djane!

– Ora, vocês duas não são amissíssimas? Nós também. Bate aqui, dona Helena!

E ela bate. Levanta na cara-de-pau só pra juntar a palma com a dele. Boquiaberta, fico indignada com o que vejo. Acho que era o que eu mais temia dos dois, de um bom jeito.

– Mãe! A senhora tá passando para o outro lado da força?

Faço meu teatro, levo a mão ao peito com falsa surpresa. Ela, todavia, se mostra irredutível. Estava adorando, na verdade.

– Contando que me mantenham informada, sim.

Apelo.

– Murilo, faz alguma coisa! Para de rir!

Ele só para é pra respirar, porque engasgou momentaneamente com a vitamina que tomava. Tossiu levemente antes de me responder, saindo de sua posição largada na cadeira para se debruçar à mesa e ficar mais perto, já que estava a minha frente na mesa quadrada. Pelo jeito incluí-lo na conversa o fazia mais alegre.

Só porque não o perdoei não quer dizer que o odeio forevermente. Ele é meu irmão, poxa, uma peste, uma poia, um cachorro, um safado... e o amo desse jeito, para sua sorte. Mesmo não muito ligada a ele no momento, é complicado deixá-lo de fora. Além do mais me prometi um esforço mútuo, então era isso que eu estava fazendo para recuperar minha relação com ele e aperfeiçoá-la.

– Eu? O que quer que eu faça?

– Não sei, algo útil.

– Acho que não tem muitas opções.

Ele balançou a cabeça após analisar brevemente a situação. Tinha razão, eu estava em desvantagem... então pensei em deixá-lo também, pra que soubesse como o que é. Ergo o queixo e declaro serinha:

– Ok, vocês dois... estão me fazendo tomar atitudes drásticas.

Faço um pequeno suspense com uma respirada profunda antes de tomar uma postura meiga, puxar as mãos de minha mãe, fuzilar Murilo. Solto minha granada:

– Mãe, o que a senhora estava me perguntando no outro dia sobre a Aline mesmo? Sabe, Vini também pode lhe contar algumas coisas pelo visto.

Antes mesmo de Vinícius se render, Murilo quase pulou para cima dele para lhe tapar a boca. Nem preciso dizer que minha mãe ficou esfuziante pela notícia, e que Murilo sentiu na pele o que era ser um alvo. Fiquei esperando que fizesse algo enfim.

~;~

O maior erro que um homem pode cometer quando se trata de mulheres e compras é de se oferecer para carregá-las. E para acompanhar. Principalmente se humor delas estiver ótimo para tal feito. Se bem que meu irmão não tinha bem se oferecido, mamãe só começou jogando tudo pra ele e foi Vini, em seus bons modos, que se ofereceu pra dividir. Não demorou muito para Murilo querer se aproveitar da situação, jogando umas sacolas para o lado de Vinícius, quem nem se importava:

– O bobo apaixonado é você. Toma.

– E o bobo irmão é você.

Mamãe entrou no jogo:

– E filho!

– Mãe! Já chega, faz horas que rodamos por esse mercado. E ninguém nem pra se lembrar de comprar algo pra mim.

A gente abre uma porta e ele já quer dominar o quintal do nosso coração. Esse é meu irmão, sendo ele mesmo, carente e puxando a atenção. Vendo barato. Posso até dar desconto...

– Nem parece que eu te dei algo. E esse óculos escuro que tu tá exibindo aí, quem foi mesmo que comprou?

– Isso foi ano passado. Tô com 7 sacolas, nenhuma pra mim. Mulheres...

Ok, entrego sem pedir dinheiro algum.

Deixo na porta para quem quiser levar. Leva, pode levar.

– Murilo, eu não te ensinei isso, ensinei?

Mamãe para no corredor de lojas que caminhávamos os quatro. Melhor eu não responder essa de minha mãe. Pra enrolar, me viro para meu querido irmãozinho.

– Sabe, eu já tava pensando em comprar algo...

– Sério?

– ...mas perdi a vontade por você ter resmungado.

– Parei com vocês.

Revirei os olhos quando mamãe se deixava cair pelo drama dele, o que nos levou a uma loja de roupas masculinas. Estando por lá, ajudei Vinícius na escolha de um boné, enquanto Murilo era o lindo que ficava tirando e colocando umas mil camisas. Dado um tempo, que a fome começava a despontar, fui lá perto dos trocadores, de onde mamãe opinava, e lhe gritei:

– Bora, Murilo, tô com fome.

– Hey, eu vi tu experimentar vestidos, blusas e shorts. Minha vez.

– Tua vez de experimentar vestidos, blusas e shorts? Te conheci assim não, hein.

Não pude deixar de notar a virada nada discreta que a atendente da área de trocadores fez para nosso lado.

– Porra, Milena, já tô acabando, tá?

Os pasteizinhos de entrada no restaurante era o que segurava minha fome. Papai tinha combinado secretamente com mamãe de fazer um jantar todos em família fora de casa. Ele iria se atrasar, mas no fim quem se atrasou fomos nós que saídos direto das lojas para o estabelecimento. Quando fui me sentar, apontei logo quem tinha sido o culpado. Papai tinha aquele sorrisinho de canto feliz por nos ver brigando que nem gato e rato culpando um ao outro. Não brigarmos assim que era motivo de preocupação.

Vai entender os pais...

– É hoje que vocês pagam a promessa.

Sinistramente, declarou nosso pai. De queixo apoiado às mãos entrecruzadas após o jantar de conversas, isso meio que calou todo mundo, na espera de algum complemento que desse a dica.

E, verdade, ele disse que não esqueceria... Não esqueceu.

Notas finais
Alguém lembra da promessa?
Dica: JOGATINA!