Notas iniciais
Shippers de Milena & Vinícius, espero que gostem do capitulo. Mto amor ♥

P.S.: se tiver txt grudado, é a plataforma do Nyah sendo atualizada. Tem hora que sai tudo grudado, não importa o quanto eu edite.

O ano novo se aproximava e com ele as esperanças de que as coisas se renovassem, tomasse rumos bons e abrisse portas para umas boas realizações. Não sou bem do tipo que olha pra trás e capitaliza o que fez de bom, o que conquistou ou quantas coisas aconteceram durante os 363 dias que tinham se passado. Porém, era inegável se sentir bem com umas lembranças do que foi este ano. Sou na verdade uma garota que avalia saldos, e mesmo que ultimamente eles andem um tanto negativos, torço para logo normalize esse status.

Encontrar o equilíbrio é difícil o bastante; mantê-lo, pior ainda se você tem negócios não resolvidos que guarda a 7 mil chaves. Infelizmente, era o jeito. O que de certa forma me consola é que sei que tentei, realmente, eu tentei consertar as coisas em seu tempo e nada quase pude fazer se quanto mais eu remexia no desastre, mais lixo dali vinha. É como aquela bagunça que se guarda no armário por anos... Melhor que deixe do jeito que está, pois cada movimento de tentar arrumar a coisa toda, ela não só desmorona, mas espalha suas sujeiras. Ironicamente, desde quase o fim do meu ensino médio, o guarda-roupas é onde tive que esconder o maldito caderninho da Hello Kitty. Está na minha mala ainda. Depois desse passeio, é para onde vai voltar, meu guarda-roupa.

Além do próprio lembrete que me servia do que foi a tragédia no passado, era a lembrança de que, para manter essas 7 mil chaves, eu tinha começado a machucar as pessoas que amo. E diante desses meus saldos ruins, era hora de levantar e começar a fazer as coisas como devidas e reconquistar o que estava me escapulindo aos poucos. Eu não iria permitir novamente que algo assim acontecesse por negligência minha!

Também não dava para fazer as coisas de uma virada da noite para o dia.

Mas estava a caminho.

Ver minha mãe num momento esfuziante pensando nos preparativos do grande jantar de apresentação oficial de Vinícius como meu namorado à família era meu conforto do momento – ainda bem que o jantar de véspera de ano novo, no dia seguinte, estava marcado para ser na casa de Lucas. A decisão por esse jantar foi minha logo pela manhã de sexta. Simplesmente pipocou na minha cabeça no café da manhã.

Levantei cedo para sair com Vinícius e lhe apresentar a minha cidade. Só o Gui que no fim das contas não teve passeio turístico, mas acredito que ele não tava ligando muito para isso, os interesses dele eram outros – outra pessoa, para ser mais específica. Quando falei para minha mãe da ideia... Nossa, a mulher ficou EXUBERANTE. Antes fossem só seus olhinhos brilhando, que nada, ela gritou no meio da cozinha – sendo que eu pedi nenhuma chamada de atenção. Seria só nós mesmo de casa, algo íntimo e especial, o que para mim e Vinícius significaria a marca de nosso recomeço, enquanto que para família era o reconhecimento dele como parte da família.

Antes de sair de casa, “falei” com Murilo. Desde o episódio do meu quarto ele não havia me dirigido a palavra, mas sentia que tinha sua atenção cada vez que estávamos no mesmo cômodo. Acho que ele tinha acatado meu pedido rancoroso então. Com cuidado, me aproximei dele quando havia descido as escadas para ir à loja junto com meus familiares.

– Murilo?

– Hum?

Acho que ele respondeu meio que no automático. Quando virou e me viu do lado das escadas, algo em seu rosto mudou. Não soube bem decifrar porque eu também não estava fazendo muita questão de olhá-lo e me decepcionar mais comigo mesma de ser a causadora.

– Er... você pode deixar as chaves do carro comigo e pegar carona com nossos pais? Eu queria levar o Vini em alguns pontos da cidade.

– Ele trouxe a carteira dele, né?

– Acho que sim.

– Tudo bem.

Quando ele alcançou a porta da casa para sair logo que colocou as chaves na escrivaninha da sala, eu ainda tinha mais coisas a dizer, mas elas pareciam não querer sair. Terminei por dizer nada do que havia pensado:

– A gente passa na loja no fim do expediente da manhã.

– Ok.

– E... Murilo?

Ele já tinha atravessado a porta e iria fechá-la. Por uma fresta passou sua cabeça só para poder me ouvir. Estava até engraçado. Não sei se ele esperava por algo mais tanto quanto eu mesma esperava de mim.

– Obrigada.

– De nada.

Vinícius me encontrou parada no mesmo lugar uns minutinhos depois. Agora ele se mudara para o quarto para o qual tinha sido designado desde o começo, o quarto que ficava do lado do de Murilo, no andar de cima. O descarado teve a coragem de me dizer, meio envergonhado até, que estava dormindo na sala porque era mais perto de mim. Tinha ele esperanças de que alguma noite eu iria aparecer por lá pela sala, senão pela cozinha. Só quem perambulou por lá fora meu irmão, papai, vovó e vovô. Uma noite eu apareci, mas foi uma com que discuti com Murilo e não queria mais ter isso na cabeça, nem mesmo como referência, então nem comentei.

Também não disse que queria tê-lo visitado numa dessas madrugadas.

Partimos para o centro da cidade. Ele dirigia, eu indicava os locais. Ríamos mais naturalmente para meu contento. Cada vez que sorria eu dava um jeito de ele rir mais e mais porque eu adorava quando ele fazia isso.

– Então, se despediu saudoso da tala?

– Nenhum pouco. Estava me sentindo um cachorro já.

Estávamos parados num sinal vermelho, ele recostou o braço na janela e mexeu com jeitinho no próprio pescoço, com cuidado num pequeno exercício. Apesar de tudo ele parecia bem relaxado. Convenci Djane disso na noite anterior, mas eu mesma ainda tinha lá minhas preocupações quanto a isso.

– Um cachorro? Por quê?

– Sabe quando eles se machucam e colocam aquele troço esquisito no pescoço deles para evitar que fiquem remexendo onde num deve? Pois é, eu tinha a sensação de que estava preso como um. Aquilo me irritava.

Estava fofo falando e explicando por gestos. O sinal abriu e fui direcionando-o pelas avenidas.

– Ai, como você reclama. Vira na próxima à direita. Nem ficou muito tempo com ela. Sendo que você mais tirava do que colocava. Tem certeza que sentiu mais o pescoço do que a cabeça? Engraçado como te quebro a cabeça e você sente no pescoço.

Claro que era tenso falar disso com graça. Mas eu estava tentando. Espero nunca mais passar por uma situação dessas, que além de dolorosa, era bem vergonhosa. Sou durona, mas nem tanto.

– É que caí de mal jeito naquela hora. Você me golpeou de lado também.

Algo me apertou ao peito só de lembrar. Cada vez que sentia isso, repetia um mantra de que tudo estava bem, que tinha se resolvido, que não tinha sido nada, fora só um pequeno ferimento que estava cicatrizando já. O galo poderia demorar mais. Alcancei sua mão no momento que ele passou a marcha. Queria abraçá-lo todas as vezes que esse aperto aparecia... porém, ele dirigia.

– Desculpa. É que eu realmente achei que...

– Eu sei. Tudo bem. Águas passadas.

Ele me sorriu lindamente e se não fosse pelos comandos que tinha que fazer no carro, sei que não largaria minha mão. Sei porque ele a capturou algumas vezes mais.

– Pareceu algo que eu dizia para sua mãe.

– Disse-me uma vez também, quando tava limpando a barra dela.

Suspirei. Bons tempos. As coisas pareciam bem mais fáceis naqueles dias.

Passeamos por boa parte dos lugares que mostrei para Flávia das outras vezes. Contei histórias minhas de criança andando por certos locais, algumas travessuras minhas e de meu irmão... E ele percebeu que toda vez que eu tocava no nome dele, de alguma forma eu soava triste. A maneira como abordou o assunto me surpreendeu um pouco, estávamos num banquinho de praça à sombra de uma árvore tomando água de coco. O dia estava quente, mas era um quente que prenunciava chuva para os próximos dias, eu sentia.

– Ele se sente muito mal por tudo, você sabe.

– Sei? Ainda não vi muitos traços de arrependimento nele.

– É que ele se faz de durão. Se ele soubesse que iria dar nisso, não teria feito.

– Ele sabia. Por isso escondeu.

Não era bem rancor que eu sentia, era um ressentimento. De qualquer forma, Murilo havia me machucado e isso eu ainda tratava de costurar. Com calma.

– Ok, não foi uma das melhores atitudes dele. Nem minha. Ele está tentando pelo menos.

Ele termina seu coco e joga na lixeira próxima ao banco numa só esticada do corpo. Eu continuo minha sucção com o canudo e quando paro é para remexê-lo dentro do coco enquanto minha mente foge um pouco. Vinícius passa o braço por mim e nos aproxima me dando aquelas ótimas sensações que eu mais queria dele. Sobre seu peito eu deito aninhada. Ele estava muito cuidadoso.

– Eu sei... é que... algumas coisas ele não entende.

– Ajude-nos a entender então. É só o que pedimos.

– Acho que não vale a pena ficar remexendo no que já estava certo.

Para os minutos que termino meu coco, permanecemos em silêncio sem sair da posição que estávamos. Depois de tudo, eu não queria sair dali.

– Sabe, uma coisa me intrigou muito naquele dia que você nos contou que tinha adiantado a viagem. Você me disse que... aquela era a Milena de anos atrás, que eu não conhecia. Ela ainda está aqui?

Deixei o coco na ponta do banco e me voltei a ele, debaixo de seus braços que me revolveram mais uma vez. O quanto ele ainda pensava sobre aquela manhã? O quanto minhas palavras lhe rondavam, lhe machucaram? Me dispus a conversar sobre nossas pendências, teria que falar então. Sob sua respiração calma, eu perguntei:

– Por que quer saber?

Ele acariciou meus cabelos e beijou-me ao topo da cabeça. Senti reverberar em cada fio para espalhar a sensação pelo resto do corpo. Não importava se o dia estava quente, eu queria seu calor e todo o arrepio friozinho que ele me concedia.

– Porque eu quero conhecê-la.

Falou calmamente. Não tinha a visão de seu aspecto facial, só de seu corpo que eu abraçava. Sem me mexer, respondo-o mais uma vez, com graça adicionada:

– Prazer, Milena versão 2007-2008.

– Engraçadinha. Falo sério.

– Aos poucos te conto. Tenho uma notícia.

– Qual?

– Você ouviu mamãe surtar hoje na cozinha, não?

– Eu não diria bem nesses termos... Ela só parecia bem feliz.

– Anunciei seu jantar de apresentação oficial à família para hoje. Acha que aguenta?

Ele me soltou e, com uma estampa feliz por todo seu rosto, Vinícius parecia meio desacreditado. Estava bem engraçado me encarando todo bobo.

– Sério?

– Já era hora, né? Claro que é sério. E então, preparado?

– Como nunca! Acho que já conquistei metade da família, hoje eu me esforço com os outros. Não basta só persuasão para impressionar.

– Não quero que os impressione. Quero que seja você e nenhum outro. Eles são apenas testemunhas.

– Eu só quero fazer as coisas do jeito certo. Não apenas porque você tinha dito, mas porque eu também quero isso. De verdade. Quero que vejam como me importo com você, como me faz bem, como... te quero.

Juro que mal tinha sentido sua aproximação do tanto que prestava atenção em suas palavras. E era isso, nós ainda precisávamos de muitas palavras, por isso sutilmente me saí de seus... intentos. Ele sentiu, sei que sentiu.

– Te juro que meu irmão já vem fazendo essa propaganda toda. Você tem uns créditos bons. Meu avô e papai que são meio turrões quanto a isso mesmo. Podia ser o príncipe, o rei da Inglaterra, que eles faria vista grossa do mesmo jeito. São assim desde sempre. Até com Gui vovô implicou pra você ver.

– É, seu avô é duro na queda. Fico até sem o que falar com ele. Com sua mãe e avó as coisas fluem tão bem, mas com ele principalmente, num sei.

– Eu já devia ter falado com ele sobre essa implicância.

– Não... não precisa. Eu entendo. É a garotinha dele.

Emburrei por graça. Odiava ser tomada como incapaz, menor, menininha...

– Só porque não sou alta o suficiente não quer dizer que sou criança. Faz uns anos que tento os convencer disso. É difícil.

– Não adianta, você sabe. Logo farei meus 24 anos e dona Djane ainda me tratará como o garoto que subia no telhado. Só que menos reclamona, espero.

– Pelo menos é só Djane, né? Não tem três gerações em cima.

– Acho que eles já entenderam. Só não querem admitir. Porque no momento que admitirem... Não sei, talvez tenham medo de perder algo com você.

– Eles nunca testaram nem para saber. Acho que mais ganhariam do que perderiam.

– Mas sabe como é família.

Um tempo depois fomos para a praia, estava a fim de sentir a areia sob meus pés. Não como um consolo como da última vez, mas aquela coisa boa da natureza testemunhando um lado diferente meu. Mal-entendidos se desfazendo em bem-entendidos.

– Você está com a pulseira.

Estávamos perto dos fundos de um bar. Eu saía do lavabo porque tinha me sujado de cerveja numa trombada que deram em mim. Como sempre, a minha linda sorte dando alarde de sua presença. Mas Vini, ele me esperava do lado de fora e me olhava nada discreto com seu sorriso de canto a canto. Passou um braço na minha passagem e espalmou a mão numa parede ao meu lado. Ele estava bem próximo.

– E você com o cordão. Só percebeu agora?

Sem tirar os olhos de mim, tocou em seu cordão tirando-o de dentro da camisa.

– Não. Só quis enfatizar agora. Você sabe que não tiro e nem tenho intento.

Então ele se distraiu por duas menininhas que passaram por nós, risonhas com seus baldes de areia e suas mãos entrelaçadas falando de castelos e ondas do mar. E eu não resisti, não queria mais resistir, não queria ser cuidadosa, não... Toquei-lhe o rosto, trouxe para mim. Momentaneamente acho que ele não entendeu – ou se entendeu, ainda estava sendo cuidadoso – mas fiz questão de dar a dica certa para ele. Beijei-lhe o canto da boca nada breve, fiquei lá. Senti seu sorriso aumentar e quis que fosse maior. Se estava esperando por uma certeza, eu não demorei a dar, abracei-lhe os lábios logo em seguida.

Como um primeiro novo beijo. Puxou-me para si com o braço que me rodeou e eu senti a parede em minhas costas. Céus, como consegui ficar tanto tempo sem seu toque? Como eu não tinha o beijado antes? Que louca foi essa que eu fui? Nem o próprio sabia se ria ou se me beijava, talvez desacreditado o bastante por ter demorado tanto também.

Minha vontade era tão grande que nem percebi que tinha o apertado pelo pescoço, enlaçado por mim, e sob meus lábios senti que sem querer tinha tocado em seu machucado. Engraçado é que no nosso primeiro beijo foi parecido, ele carregava as evidências de um soco de Murilo, mas não se importou se havia doído, do tanto que ele queria quanto eu aquele e esse beijo. Pensando pelo mesmo, migrei minhas mãos para sua camisa, que essa sim eu pude apertar e puxar mais e mais para mim num fôlego que nem sei onde tinha arranjado. Ele não se importou nadinha.

Não era calmo, tampouco violento. Necessitado talvez. Ambicioso... hm, sim.

Até o vento estava a nosso favor, afastava meus cabelos, esvoaçava para nos dar mais espaço. Porém, isso de estar a nosso favor, não durou muito não. Mas que foi engraçado foi:

– Tio, que cê tá fazendo cum a tia desse jeito?

Era a mesma menininha que tinha passado por nós uns tempinhos atrás. Foi a nossa deixa para voltar ao mundo, que gritava vida por tudo que é lado, tocando os mesmos bregas ao longe, o mar rugindo de onde estava, as conversas das pessoas zumbindo para nós. A garotinha toda suja de areia, biquíni rosinha com branco, carregava ainda aquele seu balde amarelo com sedimentos de praia. Detinha dessa vez a boca aberta, mão na cintura, com cara de quem tava processando a cena e não achando respostas que explicassem o que estávamos, eu e Vini, fazendo.

Juro que quis ter uma crise de riso. Logo que abri os olhos e a vi atrás dele, abracei meu namorado e ele riu às minhas costas pelo mesmo, acredito. Virou-se meio sem jeito até, por ter sido flagrado pela menininha. Ela não devia ter mais de 4 anos.

– Er... er... o que você acha que eu tava fazendo?

Ele jogou a pergunta de volta. Só não esperava que a menininha fosse bruta. Ela firmou ainda mais a pose dela para piorar minha vontade de rir. Gostei dela.

– Oxi, tio, se eu soubesse sinhô acha que eu teria perguntado?

Aí a irmã dela, que devia ser só uns poucos anos mais velha, ter uns 7 ou 8 anos, apareceu e a puxou dali. Só então pude libertar minhas gargalhadas à vontade, enquanto Vini continuava sem jeito. Eu queria tanto ter ouvido sua resposta! Escondeu-se com uma mão sobre o rosto e nada disse. Eu poderia ter comentado, mas para ele ver que eu tava boazinha, preferi não o fazer.

– Logo o expediente vai acabar. Acho melhor passar na loja agora.

– Também acho.

Fiz com ele um pequeno tour pelo estabelecimento enquanto meus pais resolviam umas coisas com seus funcionários. Murilo estava no escritório com vovô. Quando deu por nossa presença, cumprimentou o amigo e eu fui distrair o velhinho danado que olhava a cena com uma carinha desgostosa. Depois do jantar planejo falar com ele sobre isso.

Mesmo dentro do depósito com uma check list em mãos ajudando vovô, eu pude ouvir um pouco da conversa daqueles dois no escritório. Pouco mesmo, mas me deixou com um arzinho satisfatório.

– Mamãe me disse do jantar de vocês. Então... vocês estão de boa?

– Aham. Muito bem, na verdade. Acho que... nos acertamos agora. Tipo, agora mesmo.

– Porra, Vinícius, minha irmã, cara. Num me diz essas coisas não.

Então meu avô me chamou e eu tive que adentrar mais o depósito, com minha pequena felicidade chegando ao coração.

Notas finais
Eu RI com essa garotinha #flagra

E esse jantar, hein, o que esperar? Hmmmm... mtas emoções, garanto *-*