Notas iniciais
Dica de cast?
Milena - Rachel Bilson (The O.C.; Hart Of Dixie)
Djane - Felicity Huffman (Desperate Housewives)

Sentada na lanchonete do terceiro andar, finalmente o sinal do celular melhorou e eu consegui mandar uma mensagem pra professora. Ela estava pegando uns exames do Vini e conversando com os médicos, me disse pra esperá-la por aqui. Resolvi lanchar quando o Murilo finalmente caiu no sono no meio da primeira bolsa de soro dele, estava morrendo de fome já. Ela chegou enquanto eu me deliciava com um sanduíche. Pior que é má educação falar de boca cheia e falta de educação não responder quando lhe perguntam algo.

- Como está seu irmão?

- Humm.

Aponto para minha boca cheia enquanto ela se sentava a minha frente. Ela percebeu e sorriu fraco. Mastiguei devagar meio desconfiada desse sorrisinho dela... Me lembro um pouco da conversa com Vini e quando estou pronta para comentar sutilmente sobre o assunto...

- Ver você comer assim me deu uma vontade, sabe? Espera que já volto com o meu.

Da metade pro final do meu sanduíche, ela reaparece na mesa com sua bandeja, trazendo seu sanduíche, suco e mais uns 4 potes de gelatina. Agora eu que fiquei na vontade por gelatina...

- Trouxe gelatina. Parece que você gosta muito, então comprei duas pra você. Espero ter acertado no sabor... limão e morango?

- Nem que fosse de goiaba eu estava aceitando. Quer dizer, eu odeio goiaba. Valeu, professora.

- E a Djane, onde ficou mesmo?

- Ainda se adaptando. Vai que lhe chamo na maior intimidade no meio do departamento lá da faculdade?

- Seria... interessante. Mas então, me diz como foi a consulta de seu irmão.

Cravei meu olhar intenso sobre minhas mãos enquanto as limpava, querendo afundar toda minha vontade de rir do Murilo e de sua cena, apesar de estar envergonhada por ter participado desse show. Sinto os seguranças que ficam observando as imagens das câmeras de segurança se lavando de rir, dando um jeito de colocar isso no youtube com algum título de “grandes métodos para acalmar pacientes”. Encaro a professora e dou um jeito de isso sair bem geral.

- Foi bem. Ele tava desidratado já, a febre aumentando. Então passaram soro, algo pra baixar a febre e... calmante.

- Calmante?

- É. É que ele... ele fica um pouco alterado quando tem agulhas no meio, lembra?

- Ah, sim. É um pouco difícil de imaginá-lo desse jeito.

- Só pedir os vídeos de vigilância. Aposto que os guardinhas acharam sua distração da madrugada.

- Você tem um carinho enorme por ele, né? Tantos irmãos que se odeiam e você cuida mesmo do seu.

- Ah, ele é meu irmãozão. Uma peste, um cachorro, um safado, um sacana... mas que amo muito. Gosto por ele ser assim. Um amor de pessoa, cuida bem de mim também. É o típico irmão ciumento que fica no pé, faz manha e ainda dá uma de machão. Sei que posso contar com ele e ele comigo, enquanto vivemos sozinhos. Nossos pais tiveram que se mudar pra antiga cidade do meu avô pra resolver uns pepinos de saúde, pois minha avó tem passado por uns tratamentos e precisa de... O que foi?

Paro de falar ao observar que ela parou de comer para me observar melhor. A mulher tá me encarando. Muito constrangedor. Quê que eu falei mesmo? Será que foi alguma besteira?

- Nada, te admiro por saber o que tem e o valor que tem.

- Gosto de fingir que não, porque o Murilo começa a se achar demais. Acredita que ele me fez descer até a Emergência quando deu a hora de ele entrar na consulta? Foi bem na hora que eu estava conversando com seu filho.

- Hum. E como foi a conversa?

- Boa e interrompida, pelo Murilo. Só que... Hã, ele deixou uma impressão de que... vocês não se dão bem?!

Ela se ajeita na cadeira, desconfortável, mexendo na bolsa, como se quisesse arrumar uma desculpa para o que perguntei. Acho que fui intrusa demais e talvez deva deixar de lado, apesar de querer saber da história. Não como fofoca, claro.

De uma forma estranha, acho que ao longo desses dias estive preocupada com essa mulher. Cheguei até a sonhar com ela um dia desses que ela sumiu, só não lembro como era, sei que ela estava por lá porque quando acordei lembrei momentaneamente da imagem criada na minha cabeça quando o enfermeiro bonito a descrevia naquela conversa que tivemos na lanchonete do hospital. Não quis lidar com isso, assim deixei pra lá.

Só que... poxa, o filho acordou do coma, eu sei que ela está feliz, ela me agradeceu e até pediu desculpas... mas tem algo que não está batendo. Não está tão feliz ou sorridente quanto pensei que ela poderia (ou deveria?) estar. Foi muito atrevimento perguntar sobre o assunto?

— Acho que isso ficou claro no dia do acidente dele quando horas antes nós discutimos no meio da faculdade. Tão feio que tive que chamar os seguranças do prédio para tirá-lo de lá. Eu sei que todos comentam sobre esse dia, Milena.

Baixou seu sanduíche meio mordido sobre os guardanapos na bandeja, fungando um pouco. Não estava nada bem, parecia que iria desmoronar bem ali na minha frente, aquela que sempre se manteve forte e fria nos corredores da faculdade, que congelava quem passava ao seu lado e mortificava a todos na sala de aula. Me vi dentro da sala de vassouras que o enfermeiro bonito tinha me dito. Alcancei sua mão e tentando passar conforto, lhe respondi:

- Sei que teve uma confusão na faculdade, a galera que adora uma fofoca já deve ter feito umas três histórias diferentes sobre o mesmo acontecimento... mas eu mal sei sobre. No dia, eu cheguei super atrasada por causa do ônibus. Lembro até que o professor Carvalho não quis me deixar entrar na...

- Ah, Milena, foi horrível.

Pronto, a mulher se fechou entre as mãos, começou a chorar. Eu nunca sei o que fazer quando alguém próximo de mim começa a chorar, fico totalmente sem ação. Porém, dessa vez, para minha surpresa também, levantei e mudei para a cadeira ao lado dela, onde ela se jogou em mim em choro aberto. Abracei-a de volta desejando ver aquela vaca que sempre aterroriza os alunos só com um olhar... ver sua queda emocional era bem pior, era de cortar o coração.

- Você quer conversar sobre isso?

- Nã-ãão, mas te-e-e-enho que co-co-loca-car pra fo-ora.

Me aperta por um segundo e me solta. Tenta limpar seu rosto apático com as mãos e guardanapos que estavam na mesa. Continuo na mesma posição na cadeira e ela vira a sua de forma que fiquemos uma de frente para a outra. Respira fundo por várias vezes e quando começa a falar, a voz está mais controlada.

- O Vini... sempre foi muito revoltado comigo. Desde a morte do pai, quando ele tinha uns 16 anos, eu tento lhe dar as melhores chances, ajudá-lo para que se torne uma boa pessoa na vida. Sempre fui muito protetora, eu sei, e ele não aceitava isso bem. Chegou até a armar uma emancipação junto com o tio... pra se livrar de mim... Ele não conseguiu e isso... isso nos afastou cada vez mais.

Encolhida na cadeira, jogada de qualquer jeito, ela falava olhando pro chão, pros seus sapatos, mexendo com mãos juntas sem sinal de alteração. É tão estranho de se ver. Ouvir seu relato faz um rebuliço dentro de mim, daqueles que, por empatia, assimilamos os sentimentos de forma que nos dê vontade de chorar também, como quando vemos um filme ou novela. Ouvi-la bem perto de mim dava o toque de realidade e proximidade que nenhum filme ou novela poderiam fazer efeito.

- Aos 18 anos, ele se mudou para o apartamento do tio como seu eu fosse a vilã da história. E ainda assim, separados, tínhamos as mais horríveis brigas, como aquela na sala dos professores do prédio. Como ele já tem seus 23 anos, queria que eu parasse de intervir na sua vida... mas, Milena, eu só faço isso para o proteger, ele na-ão entende! O tio dele faz sua cabeça pra ficar contra mim, distorce as coisas de forma que eu fique como a bruxa... O acidente foi de carro, ele bebeu com uns colegas do trabalho e apesar de não estar dirigindo, o amigo motorista passou em um sinal vermelho distraído com os outros que estavam no carro, indo de encontro com outro carro que passava na avenida de madrugada. Os colegas não tiveram muitos problemas, mal conheciam meu filho... Encontraram-se por acaso no mesmo bar, me contaram. Quanto à família, não contei a ninguém para que o tio dele não soubesse e tentasse algo contra mim, então estive só por todo esse tempo.

- Até agora.

- Sim, até que-e vo-ocê apareceu.

- E ele não perguntou sobre esse tio?

- Perguntou. Na verdade, foi logo que eu lhe tirei do quarto naquele dia. Depois disso, ele não aceita me ver, então passei a visitá-lo apenas quando estava dormindo... era o único momento que podia vê-lo e permanecer em paz. Por isso faltei a semana toda na faculdade. As enfermeiras me falaram que ele perguntava sobre o tio, quando não, perguntava sobre a “enfermeira Milena”, e por mais que elas dissessem que não havia nenhuma com esse nome, ele insistia. Então resolvi te ligar... espero mesmo que não esteja te incomodando.

- Nããaaaao, claro que não. Mas me diz uma coisa, se esse tio era tão ligado a ele, se viviam juntos, ele não percebeu o sumiço do sobrinho por, sei lá, três meses? Ou mesmo como o hospital não o avisou e sim a senhora?

- Encontraram o número da minha casa na lista de telefonia do celular dele, nomeado como “casa” mesmo, então assumiram que era onde ele vivia. Fui eu quem atendeu. Já o tio dele... teve várias viagens esse ano, então deixou o apartamento com o Vini. Na verdade ele estava em uma quando o Vini sofreu acidente. Pra você ver, bastou que eu dissesse que o Vini tinha viajado numa excursão com uns amigos que ele nem questionou, porque ele não liga pro meu filho, ele quer tirar meu filho de mim... É uma longa história de família...

- Não precisa entrar em detalhes, professora.

- Tudo bem. Então, como o Vini estava chamando pelo tio, eu fui na quarta na faculdade pela manhã pedir um favor ao Luciano, aquele da recepção... ele entende de manipulação de imagens, algo assim...

- Manipulação de imagens? Não entendi.

Tento imaginar o Luciano fazendo algo direito. Não sei como ele ainda não foi dispensado, porque de confusões que ele já arrumou naquela recepção, daria para algum escritor vender. Mas ele é uma ótima pessoa.

- Milena, eu não me orgulho disso, mas tive que improvisar uma prova de que o Filipe, tio do Vini, estava fora. Ele vai viajar na segunda, de qualquer forma. Pelo menos pra alguma coisa me serviu essas coisas de rede social. Perguntei ao Luciano se tinha como ele fazer algo do tipo que eu queria... aí me falou um monte de nome específico, que não entendi nada, mas ele fez e na quarta a noite, visitei o Vini com a imagem impressa. Mostrava, pela rede social, o Filipe dizendo que estava fora e que permaneceria assim por um bom tempo.

- Hum... não sabia que o Luciano sacava dessas coisas, ele sempre pareceu tão atrapalhado... Mas e o Vini, como reagiu? Quer dizer, ante sua presença?

- Ficou muito chateado, me expulsou do quarto, mas quando eu disse que ia falar do Filipe, ele ficou na dele esperando que eu falasse. Mostrei-lhe a imagem. Ainda assim quis ligar para o tio, mas não deixei, não tenho deixado que ele tenha acesso a telefones, justamente para não ligar pra aquele ser... então ele pediu que me retirasse do quarto. Ficamos assim, continuo visitando-o quando está dormindo.

- Não entendo porque ele me chamou... Quer dizer, naquele dia conversamos tão pouco.

- Também não sei. Penso que talvez ele tenha achado que tinha encontrado alguém para conversar... contanto que não seja comigo, acho que ele quis um apoio, já que o tio nem deu sinal... Milena, eu tenho algo a te pedir... eu sei que é muito de minha parte, não quero que ele ache que estou fazendo sua cabeça, mas você pode falar com ele? Quer dizer, ele não me deixa me aproximar e você parece ser a única que conseguiu chegar perto dele... Não posso contar com os amigos dele porque não os conheço... e eu não tenho em quem confiar.

- Professora...

- Ah, tudo bem se você não aceitar.

- Professora...

- Eu agradeço que tenha vindo aqui.

- Professora, me deixa falar. Eu não tenho problema quanto a isso, queria saber se, bem, já está tarde e ele deve estar num sono profundo, mas eu posso vê-lo?

- Claro.

- Okay. Mas a senhora já está melhor, não? Qualquer coisa, eu posso procurar a central de vigilância e achar o vídeo do Murilo, isso com certeza lhe faria rir um pouco.

- Não, obrigada. Só de ver você se importar com o Vini, fico melhor. Façamos assim, você vai olhá-lo e eu vou ver como seu irmão está. Nos encontramos na Emergência então.

- Ixi, já ia me esquecendo da peste!