Mantendo O Equilíbrio (Temp 3)
22 Capítulo 21
Notas iniciais
~essa temporada tá um pouco grandinha mesmo, terminei de revisar outro dia. Isso é sinal de que tem boa história pra contar, não? Confio nisso :) ~
Ah! Dica de cast para o amigo Wellington, que vai aparecer rapidamente nesse post:
Wellington - James Franco (Homem-aranha ~> o amigo-inimigo Harry)
E se tiver uma formatação estranha, é da plataforma do Nyah. Estou tentando remediar.
Enjoy.
- Está tão calor assim que você preferiu vir pra cá pra fora?
Estava calor mesmo dentro de casa.
A ceia ainda não havia saído. Depois de conversar com uns parentes e vizinhos, dei um jeito de sair de fininho e alcançar a varanda, onde tinha um balanço de madeira para me refugiar. Não estava triste como nos dias anteriores, nem queria ficar essencialmente sozinha, só... bom, o frescor estava mais confortável ali.
Olho para cima para melhor visualizar Lucas materializado ali na minha frente, apesar da luz baixa que oferecia a lâmpada da varanda. Seu perfume entrava conforme minha respiração num alerta de presença. Um vento nem fraco nem forte passa e observo que seu cabelo “engelsado” permanece no mesmo estado de como se apresenta, diferente do meu que ganha força e se levanta fluidamente.
Eu queria que o cabelo dele se mexesse. Eu queria, na verdade, que fosse Vini.
Lucas não tinha nada do Vinícius. Quer dizer, ambos são esguios, têm uma forte expressão no rosto mesmo quando estão despreocupados e são bonitos. Mas Vini não tem cabelos negros. Tampouco grande e espetado. No outro dia ele havia cortado e, meio baixo, até espetou, o que tornou mais delicioso ter seus fios em mãos, porém, aquele que se senta ao meu lado esperando por uma resposta é Lucas, não Vini.
- Um pouco.
- Já sei. Tá fugindo daquelas velhas chatas que ficam fazendo pergunta inconveniente, né? Te saquei.
Rio porque é uma verdade. O que é festa em família sem todo um papo inconveniente? Sempre tem uma tia, uma prima, uma pessoa qualquer que parece não ter outra coisa a fazer senão falar a bendita pergunta de como está seus relacionamentos. Até parece que eu ia dizer que meu namorado estava longe porque brigamos e que no fim das contas era culpa minha, dele e de meu irmão. E que até meu ex estava no meio. Até parece.
- Acho que você me pegou. O que elas disseram para você?
- “Ah, meu jovem, cadê a namorada?”.
Ele se acomoda melhor no balanço e reproduz a voz fresca e fina de quem deve ter lhe enchido o saco. E continua:
- Se a gente diz que tem namorada, elas perguntam quando “vamos” casar. Se somos casados, elas perguntam quando virão os filhos. Se temos filhos, elas perguntam se... se... ah, sei lá. Ainda não casei ou tive filhos pra saber.
Era engraçada sua expressão frustrada. A mulher deve ter pegado ele não faz muito tempo. Apesar de ter dito que sim, fugia delas, elas não tiveram a chance de me fazer “a” pergunta. Esquivei-me delas em tempo.
- Todo ano é a mesma coisa. Como se a gente fosse realmente contar para elas sobre o status dos nossos relacionamentos...
- Pois é. E se a gente responde mal, ainda tem que ficar escutando depois por ter sido mal educado. Oras, foram elas que começaram!
Ele se mostra chateado, só que não é aquele chateado de verdade. Sua mãe é quem deve pegar no seu pé para não responder aos “mais velhos”, a velha desculpa que só existe para derrubar os “respondões”. Tem um traço de graça que o faz relevar a situação, que por sempre nos cansa nessas festas, mas que tentamos não deixar que nos afete.
- E o que você gostaria de responder?
Ele não se acanha em dizer. Fala com gosto:
- “E aí, tia? Quando que essa cova sai?”
- Ai, que horror!
Mais rio que faço cara de horror, isso sim. Ele ri de mim.
- Sei. Aposto que você vai guardar essa para a próxima.
- É, provavelmente.
A conversa dentro da casa parece tão longe que quando não falamos nada depois disso, o silêncio nos cobre e é... confortável. Venta mais um pouco e me pego sentindo frio a ponto de tremer um pouco os ombros e passar a mão nos braços sem perceber. Minutos atrás eu dava graças por ter escolhido um vestido de alças (visualizar: http://migre.me/aP2EH) ante o calor que sentia nos cômodos.
Agora dou graças por ter ouvido Flávia no salão e ter sido impedida a tempo de não fazer um penteado muito delicado. Eu não estava muito a fim mesmo e seria mais superfície de contato para o vento se aproveitar. Me distraio pensando no que minha amiga tinha comentado e nem percebo quando Lucas se aproxima e passa o seu braço direito por cima de meus ombros a fim de aplacar a súbita frieza que aparece.
E não é constrangedor. Ele não apresenta qualquer malícia que Flávia sugerira quando o conheceu. Não sei se ela já mudou de opinião quanto a ele, mas acredito que sim visto o que deu nos nossos passeios. O que é constrangedor é estar no braço de um amigo seu pensando em outro cara com quem se queria estar mais abraçadinha. Além de triste também.
Não nos olhávamos. A varanda coberta de plantas, altas e baixas, nos chamava mais a atenção. Ou não, se pensar que ela nos fazia perder o fio da meada dos pensamentos. Assim lembro de uma coisa.
- Obrigada.
- Não tem de quê.
- Falo pelo que você fez pela minha avó naquele dia, na festa.
- Hum. De nada, de novo.
Algo na sua fala sugere que reprime alguma coisa que acha engraçado. Era minha chance de obter aquela minha resposta.
- Posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- Por que você fez aquilo?
- Porque... pareceu certo.
Não era só por curiosidade que eu perguntava isso. Havia algo em Lucas que queria camuflar sua ação e eu queria saber por que, por que parecera certo. Por que hesitara para falar. Como ele saberia dos conflitos da minha avó? Poucos sabem disso.
- Pareceu certo deixar a organização maluca, o diretor embaraçado e todos achando que era um problema de manutenção?
- Ah, eu consertei logo depois.
Não era bem essa a justificativa que eu queria.
- Mas... por quê? Por que faria isso para minha avó?
- Porque ela é importante para mim. Talvez mais do que você possa imaginar.
O que isso quer dizer?
- Desculpa, mas... como assim? Vocês são próximos? Eu...
- Ficamos de uns tempos pra cá. Ela me ajudou bastante quando... quando...
Por visão periférica vi que ele baixa a cabeça, meio pendente. Ou estava buscando palavras para falar ou... ou era algo difícil de se por em palavras. Para o que quer que fosse, interrompi, evitando algum transtorno de sua parte. Eu podia deixar minha questão de lado para não ser um incômodo.
- Não precisa falar se não quiser.
- Na verdade... eu preciso sim. Quanto mais eu falo, mais seguro posso me sentir. Não sei se você soube, mas esse ano o... o meu avô morreu.
Bem lembro disso. Foi mamãe que me ligou avisando o caso. Foi uma crise de pressão se não me engano. Eu até fiquei um pouco sentida na época, como se pressentisse que minha avó teria uma recaída ou algo assim de seu tratamento. Aterrorizei tanto Murilo com essa história que ele começou a ficar sentido também.
- Oh, sim. Mamãe me falou. Foi bem pelo meio do ano, não?
- Aham. Foram tempos difíceis. Tô melhor agora, graças a Dona Marília. Ela era melhor amiga do meu avô, sabia? Trabalhando no mesmo jornal, contribuiu muito para essa amizade deles.
- Ele era jornalista, né? Eu não o via muito.
- Sim. Fazia parte do caderno de cultura. Depois que ele se foi...
Noto um traço de embargo em sua voz. Eu estaria na mesma situação numa data comemorativa, como essa de Natal, e tivesse que falar de um ente querido que se fora cedo. Deito no seu ombro e seguro sua mão, dando-lhe o apoio que não pude na época. Ele continua:
- Bom, dona Marília me pegou muitas vezes na cafeteria em frente ao jornal. Era onde eu conversava com meu avô. Então ela passou a sentar-se comigo e só falar, de qualquer coisa, não importava. Descobri vários planos do seu avô Luís nessa brincadeira. Aquele velhinho sabe tramar e deixar sua avó doida, uma figura.
Isso é verdade.
Sem falar que vovô já surrupiou seus (nossos) biscoitos para a madrugada que vai adentrar. Eu tive que o cobrir na cozinha quando mamãe finalmente saiu de lá e foi se arrumar. Papai quase nos pegou, dei um jeito de distrai-lo. Aí quando a festa ia começar, minha avó chega dizendo que ela liberaria um pouco dos biscoitos sabendo de nossa tradição. Sendo fim de semana e data especial, ela lhe daria esse pequeno luxo. Vovô agradeceu, mas a verdade era que ele estava zangado por terem levado sua glória. Ele fez tanto pra nada no final das contas.
- Sua avó me ajudou com o luto, confesso. Aprendi a sentir saudades sem interpretar isso como algo ruim. Até herdei o Nemo do jornal.
- Tá, agora me perdi nessa parte. Como assim?
- Nemo veio de um caso que um parceiro do meu avô se envolveu de um acidente de carro que houve uns tempos atrás. Só o cachorro chegou a sobreviver. Sem dono, deixaram que ele ficasse no jornal. Meu avô que cuidava dele.
- E deu o nome dele de Nemo por causa daquele filme de animação?
- Nam. A história é um pouco mais profunda.
- Huummm. Conte.
- Bom, quando verificaram que o cachorro não tinha para onde ir e o adotaram, ninguém sabia seu nome. Então meu avô disse que não adiantaria ficar adivinhando – porque o cachorro não os atendia – aí deu ideia de o renomear. Como ele não era de ninguém, brincaram de chamá-lo de Nemo, que parece que é uma palavra do latim que significa “ninguém”. Só que ele respondeu, o cachorro os atendeu. Ficou assim mesmo.
- Isso é verdade ou tá de sacanagem comigo?
- Verdade verdadeira. Pergunta para sua avó, ela confirma.
- Eu vou. Só pra garantir.
Antes que o silêncio nos cobrisse novamente, continuo:
- E, Lucas, posso fazer mais uma pergunta?
Ele consente e me conserta. Ele já me pediu umas mil vezes para chamá-lo de Luke e eu ainda não consegui. Ainda não me acostumei.
- Luke.
- Você poderia ter me dito apenas que tem convivido com minha avó, mas optou por me dizer muito mais que isso. Eu sei que não somos os melhores amigos, ou trocamos figurinhas de nossas vidas. Me pergunto por que você falaria de algo tão... íntimo, comigo.
- Num sei. Acho que você carrega essa... como posso dizer? Você tem uma segurança, sabe? É algo que eu vejo na dona Marília. A gente sente que pode confiar. E que não precisa de nada em troca.
Normalmente, eu ficaria encabulada.
Talvez seja a saudade de Djane, mas me pego pensando que... isso explica muita coisa. De todos que entraram ou entram na minha vida, eles me dão passagem, me contam coisas, dividem segredos e alegrias, e se sentem a vontade. Queria ter toda essa credibilidade dentro da minha família. Eles me amam, isso não posso negar, no entanto, quando se trata de confiar, eles não confiam o bastante. Vide todas as marcações do meu irmão e seu exagero.
Contudo, isso não me derruba. Isso da minha família. Na realidade, o que Lucas me fala é de certa forma um acalento, de saber que eu deixo as pessoas confortáveis a sua maneira. Isso me dá o ímpeto de um gesto justo.
Lucas toca a bochecha que acabo de um deixar um leve “smack” e mais uma certeza de que não há malícia no modo com que se comporta comigo fica bem clara. Ele entende minha atitude como deve ser entendida. Ainda que faça graça, eu sei que ele compreendeu bem.
- Dívida paga. Não que eu estivesse cobrando.
- E eu nem lembrava que estava devendo... Vamos voltar?
- Só se eu puder falar a tirada da cova.
- Você é que sabe, não sou eu quem vai ouvir depois.
- Pelo menos é uma tirada terapêutica. Deve calar a boca dessas mulheres. Mas abre a da minha mãe... decisão difícil.
~;~
No quarto, antes que minha ansiedade pudesse me dominar, digitei os números que Flávia me deixou num bilhete. Me entregou logo depois da ceia, muito bem realizada às 23h para contentamento de minha mãe.
Quando chegou próximo da meia-noite e a mesa de sobremesa já estava pronta, mamãe preferiu servir logo emendando com as conversas que continuavam animadas. Boa parte do assunto ainda rondava a festa do jornal e a homenagem da minha avó, assim como meu discurso de última. A única coisa que papai vinha repetindo desde essa noite era que ele perdera a chance de filmar a cena. E insistia em me culpar. Como eu haveria de saber, oras?
Mas quando o assunto bateu na história dos microfones, foi inevitável não olhar para Lucas. Peguei minha avó fazendo o mesmo. Nessa hora ele só entornou o champagne de sua taça num riso bem contido e preferiu se manter longe das velhas senhoras que rondavam a sala. Eu fazia o mesmo que ele, me mantinha afastada delas. Cada vez que inventavam de ir para meu lado, eu dava um passo para qualquer outro, até mesmo para perto de Murilo. Deve ter sido num momento desses que Flávia conseguiu o número, pois depois daquele almoço, ficamos a tarde no salão e pela noite que iniciou, ela não teve chance de falar com ele. Nem sei o que ela lhe disse.
À meia-noite fizemos todos uma oração de benção e nos abraçamos para selar a vibe de Natal que a casa tinha. Liguei para meus amigos também. Estava ansiosa com o papel que Flávia havia me entregado, mantendo-o entre os dedos, amassado até virar um quadradinho pequeno quase invisível aos outros. Estava esperando um tempinho para dar uma vazada a um lugar calmo e que eu pudesse ficar sozinha. Seria uma ligação bem diferente das outras, eu não queria plateia.
A encarar os novos números pertencentes a Djane, penso que ali estava a minha comunicação direta com ela, conexão por toda nossa distância. Não estava certa do que dizer, mas precisava dizer, qualquer coisa que fosse. Havia pensado em formular uma pequena conversação, no entanto, tudo que me vinha na cabeça não parecia natural. Ainda bem que consegui uma escapada para meu quarto, porque, sem contar a zoada que tinha os outros cômodos com convidados, eles achariam bem estranho eu zanzando de um lado para o outro, falando com o vento, encenando uma conversa.
Quando começo a me achar boba por fazer isso, paro, bem no centro do quarto. Senti que estava sendo encarada até pelas paredes. Sabendo que era mais ou menos meia-noite e quarenta, torço para que eu não esteja ligando numa hora errada. Aperto o botão verde e espero pelos breves toques de chamada.
Um... Dois... Três... Quat... Um clique se faz do outro lado e um barulho grande toma meu aparelho celular. Era de uma música alta, como um... ao vivo. Dava para ouvir um violão e uma voz feminina cantando algo bem leve, bossa nova, MPB, algo assim. Alguém atende. Não era a voz de Djane.
- Alô?
- Oi. A Djane, por favor.
- Um momento. Quem gostaria?
- Mile-ena.
Pensei que estava mais controlada. Aparentemente não.
- O quê? Fale mais alto.
Pelo menos ela não percebeu que eu hesitei. A mulher só achou baixo.
- MILENA.
- Ok, deixe só eu achar a mulher. Momento.
Aguardo o que me parece a eternidade. Acho que acabaria o ano e eu não falaria com Djane. A música continua, muita conversa, muita risada. Estava bem animado por lá. Ouço quando a mulher que atendera chama por Djane, procura por ela em vários cantos. Sei disso porque ela sai perguntando para as pessoas e consigo imaginá-la andando por um corredor. Nem sei se é um corredor. Ouço quando a acha e diz que sou eu ao telefone. Djane responde que vai atender “lá dentro” que eu não sei onde é, e por uns segundos é só zoada de conversa até que Djane de fato atende, num local onde poderíamos nos ouvir, com uma voz bem surpresa.
- MILENA?
- Oi, Djane. Feliz Natal.
Falo na lata e num suspiro. Meio empolgada até. Seguro firme o aparelho na orelha ao ouvir um pouco de sua apreensão sobre o que tem acontecido. Já tivemos tempos melhores.
- Oh, minha querida. Fico feliz que tenha me ligado. Estava tão preocupada com você esses dias. Quer dizer, todos vocês. Está tudo bem por aí?
- Está. Até agora nenhum cometa atingiu a cidade. E... por aí?
Pergunto por educação. Se alguém te pergunta como está, você tem que perguntar o mesmo se a pessoa não lhe disse logo de cara. É uma pergunta totalmente normal perante a sociedade. Isso é o que tento me convencer para não assumir que tinha curiosidade em saber. Receio também. Me valeu a piadinha do cometa para esconder isso. Me valeu também por ouvir uma pequena risada descontraída sua.
- Também não. Feliz Natal, Milena. Obrigada.
- Djane, desculpe se não liguei... e-eu... eu soube do seu assalto hoje de manhã. E soube por acaso. Agora que consegui seu número.
- Querida, eu entendo. Sem problemas, sem preocupações.
Ela se mostra bem relaxada. Será que é efeito do vinho? Do champagne? Não importa, eu ainda estava preocupada com outra coisa.
- Mas como foi isso? Você se machucou? Onde aconteceu?
- Foi na saída do supermercado, tudo muito rápido. Passou de bicicleta e levou minha bolsa, assim, de vez. Meu braço ficou vermelho por um tempo, só.
- Aiiin, Djane, tem que olhar para os lados quando se sai de um lugar, assim, visado. Ainda bem que foi só a bolsa e não lhe machucaram. Graças a Deus. Já estava mortificada pensando mil coisas e mil maneiras de você ferida.
- Agora está tudo bem. Foi até bom.
- Como assim, bom?
E como ela pode falar isso aos risos?
- Ganhei algumas coisas de presente. Estava precisando de uma bolsa nova, de carteira, de celular. É bom renovar de vez em quando.
Impressão minha ou... ou isso parecia comigo? Djane tem andado muito comigo, penso risonha e contente por ela levar tudo isso numa boa. Ela, pelo jeito, tem mudado muitas de suas perspectivas.
- É, bom, sempre esperamos mesmo um lucro ante uma desgraça. Mas é preferível evitar a desgraça, de qualquer forma.
- O que passou, passou. E como foi a ceia com a família? Vocês estão se divertindo? Estou com saudades de vocês.
- Mamãe deu piti e nos expulsou pelo dia todo de casa para ela arrumar a ceia perfeita. Tem hora que aquela mulher não vê o que está fazendo. Tem ocorrido tudo bem, apesar dos apesares. Eu e Flávia estamos aproveitando as férias. Também tenho saudades. Você está na casa do Wellington ainda?
- Sim... ele está aqui perto de mim.
Ela não mencionou o filho. Deve estar sabendo da nossa última crise no celular. Será que ela também não quer arriscar? Dúvidas e dúvidas não saem de mim! Tento uma nova abordagem:
- Posso falar com ele?
- Tem certeza?
Djane vacila incerta do que eu estava tentando fazer. Eu também não sabia o que eu queria com isso. Ficar mais tempo perto ou quase perto “dele”? Manter certa ligação com “ele” sem de fato estar com “ele”? Alugar o outro pra saber o que tem acontecido? São interrogações sem fim. Mas levo adiante, pra ver no que dá.
- Sim.
- Tudo bem. Um beijo, minha Milena. Vou passar o celular.
O ambiente que ela estava não era tão barulhento, mas tinha uma pouca zoada. Sinto que ela colocou a mão sobre o falante do seu celular, porque ele ficou mudo por uns segundos, uns cinco talvez, não contei. Será que Vini estava ali com ela também? Será que esteve ouvindo parte de nossa conversa? Será que ele entendeu que era ele quem eu chamava? Eu havia ceado faz um tempinho e, de repente com todas essas questões na cabeça, um buraco de ansiedade se formava dentro de mim. Nem parecia que eu havia comido do tamanho da cratera que sinto se abrir.
Se eu pedi para falar com o Wellington para ganhar tempo, tempo de me acalmar, eu não estava bem conseguindo isso. Quer dizer, a ansiedade já dominava minha espinha. Isso sem falar do que acontecia com meu pobre coração. Tive que sentar por essa. Fico na ponta de minha cama esperando que uma voz não me deixe tão nervosa, não mais que já estou.
- Alô? Milena?
Claro que soava surpreso.
- Oi, Wellington. Feliz Natal.
- Feliz Natal para você também. Espero que esteja tudo bem.
- Está.
Convenção, pura convenção, eu me grito mentalmente. É automático responder que se está bem quando nos perguntam, mesmo que no fundo não se está bem.
- Tem certeza? Porque a cara do meu amigo não anda das melhores.
Wellington nunca me pareceu convencional mesmo.
- E-ele... ele melhora logo.
Eu devia era ficar calada.
- Eu não sei o que ele fez, mas se fez e você não gostou, perdoa o cara... Ele não fez com a intenção de te ofender ou algo assim. Conheço esse cumpade. Ele gosta muito de você. Na verdade, ele não para é de falar de você. Pensa nisso, Milena.
- Eu... eu penso.
- Mas pensa mesmo. Melhor, fala com ele. Vou passar aqui, espera.
- Não, Wellington, esp...
Me levanto bruscamente em alerta do que Wellington estava fazendo. Ele estava quebrando todo meu esforço de ficar na minha. Ele estava passando o celular para o Vini! O celular já estava mudo. O tipo de mudo que só significava uma coisa. Me desespero um pouco sem ter noção de como proceder, afinal, eu não estava “falando” com Vini. Bom, não por telefone. Eu não podia desligar agora, podia? Ou podia? Ia ficar muito na cara. E Vini iria ficar chateado. Eu não o queria chateado. Principalmente no Natal.
Quando sua voz um tanto exasperada chega aos meus tímpanos, palavra alguma consegue sair da minha para chegar aos dele. Me sinto paralisada, nervosa, inquieta. As paredes pareciam me condenar por não responder.
- Alô? Milena?
- ...
Num sai nada. E olha que eu me esforço!
- Milena?
- ...
Ouço um baixo suspiro. Dele, claro. Porque de mim sai um esganiço que só não chega aos ouvidos dele por eu ter tapado o falante do meu celular. Deus, eu sentia falta dele comigo! Sentia falta de sua voz tão perto de mim! E por isso, admito a mim mesma, eu arranco força para falar com ele, dar essa passagem. Precisava arriscar para meu próprio bem. Ele é meu bem.
- O-oi...
- Oi.
Ah sim. Gosto de ouvi-lo nesse tom exato. Tom que parece acanhado, mas se trata de mais feliz. Isso acalma um coração.
- A festa aí parece boa.
Quê que eu tô falando? Fala algo decente, MILENA!
- Ela podia ficar melhor. Quer dizer, ela está um pouco melhor agora. Quer dizer... desculpa, eu sei que você não... que você não quer que eu fale essas coisas.
Claro que eu quero ouvir isso! Ainda mais se ele se atrapalha para falar tais. Chega ser muito fofo, na verdade. Só que isso me faz parecer carrasca... digo, de ficar evitando falar algumas coisas e fatos para não brigarmos. Fico de carrasca porque isso mexe com ele e não é uma coisa boa. Nessas horas me dá vontade de jogar tudo para o alto e dizer que o amo, que não precisamos falar mais no assunto, que podemos voltar ao normal, que ele pode me pegar nos braços e me ter para si. Sinceramente, eu precisava de uma super “dose” dele. Simples assim.
- Tudo bem. Hoje é Natal.
Era o começo de uma trégua com prazo de validade. Meu plano estava indo bem para ser então interrompido meio que bruscamente se eu desistisse de vez. Por isso uma trégua e nada mais. Hoje eu me permitiria pensar nele sem culpa, falaria com ele sem maiores restrições. Hoje deixaria meu amor sentir as saudades, hoje eu o teria por uns minutos. Ainda bem que já estava em dia com meu plano interurbano.
Notas finais
Prepara o coração que ainda vai ter muita emoção *-*
Fale com o autor